Entrevista de Arkeley Souza Lembranças inesquecíveis.
A conversa tem início de uma forma descontraída, em uma varanda... bastante animado e motivado ao ser entrevistado. De largo sorriso no rosto, colocou os óculos, desde o início, dizendo que era para dar um ar de seriedade. Rsss.Serviu- noscafé e biscoito e, bem tranquilo, trajando bermuda, chinelo e camiseta, além de um boné, sentou-se na cadeira da varanda, em sua residência, convidando-nos primeiramente a conversar, trocar ideias dos acontecimentos diários da vida....
O seu nome? De quem foi a escolha?
Sr. João – Minha filha... risos e pensativo... faz tanto tempo. É o
tempo de meu tempo. Você não tinha nem ideia de ter nascido. Era tudo muito diferente de hoje. Sou filho de uma família de 12 irmãos. Meus pais eram pessoas muito simples, mas de um coração enorme.
E faz tempo assim?
Sr. João – Digamos que há 80 anos. Isso. 80 anos. Ou oito
décadas. Que tenho a dádiva de estar vivo. De estar bem. Com algumas dores que o tempo nos vai dando de bônus... Dores nas costas, nos ombros... O que me salva é que sempre tive uma ótima alimentação. Quer dizer, na infância e na juventude, era aquele tipo de comida que talvez você não goste muito... pirão
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escaldado, muito feijão, batata, frutos da terra, leite forte. Não havia industrializados... e se havia, meus pais não podiam adquirir, pois custava caro. Pois bem, voltando ao que você perguntou...
Sim!
Sr. João – Não esqueci a pergunta.Me chamo João Bosco M.
Silva. E nãohámistério para a origem do meu nome. Pelo menos, na época em que nasci, ano de 1937, era natural quando nascia menino, chamava-se João, e quando menina, chamava-se Maria. Então fui batizado como João Bosco M. Silva.
Qual o local de seu nascimento? Em que cidade? Em Natal mesmo?
Sr. João – Nasci no Distrito de Pirangi-praia, que hoje está
na cidade de Parnamirim. Em casa mesmo. Dizem que nasci bem. Minha mãe foi uma guerreira. Criou todos os filhos, com muita luta.
E quando veio morar em Natal?
Sr. João – Vim morar em Natal um pouco tempo depois do
casamento. Já pensando em um melhor tempo para os filhos. E, assim, já se passaram 40 anos que aqui moro. Mas não esqueço de minha cidade Parnamirim, antiga Eduardo Gomes. Semanalmente vou por lá. Tenho muitos amigos e familiares que lá moram. Há vários aniversários, a cada ano, para se comemorar a vida.
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E filhos? Quantos?
Sr. João – Tivemos, eu e minha esposa, três lindos filhos. Duas
meninas e um menino. Hoje, todos estão bem, graças a Deus. Estudaram, e ainda estudam muito... Adoram livros... Mas já são formados, trabalham e tem seus espaços e suas famílias. Temos netos lindos, inteligentes.
E a infância de seus filhos? Foi parecida com a sua?
Sr. João – Não. Muito diferente no que penso em local. Quero
dizer que eu e minha esposa valorizamos muito a educação, uma boa escola e a família. Criamos no ritmo de escola, igreja e afazeres de casa. Uns ajudando aos outros. Não foi uma vida, digamos, muito fácil. Eu e a esposa tínhamos que trabalhar o dia todo, para dar condiçõesde sustentar a casa. E logo cedo, também, meus filhos começaram a trabalhar. Estudavam e trabalhavam. E, graças a Deus, deu tudo muito bem. Eles foram criados na cidade de Natal e, nos fins de semana, em Parnamirim, pois seus avós (minha saudosa mãe e meus sogros) lá moravam. E assim cresceram, todos bem. Levávamos muito à praia, em especial, praia de Ponta Negra.
Por falar na Praia de Ponta Negra, quais recordações vêm em sua mente?
Sr. João – Ih... minha filha.... Antes de lhe responder, vou pedir
que prove mais bolo, feito por minha esposa, vamos tomar mais um cafezinho e assim conversaremos... Antes de falar sobre o que você quer saber.. Eu vou te perguntar se gostas de fazer palavras cruzadas, de ler a Bíblia... pois são coisas que eu faço diariamente. Ganho, todos os anos, de uma de minhas filhas
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uma agenda bíblica, para leituras diárias. Exercício que, todos os dias, faço, pela manhã, ou no finalzinho da tarde, depois de tomar um cafezinho.
Sim!!
Sr. João – Gosto também de ajudar minha esposa em algumas
atividades da casa.
E o Sr.faz caminhadas?
Sr. João – Sim. Gosto de caminhar. Quando o organismo e o
corpo deixam. Tem dias que a coluna dói muito. Rsss. Dói o pescoço... Tomo alguns remédios para a pressão do coração, e a do olho também. Já pensou! Mas está bom, não vou aqui ficar falando de minhas dores... rsss.. Vou agora ao que você perguntou... Praia de Ponta Negra..rss. Eu não esqueci... Olha aí como faz resultado, ficar fazendo palavras cruzadas... desen- volve o raciocínio...rssss
Obrigada pelo lanche e pelo café. Sim. Quero saber sobre a praia de Ponta Negra.
Sr. João – Quando falo sobre a praia de Ponta Negra, tenho que
fazer uma expressão em meu rosto... pois essa expressão é uma recordação inesquecível, dos bons e velhos tempos de minha juventude e também quando adulto, e agora com a idade da aprendizagem... rss. Pois é, minha filha, 80 anos é a idade da aprendizagem...
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Sr. João – Sim. Um filme, só que real. As vindas de Parnamirim
à cidade de Natalque, na época, era uma aventura e realmente uma viagem...
Estou percebendo em seu rosto um largo sorriso...
Sr. João – Rssss. Se quiser, aumentarei mais o meu sorriso.
Pois, sem dúvida, a paisagem da Praia de Ponta Negra, quase intocada, à época, me traz recordações...
E o Morro do Careca?
Sr. João – Sem dúvida, é o cartão-postal da cidade. Quem não
visitar o Morro do Careca, no caso... hoje... tirar fotos da área, não tem o que contar sobre o Estado. Pois vejo que o Morro do Careca e a Praia de Ponta Negra representam o Estado, prin- cipalmente no turismo e também, como meus netos diziam e dizem muito... sobre o meio ambiente... e um nome novo que conheci... ecologia... ecossistema....
Vejo que muitas recordações o Sr.tem da praia de Ponta Negra. Sr. João – Sim. Mas antes vou lhe servir mais água e café.... Muito obrigada! Gosto muito de café!
Sr. João – Essas recordações vêm de anos, quando eu e amigos
vínhamos de bicicleta da cidade de Parnamirim ou ainda da Praia de Pirangi.
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Sr. João – Não. Se era distante, não sentíamos. Não havia
BR, estradas asfaltadas, concretos armados. Não havia esse trânsito louco.
Era tudo muito mais tranquilo?
Sr. João – Sim, minha filha. Muito tranquilo. Em todos os
sentidos. Veja bem: Não existia prédios, não havia essa poluição sonora que nos perturba interminavelmente, não havia auto- móveis como hoje. Nosso transporte era bicicleta ou cavalo. E também caminhávamos muito. Andávamos muito a pé. Rsss.
E como era esse percurso que vocês faziam até a praia de Ponta Negra?
Sr. João – Fazíamos o percurso por uma estrada de barro,
com matagal de um lado e de outro. Passávamos por um rio, parávamos, ríamos. E principalmente...
O quê?
Sr. João – Não tínhamos medo, não andávamos assustados...
Não havia a violência de roubar, de matar.... Essa situação que hoje estamos a viver. É assustador...
Realmente, o momento é preocupante.
Sr. João – Pois bem... Chegávamos ao litoral inesquecível da
praia de Ponta Negra e na ponta reinava, e lá estava o Morro do Careca. Um presente de Deus, da natureza, único. Era um belo mar, belo mar azul, belo mar verde, espumas flutuantes, ondas
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que se quebravam na areia. Uma visão bela, renovada, de coisas criadas pela mão de Deus.
Mais algo o faz lembrar da paisagem?
Sr. João – Havia também no cenário, barracas de pescadores
da região e uma natureza exuberante, intocável, simples e bela. As jangadas e uma espécie de espelho que se formava no mar, na areia e na praia.
E o que o costumava fazer com seus amigos quando chegavam em Ponta Negra?
Sr. João – Aventuras da infância e mocidade. Subíamos o Morro
do Careca, na época, e a paisagem era única. Havia uma vege- tação, tanto no litoral, da praia, do mar era lindo demais. No lado da subida, era um mar calmo, dunas. Ao subir o morro, chegávamos do lado de lá, com um mar agitado e belo, e as falésias. Um visual que até hoje está em minha memória, como uma recordação de um tempo, de lembranças inesquecíveis de uma infância que valeu a pena. O bom era quando voltávamos, com brincadeiras, corridas, saltos. Lembro ainda dos pés de caju e de guajirú, uma espécie de frutinha vermelha. Havia também pitombeiras, mangabas que deixavam no ar um cheiro, um aroma... uma essência que hoje não há mais.
E seus amigos?
Sr. João – A vida e suas surpresas. Como costumo conversar
muito com a minha esposa. Hoje estamos com 80 e 78 anos. Muitos já não mais estão aqui. Outros continuaram em
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Parnamirim. Outros seguiram para outras capitais, outras cidades.
E com esses que moram em Parnamirim? Conversam sempre? Sr. João – Conversarmos, e ora esquecemos... rsss... Deve ser
coisas da idade da aprendizagem. Mas falamos de nossas famí- lias, filhos, netos, bisnetos e também do passado que tivemos. Foi esse passado que nos deu sustentação para o que vivemos e como estamos hoje.
Realmente, uma recordação inesquecível.
Sr. João – O verde da vegetação, o cantar dos pássaros, que eram
diversos, muitos. Uma areia fininha, sem poluição. Intocada, muitas vezes. E também era a nossa diversão. Segura, tranquila. Como parte da aventura, andávamos também na beira mar até a área onde hoje está localizado o Centro de Convenções. Era tudo muito deserto, inóspito, tranquilo demais. E olhe que, muitas vezes, deixávamos nossas bicicletas e quando voltávamos lá estavam ainda... Andávamos a qualquer hora, do dia ou da noite, e não existia essa violência de hoje, não havia nada que nos amedrontasse.
E seus filhos? Levou-os também por essas aventuras, no tempo deles?
Sr. João – Com certeza, inclusive, na época da infância dos meus
filhos, era permitido subir no Morro do Careca. E eu levava-os, juntamente com a minha esposa. Era uma diversão, em família, em alguns fins de semana. Um verdadeiro piquenique...
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E os seus netos? O que fala a eles?
Sr. João – Hoje, o que posso dizer a eles é que há necessidade
de preservar o ambiente de forma equilibrada e cuidar sim do Morro do Careca, o símbolo da cidade, quero dizer, que ele possa continuar a ser o símbolo da cidade de Natal. Apesar de toda a insegurança, poluição e de problemas que afetam as cidades, que não é somente acidade de Natal, o Morro do Careca continua sendo o cartão-postal da cidade. E penso que nada poderá tirar a beleza da praia que encanta e reencanta o passado, o presente e o futuro.