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O tratamento dispensado pelo Código de 1973

No documento Ação Rescisória por Violação a Princípio (páginas 102-105)

4. AÇÃO RESCISÓRIA POR AFRONTA A NORMA JURÍDICA

4.1. O tratamento dispensado pelo Código de 1973

Na vigência do Código de 1973 como já mencionado anteriormente, havia a previsão de cabimento de ação rescisória na hipótese de a sentença violar literal disposição de lei;

tendo sido esse o fundamento mais utilizado para propositura de ação rescisória durante a vigência do Código.

Tal previsão tratou-se de repetição do Código anterior, de 1939, repercutindo a importância dispensada pelo legislador para a proteção do próprio ordenamento jurídico, ao perpetuar durante extenso período a ideia de que a disposição literal da lei precisa ser respeitada, sob pena de não ser possível a correta formação da coisa julgada.

Percebe-se, por conseguinte, que de há muito que o legislador se preocupa com o controle da aplicação das leis efetuada pelas decisões judiciais. Até mesmo porque a aplicação incorreta de um dispositivo por vir a servir de precedente para que o entendimento se reitere e venha, inclusive, a prevalecer no ordenamento.

Não por outro motivo que é fundamental para manutenção do Estado Democrático de Direito que se garanta a correta aplicação da lei, independente de esta de fato corresponder a produção de uma decisão justa para as partes.

A correta e adequada aplicação da lei é a pedra fundamental da segurança jurídica, que, por sua vez, é ponto central da sustentação do Estado Democrático de Direito.

Nesse contexto é que o sistema preceitua como basilar a correta aplicação do direito objetivo, ficando a preocupação com a justiça da decisão relegada para segundo plano. Isso porque muitas das vezes decorrente de interpretação subjetiva das provas e da situação fática apresentada.

A primazia da proteção à lei, dessa maneira, busca a proteção do direito objetivo, não englobando as questões subjetivas decorrentes da subsunção do direito ao caso concreto, o que torna vinculada a fundamentação da medida protetiva prevista no ordenamento.

Significa dizer que a demanda rescisória fundamentada em literal violação à lei, nos moldes previsto na vigência do Código de 1973, assemelha-se aos procedimentos dos recursos de estrito direito, nos quais apenas as situações de violação da disposição legal podem – e devem – ser alegadas.

Decorrente justamente dessa semelhança no objetivo do instituto – qual seja de salvaguardar o sistema jurídico por meio da garantia da correta aplicação da lei – que tanto os recursos especiais e extraordinários, como a ação rescisória com fundamento na violação literal da lei, não admitem análise de fato e prova, mas apenas da aplicação do direito.

Assim, como primeiro ponto de destaque, como oportunamente já abordado, tem-se que na vigência do Código de Processo Civil de 1973 a violação que possibilitava a propositura da demanda rescisória era apenas a diretamente relacionada à lei.

Diante do emprego do termo genérico “lei”, era possível que se entendesse que o dispositivo abordava todas as espécies legais: fossem leis de natureza material ou processual, fossem leis de ordem constitucional ou infraconstitucional, qualquer que fosse a esfera de competência (federal, estadual e municipal).

Apesar de alguns doutrinadores, nesta época, já se posicionarem no sentido de a correta interpretação do dispositivo dever abranger o sentido de direito em tese, o que incluiria a violação a toda e qualquer norma jurídica, parece que a impossibilidade de interpretação extensiva das hipóteses de cabimento da demanda em razão de sua excepcionalidade, inviabilizaria tal posicionamento.

Ou ponto que gerava grande controvérsia na vigência do Código de 1973 era a correta interpretação que deveria ser dispensada ao termo “literal”, que qualificava a violação da lei necessária para fundamentação da demanda rescisória.

Jurisprudência e doutrina nunca chegaram a um consenso sobre a questão, prevalecendo a existência de duas correntes doutrinárias distintas e igualmente difundidas entre os operadores do direito.

Uma primeira corrente defendia que a ideia de a violação ser literal estava atrelada ao fato de que apenas poderia se alegar violação a dispositivo legal que estivesse previsto de forma escrita no ordenamento. Não se admitiria, por exemplo, que a violação fosse a norma consuetudinária, não escrita.

Em contraponto, a segunda corrente defendia uma interpretação menos restritiva do termo literal, afirmando que a literalidade deveria ser em relação a interpretação dada a lei, e não a necessidade de ser esta escrita.

Ao se manifestar sobre a questão, Cássio Scarpinella Bueno posicionou-se de forma interessantíssima, afirmando que a literalidade estaria vinculada a ideia de objetividade da verificação.

Defendia o autor que “a violação é literal porque qualquer um que analisar o teor da decisão terá condições objetivas de verificar que o julgador errou na interpretação e na consequente aplicação da lei ao caso concreto”92.

Com relação ao termo “violar”, contido no dispositivo, não havia controvérsias, admitindo tanto a doutrina como a jurisprudência que a violação tanto poderia decorrer diante da negativa de aplicação, como da aplicação de lei não cabível ou mesmo de interpretação da lei que configurasse aberração evidente.

A interpretação para ser considerada equivocada ao ponto de justificar a propositura de ação rescisória precisava ser aquela que não guardava nenhuma relação de lógica e razoabilidade com a lei em aplicação.

Isso porque a interpretação razoável, ainda que destoante da esperada, não era passível de fundamentar o pleito rescisório. A ideia agregada a expressão “violação literal” é justamente que a violação seja objetiva e não fruto de uma interpretação possível da lei.

Baseado nesse raciocínio que em 13 de dezembro de 1963 – ainda na vigência do Código de Processo Civil de 1939 - o Supremo Tribunal Federal editou a súmula 343 que que possui o seguinte enunciado: “Não cabe ação rescisória por ofensa a literal dispositivo de

92 BUENO, Cassio Scarpinella. Curso sistematizado de Direito Processual Civil. 4ed. São Paulo: Saraiva, 2013 – página 331.

lei, quando a decisão rescindenda se tiver baseado em texto legal de interpretação controvertida nos tribunais”.

Trata-se de súmula que consagra a tese da interpretação razoável, que gerou – e ainda gera – infindáveis discussões do ordenamento jurídico, na medida em que admissão de diversas interpretações para um mesmo dispositivo de lei pode gerar indiscutível insegurança jurídica93.

Apesar das críticas, o entendimento sumulado continua vigente, aplicando-se inclusive como forma de limitar a incidência do atual inciso V do artigo 966 do Código de 2015, estabelecendo que diante de jurisprudência não pacificada, não é possível a propositura de ação rescisória fundamentando-se em violação manifesta a norma jurídica.

No documento Ação Rescisória por Violação a Princípio (páginas 102-105)