CAPÍTULO II: CONTRATOS ELETRÔNICOS
2.3 Comércio eletrônico
Para se buscar uma definição de contratos eletrônicos e, por conseguinte, analisar a problemática da proteção do cyberconsumidor, faz-se mister, inicialmente, desenvolver a idéia de comércio eletrônico ou e-commerce, como sendo a atividade comercial realizada dentro de um ambiente virtual, no qual fornecedores e consumidores de todo o mundo se encontram.
Enfatize-se aqui a nova tendência do m-commerce (mobile commerce), para definir os novos contratos celebrados através de aparelhos de telefonia móvel, valendo-se, inclusive, da tecnologia 3G e de seus provedores; bem como de computadores portáteis, com tecnologia wireless ou mini-modens.
Consoante já salientado, o desenvolvimento da rede mundial de computadores em associação direta com a perspectiva de contratações diretas e sem intermediários, gerou o surgimento e expansão do comércio através da internet, como a forma mais significativa de contratação da atualidade, com a substituição paulatina do meio físico pelo virtual.
Destarte, derrubou-se a fronteira da distância e do tempo, já que nesta terceira dimensão, as negociações realizam-se de forma mais célere e eficaz, atendendo aos anseios de ambas as partes, através da celebração de típicos contratos de consumo.
O comércio desenvolvido na web possibilita a integração dos mercados mundiais, de forma constante e atualizada, sem limites de tempo e espaço, já que conta com uma redução dos gastos administrativos e tributários, funcionando vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, sem intermediários. O que, por sua vez, acarreta maiores lucros e a superação de
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LAWAND, Jorge José. Teoria geral dos contratos eletrônicos. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2003, p. 8.
barreiras, já que o fornecedor conta com o mundo todo como público em potencial para aquisição de seus bens e serviços44.
De conseguinte, pode-se afirmar que o comércio eletrônico se efetiva através do contrato eletrônico firmado entre um fornecedor virtual e um internauta, com a utilização de toda a nova estrutura tecnológica de informação criada nos últimos tempos, aproximando pessoas, reduzindo as distâncias, encurtando o tempo e quebrando as fronteiras, com a união de países distantes e com as mais diversas culturas. Eis o retrato da globalização.
Ainda nas palavras de Lawand:
Os contratos eletrônicos são a expressão jurídica do comércio eletrônico, que significa em sua essência, um fluxo e refluxo de bens e serviços realizados mediante uma rede de comunicações informatizada. E os problemas que suscitam não são substancialmente distintos daqueles relativos à contratação ordinária45.
Ditos contratos revelam diferentes fases em seu desenvolvimento, de modo que apesar de intitulados contratos eletrônicos, não se realizam exclusivamente em linha, podendo mudar de dimensão e ingressar no mundo real, o que gera uma distinção entre as formas de sua realização. Assim, podemos ter contratos apenas negociados na rede, mas que são concluídos e executados fora do ambiente virtual. Também podemos ter contratos celebrados e concluídos na rede, mas que sua execução exige a forma tradicional, como por exemplo, a entrega de um dvd ou livro. Por fim, há a hipótese de todas as fases, quais sejam, negociação, conclusão e execução se efetuarem online, como por exemplo na compra de músicas, ou softwares, com download direto em rede.
Importante versar também, mas de forma sucinta, acerca da classificação doutrinária46 trazida quanto a estes contratos eletrônicos, no que se refere à interação homem- máquina. São diferençados em contratos eletrônicos intersistêmicos: Aqueles realizados em sistemas fechados ou intranets, através de EDI, com a comunicação entre equipamentos de empresas, previamente programados pelo homem, e respectiva troca de dados de forma autônoma.
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LORENZETTI, Ricardo Luis. Informática, cyberlaw, e-commerce. In: DE LUCCA, Newton & SIMÃO FILHO, Adalberto. (coord.). Direito & Internet: aspectos jurídicos relevantes. 2 ed., São Paulo: Quartier Latin, 2005, p. 470.
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LAWAND, Jorge José. Teoria geral dos contratos eletrônicos. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2003, p.34.
46
LEAL, Sheila do Rocio Cercal Santos. Contratos eletrônicos: validade jurídica dos contratos via internet. São Paulo: Atlas, 2007, pp. 82-89.
Já os contratos interpessoais são instrumentalizados através de um computador, por meio do qual as pessoas fazem valer suas vontades e celebram a avença desejada. Dividem-se em contratos simultâneos, ou seja, quando as manifestações de vontade são emanadas no mesmo momento, em tempo real, através de videoconferências ou conversações online; e não simultâneos, quando há um intervalo entre as tratativas, por não estarem as vontades sendo emanadas ao mesmo momento, em sincronia, como é o caso daqueles efetuados via e-mail, onde há um lapso temporal entre proposta e aceitação, sendo, portanto, equiparados aos contratos entre ausentes.
Por fim, temos os contratos interativos, no qual uma pessoa, conforme o próprio nome diz, interage, não com outra pessoa, mas sim com um sistema previamente programado para receber os pedidos formulados pelos internautas. São os popularmente conhecidos web- sites, que trazem ao alcance do consumidor as lojas virtuais. Ao visitar um site, o consumidor pode adquirir os mais diversos produtos, com um simples clique do mouse, através do contrato denominado de clik-wrap agreement.
Cabe ressaltar aqui que, para fins deste trabalho, adotaremos a posição já consagrada na Diretiva 2000⁄31⁄CE do Parlamento Europeu sobre Comércio Eletrônico, quando em seus artigos 10.4 e 11.3 exclui dos chamados contratos eletrônicos em sentido estrito, aqueles celebrados via correio eletrônico ou outro meio de comunicação individual equivalente, já que se assemelham mais àqueles concretizados à distância por via postal ou fax, nos restringindo, portanto, aos contratos celebrados entre consumidor e web-site.
Podemos então elencar como características primordiais dos contratos eletrônicos a desmaterialização destes, em face de sua virtualização, pois seriam contratos intangíveis, imateriais, formados por documentos eletrônicos, implementados virtualmente. Neste sentido há uma tendência em se dispensar os documentos físicos para a consubstanciação do contrato, apesar de serem, sem dúvidas, documentos escritos, já que têm seus registros armazenados nos bancos de dados das empresas.
Cite-se também a liberdade de uso amplo e irrestrito, por todos que tenham acesso à rede, relacionada à desregulamentação desta, eis que estes contratos são desenvolvidos em território virtual, sem qualquer barreira política ou geográfica, conforme analisado mais adiante, tendo em vista a relativização das noções de tempo e espaço.
Fale-se, por fim, sobre a despersonalização, pois, mais do que nunca, há uma massificação das contratações, negociando-se silenciosamente com a máquina através dos links dos sites, até a conclusão, sem qualquer presença física em seu desenvolvimento.
No que tange às modalidades de comércio eletrônico a doutrina majoritária, os classifica em três tipos: B2G – Business to Government, B2B – Business to Business, e B2C – Business to Consumer, a depender do tipo de contrato celebrado.
Todavia, uma minoria menciona ainda o C2C – Consumer to Consumer47, como modalidade em que há o envolvimento de dois consumidores finais na realização da avença, não qualificados como fornecedores, motivo pelo qual não nos deteremos aqui em maiores detalhes.
Em poucas linhas, pode-se dizer que o B2G – Business to Government é o comércio em linha voltado para a satisfação das necessidades estatais. De uma forma geral, é regido por normas de Direito Administrativo, retratando, basicamente, a aquisição de bens e serviços pelo Estado para atendimento de suas finalidades, encontrando-se, ainda, em um nível elementar em nosso país, sem contar com grandes repercussões.
Já o B2B – Business to Business reflete as aquisições desenvolvidas em sistema de atacado por grandes fornecedores, que é o comércio realizado por grandes empresas, de modo a otimizar sua produtividade, revelando ser nos dias atuais, o que gera maiores movimentações a nível de compras e de valores, sendo regido, prioritariamente, por normas de Direito Civil e Comercial, já que não há uma relação de consumo caracterizada.
E, por fim, temos o B2C – Business to Consumer, objeto de nosso estudo, que é aquele especificamente voltado para as negociações efetivadas por consumidores finais em face dos fornecedores virtuais. Comércio este que cresce em progressão geométrica, atingindo todas as camadas da população que efetuam compras no varejo, regulamentadas pela normativa consumerista, seguindo o rastro deixado pelo B2B.
Enquadrado, conceituado, classificado e caracterizado nosso objeto de análise deste capítulo, quais sejam os contratos eletrônicos em sentido estrito, celebrados em linha, por um consumidor internauta e um fornecedor virtual, passamos então a uma análise minuciosa de suas especificidades e particulares, como o que os aproxima e o que os distancia dos nossos contratos chamados tradicionais, máxime aqueles de compra e venda, os mais utilizados;
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LIMA, Eduardo Weiss Martins de Lima. Proteção do consumidor brasileiro no comércio eletrônico internacional. São Paulo: Atlas, 2006, p. 15.
vislumbrando, ainda, as dúvidas e questionamentos que vêm surgindo quanto à sua regulamentação no âmbito da proteção consumerista e do direito internacional privado, no que tange às problemáticas que podem ocorrer durante sua realização.