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Uma mulher trabalhadora Thyciara Macedo dos Santos

No documento Simbolismo do Morro do careca (páginas 118-123)

Patrícia Macedo Ferreira

Marizalva Martins dos Santos Cardoso, ou Danda, como prefere ser chamada, é uma mulher gentil e que leva uma vida simples. Trabalha como Auxiliar de Serviços Gerais – ASG em um condomínio situado no bairro Petrópolis, em Natal, no estado do Rio Grande do Norte, mesmo local em que nos conhecemos e conversamos. Após um dia inteiro de trabalho intenso, ela ainda estava disposta a dedicar à nossa pesquisa o pouco tempo que tinha antes de anoitecer e ter que voltar para casa. A entrevista transcorreu em clima de conversa informal e, com poucas palavras escolhidas cuidadosamente, ela conse- guiu resumir experiências que marcaram sua trajetória de vida na capital potiguar.

No ano de 1994, ela saiu de sua cidade de origem, São Tomé – RN, para vir morar em Natal, percorrendo uma distância de cerca de 118 km. Os motivos de sua mudança forama procura por emprego e o interesse em continuar os estudos. Inicialmente, morou em casas de pessoas para quem trabalhava. Após casar-se com Dailton, ou Dito, como o chama de forma carinhosa, fixou residência no bairro Mãe Luíza, local onde o esposo nasceu e no qual mora toda sua família. Geralmente, ela volta do trabalho a pé, pois fica a poucos metros de sua casa. Porém, naquele dia em especial, Dito, que trabalha como porteiro em um condomínio localizado na praia de Areia Preta,

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foi buscá-la e ligou alguns minutos após o início da entrevista para avisar que estava a caminho.

O casal e o filho de sete anos de idade estavam de mudança para a casa que adquiriram, a duras penas, na cidade de Extremoz – RN. Danda quer que o filho tenha as oportu- nidades que ela não teve, pormeiodos estudos, já que elanão conseguiu concluir o ensino fundamental, pois parou de estudar no segundo ano. Essa é a principal motivação apontada por ela para sua longa jornada de trabalho, de domingo a domingo. Em conversa informal, ela afirma querer voltar a estudar e, com animação, diz já estar procurando com o marido uma escola perto da nova moradia, onde possam estudar no turno da noite.

De acordo com o relato da entrevistada, no bairro em que mora tem bala quase toda noite, o que tem causado sofri- mento em seu filho, que, amedrontado com esse cenário, pede chorando para saírem de lá. Danda considera o lugar para onde está indomais tranquilo e distante da violência urbana de Mãe Luíza. Para ela, Extremoz é uma cidade que tem casas lindas e é onde o salário dava pra pagar. Esse também seráo destino do irmão dela, que em poucos meses estará dizendo adeus a esse bairro. Porém, a alegria na fala da entrevistada é interrompida quando pergunto se a irmã também irá mudar de moradia. Demonstrando tristeza, na voz e no olhar, ela diz que o salário que ela ganha não dá pra comprar uma casa, se não ela tinha ido pra lá pra onde a gente tá indo. O menino dela ficou chorando porque queria mudar.

O bairro Mãe Luíza, assim denominado em homenagem a parteira Luíza, uma das primeiras moradoras do local, está situado na zona leste de Natal, em uma área de morro entre a praia de Areia preta (Oceano Atlântico), o Parque das Dunas (Floresta de Mata Atlântica) e o bairro de Petrópolis. Seu

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povoamento foi iniciado na década de 1940, em um período em que o acesso era mais difícil, em um morro com mata densa, ainda sem água e luz. Os antigos habitantes vieram do interior do estado, escapando da seca que assolou o Rio Grande Norte em 1958. Para a construção das moradias, utilizavam papel e palhas de coqueiro. Esse cenário foi transformado após longos anos de luta dos moradores, que conseguiram diversas melhorias, incluindo a transformação do lugar em bairro. Lá também está o Farol de Natal, popularmente conhecido como Farol de Mãe Luiza.

De acordo com as autoridades de segurança pública, Mãe Luíza está entre os bairros com o maior índice de homicídios da capital potiguar, a qual foi considerada a cidade mais violenta do Brasil, segundo um ranking mundial elaborado pela ONG mexicana Conselho Cidadão para Segurança Pública e Justiça Penal, em 2017. Na prática, observamos uma popu- lação amedrontada em todos os lugares da cidade. O quadro de violência, que se agravou nos últimos anos, também motivou a saída de muitos outros moradores do bairro em que Danda morou por dez anos. Hoje, a mudança de moradia representa para ela uma conquista pessoal e a esperança de que o filho possa viver em um ambiente mais tranquilo, longe da violência e dos atos de terror que acometem a cidade.

Assim, o trabalho foi a ferramenta queaentrevistadauti- lizou para atingir seus objetivos de fugir da violência e oferecer ao filho um ambiente mais tranquilo em que ele pudesse, da melhor forma, crescer e ser educado.A compra de uma casa ampla e a oportunidade de uma vida tranquila para ela e a família, em um novo lugar, são os bons frutos colhidos com o suor do seu trabalho. Porém, a conquista da casa em Extremoz tem exigido maiores esforços e mais tempo de trabalho. A

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Auxiliar de serviços gerais – ASG de uma empresa privada que administra condomínios trabalha de segunda à sexta-feira, das 7h às 17h e, aos sábados, das 07h às12h. Além disso, realiza faxinas nas tardes de sábado e domingo, e ainda cuida da própria casa e da família. A jornada tripla de trabalho não deixa tempo para outras atividades, tampouco o lazer. No tempo livre que surge, a família prefere ir à lagoa ao invés da praia. Porém, nem sempre foi dessa maneira.

Danda, assim que chegou a Natal, adorava ir à praia. Era a sua irmã a melhor companhia que tinha quando ainda era solteira. A praia de Ponta Negra era sua preferida para passar o dia inteiro farreando com ela, entre um banho no mar e outro, dançando um forró animado e praticando as famosas subidas e descidas no Morro do Careca, proibidas desde o final dos anos 1990. Nesse período, havia uma corda que auxiliava a subida no Morro, mas as duas dispensavam a ajuda e subiam sozinhas. Sobre o período em que era permitido escalar a grande duna, ela se mostrou favorável com a liberdade que existia naquela época de circular sobre área. Mesmo com as boas recordações de sua história de farra na praia de Ponta Negra, hoje em dia ela quase não vai lá, mas acredita que o Morro deve ser preservado.

O excesso de ocupações com o trabalho, que envolve os serviços prestados como ASG, as faxinas que realiza em casas no final de semana e as tarefas domésticas advindas com o casamento, não deixam tempo para o lazer ou outras atividades distintas das que realiza em sua rotina. Atualmente, prefere visitar as lagoas da cidade, pois considera a praia suja e baru- lhenta. Danda afirma ter ido algumas poucas e rápidas vezes com o filho à praia de Ponta Negra: banhou-se, banhou o filho e voltou para casa.

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Uma mulher feliz e satisfeita com suas conquistas, essa é a impressão que Danda nos passa, apesar das muitas horas de trabalho, dos sacrifícios para ter uma vida melhor e dos raros momentos de lazer. A família, principalmente o filho, é sua motivação diária para continuar com o seu projeto de vida. A mudança de casa também lhe deu uma nova perspectiva e uma satisfação pessoal pela conquista. A proximidade com a violência não a impediu de sonhar, de trabalhar e realizar. A praia de Ponta Negra e o Morro do careca, que ela subiu e desceu tantas vezes, tornaram- seuma boa lembrança para contar e, apesar de achar a praia bonita, ela nunca visita, porque suas prioridades são outras e os seus momentos de lazer acontecem em outros lugares.

A praia de Ponta Negra e o Morro do Careca têm um significado importante para a entrevistada, simbolizando sua juventude, um período da vida em que lhe foi possível desfrutar de mais momentos de lazer. Apesar dessa vocação para o trabalho, a diversão é uma sublimação de seu desgaste físico, advindo do trabalho extensivo (de domingo a domingo). Danda é um exemplo de como otrabalho nas sociedades modernas assume significado central para “a completa felicidade do homem”, apesar de seralienante na medida em que os trabalhadores não se percebem como explorados, característica própria do processo de produção e reprodução do modo de produção capitalista.

Thyciara Macedo dos Santos | Patrícia Macedo Ferreira

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