• Nenhum resultado encontrado

Juiz impedido ou absolutamente incompetente

3. AÇÃO RESCISÓRIA

3.8. As hipóteses de cabimento da ação rescisória

3.8.2. Juiz impedido ou absolutamente incompetente

3.8.2. Juiz impedido ou absolutamente incompetente.

O inciso II do artigo 966 trata da segunda hipótese de cabimento da ação rescisória, sendo esta a situação em que decisão de mérito objeto de impugnação “for proferida por juiz impedido ou por juízo absolutamente incompetente”.

Cuidam-se de duas situações jurídicas diferentes tratadas no mesmo inciso normativo, uma relacionada ao próprio juiz e outra ao órgão jurisdicional em que se processou o feito, conduzindo, ambas, a vício na decisão proferida capaz de ensejar a desconstituição da coisa julgada.

Ainda assim, correspondendo ambas as situações a pressupostos processuais de validade, justifica-se a previsão conjunta no mesmo inciso do dispositivo legal que cuida das hipóteses de cabimento da ação rescisória.

O impedimento do juiz encontra sua previsão e hipóteses no artigo 144 do Código de Processo Civil87, refletindo situações em que ocorre presunção da parcialidade do juiz capaz de viciar a decisão por ele proferida.

87 Art. 144. Há impedimento do juiz, sendo-lhe vedado exercer suas funções no processo:

I - em que interveio como mandatário da parte, oficiou como perito, funcionou como membro do Ministério Público ou prestou depoimento como testemunha;

II - de que conheceu em outro grau de jurisdição, tendo proferido decisão;

Embora a legislação preveja meio incidental de alegação do impedimento, tal providência não é condição necessária para alegação em sede de ação rescisória.

Assim como eventual não acolhimento da alegação no curso da demanda originária também não irá interferir na possibilidade de reconhecimento do impedimento como fundamento para determinar a desconstituição da coisa julgada.

Veja-se que as hipóteses que autorizam a impugnação da decisão transitada em julgado pela via rescisória são apenas as de impedimento, não sendo possível estender o fundamento rescisório às hipóteses de suspeição.

A suspeição corresponde a situações em que a parcialidade do juiz pode ser questionada diante de situações subjetivas e, portanto, a decisão proferida por um juiz suspeito é contaminada por nulidade relativa, que como tal, convalida com o trânsito em julgado da decisão.

Diversamente, as hipóteses de impedimento correspondem a situações objetivas que geram vício mais gravosos que, por consequência, não convalidam com o trânsito em julgado, vez que formadores de nulidade absoluta.

Como nas situações de prevaricação, concussão ou corrupção, para que o vício seja capaz de ensejar a propositura da ação rescisória, deve interferir maneira direta na decisão de mérito proferida.

Significa dizer que o juiz impedido precisa ter proferido a decisão de mérito para justificar o manejo de demanda rescisória. Caso este tenha apenas proferido decisão interlocutória na demanda, não será possível impugnar a coisa julgada pela via rescisória sob esse fundamento.

III - quando nele estiver postulando, como defensor público, advogado ou membro do Ministério Público, seu cônjuge ou companheiro, ou qualquer parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive;

IV - quando for parte no processo ele próprio, seu cônjuge ou companheiro, ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive;

V - quando for sócio ou membro de direção ou de administração de pessoa jurídica parte no processo;

VI - quando for herdeiro presuntivo, donatário ou empregador de qualquer das partes;

VII - em que figure como parte instituição de ensino com a qual tenha relação de emprego ou decorrente de contrato de prestação de serviços;

VIII - em que figure como parte cliente do escritório de advocacia de seu cônjuge, companheiro ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, inclusive, mesmo que patrocinado por advogado de outro escritório;

IX - quando promover ação contra a parte ou seu advogado.

Da mesma forma, constatando-se o impedimento no tribunal, exige-se que se verifique a existência de nexo de causalidade entre o resultado do julgamento e o voto do magistrado impedido.

Assim, tendo sido o voto do julgador impedido vencido, não há que se falar em fundamento da ação rescisória, vez que a invalidade decorrente do impedimento não interferiu no resultado da demanda e na decisão a ser impugnada.

E na hipótese de o magistrado impedido ter composto o posicionamento vencedor do acórdão, este somente poderá ser causa para a propositura de ação rescisória se a anulação de seu voto modificar o resultado final do julgamento.

Na situação de o impedimento ocorrer apenas no primeiro grau de jurisdicional e a sentença proferida pelo juiz impedido vir a ser substituída por acórdão proferido no julgamento de recurso de apelação, ainda assim, o vício decorrente do impedimento prevalece permitindo a propositura de ação rescisória.

Justifica-se tal posicionamento por se entender que o vício decorrente do impedimento do juiz não apenas contaminou a sentença – ato jurídico que acabou sendo substituído pelo acórdão proferido pelo tribunal – mas também a instrução conduzida pelo magistrado impedido.

Assim, o julgamento do tribunal poderá ter sido influenciado por meio das provas que podem ter sido produzidas de forma tendenciosa pelo magistrado no curso da instrução produzida em primeiro grau88.

A incompetência, enquanto outra situação passível de fundamentar a ação rescisória, deve ser a incompetência absoluta. Ou seja, deve decorrente de desrespeito de regra de competência em razão da matéria ou da função.

A incompetência em razão do valor ou do território são espécies de incompetência relativa que convalidam com o decurso do tempo e não podem ser alegadas para fins de propositura de ação rescisória.

Qualquer que seja o vício alegado – incompetência absoluta ou impedimento – uma vez julgada procedente a demanda rescisória, os autos deverão ser remetidos para o primeiro

88 Destaque-se que esse é o posicionamento da doutrina defendido por Teresa Arruda Alvim, e com o qual concordamos. Contudo, existe na doutrina parcela de autores que defendem que tendo ocorrido a substituição da sentença, o ato viciado foi excluído do processo, não havendo mais fundamento para propositura de ação rescisória com base no impedimento do juiz prolator da decisão de primeiro grau.

grau, devendo o rejulgamento ser realizado pelo juízo competente e imparcial, em respeito aos princípios constitucionais do processo, mas especificamente o devido processo legal e o juízo natural.