2. A COISA JULGADA
2.3. Coisa julgada material e formal. Outras espécies de imutabilidade
Conceituado de forma geral o instituto da coisa julgada, importante pontuar as especificações que distinguem a coisa julgada formal da coisa julgada material, para que se possa ter a noção exata da extensão de cada modalidade do instituto.
Assim, temos que a coisa julgada formal corresponde a impossibilidade de rediscussão da decisão proferida em última instância, seja pelo esgotamento das vias recursais, seja pelo decurso do prazo para interposição do decurso cabível.
Nesse sentido traz-se à baila o conceito encontrado na Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB), que em seu art. 6º, §3º afirma que “chama-se coisa julgada ou caso julgado a decisão judicial de que já não caiba recurso.”
Do excerto normativo acima colacionado nota-se, mais uma vez, que a coisa julgada, ao menos no aspecto formal, decorre diretamente do esgotamento ou dispensa das vias recursais.
Justamente por corresponder a uma consequência, como o próprio nome sugere, de ordem formal, a coisa jurídica formal é um fenômeno que produz seus efeitos apenas na demanda que a originou - também denominado de efeitos endoprocessuais33.
Estando relacionado a correção formal do processo, a coisa julgada na modalidade formal é constituída meramente pela impossibilidade de interposição de novos recursos, seja diante da prolação de uma decisão terminativa, seja diante da prolação de uma decisão de mérito que efetivamente resolva o conflito de interesse sob judice.
Significa dizer que mesmo a sentença que extingue o processo sem julgamento do mérito por reconhecer a ocorrência de algum vício, é capaz de possibilitar a formação da coisa julgada formal, ainda que tal decisão não contenha a decisão de mérito que solucione efetivamente a lide.
Apesar da coisa julgada formal produzir efeitos apenas no interior do próprio processo, não se pode deixar de destacar que uma vez transitada em julgado a decisão terminativa, operada a imutabilidade da coisa julgada formal, eventual repropositura da demanda – para que se tenha analisado o mérito da demanda – dependerá da efetiva correção do vício apontada; conforme expressamente estabelece o parágrafo 1º do artigo 486 do Código de Processo Civil34.
Nesse sentido, a proibição da mera representação da demanda em juízo decorre incontestavelmente da indiscutibilidade imposta a decisão terminativa pela formação da coisa julgada formal, que embora produza efeitos apenas no interior da própria demanda, inviabiliza a rediscussão da questão sem que o vício de ordem formal tenha sido sanado.
Nesse prisma, pode-se entender que sanado o vício, a demanda proposta já não corresponde a exatamente a mesma demanda que foi extinta pela decisão terminativa, configurando nova demanda que reúne – ou tende a reunir – os requisitos necessários para possibilitar a análise de mérito.
33 Nas esclarecedoras palavras da doutrina: “A primeira, como já vimos, diz respeito à imutabilidade e à indiscutibilidade de uma determinada decisão judicial limitadamente ao processo em que foi proferida, e que decorre do fato de se terem esgotado todos os recursos contra ela cabíveis. Nada mais é do que a preclusão máxima, que recai sobre o ato de exaurimento da função jurisdicional (solução da lide), naquele processo.
Trata-se, assim, de fenômeno endoprocessual, a que estão sujeitas todas as decisões judiciais, a partir do momento em que não possam mais ser questionadas na relação processual em que foram prolatadas. Tratar-se-ia do que se tem chamado de preclusão máxima.” (ARRUDA, Alvim. Manual de direito processual: teorTratar-se-ia do processo e processo de conhecimento. 17 ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2017 – página 1.030)
34 Art. 486. (...) § 1º No caso de extinção em razão de litispendência e nos casos dos incisos I, IV, VI e VII do art. 485, a propositura da nova ação depende da correção do vício que levou à sentença sem resolução do mérito.
Ainda sobre a coisa julgada formal, não podemos deixar de mencionar que esta corresponde, ainda que tal previsão não seja unanime entre os doutrinadores, a preclusão máxima do processo35.
A partir do trânsito em julgado da decisão – quando temos a efetiva formação da coisa julgada sob o aspecto formal – não se faz mais possível qualquer alteração na decisão proferida, de forma a configurar o que parcela da doutrina – com a qual concordamos - tem denominado de preclusão máxima. praticar determinado ato processual, entre outros motivos, pelo decurso do prazo para prática de tal ato ou pela prática do ato que inviabilidade e repetição desse – hipóteses que se aproximam da ideia de esgotamento das vias recursais.
A coisa julgada material, por sua vez, corresponde a versão do instituto mais usualmente referenciada na doutrina e na vida prática do operador direito. Não por outro motivo, quando empregada apenas a expressão coisa julgada – sem que haja a efetiva especificação da modalidade tratada – estar-se-á fazendo referência a coisa julgada material.
Como abordamos anteriormente, o conceito de coisa julgada material que encontra previsão legal no artigo 502 do Código de Processo Civil que afirmar ser a coisa julgada material “autoridade que torna imutável e indiscutível a decisão de mérito não mais sujeita a recurso.” denomina coisa julgada material, para distingui-la de um conceito próximo, conhecido como coisa julgada formal, que outra coisa não é senão a impossibilidade de se alterar, na mesma relação processual, o resultado alcançado pela sentença. Trata-se, portanto, de uma forma de preclusão, que cobre a sentença de que não mais caiba recurso algum. Não se trata de verdadeira coisa julgada, tal como esse conceito vem sendo estudado pela doutrina.” (SILVA, Ovídio A. Baptista da; GOMES, Fábio Luiz. Teoria geral do processo civil. 5. ed. rev. e atual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2009 – página 291).
37 É justamente essa ideia de que a preclusão corresponde a perda de um ato processual que fundamenta o posicionamento da parcela da doutrina que discorda da qualificação da coisa julgada formal como espécie de preclusão máxima. Para estes seria impossível considerar a coisa julgada formal preclusão, pois não se está diante da perda de um ato processual e sim de uma característica/qualidade da sentença.
Recapitulando as teorias que conceituam o instituto e sintetizando o posicionamento que adotaremos para tratar do tema, relevante as palavras da doutrina que abaixo se transcrevem:
“A coisa julgada material é a qualidade de imutabilidade, ou de imperatividade, ou, ainda, mais precisamente, a autoridade com a qual resta revestida a parte dispositiva de uma sentença; por outras palavras, essa autoridade significa o resguardo duradouro do comando da sentença, que é, sabidamente, de onde resulta a eficácia, residente na sua parte dispositiva. A parte dispositiva (nos sistemas de 39, 73 e no atual) é a parte do conteúdo da sentença sobre a qual gira e sobre o qual incide o regime da coisa julgada material.”38 Temos, dessa maneira, que para a correta formação da coisa julgada material se faz necessária a presença de alguns requisitos obrigatórios, quais sejam: (i) o esgotamento da via recursal e (ii) a existência de uma decisão de mérito.
A doutrina tem ainda defendido a existência de um terceiro – e relevante – requisito, correspondendo este a necessidade de a decisão de mérito ser proferida a partir de cognição exauriente, resultando esta do respeito ao devido processo legal, compatibilizando-se com o contraditório e a ampla defesa.
Constata-se, por consequência, que as duas espécies de coisas julgadas formam entre si relação de continência, na medida em que nem toda decisão que gera coisa julgada formal necessariamente irá gerar coisa julgada formal.
Contudo o contrário não se sustenta, vez que toda decisão capaz de se colocar sob a égide da coisa julgada material, obrigatoriamente deve reunir os requisitos necessários para a formação da coisa julgada formal. Isso porque toda decisão para ser capaz de fazer coisa julgada material, necessariamente corresponderá a uma decisão de imutável pelo esgotamento das vias recursais39.
Trata-se de pressuposto lógico do próprio instituto, na medida em que para que seja possível produzir efeitos extraprocessuais típicos da coisa julgada material, necessário
38 ALVIM, Thereza, ALVIM NETTO, José Manoel de Arruda. Coisa julgada. Enciclopédia jurídica da PUC-SP. Celso Fernandes Campilongo, Alvaro de Azevedo Gonzaga e André Luiz Freire (coords.). Tomo: Processo Civil. Cassio Scarpinella Bueno, Olavo de Oliveira Neto (coord. de tomo). 2. ed. São Paulo: Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, 2021. Disponível em:
https://enciclopediajuridica.pucsp.br/verbete/177/edicao-2/coisa-julgada
39 Conforme esclarecem as palavras de Ada Pellegrini Grinover: “A coisa julgada formal é pressuposto da coisa julgada material. Enquanto a primeira torna imutável dentro do processo o ato processual sentença, pondo-a com isso ao abrigo dos recursos definitivamente preclusos, a coisa julgada material torna imutáveis os efeitos produzidos por ela e lançados fora do processo.” (PELLEGRINI GRINOVER, Ada; CINTRA, Antonio Carlos de Araújo; DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. 26 ed. Ver. E atual. São Paulo:
Malheiros Editores, página 333).
primeiro que esteja preenchido o requisito de ordem formal correspondente ao exaurimento das vias recursais, que torna a decisão imutável dentro do próprio processo.
A coisa julgada material, tratando-se de instituto de maior robustez no ordenamento jurídico - que pressupõe a ocorrência da coisa julgada no aspecto formal -, tem o condão de alavancar a imutabilidade já previamente estabelecida pela formação da coisa julgada formal para a esfera extraprocessual.
Impõe-se por meio da formação da coisa julgada material a impossibilidade de alteração da decisão de mérito proferida na demanda, tendo essa obrigatoriedade de respeito a decisão, feitas as devidas ressalvas, força inclusive perante terceiros.
A título de ressalva com relação ao terceiro, não se pode deixar de destacar que como já tivemos a oportunidade de explorar em artigo escrito com co-autoria com Michelle Ris Mohrer, “a coisa julgada se opera exclusivamente entre as partes, sendo que apenas os efeitos dessa decisão de mérito é que podem atingir a esfera fática de terceiros. Ou seja, a coisa julgada interfere na vida de terceiros estranhos ao processo no qual o comando decisório transitado em julgado foi proferido apenas como fato e não como ato jurídico”40.
Tecnicamente o que atinge o terceiro são os efeitos da decisão que não correspondem exatamente ao instituto da coisa julgada, vez que esse, como definido acima é a qualidade atribuída à decisão de mérito transitada em julgada.
De semelhante maneira, ainda tratando sobre a diferenciação entre a coisa julgada formal e material, não se pode deixar de destacar que a coisa julgada material para sua formação depende da existência de uma decisão de mérito, proferida em cognição exauriente.
A coisa julgada formal, por sua vez, abarca tanto decisões de mérito, como decisões terminativas – sendo essas aquelas que extinguem o feito sem o julgamento da questão principal.
A doutrina traz ainda outras duas situações em que a coisa julgada possui característica e/ou requisitos especiais que merecem relevo, sendo elas: (i) a coisa julgada sobre questão prejudicial, tratada pelo artigo 503, parágrafos 1º e 2º, do Código de Processo Civil e (ii) coisa julgada sobre tutela antecipada antecedente, nos termos do artigo 304, parágrafo 5º do mesmo diploma legal.
40 MOHRER, Michelle Ris; BRAGA, Talita Nascimento. Coisa julgada versus justiça da decisão: uma análise crítica na busca pela resposta à razão da diferença de tratamento que se dá às partes e ao assistente simples. In Revista Forense Volume 430, disponível em: http://genjuridico.com.br/2020/04/22/coisa-julgada-justica-da-decisao/#_ftnref3.
Com relação a coisa julgada sobre a questão prejudicial41, importante ressaltar que constituindo esta questão incidental a ser resolvida como pressuposto para a solução do pedido efetivamente formulado, muitas vezes encontrará sua solução nos fundamentos da decisão de mérito proferida – e não necessariamente no dispositivo da decisão.
Por esse motivo que na vigência do Código de Processo Civil de 1973 o sistema processual impedia a formação de coisa julgada material sobre questão prejudicial decidida no interior da demanda.
Exigia-se, para possibilitar incidência da imutabilidade e indiscutibilidade sob a solução dada a questão incidental, a formulação de pedido expresso de julgamento da questão prejudicial por meio da propositura, pela parte interessada, de uma ação declaratória incidental.
Inovando a solução processual dada a situação, o legislador de 2015 previu expressamente, nos termos do artigo 503, parágrafo 1º42, a possibilidade de a autoridade da coisa julgada material atingir a questão prejudicial, sem a necessidade da propositura da ação declaratória incidental.
Sobre essa nova espécie de coisa julgada instituída pelo Código de Processo Civil vigente, necessário apenas lembrar que, conforme estabelece o parágrafo 2º do artigo supramencionado43, há a exigência de a decisão ser proferida cognição exauriente.
Apesar das críticas que possam ser feitas a essa nova espécie de coisa julgada – principalmente em relação a quebra de harmonia do sistema produzida pela previsão em questão - com as quais não deixamos de concordar, ainda que em parte; fato é que o legislador de 2015 ao prever expressamente a possibilidade de se cobrir a questão prejudicial decidida incidentalmente com o manto da coisa julgada, introduziu no ordenamento uma nova espécie de instituto.
41 Sobre o conceito de questão prejudicial, relevante as palavras de Luiz Eduardo Ribeiro Mourão: “podemos definir a questão prejudicial como uma controvérsia que surge no processo, relativa a um determinado direito subjetivo, cuja resolução será feita de forma incidental, mas influenciará no conteúdo do julgamento do pedido principal.” (MOURÃO, Luiz Eduardo Ribeiro. As quatro espécies de coisa julgada no novo CPC. Disponível em:
file:///C:/Users/guilh/Desktop/Talita/Trabalho%20Final/As_quatro_esp%C3%A9cies_de_coisa_julgada_no_nov o_CPC_vers%C3%A3o_sem_ingles,_sem_sum%C3%A1rio%20(enviado%20Val).pdf
42 Art. 503. (...) § 1º O disposto no caput aplica-se à resolução de questão prejudicial, decidida expressa e incidentemente no processo, se:
I - dessa resolução depender o julgamento do mérito;
II - a seu respeito tiver havido contraditório prévio e efetivo, não se aplicando no caso de revelia;
III - o juízo tiver competência em razão da matéria e da pessoa para resolvê-la como questão principal.
43 Art. 503. (...) § 2º A hipótese do § 1º não se aplica se no processo houver restrições probatórias ou limitações à cognição que impeçam o aprofundamento da análise da questão prejudicial.
A última espécie de coisa julgada talvez seja a que tem o reconhecimento pela doutrina mais questionado. Para muitos seria apenas uma espécie de imutabilidade que não se igualaria ao instituto da coisa julgada, não configurando uma espécie dessa.
Isso porque ao tratar da tutela antecipada antecedente o legislador não empregou expressamente o termo coisa julgada, prevendo apenas sua estabilidade e posteriormente a extinção do direito de rediscutir da decisão, conforme preceitua o artigo 304 caput e parágrafo 5º, in verbis:
“Art. 304. A tutela antecipada, concedida nos termos do art. 303, torna-se estável se da decisão que a conceder não for interposto o respectivo recurso.
§ 5º O direito de rever, reformar ou invalidar a tutela antecipada, previsto no § 2º deste artigo, extingue-se após 2 (dois) anos, contados da ciência da decisão que extinguiu o processo, nos termos do § 1º.
Temos assim, nos temos do estabelecido pelo dispositivo legal acima transcrito, que diante da concessão da tutela antecipada antecedente, esgotando-se o prazo de interposição do competente recurso sem que este seja manejado, a decisão torna-se estável.
Contudo, essa estabilidade não pode ser entendida como formação de coisa julgada, pois em que pese a extinção do feito e o arquivamento dos autos, ainda é possível a propositura de ação buscando a rediscussão da tutela antecipada antecedente, no prazo de dois anos da extinção do processo, sem que se faça necessário o manejo de ação rescisória.
Assim essa primeira estabilidade proposta pela legislação não corresponde a formação da coisa julgada, que apenas se operará após decorrido o prazo de dois anos sem que esta imutabilidade prévia seja contestada.
Significa dizer que o diferencial da formação desta coisa julgada que permite que se fale em uma nova espécie do instituto é justamente a que se forma após os dois anos da estabilidade inicial decorrente da ausência de interposição de recurso da decisão que concede a tutela antecipada antecedente.
Nessa situação estamos diante de espécie de coisa julgada que, por opção do legislador, teve seu momento de formação postergado para dois anos após a extinção da decisão em questão, diferentemente das demais espécies de coisa julgada que encontram seu momento de formação atrelado a ocorrência do trânsito em julgado.
Contudo essa alteração quanto ao momento de formação não tem o condão, ao nosso ver, de desconfigurar o instituto, que diante da imutabilidade e indiscutibilidade impostas à decisão relativa à tutela antecipada antecedente após decorrido o prazo de dois anos a contar da extinção do processo, sem dúvida corresponde a nova – e peculiar, diga-se de passagem – espécie de coisa julgada.