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Limites objetivos e subjetivos da coisa julgada

2. A COISA JULGADA

2.4. Limites objetivos e subjetivos da coisa julgada

O que se busca verificar ao estudar os limites objetivos da coisa julgada é a resposta a seguinte indagação: o que efetivamente é acobertado pelo manto da imutabilidade e da indiscutibilidade característico do instituto?

Assim temos que indicar os limites objetivos corresponde a delimitar o que efetivamente é protegido pela coisa julgada e, como consequência, não poderá ser objeto de novo julgamento.

E nesse ponto, a legislação processual em vigor mais uma vez é precisa ao estabelecer, em seu artigo 504, que “não fazem coisa julgada os motivos, ainda que importantes para determinar o alcance da parte dispositiva da sentença” e “a verdade dos fatos, estabelecida como fundamento da sentença”.

Significa dizer que faz coisa julgada material apenas o comando judicial, ou seja, apenas o dispositivo da sentença é que se torna imutável e indiscutível. Como consequência, a fundamentação e os motivos que levaram a decisão de mérito proferida não estão acobertados pelos efeitos da coisa julgada.

No tocante a delimitação objetiva da coisa julgada, relevante também o artigo 503 do Código de Processo Civil que estabelece que a sentença de mérito “tem força de lei nos limites da questão principal expressamente decidida”.

Trata-se de reforço a máxima de que apenas a parte dispositiva da sentença torna-se imutável, contemplando ainda a ideia da limitação a questão principal levada a julgamento, o que permite verificar a aplicação do que o doutrinador Arruda Alvim denominou de

“princípio da congruência entre o pedido e a sentença”44.

44 ALVIM, Arruda. Manual de Direito Processual Civil. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2019 - página 1102.

Os limites objetivos da coisa julgada estão necessariamente atrelados ao pedido principal formulado na peça exordial. E, como decorrência lógica dela vinculação, o dispositivo da decisão resultante do julgamento do mérito da lide deve estar em concordância aos pedidos formulados.

Como já tivemos a chance de observar em artigo escrito em co-autoria com Michelle Ris Mohrer:

“Em decisões infra petita, por exemplo, não fará coisa julgada o pedido que não tiver sido decidido, o que nos parece óbvio. No entanto, em decisões ultra petita e extra petita deve-se dizer o mesmo, afinal, nestes casos, a realidade é que não existiu lide para o que foi decidido, pois o pedido é um pressuposto processual de existência, ou seja, não pode existir coisa julgada sobre algo que não existiu e que foi decidido equivocadamente. A parte do dispositivo ultra ou extra referenciado – tem apontado a existência de uma exceção correspondente a figurada da coisa julgada sobre questão prejudicial.

Como abordado quando tratadas as espécies de coisa julgada, questões prejudiciais expressamente decididas, tendo sido respeitado o contraditório prévio e efetivo, ainda que não decorrentes de um pedido expresso – e independentemente da propositura de ação declaratória incidental – também serão acobertadas pela imutabilidade e indiscutibilidade.46

Há, contudo, que se fazer ressalva a possibilidade de uma interpretação ligeiramente flexível que permite afirmar que a coisa julgada sobre questão prejudicial não corresponde exatamente à uma exceção ao princípio da congruência, na medida em que o pedido principal, ainda que indiretamente, contempla a questão prejudicial.

45 MOHRER, Michelle Ris; BRAGA, Talita Nascimento. Coisa julgada versus justiça da decisão: uma análise crítica na busca pela resposta à razão da diferença de tratamento que se dá às partes e ao assistente simples. In Revista Forense Volume 430, disponível em: http://genjuridico.com.br/2020/04/22/coisa-julgada-justica-da-decisao/#_ftnref3. decisão do mérito. No regime do CPC/2015, essa extensão se opera ope legis; no do CPC/73, como decorrência da ação declaratória incidental.” (ALVIM, Teresa Arruda; CONCEIÇÃO, Maria Lúcia Lins. Ação Rescisória e Querella Nullitatis, Semelhanças e Diferenças. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2019 – página 66).

Tal interpretação se faz possível em razão do próprio conceito de questão prejudicial, que conduz a conclusão de restar inviabilizado o julgamento da questão principal, sem que primeiramente seja feito o julgamento da questão prejudicial.

Nesse contexto não se pode deixar de questionar – e efetivamente definir – se a possibilidade de formação de coisa julgada sobre questão prejudicial corresponde a situação em que a coisa julgada irá além do dispositivo da sentença.

Tal indagação decorre do fato de muitas vezes a decisão referente a questão prejudicial não estar expressamente situada na parte dispositiva da sentença. Isso ocorre justamente por ser necessário primeiro estabelecer a solução da questão prejudicial para apenas depois ser possível proferir a decisão referente ao pedido principal, configurando a questão prejudicial pressuposto lógico da decisão que será proferida no dispositivo da sentença.

Nessa situação, duas são as soluções apresentadas pela doutrina: para uma primeira parcela de autores, essa seria a única exceção permitida pela legislação processual em que a coisa julgada atingiria a fundamentação da decisão e não seu comando dispositivo47.

Para outra parcela da doutrina, com a qual concordamos, a parte da decisão de mérito que expressamente decide a questão prejudicial corresponde a comando da decisão, independente do local em que se encontre da sentença, fazendo, por conseguinte, parte do dispositivo da decisão48.

Ainda sob a ótica da delimitação objetiva do alcance da coisa julgada, válido destacar o disposto no artigo 508 do Código de Processo Civil, segundo o qual “Transitada em julgado a decisão de mérito, considerar-se-ão deduzidas e repelidas todas as alegações e as defesas que a parte poderia opor tanto ao acolhimento quanto à rejeição do pedido.”

Com efeito, mencionado dispositivo reforça a ideia de pacificação social decorrente da imutabilidade da coisa julgada. Em que pese apenas o dispositivo da decisão de mérito ser abrangido pela coisa julgada, de acordo com o normativo em questão, transitada em julgada a decisão, tornam-se irrelevantes as alegações que poderiam ter sido formuladas e não o foram.

47 Nesse sentido é possível conferir o posicionamento do autor Fredie Didier Júnior em DIDIER JR., Fredie.

Curso de Direito Processual Civil. 10. ed. Salvador: JusPodivm, 2015.

48 Defendendo esse posicionamento o doutrinador Arruda Alvim em ALVIM, Arruda. Manual de Direito Processual Civil. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2019 - página 1103.

Trata-se do que a doutrina tem denominado de princípio do deduzido e do dedutível que busca assegurar que em processos futuros a coisa julgada não venha a ser questionada pela dedução de novos argumentos anteriormente não aventados49.

Importante essa previsão para que se assegure que a decisão de mérito protegida pela coisa julgada não possa ser rediscutida a cada vez que a parte vencida se lembre de um argumento ou alegação que não foi aventado oportunamente, mas que poderia alterar o resultado da decisão proferida.

No entanto é preciso ressalvar que a eficácia preclusiva imposta pela lei diante da formação da coisa julgada apenas atinge as alegações referentes à causa de pedir efetivamente deduzida em juízo. Não é possível estender essa eficácia toda e qualquer causa de pedir que o pedido formulado na peça exordial poderia ter.

Exemplo trazido pela doutrina para elucidar tal questão é a situação em que uma primeira demanda é proposta buscando a declaração de invalidade de um contrato, alegando-se ocorrência de coação em sua celebração.

Tendo restado transitada em julgado de decisão de improcedência de referida demanda, não estaria abrangida pela eficácia preclusiva da coisa julgada a hipótese de se propor uma segunda ação na qual se pleiteasse a invalidade do mesmo contrato, agora sob a alegação de ocorrência de dolo.

Veja-se que a segunda demanda não estaria acobertada pela eficácia preclusiva da coisa julgada prevista no artigo 508 do Código de Processo Civil em razão de a alegação de dolo não dizer respeito à causa de pedir que identifica a primeira demanda (que se fundamentava na ocorrência de coação), integrando essa alegação nova causa de pedir50.

Tem-se, assim, que o limite objetivo da coisa julgada é o dispositivo da decisão de mérito proferida, sendo este dotado de eficácia preclusiva que impede, após o trânsito em julgado, a rediscussão, ainda que em ações autônomas, de alegações que teriam o condão de conduzir a decisão de mérito diferente.

49 Ou como melhor define a doutrina: “O ‘princípio do dedutível e do deduzido’ significa que tudo o que as partes poderiam ter alegado (tudo o que seria dedutível), com o objetivo de chegar ao que almejam (a procedência do pedido, para o autor; a improcedência do pedido, para o réu), se presume como tendo sido efetivamente alegado (deduzido), ainda que não o tenha sido.” (ALVIM, Teresa Arruda; CONCEIÇÃO, Maria Lúcia Lins. Ação Rescisória e Querella Nullitatis, Semelhanças e Diferenças. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2019 – página 72).

50 Importante destacar que não se trata de posicionamento unânime da doutrina, existindo doutrinadores de renome que encabeçam teorias diferentes. Nesse sentido, destaca-se o posicionamento de Araken de Assis, segundo o qual a eficácia da coisa julgada abrange todas as possíveis causas de pedir (ASSIS, Araken de.

Cumulação de ações. 4 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002).

Com relação aos limites subjetivos, ao seu turno, o questionamento que se busca responder é quem seriam os atingidos pela coisa julgada formada em decisão de mérito, podem ser beneficiados ou prejudicados por seu conteúdo.

Regra geral, como consequência lógica do devido processo legal, apenas as partes podem ser atingidas pela imutabilidade e indiscutibilidade do comando decisório, na medida em que apenas à estas foi assegurado o exercício do contraditório e da ampla defesa.

No conceito de partes que poderão ser atingidas pela coisa julgada, além, evidentemente, de autor e réus, devem ser incluídos os sucessores desses, que poderão vir a integrar os polos da demanda em sucessão das partes originárias.

Situação semelhante ocorre nas hipóteses de substituição processual, nas quais a coisa julgada formada deverá ser aplicada tanto a aquele que participa do processo na qualidade de substituto, como igualmente ao substituído que de fato é o titular do direito material que originou a demanda.

Seguindo esse mesmo raciocínio lógico, os terceiros estão excluídos dos limites subjetivos da coisa julgada em razão de a eles não ter sido oportunizada a participação no contraditório processual.

Nesse sentido, ao menos numa primeira e mais rasa interpretação, o disposto no artigo 506 do diploma processual vigente que estabelece que “A sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não prejudicando terceiros.”

Adentrando a análise do limite da coisa julgada em relação aos terceiros, o primeiro ponto que merece relevo é a alteração do texto normativo que trata a questão ocorrida em relação ao dispositivo equivalente do Código de Processo Civil de 1973.

Nesse sentido, a parte final do artigo 472 do diploma processual anterior previa que a coisa julgada não beneficiaria ou prejudicaria terceiros; ao passo que no diploma processual atual, artigo correspondente – o artigo 506, transcrito acima – estabelece apenas a impossibilidade de a coisa julgada causar prejuízo a terceiros, sendo silente com relação a possibilidade de o terceiro ser beneficiado.

Tal inovação no texto normativo tem gerado alvoroço na doutrina, que ainda não se consolidou sobre a maneira de interpretar a possibilidade de a coisa julgada vir a beneficiar o terceiro.

Apesar de reconhecer a existência desse acalorado debate doutrinário, concordamos com os doutrinadores que tem apontado a possibilidade de inclusão do terceiro como beneficiado pela coisa julgada em situações de solidariedade, como bem define o trecho abaixo transcrito:

“A regra continua sendo a de que a coisa julgada, no processo civil individual, opera-se entre as partes, não alcançando terceiro. A extensão dos efeitos para beneficiar terceiros, deve-se liminar a situações em que estes se situem na mesma posição jurídica das partes ou sejam sujeitos de relação jurídica conexa àquela discutida em juízo (decisão favorável a um credor ou devedor, que beneficiará aos demais credores ou devedores solidários, ou decisão favorável a um litisconsorte que beneficiará os demais litisconsortes necessários, que não foram citados no processo).”51

Feitas essas ressalvas com relação aos limites subjetivos da coisa julgada diante de terceiros, não se pode deixar de ressaltar que os efeitos da decisão de mérito, independentemente da estabilidade decorrente da formação da coisa julgada se operar apenas entre as partes, poderá vir a atingir terceiros apenas como fato e não como ato jurídico.

O que, evidentemente, não impedirá que a coisa julgada venha a interferir – de certo modo – na vida desse terceiro estranho ao processo em que se operou a coisa julgada.

Contudo, nessa situação, serão os efeitos da decisão judicial que atingirão a esfera fática do terceiro e não o instituto da coisa julgada, que, de acordo com a posição conceitual que adotamos anteriormente, corresponde a uma qualidade conferida à decisão de mérito após o trânsito em julgado52.

Ainda com relação aos terceiros atingidos pela coisa julgada – ou por seus efeitos naturais enquanto fatos como restou definido anteriormente – temos a situação excepcional do

51 ALVIM, Teresa Arruda; CONCEIÇÃO, Maria Lúcia Lins. Ação Rescisória e Querella Nullitatis, Semelhanças e Diferenças. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2019 – página 85.

52 Sobre a possibilidade de os efeitos naturais e reflexos da decisão de mérito formadora da coisa julgada atingirem terceiros estranhos à lide, relevante o exemplo de ordem prática que elucidado em artigo de nossa co-autoria: “O que interessa para este momento é que, ao se considerar que a norma de aplicação prática que se extrai da decisão sujeita à coisa julgada deve dar a “última palavra” ao conflito sujeito à jurisdição, não há como afastar da decisão que produz efeitos apenas entre as partes, os efeitos reflexos enquanto fato social que pode interferir na esfera jurídica de terceiros exclusivamente na qualidade de fato.

A título de exemplificação podemos pensar na situação clássica da Ação de Reconhecimento de Paternidade, que declara em caráter imutável e indiscutível a filiação de A por B. Deste comando decisório que somente faz coisa julgada entre A e B, temos a criação do parentesco com outros estranhos a lide que passam a ser tios, irmãos etc. de A, o que seria uma consequência fática da decisão proferida na ação de reconhecimento.”

(MOHRER, Michelle Ris; BRAGA, Talita Nascimento. Coisa julgada versus justiça da decisão: uma análise crítica na busca pela resposta à razão da diferença de tratamento que se dá às partes e ao assistente simples. In Revista Forense Volume 430, disponível em: http://genjuridico.com.br/2020/04/22/coisa-julgada-justica-da-decisao/#_ftnref3.).

microssistema de processo coletivo, no qual é possível que a sentença coletiva favorável venha a ser aproveitada por todos os titulares do direito coletivo defendido.

Trata-se da possibilidade de formação da coisa julgada secundum eventum litis, prevista no artigo 103, inciso III, do Código de Defesa do Consumidor53, que estabelece que somente será formada a coisa julgada aos indivíduos titulares do direito individual homogêneo tutelado na hipótese de ser a decisão de mérito de procedência.

Ao revés, sendo de improcedência a sentença proferida em ação coletiva que pleiteia o reconhecimento de direitos individuais homogêneos, nada impede que o titular individual desse direito venha a pleitear sua tutela em demanda individual.

Outro modo de formação da coisa julgada específico do microssistema de processo coletivo que pela oportunidade se destaca é a coisa julgada secundum eventum probationis, prevista nos incisos I e II do já mencionado artigo 103 do Código de Defesa do Consumidor.

Essa modalidade especial de formação da coisa julgada, como o nome sugere, vincula-se ao esgotamento dos meios probatórios. O que implica na impossibilidade de formação de coisa julgada diante de julgamento de improcedência por insuficiência de provas.

Assim, apesar das exceções e discussões existentes na doutrina, de forma simplificada temos que o limite objetivo da coisa julgada corresponde ao dispositivo da decisão de mérito;

ao passo que a título de limite subjetivo, a coisa julgada se opera exclusivamente entre as partes.