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Entrevista com Gilka

No documento Simbolismo do Morro do careca (páginas 194-200)

Entrevista de Ruan Fernandes da Silva Uma sensibilidade para causa [do Meio Ambiente]

e uma obrigação por virtude da profissão.

Quem é Gilka?

Gilka – Eu sou desde 1997 uma promotora de justiça que sempre

trabalhou na área ambiental. Sou formada em Direito, mas antes me formei em letras. Eu já fui professora e sou uma brasiliense. Eu nasci em uma cidade sem praia, uma pessoa que é muito ligada à questão ambiental, mas parte de forma sensorial. Eu enfrentei a questão ambiental mesmo no ambiente de trabalho, mas sempre fui ligada enquanto cidadã à paisagem, à qualidade de vida, mais por uma intuição, não por uma questão profissional e agora junto esses dois aspectos. Uma sensibilidade para causa [Meio Ambiente] e uma obrigação por virtude da profissão.

Quando surgiu o interesse pelo tema “Praias urbanas e racionalidade ambiental” e o que levou você a escolher a praia de Ponta Negra como objeto de pesquisa?

Gilka – A questão das praias urbanas veio especificamente em

razão do trabalho. Por uma questão pessoal, sou uma pessoa que frequenta praia, que gosta de praia. A praia de uma maneira geral me atrai. Eu sou uma pessoa de uma cidade que não tinha praia, então praia para mim sempre foi um deslumbre. Para mim, foi uma coisa ... (um rápido momento de reflexão) que sempre teve um valor extremamente diferencial no meu

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comportamento enquanto pessoa, porque quando eu era criança a coisa mais interessante que eu achava era poder, nas minhas férias, ter algum contato com o mar,com a praia, porque realmente foi uma coisa que eu não tive na minha infância inteira. Só quando eu me mudei para Natal que eu tive esse contato [com a praia] e em poucas férias que eu tive a opor- tunidade de passar em praia. Quando criança, a praia que eu frequentei era a praia onde os meus tios tinham a possibilidade de ir, em São Paulo, e a praia era um tanto quanto diferente das praias do Nordeste. Então, quando cheguei em Natal, valo- rizei muito as praias. Desde 1997, quando entrei no Ministério Público, eu sempre tive a incumbência de cuidar de algumas questões costeiras, da zona costeira propriamente dita. A minha primeira promotoria foi em Ceará-Mirim e lá a gente tinha quatro municípios costeiros agregados e as primeiras causas foram alegadas sobre fragilidade do ecossistema costeiro. Eu cheguei na cidade de Natal em 2004, enquanto promotora, e em 2005 me deparei com alguns problemas ligados às praias urbanas e em especial à praia de Ponta Negra. E a coisa mais interessante que eu achava era que a praia era a queridinha dos turistas, da população, de todos os poderes públicos, tanto do executivo e até mesmo de decisões judiciais, quanto da Câmara Municipal, que possui muitas leis em relação com a área paisagística da praia. Mas, desde 2005, a praia começou a ter muitos problemas, a praia especificamente de Ponta Negra, essa tão queridinha praia, num trecho muito pequeno de 4km e a gente (Ministério Público) sempre tentou, desde 2005, soluções administrativas, resolvendo problemas pontuais e eu ficava muito impressionada (com os problemas). Porque, na minha atividade profissional, eu entrei com várias ações judiciais, as ações foram bem procedentes, tive decisões favoráveis e era

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como se houvesse um círculo que a gente não conseguia sair,re- solvia por um tempo, aí depois voltava os mesmos problemas, às vezes agregados com novosproblemas, mas velhos problemas agregados com novos, então assim era como se fosse uma bola de neve, sempre aumentando os problemas, e aumentando, num espaço tão pequeno, tão problemático e tão querido, eu não conseguia entender em que estávamos errando, o que era que estava acontecendo. Foi então que eu descobri que decisões judiciais numa atuação interativa do poder judiciário com determinações não eram suficientes e comecei a buscar compreender. “Poxa vida! O que é que está errado? O que é que a gente pode melhorar? ”. Então comecei a buscar compreender: será na parte econômica que a gente tem de buscar mostrar que a área é importante, rentável, tem um aspecto importante de geração de renda ou será que a gente tem de sensibilizar na área ambiental? “Gente, é uma área tão importante! Tão frágil!, Tão sensível!”. E quanto à questão social, nós vimos (Ministério Público) que o que culminou com a minha indignação foi uma situação com os pescadores, em que houve uma reforma, uma mudança da urbanização da praia de Ponta Negra e simples- mente aquelas pessoas que eram as mais ligadas a questões culturais da área, que eram os pescadores, foram simplesmente esquecidos na nova urbanização; isso mexeu muito comigo, e foi quando eu comecei a pensar: “meu Deus, o que é que está acontecendo? ”. Então foi quando eu falei: “Eu tenho que partir, eu tenho que tentar entender isso de uma maneira abrangente”. Foi quando eu encontrei o autor mexicano Enrique Leff,que trabalha com o conceito de Racionalidade Ambiental, e trouxe para mim algumas possiblidades de reflexão, de integração de todos esses conceitos no campo social, econômico, ambiental e ligados também à participação da população. Foi, portanto, aí

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que realmente surgiu esse interesse pela área com um olhar não só do direito, não sóda economia, não só do aspecto social, mas com um olhar mais abrangente e integrador dessa ideia. Para chegar a isso, foram..., (reafirma a ação de esforço) para chegar a isso, muitos inconformismos, muitas cabeçadas, tristezas até, eu falava: “Meu Deus, cadê o espaço?”. Particularmente, como cidadã, sou muito apaixonada pelas praias, pela cidade e profissionalmente eu me sentia muito frustrada por que eu fazia a minha parte, eu investigava, buscava a solução dos problemas, conseguia muitas vezes determinações e mesmo assim surgiam novas situações reiteradas de problemas que me deram um inconformismo enorme. Mas, por outro lado, foi daí que me veio a ideia de estudar uma coisa mais abrangente.

Quanto ao Morro do Careca e as Dunas Associadas em Ponta Negra, o que vem a sua mente quando se remete a essa paisagem?

Gilka – Olha... para mim... essa paisagem identifica a cidade...,

para mim é a cidade de Natal representada. Na verdade, quando a gente pensa, até do estado. Quando você pensa o estado, essa paisagem o identifica, ela é realmente uma refe- rência para identificar um local, e o local é a cidade de Natal e o estado do Rio Grande do Norte. Eu percebo isso até quando se divulga a cidade. É sempre essa a imagem, esse cenário! Eu entendo que ela realmente é o símbolo, a identificação da cidade, é esse cenário.

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Você poderia comentar sobre a sua afirmativa presente na sua dissertação, onde haveria uma relação intrínseca entre a paisagem, mais especificamente algumas paisagens, com a cultura e a identidade de um povo?

Gilka – Eu acredito que ela é realmente intrínseca. A gente

vê... (pensa por um momento) vamos tirar um pouquinho a cidade, mas vamos pegar uma área rural, por exemplo: É muito interessante como as pessoas da área rural se identificam com as paisagens, tanto é que quando elas vem para as cidades, às vezes elas são tão ativas, são tão... ativas e altivas na zona rural, por exemplo, estão acostumadas, sabem lidar, sabem como que é o ambiente deles e essas pessoas quando chegam nas cidades elas ficam tímidas, elas ficam extremamente... até cabisbaixas, algumas não conseguem nem se adequar, porque elas não sentem essa afinidade, não sentem essa familiaridade. Então, assim, essa relação, eu entendo que ela é [um momento de pausa para reflexão], digamos assim, é como se fosse uma roupa que a pessoa veste, eu vejo assim, por exemplo, cidades extremamente urbanizadas com prédios altos, as pessoas se vestem, se fecham mais à maneira de se comportar e de se vestir está muito ligada àquele cenário, então se você chega, por exemplo, a coisa mais interessante que eu vejo, por exemplo, uma pessoa que quando pensa em relaxamento normalmente pensa em praia, coqueiro, já pensa numa bermuda, num chinelo, já pensa numa maneira... porque a paisagem ela atrai as pessoas para um modo de vida, para um estilo próprio de viver. Eu acredito que ela interfere inclusive no lado psicológico, sabe, da pessoa. Então, quando você chega num ambiente fechado de construção, você tem um reflexo psicológico, até uma reação também, quando você chega num ambiente que você tem uma visão maior da paisagem e

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tudo, eu acho que você consegue interagir. Uma cidade que tem praia, para mim, é uma cidade que possibilita você trazer um estilo de vida mais despojado, certo, mesmo dentro de um centro urbano, porque você consegue, se essa cidade e essa área é atrativa você consegue conviver mais com o ambiente e até momentos de relaxamento, de contemplação, elimina o estresse e acho que isso é bem positivo para a qualidade de vida, eu acho que é bem inerente, muito interessante. Eu vejo assim, o bairro de Copacabana no Rio de Janeiro, porque ele chegou..., ele foi pensado para trazer um diferencial de vida para aquelas pessoas que moram na área, aquelas pessoas poderiam ter um banho de mar antes de ir para o trabalho, poderiam ter um passeio. Então, assim, esse formato, essa formatação de bairro com a integração do meio ambiente, eu acho que ela realmente afeta diretamente a qualidade de vida da pessoa. Então a paisagem, principalmente as áreas verdes e áreas ligadas ao ambiente natural, elas realmente têm um reflexo muito positivo na qualidade de vida humana, sabe, e se isso for dentro de uma cidade é mais interessante.

Que tipos de ameaças seriam mais prejudiciais à essa relação intrínseca, à paisagem do Morro do Careca e Dunas Associadas?

Gilka – Olha, eu entendo que todas as ameaças refletem nega-

tivamente na qualidade de vida da população. Agora, algumas mais especificamente são muito severas e são irreversíveis, por exemplo, na hora que eu extingo a possibilidade da visão..., do cenário constituído do Morro do Careca e das Dunas Associadas, para mim, essa seria uma ameaça de um dano irreversível. Para a população, em relação à identidade, à cultura e ao simbolismo,

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para a renda, porque o turismo vive de renda, tem gente que fala: “puxa vida, mas eu posso construir alguns prédios ali na frente e estou empregando”, mas quando pessoas vão deixar [o local], porque o turismo vai cair muito, porque o turismo de cidades costeiras é aquele turismo que a gente fala que é de sol e praia e de sol e mar é um segmento específico, as pessoas não querem ver prédios, as pessoas querem ver cenários naturais principalmente como aqueles caracterizados de ecossistema costeiro. O Morro do Careca é um monumento raro, de extrema beleza, ele é singular, porque você pode andar no mundo inteiro e você não vai encontrar uma duna daquele tamanho, daquela dimensão. Agora eu acredito que quando eu afeto esse cenário eu estou mexendo com a identidade, com o simbolismo e a cultura. Outra questão importante, uma ameaça que eu acredito que é extremamente grave é perder o espaço de areia da praia, porque o mar está avançando, é um processoque é uma mistura de natural com o processo relativo ao avanço da urbanização. O mar está retomando um caminho que ele já teve há muitos anos, então ele tem uma dinâmica, na hora que você deixa de respeitar esta dinâmica, o que é que se está buscando agora? Por exemplo: engordar a praia. Você tira a areia lá do fundo do mar para trazer para cá. A granulometria vai ser diferente, não vai ser essa areia fininha, mas não se pensa, por exemplo, em tirar as construções que já estão na frente, se pensa em tirar a areia do fundo do mar para trazer para a praia. Eu acredito que no Nordeste, por exemplo, e aqui na cidade de Natal, o mar não é só para contemplar ele é realmente para desfrutar, para o lazer, para as pessoas irem e frequentarem. Em algumas cidades a gente vê que existe aquele mar de contemplação, que o mar bate no muro, mas você não tem [praia]. Eu entendo que a faixa de areia de Ponta Negra é uma faixa extremamente importante

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