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2. AS DIFERENTES RACIONALIDADES DOS TRABALHOS DOMÉSTICO E

2.2. Trabalho, reconhecimento, emancipação

2.2.1. Trabalho, emprego recompensador, trabalho familiar

Para pensar o conteúdo específico do trabalho doméstico e de cuidados, a autora propõe, em primeiro lugar, uma análise desse conceito, que nomeia trabalho familiar, contrastando-o ao trabalho como conceito geral – ou seja, o que define uma atividade como trabalho – e ao emprego pago, forma específica da modernidade. O propósito dessa primeira investigação será esclarecer as semelhanças e diferenças do trabalho familiar em relação às outras formas, para então chegar aos objetivos principais de Rössler, a possibilidade de remuneração e o potencial da teoria do reconhecimento para lidar com o trabalho. A autora justifica a análise breve desses conceitos, defendendo que está é:

(…) tudo que precisamos para falar das questões normativas envolvidas no problema de pagar ou não pelo trabalho familiar ou sobre como distribuir justamente o trabalho existente em uma dada sociedade.

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Não creio que essas questões normativas podem ser resolvidas de uma forma plausível ou interessante através de definições mais precisas de trabalho ou atividade188.

O primeiro deles – trabalho no sentido geral – refere-se a tudo aquilo que o indivíduo realiza em função de sua sobrevivência. Apesar das variações que sofreu, o conceito assume, a partir do Século XVIII, um núcleo estável de elementos, sintaticamente postos na proposição seguinte:

O trabalho tem um propósito (objetivo, fim) além dele mesmo: criar, alcançar, conseguir, realizar; o trabalho está sempre atrelado à obrigatoriedade ou necessidade; sempre é árduo, implica em superar dificuldades ou ultrapassar obstáculos, requer esforço e um mínimo de persistência a partir do ponto em que deixa de ser meramente prazeroso189.

A partir do Século XIX, uma forma específica, chamada pela autora de emprego pago, torna-se a principal referência quando falamos de trabalho. Essa transformação, relacionada ao estabelecimento do contrato de trabalho e às consequentes mudanças trazidas por isso (regime de horas, medição da produtividade, etc.), restringe o conceito, que passa a ser compreendido como “a obtenção ou o exercício de atividades por remuneração mediante um contrato entre quem oferece e quem compra essas atividades190”. Como vimos com Gorz,

a remuneração prescrita contratualmente se relaciona ao imperativo de medir, quantificar o trabalho. A medição é o primeiro passo para que o cálculo contábil passe a reger a produção, e, portanto, entendemos que o que Rössler chama de emprego pago, tem um forte paralelo com o que Gorz nomeia como trabalho regido pela racionalidade econômica:

O emprego pago assume formas extremamente diversas, mas compartilha uma série de características. Tipicamente, é trabalho profissional (masculino) relacionado às eventualidades do mercado e organizado em empresas191, o que significa que é (predominantemente) baseado numa separação entre

188 Rössler, 2007, p.138. Tradução livre. No original: (…) all we need when we want to talk about the normative issues involved in the questions of whether or not family work should be paid for; or how to justly distribute the existing work there is in a given society. I do not think that these normative issues can be solved in a plausible or interesting way by defining more precisely what exactly work or labour is.

189 Kocka apud Rössler, 2007, p.137. Tradução livre. No original: Labour has a purpose (goal, end) beyond itself; the purpose of creating, achieving, performing; labour is always connected with obligation or necessity; labour is always toilsome, involves overcoming resistance, requires effort and a minimum of persistance beyond the point where it ceases being merely pleasant.

190 Rössler, 2007, p.138. Tradução livre. No original: the achievement or the exercise of activities for remuneration on the basis of a contract between the offerer and buyer of these activities or achievements. 191 Em nota, a autora mostra algumas pesquisas que contestam a ideia de que o trabalho ainda é predominantemente masculino. A esse respeito, cf., por exemplo: The Economist, 23 de Julho, 2005. Adiciono aqui a pesquisa do IPEA mencionada anteriormente em nota, na qual se menciona que, no Brasil, as mulheres empregadas em 2012 eram em torno de 50,1% da população feminina, contra 70,5% da população masculina. A maior parte das mulheres empregadas tem entre 25-29 anos e 30-44 anos; nessas faixas etárias, a porcentagem da população feminina empregada é, respectivamente, 71,1% e 72,2%, contra 92,6% e 93,9% dos homens. De qualquer forma, o conceito de emprego recompensador fala da construção histórica da forma de

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trabalho doméstico privado e trabalho pago público. Também é (predominantemente) compreendido como trabalho realizado para outrem, a título (geral) de uma realização para e na sociedade192.

Três elementos normativos estão associados a esse conceito nas sociedades ocidentais. Em primeiro lugar, o trabalho é realizado em função da obtenção dos meios de sobrevivência e, portanto, visa primariamente à remuneração. Segundo esse aspecto econômico, relacionado à ideia lockeana de autopreservação através da aquisição de propriedade, “o trabalho deve ser pago (adequadamente) e deveria oferecer a possibilidade de satisfazer as necessidades do indivíduo que o realiza193”. Aqui, ele é o meio para assegurar a propriedade, que, por sua vez, é a garantia da sobrevivência. Depois, o emprego pago implica em desafios e objetivos a serem vencidos pelo trabalhador, resultando em satisfação, uma vez ultrapassados os obstáculos a essa realização. Assim, “o trabalho é bom para a auto realização e, como tal, deveria ser autodeterminado194”. Essa característica é atribuída à ideia de autodeterminação

do trabalho presente na tradição marxista, especialmente às formulações presentes nos Manuscritos Econômico-filosóficos195 de Karl Marx. Por fim, o trabalho nos insere num contexto de cooperação social e em “um sistema de necessidades sociais no qual o indivíduo

trabalho própria do capitalismo – e, nessa medida, podemos dizer que apenas há pouco tempo o trabalho nesse sentido foi conquistado pelas mulheres, ainda guardando fortes diferenças na forma de tratamento por gênero, como vemos com o auxílio dessa pesquisa.

192 Rössler, 2007, p.138. Tradução livre. No original: Gainful employment as such assumes extremely diverse forms, but shares several features. It is typically market-contingent (male) professional work organized in companies, which means that it is (mostly) based on a separation between private domestic work and public paid work. It is also (mostly) understood as work performed for others, as (generally understood) achievement for and in society

193 Rössler, Op. cit., p.139. Tradução livre. No original: work should be paid (adequately) and should offer the possibility of satisfying one’s needs. Essa ideia, situada nos parágrafos 26, 27 e 28 do Segundo Tratado, diz respeito ao modo como um bem deixa de ser comum a todos e passa a ser apenas de um indivíduo. Locke parte do igual direito de todos os homens à propriedade de tudo que há na terra. Para seu sustento, é preciso “haver um meio de apropriar parte delas de um meio ou de outro para que possam ser de alguma utilidade ou benefício para qualquer homem em particular” (p.407). Isso se dá através do trabalho, como vemos no parágrafo 28, onde Locke esclarece que, sendo a primeira propriedade dos indivíduos a sua própria pessoa, “o trabalho de seu corpo e a obra de suas mãos”, “qualquer coisa que ele então retire do estado com que a natureza a proveu e deixou, mistura-a ele com seu trabalho e junta-lhe algo que é seu, transformando-a em sua propriedade. Sendo por ele retirada do estado comum em que a natureza a deixou, a ela agregou, com esse trabalho, algo que a exclui do direito comum dos demais homens. (...) O trabalho que tive em retirar essas coisas do estado comum em que estavam fixou a minha propriedade sobre elas” (407-9).

194 Rössler, 2007, p.139. Cf., a esse respeito, Marx, 1941; Marx, 1891. A emancipação da força de trabalho e sua autogestão pela classe operária como um todo são especialmente tratadas na Crítica ao programa de Gotha, onde Marx, após investigar proposições a respeito da emancipação dos trabalhadores, evidencia o projeto de que eles, bem como o trabalho por eles realizado, não sejam mais subjugados pelos capitalistas e proprietários dos meios de produção, mas que sejam determinados pelos próprios trabalhadores (“[que] as condições materiais de produção fosse[m] propriedade coletiva dos próprios operários”, p.215). Tradução livre. No original: work is good for self-realization and should therefore be self-determined.

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contribui com a satisfação dessas necessidades196”. Através do trabalho, passamos a fazer

parte da sociedade e nos tornamos úteis e necessários a ela. Nessa medida, o trabalho e as realizações de um indivíduo que caminhem nessa via devem ser reconhecidas enquanto “uma realização relevante socialmente197”, reafirmando a importância da contribuição

individual à comunidade. A ideia de reconhecimento social, posteriormente discutida por autores como Charles Taylor, Axel Honneth e Nancy Fraser198, é proveniente da teoria hegeliana. Assim, para constituir uma realização com relevância social sensível, o emprego pago precisa garantir a sobrevivência dos trabalhadores através da remuneração, a possibilidade de autodeterminação (relacionada à formação das identidades), e a participação em uma comunidade de iguais, em que situa sua identidade no âmbito público e é alçado à categoria de cidadão.

Ao passo que o emprego pago se dá na esfera pública e põe o indivíduo em relação com a sociedade, o trabalho familiar é realizado no âmbito doméstico e diz respeito à micro comunidade familiar. As atividades são realizadas em função da manutenção do lar, da satisfação das necessidades dos membros dessa comunidade e do processo de criação e educação das crianças. Incluem-se tarefas relativas à limpeza e organização, preparação de alimentos e auxílio nos trabalhos de auto conservação, oferecer acesso à escolaridade e acompanhar a lição de casa. O trabalho de cuidados é responsável pelo fornecimento de sentido e pela criação de sentimentos, bem como pela socialização dos indivíduos. Assim, o trabalho familiar humaniza a sociedade, individualiza cada ser nos dá o sentimento de pertencimento. Na família, compreendida aqui como uma série de “relações domésticas de longo prazo, nas quais as crianças crescem e são educadas/criadas199”, e a partir do trabalho doméstico e de cuidados, se formam as bases para a participação saudável na esfera pública e para a cidadania. Dentre suas funções, portanto, destaca-se que o trabalho doméstico prepara os indivíduos para integrar a esfera pública.

196 Rössler, Op. cit., p.139. Tradução livre. No original: a system of social needs in which one is contributing toward that satisfaction of those needs.

197 A mesma noção de reconhecimento de Hegel servirá de base à teoria do reconhecimento de Axel Honneth, que veremos no próximo capítulo.

198 Cf., a esse respeito, principalmente: Fraser, N; Honneth, A. Redistribution or Recognition. A political-

philosophical Exchange. Nova York: Verso, 2003; Honneth, A. Luta por Reconhecimento, citado na nota 81;

Taylor, C. Sources of the Self: the making of modern identity. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1989. 199 Rössler, Op. cit., p.140. Tradução livre. No original: long-term domestic relations in which children grow up and are brought up.

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O trabalho familiar no sentido descrito obviamente não é apenas um prazer privado, mas abrange serviços necessários à sociedade, visando à sua reprodução biológica e simbólica. A questão, então, é: ele deveria ser remunerado200?

2.2.2. Reconhecimento e remuneração – debatendo com a perspectiva da remuneração