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2. AS DIFERENTES RACIONALIDADES DOS TRABALHOS DOMÉSTICO E

3.1. A teoria do reconhecimento de Axel Honneth

3.1.2. Comentários à luz da experiência das mulheres

Como vimos, Axel Honneth desenvolve uma teoria com pretensões universalistas do conflito social, atribuindo-o à má formação da identidade dada a negação de alguma das três formas de reconhecimento elementares propostas pelo autor. Assim, a corrupção da autoconfiança, através de insucesso nas relações primárias, especialmente da violação do corpo, resulta num indivíduo sem uma identidade sólida no âmbito privado – ou seja, não pode ser motivadora do conflito social, uma vez que é constituída por relações individuais. Ainda assim, essa forma de reconhecimento é essencial por oferecer a própria possibilidade de sair ao âmbito social (autoconfiança). Em um segundo momento, o indivíduo é reconhecido de forma genérica, a partir do que divide com todos os outros, constituindo-se como um membro igual da comunidade. O desrespeito ou a violação dessa forma de reconhecimento impede sua participação na esfera pública, pois nela vigoram princípios de dignidade humana não aplicáveis àqueles que tiveram seus direitos rompidos. Por fim, a estima social determina a possibilidade do indivíduo reconhecer como válida sua contribuição ao social. Faz, desse modo, uma ponte sólida entre individualidade e sociedade, trazendo à primeira a valorização necessária para constituir-se como um cidadão plenamente capaz de agir publicamente.

Como se sabe, a experiência das mulheres, tanto no âmbito privado quanto na sociedade, é caracterizada por uma série de desrespeitos e privações nos três âmbitos do reconhecimento intersubjetivo, resultando em um quadro de desigualdades de gênero que vem, há algumas décadas, sendo objeto de forte crítica e mobilização social. Nesse sentido, parece-nos admissível que a teoria de Honneth, voltada à compreensão das lutas e conflitos sociais da época, possa oferecer interessantes pistas. Cabe lembrar, como coloca Dejours,

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que “a luta pela identidade e pela normalidade não se apresenta da mesma maneira para uma mulher e para um homem240”. Nessa parte do texto, então, ensaiaremos uma reconstrução

breve das experiências das mulheres à luz da teoria do reconhecimento de Honneth, com especial atenção ao trabalho doméstico. Para tanto, não dispensaremos as críticas feministas endereçadas a esta teoria, sobretudo os comentários de Iris Marion Young. O debate com Nancy Fraser, no qual, nos parece, o intercâmbio do autor com perspectivas alinhadas ao feminismo chega ao seu auge, será objeto da próxima seção desse trabalho.

Comecemos, seguindo a ordem proposta por Honneth, pelas relações afetivas, destinadas a desenvolver um senso de valor identitário no âmbito privado. Faremos, a partir daqui, alguns comentários breves a respeito dessas relações pelo ponto de vista das mulheres, seguindo por dois focos: a posição da mãe na formação da identidade, ou seja, a relação mãe- filho; e a uma análise breve do amor conjugal, pautada sobre as considerações de Young em Recognition of Love’s Labor.

Como vimos, a relação saudável e bem sucedida do bebê com a mãe é componente imprescindível da formação da identidade, necessária, por sua vez, para a própria possibilidade de participar plenamente da vida pública. Assim, vista como primeira responsável pela formação dos cidadãos, uma atividade de cuidados extremamente exigente como a da maternidade é posta de forma pré-política, uma construção extremamente próxima da naturalização da maternidade e das tarefas domésticas. Mais do que isso, pode-se dizer, ainda, que todo o processo da constituição da identidade que parte das ligações afetivas é baseada sobre essa naturalização, como é possível ver na afirmação seguinte:

(...) por um lado, a mãe vivenciará o estado carencial precário do bebê como uma necessidade de seu próprio estado psicológico, uma vez que ela se identificou projetivamente com ele no curso da gravidez; daí a atenção emotiva dela estar talhada para a criança de modo tão integral que ela aprende a adaptar sua assistência e cuidado, como por um ímpeto interno, aos seus interesses cambiantes, mas que co- sentidos por ela própria241.

Deixando de lado possíveis considerações psicanalíticas que possam desencadear essa visão da mãe como insubstituível para o desenvolvimento infantil, interessa-nos, sobretudo, a ideia de que a satisfação das necessidades deste é atribuída a um “ímpeto interno”, ou seja, a

240 Dejours, 2012, p.156.

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própria natureza de suas propriedades e capacidades lhes ofereceria essa expertise natural da qual os homens não dispõem para os cuidados. Ora, sabe-se que essa naturalização242 está

na base da exploração das mulheres e de seu trabalho (invisível) desde as primeiras críticas articuladas pelo feminismo nas décadas de 1950 e 1960. Além disso, a restrição das relações afetivas ao âmbito estritamente privado – distinção, por si só, questionável – impede sua visibilidade enquanto trabalho, além de não conceituar propriamente as relações entre este e o âmbito jurídico, com ajuda do qual as mulheres têm conquistado, hoje em dia, uma série de direitos que lhes permitem não ser alvos de ataques impuníveis em suas casas. Assim, como destaca Young, “a separação de uma esfera específica do amor, onde crianças e adultos têm suas necessidades e personalidades próprias cuidadas, ao menos de início, resulta em fardos especiais às mulheres243” – para citar apenas um: a aplicação de tempo e energia que, não reconhecidos, poderiam ser divergidos para outros objetivos.

Vejamos agora o que é possível concluir a partir da análise das relações conjugais. Em Recognition of Love’s Labor, Iris Young reconstrói a visão rousseauniana de reconhecimento, contrapondo-a as proposições de Honneth, por um lado, e ao caráter pragmático que assumem as relações conjugais na modernidade, por outro. Segundo Young, Rousseau emprega a imagem de uma casa de espelhos para compreender a necessidade de reconhecimento de que é tomado o homem quando entra na sociedade: “para onde quer que ele se volte (...), encontra seu reflexo distorcido e alvo de zombaria244”. Por isso, para sentir- se reconhecido, o homem depende do amor de uma mulher “honesta”, a qual ele não domina nem submete. A relação de reciprocidade é descrita como uma mútua cooperação e contribuição – um com o outro. No entanto, não se fala aqui de uma simetria ou reciprocidade

242 Mesmo que sua teoria não pareça dar conta dessa naturalização e responder a ela no âmbito do amor, Honneth a percebe, especialmente na divisão sexual do trabalho. Diz ele: “Naturalistic thinking, which atributes essentialist collective properties to social subgroups so that their practical efforts are not viewed as ‘achievement’ or ‘work’, but merely as the realization of an ‘innate nature’, plays an especially big role here.”(Honneth, Fraser, 2003, p.148). Tendo discutido isso, entretanto, Honneth mantém uma forma teórica que não aceita a existência de lutas por reconhecimento no âmbito da família, ou, como diz Young, “he seems not to find equality at issue in the family in the same way as in the public realms of rights and esteem” (201). Mais adiante, num texto publicado em 2004, Honneth passará a tratar a família como uma comunidade cuja igualdade é arbitrada pelo direito, não pelo amor.

243 Young, 2007, p.199. Tradução livre. No original: the differentiation of a specific sphere of love where children and adults have their particular needs and personality cared for comes, at least initially, with special burdens for women.

244Young, Op. cit., p.190. Tradução livre. No original: Everywhere he turns (…), he finds his reflection mocked and distorted.

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perfeita, pois, como é função própria das mulheres completar e agradar o homem, ela o complementa mais do que é complementada por ele: “(...) ela resolve o problema do reconhecimento para ele: ele confia a ela a afirmação de seu self, e o papel e desejo dela é prover essa afirmação245”. Segundo Young, essa suposta função da mulher em relação ao seu marido é base para uma construção do amor conjugal fortemente ideológica, na qual:

(…) um sujeito deseja e recebe reconhecimento do outro, que reflete os projetos e valores do primeiro de volta para ele. O reconhecimento da esposa por parte do marido, nessa configuração, consiste no reconhecimento de seu próprio reflexo em outro sujeito. A mulher desempenha um papel ativo nessa união. Ela, entretanto, não obtém reconhecimento dele nos mesmos termos. Relações entre amantes nesse modelo conjugal são essencialmente hierárquicas porque, como analisa Irigaray, essa forma de amor intenta reduzir o outro ao mesmo246.

Esse ideal do amor conjugal rousseauniano, alega Young, tem ainda grandes ecos na concepção de amor moderna, assim como nas expectativas dos indivíduos a respeito do amor. Ele foi assumido também por Hegel e, posteriormente, por Honneth em sua Luta por Reconhecimento. Essa concepção, que Honneth atribui à herança hegeliana, trata a família como uma comunidade afetiva na qual as discordâncias e questões de cada um podem ser endereçadas apenas com o apoio dos sentimentos de amor nutridos mutuamente por seus membros – uma concepção, é preciso dizer, profundamente divergente das experiências de dominação e subordinação comumente acompanhadas de abusos e violência que constituem a narrativa das mulheres a respeito do âmbito privado. A comunhão do autor com esse ideal está, ainda, evidenciada no modo como se constitui o progresso da luta por reconhecimento no âmbito do amor. Conforme mencionado, as relações afetivas constituem um domínio pré- político na teoria de Axel Honneth na medida em que as experiências de desrespeito situados nesse campo não tem potencial de se tornar conflitos sociais, pois lhes falta, justamente, o caráter público que permita transformar a negação do reconhecimento em demanda política. Assim:

245Young, Op. cit., p.191. Tradução livre. No original: she solves the problem of recognition for him: He relies on her for the affirmation of his self, and her role and desire is to provide this affirmation.

246Young, Op. cit., p.204. Tradução livre. No original: (…) one subject desires and receives recognition from another subject who reflects the first subject’s projects and values back on to himself. The husband’s recognition of the wife, in this configuration, consists in the recognition of his own reflection in another subject. The womanly lover plays an active role in this union. She, however, does not achieve recognition from him on the same terms. Relations between lovers in this conjugal model are essentially hierarchical because, as Irigaray analyzes it, this form of love seeks to reduce the other to the same.

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Ao passo que o progresso na luta por reconhecimento nas esferas de direitos e estima envolvem a extensão destes a mais agentes, o progresso moral na esfera do afeto diz respeito à expansão da compreensão de quais necessidades individuais merecem atenção. Honneth parece assumir que o afeto no casamento burguês é, de fato, mútuo, e que a luta seria a respeito de seu conteúdo e qualidade. Ele não parece colocar a igualdade em questão na família da mesma forma que nos âmbitos públicos em que vigoram os direitos e a estima247.

Em um texto publicado em 2004, no entanto, Honneth assume uma visão diferente da família, então sustentando que os laços afetivos, por si só, não têm efetividade para sustentar a justiça dentro dela. Ele, então, passa esse papel para o âmbito dos direitos, que podem regular os limites morais aos quais os indivíduos estão sujeitos dentro das relações familiares, determinando que, nessas relações, não é suficiente que os indivíduos se reconheçam como únicos e mutuamente dependentes, mas devem, também, reconhecer-se reciprocamente como sujeitos de direito, em pé de igualdade248. Ainda assim, coloca Iris Young, ele não questiona propriamente essa idealização do amor conjugal em sua teoria, nem o fato de que este “envolve um reconhecimento mútuo apenas se a mulher no casal não fizer quaisquer demandas por reconhecimento na família ou na esfera da estima249”. Assim, o casamento e a família são formulados em Luta por Reconhecimento como instituições completamente dissociadas de fatores políticos, sociais e econômicos, bem como de uma ideia igualitária norteadora. Então, se Honneth acaba, em 2004, deslocando o paradigma rousseauniano-hegeliano de amor e família para uma versão menos harmoniosa, ele, ao mesmo tempo, não se ocupa de reformular o conceito de amor visando a evitar a herança hegeliana nesse ponto.

A constituição de um novo ideal de amor, para Young, passa inevitavelmente pela igualdade e autonomia, no sentido dos parceiros se reconhecerem mutuamente enquanto “indivíduos independentes com projetos e necessidades próprias” sem o desejo de fusão em um, nem de submissão da mulher; ambos devem se reconhecer reciprocamente com uma

247Young, Op. cit., p.201. Tradução livre. No original: Whereas progress in the struggle for recognition in the spheres of rights or esteem involves extending these to more agents, moral progress in the sphere of affection concerns expanding an understanding of what needs of individual persons deserve attention. Honneth appears to assume that affection in bourgeois marriage is indeed mutual, and that the struggle is over its content and quality. He seems not to find equality at issue in the family in the same way as in the public realms of rights and esteem

248Honneth, 2004.

249Young, Op. cit., p.203. Tradução livre. No original: involves a mutual recognition only if the woman in the pair makes no claims for independent recognition either in the family or in the sphere of esteem.

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medida de autonomia individual e importância, medida esta que deve ser igual para os dois. A autora situa o problema na própria luta por reconhecimento supostamente inerente às ligações conjugais, pois esta suprime a possibilidade de relações igualitárias, visto que “cada um de nós gostaria de mais atenção, compreensão e carinho do que obtemos250”. Ela propõe, então, um deslocamento do conceito de amor para um modelo de cuidados. Esse modelo será examinado quando tocarmos na estima.

É importante ver aqui que o que se constitui como o âmbito das relações afetivas e da formação da autoconfiança para Honneth é, por outro lado, o locus por excelência da dominação e subordinação das mulheres. Ainda que não haja correspondência exata entre o que propõe Honneth e uma distinção entre público e privado nos moldes levantados pela teoria feminista251, é possível perceber que há uma divergência sensível entre as interpretações possíveis do âmbito do amor na perspectiva dos homens e das mulheres. Visto que a experiência das relações afetivas não fornece elementos para uma contestação pública – ou, nos termos de Honneth, para uma luta por reconhecimento –, o âmbito privado é caracterizado como apolítico. Por essa perspectiva, a teoria de Honneth não ofereceria subsídios para pensar a dominação feminina como partindo do privado.

O modo alternativo com o qual o autor propõe lidar com a esfera do amor, conforme mencionamos acima, é interligando-a com a esfera dos direitos. Antes de abordarmos as formulações teóricas posteriores à Luta por Reconhecimento, porém, vejamos de que modo a experiência das mulheres se encaixa nessa forma de reconhecimento. Falamos aqui da atribuição de imputabilidade moral aos indivíduos, conferindo-lhes, sistematicamente, as condições de que precisam para participarem igualitariamente da comunidade da qual são membros. Assim, na medida em que a teoria de Honneth trata de experiências de desrespeito moral que levam os sujeitos à ação efetiva em busca da correção dessas injustiças, parece- nos que, em termos de direitos, ela fornece instrumentos adequados para compreender a obtenção de direitos pelas mulheres.

250 Young, Op. cit., p.205. Tradução livre. No original:

251Para uma reconstituição dos sentidos atribuídos ao conceito de privacidade, ver a Introdução de Rössler, 2004.

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Honneth historiciza a obtenção de direitos pelos homens brancos e adultos; para tal fim, emprega a distinção de Marshall entre direitos liberais de liberdade (do Século XVIII), direitos políticos de participação (obtidos, grosso modo, no Século XIX) e direitos sociais (conquistados no Século XX). Explica como cada tipo de direito é resultado de uma “pressão evolutiva” que resulta do tipo instaurado anteriormente; ou seja, de como cada novo grupo de direitos é resultado de uma pressão social para reunir as condições necessárias para pôr em prática a igualdade proposta pelos direitos de liberdade.

Fazer o mesmo com a obtenção dos direitos por parte das mulheres resultaria em uma narrativa diferente, mas, parece-nos, não teria qualquer problema em obedecer aos mesmos princípios. No Brasil, por exemplo, os primeiros direitos das mulheres foram obtidos nas décadas de 1920 e 1930. Destaca-se, nessa época, a obtenção do direito ao voto, em 1932. Aproximadamente três décadas depois, nos anos de 1960 e 1970, as lutas sociais intensas ao levaram a uma transformação expressiva da legislação específica às mulheres na nova constituição, de 1988, a primeira constituição democrática posterior ao período ditatorial. Finalmente, do meio para o fim da década de 1990, sobretudo através de uma pressão organizada pelos movimentos sociais sobre as instituições e o governo, começam a ser postos em prática alguns direitos sociais às mulheres. Esse processo definitivamente atinge seu auge nos anos 2000, tendo como marcos a lei Maria da Penha, que criminaliza a violência contra as mulheres, de 2006, e a PEC das Domésticas de 2013, responsável pela regularização de uma forma de trabalho extremamente precário – inclusive, comumente relacionado ao passado escravagista brasileiro –, no qual a maioria dos empregados são mulheres252. Assim, me parece possível dizer que há uma espécie de “pressão evolutiva” operando nesses processos, especialmente a partir da Constituição de 1988253.

252Em 2013, as mulheres constituíam aproximadamente 94% das trabalhadoras domésticas no Brasil, segundo a OIT.

253 Há uma peculiaridade quando pensamos a obtenção dos direitos das mulheres, que são os direitos sexuais, reprodutivos e direitos sobre o corpo, rompendo com a repartição tripartite de Marshall. Esses, me parece, constituem uma categoria específica, que não pode ser subsumida nos direitos sociais e políticos. Para mais a respeito da história do movimento feminista e dos direitos das mulheres no Brasil, ver, por exemplo Sonia Alvarez, Engendering democracy in Brazil. Women’s movements in Transition Politics. Princeton: Princeton University Press, 1990.

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Quanto à produção posterior de Honneth, o artigo Between Justice and Affection254,

de 2004, rediscute a esfera do amor, relacionando-a, agora, à dos direitos. Segundo Honneth, a família passou por uma série de reestruturações ao longo dos dois últimos séculos, que, em um primeiro momento, visavam a torná-la independente da esfera pública, conferindo-lhe um caráter autônomo para que os indivíduos pudessem, livremente da influência do Estado e da economia, decidir que concepções de vida boa deveriam vigorar em seu âmbito privado. Uma vez que esse processo está completo, no entanto, a autonomização da família traz à tona novos problemas e “condições inaceitáveis” (tais como os maus tratos das crianças, a distribuição desigual do trabalho doméstico e a violência contra as mulheres no casamento) que, na via contrária do que vinha até então se desenvolvendo, botam em questão a reincorporação da família à esfera civil através de sua abertura à jurisdição que regule abusos. Iris Young coloca a questão nos seguintes termos:

A especialização da família nas relações de amor que reconhecem a pessoa na individualidade de suas necessidades coloca pressão nas relações sexuais e no casamento para separá-los de imperativos políticos ou econômicos, ou simplesmente da dominação dos homens sobre as mulheres, e para incentivar a livre escolha dos parceiros por ambos. Assim, um certo princípio de igualdade entre os sexos emerge. Enquanto as mulheres não têm direitos iguais como pessoas, porém, essa igualdade é apenas uma promessa. Por isso, uma das principais lutas feministas por igualdade consiste no reconhecimento legal das mulheres enquanto possuidoras de direitos civil e políticos plenos, independentemente de seus pais ou maridos255.

Assim, a separação da família de outras esferas institucionais tinha por fundamento seu autogoverno pautado no paradigma do amor rousseauniano-hegeliano, pressupondo que os sentimentos nutridos reciprocamente por seus membros seriam suficientes para essa regulação. Essa suposição rapidamente se demonstrou errônea, uma vez que, privadas de direitos fundamentais, como explica Young, a possível igualdade dentro da família, para as