2. AS DIFERENTES RACIONALIDADES DOS TRABALHOS DOMÉSTICO E
3.2. Nancy Fraser e o modelo avaliativo das políticas sociais
3.2.4. Críticas ao modelo da Cuidadora Universal
Enquanto Nancy Fraser trabalha o conteúdo programático das políticas pró-equidade de gênero, Kevin Olson, em seu texto Recognizing gender, redistributing labor, a mais articulada crítica ao modelo feminista do Estado de bem-estar social construído pela autora, preocupa-se em dar um passo teórico, demonstrando que as bases para esse projeto não foram suficientemente definidas – ou melhor: que as bases definidas para o desenvolvimento do projeto equitativo não são suficientes para sua concretização completa. Dividiremos sua crítica entre a análise da insuficiência do modelo de Fraser e as propostas para sua extensão adequada, através dos conceitos de agência cultural, capacidade e sociedade culturalmente justa.
No primeiro ponto, Olson destaca como vantagens do modelo de Fraser a integração entre as perspectivas cultural – através do reconhecimento – com a preocupação com uma justiça distributiva. Assim, diferentemente da maior parte das formulações prévias a After the Family Wage, o modelo da Cuidadora Universal é sensível aos efeitos simbólicos do Estado de bem-estar social, escapando de visões economicistas que depositam na redistribuição a solução absoluta para os problemas sociais das mulheres. Com uma visão universal de cidadania, o modelo escapa de categorizações de gênero e enfraquece a conexão entre divisão do trabalho e normas de gênero. A questão, para Olson, é que o modelo parece não encerrar seu objetivo – a equidade de gêneros – na medida em que não se preocupa com
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o meio cultural mais amplo (broader cultural milieu) no qual os Estados de bem-estar estão inseridos. Assim, “desconectar as normas de gênero da divisão do trabalho através de políticas do Estado de bem-estar não os separa completamente318”.
Para compreender o contexto cultural dos welfare states, o autor propõe que se dirija a atenção para o conceito de escolha. Em uma análise dos modelos liberais e socialdemocratas de provisão social, Olson destaca que as escolhas não são meros resultados da livre expressão individual, mas que, ao contrário, elas são, via de regra, determinadas socialmente e culturalmente, além de condicionadas por aspectos da vida e ambiente da pessoa. Dito de outro modo, “as escolhas são importantemente influenciadas pela posição social e pelas normas que se agregam a identidades sociais particulares319”. Assim, conforme o exemplo sueco320, bem explicitado pelo autor, não basta reestruturar o mercado de trabalho e oferecer incentivos para tal, uma vez que o modelo não consegue reajustar a forma como os indivíduos fazem suas escolhas, fundamentada sobre o pano de fundo cultural da sociedade, no qual regras e ideias sobre as diferenças de gênero continuam a estruturar suas possibilidades de vida:
Uma vez que o regime da Cuidadora Universal tiver neutralizado influências econômicas e estruturais, essas escolhas serão ainda parcialmente governadas por normas sociais existentes e vários aspectos da personalidade e do caráter. Porque as disposições são padronizadas por gênero, homens e mulheres reproduzirão, em alguma medida, o pano de fundo cultural de sua socialização. As escolhas que eles fazem, em outros termos, expressarão não apenas o que é racional num sentido apenas referente aos
318 Olson, 2006, p.65. Tradução livre. No original: disconnecting gender norms from the division of labor via welfare policy does not fully separate them.
319 Olson, Op. Cit., p.67. Tradução livre. No original: choices (...) are importantly influenced by social position and the norms that attach to particular social identities.
320 Olson traz a Suécia para demonstrar como a reorganização do mundo do trabalho para uma neutralidade em termos de gênero não é suficiente à transformação dos papeis de homens e mulheres de forma global na sociedade. Para o autor, o caso do país pode ser pensado como uma aplicação incompleta da Cuidadora Universal, válida para fins de análise. Lá, com a implantação do Parental Insurance Act, em 1974, iniciou-se uma política que apoiava fortemente a participação dos homens na criação dos filhos e no trabalho doméstico, com licenças paternidade e reposição quase total do salário, além de garantias de manutenção de posto no retorno do período de afastamento. A articulação da política pública era pensada para que o casal fosse levado “to divide leave between them to take maximum advantage of it” (p.68). Ainda assim, seu sucesso foi apenas parcial: menos da metade dos homens elegíveis fizeram uso de suas licenças e remuneração. Estudos desses resultados demonstraram, segundo Olson, que os papeis sociais e representações culturais tiveram um grande papel nesse sentido: “In sum, a complicated mix of factors determines the gendering of policy use in Sweden. Structural barriers, cultural norms, and economic disincentives interwine to undermine some of the progressive effects of family leave insurance” (p.70).
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interesses daquele indivíduo, mas, igualmente importante, o que significa ser um homem ou uma mulher na sociedade em que vivem321.
Por essa perspectiva, as políticas sociais estariam condenadas a um problema de circularidade, onde o modelo, ao permitir que os indivíduos escolham seu próprio combinado entre trabalho profissional e doméstico), termina por reestruturar a desigualdade, mas não a elimina. Ou seja, “as próprias escolhas e normas culturais que ele espera reconstruir são as que a criam e legitimam322”. A relação dual entre cultura e escolha, aqui, pode ser evitada a partir do conceito de voz (voice), com o qual nos guiaremos às questões seguintes: em que medida os Estados promovem ou reprimem as vozes de seus vários membros? Como esse conceito pode ser emprego num sentido cultural e simbólico para influenciar a manutenção e reprodução das normas de gênero?
É preciso compreender de que modo as normas de gênero – reproduzidas pelo discurso, representação e prática na vida cotidiana – podem ser transformadas. Isso implica, em primeiro lugar, no reconhecimento dessas normas, ou seja, na identificação de normas que são construídas socialmente e que impõem seu peso sobre a vida dos indivíduos, o que “requer habilidades críticas para desmascarar o caráter contingente dessas normas e entender como elas são fixadas pela prática social323” Uma vez reconhecidas, sua transformação
depende da possibilidade do indivíduo de influenciar a construção do mundo social. Esta última é chamada por Olson de “agência cultural” (cultural agency), propriamente definida como “as habilidades críticas, cognitivas e discursivas para atuar como um agente na definição dos termos através dos quais se compreendem os indivíduos e a sociedade324”. Como tal, esse conceito, da obra de Amartya Sen325, pertence ao grupo das capacidades ou “capabilidades” (capability), referentes ao potencial real de um indivíduo – ou grupo, como
321 Olson, Op. Cit., p.71. Tradução livre. No original: Once the universal caregiver regime has neutralized economic and structural influences, those choices will still partly be governed by existing social norms and various aspects of personality and character. Because dispositions are patterned by gender, men and women will to some extent reproduce the cultural background of their socialization. The choices they make, in other words, will express not only what is rational in a self-interested sense, but equally importantly, what it means to be a man or a woman in their society.
322 Olson, Op. Cit., p.72. Tradução livre. No original: the very choices and cultural norms it hopes to reconstruct are the ones that enact and legitimate it.
323 Olson, Op. Cit., p.74. Tradução livre. No original: requires critical abilities to unmask the contingent character of such norms and understand how they are fixed in place by social practice.
324 Olson, Op. Cit., p.75. Tradução livre. No original: the critical, cognitive, and discursive abilities to act as an agente in defining the terms through which oneself and one’s society are understood.
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prefere nosso autor – de se engajar em alguma atividade ou de ser um tipo específico de pessoa. Esse potencial é dividido em dois aspectos, um focado no indivíduo (agent-rooted aspect) e um focado nas instituições e estrutura social (structural and institutional aspect). O primeiro diz respeito aos seus talentos e competências, que determinam suas possibilidades de realizar seus objetivos, enquanto que o segundo refere-se às condições sociais e estruturais oferecidas a esse indivíduo para realizar tais intentos.
Olson, além de tratar o conceito pela perspectiva dos grupos, também fará dele um uso mais abstrato do que Sen, definindo, para seu trabalho, que “o conceito é centrado no que chamaríamos de oportunidades epistêmicas e discursivas – suas oportunidades reais de atuar como um agente em processos de construção do conhecimento326”. Ele define, então, que as mulheres têm que lidar com concepções de gênero que influenciam seu cotidiano de modo desvantajoso porque não tiveram participação na formulação das normas que estruturam o mundo social contemporâneo. Isso, na linguagem de Sen, corresponde a um déficit de capacidade. Dito de outro modo, as mulheres dispõem de menos agência cultural que os homens. Nesse sentido, é preciso reconhecer as diferenças e lutar contra o privilégio masculino institucionalizado. Para isso, seriam necessárias capacidades que permitissem a negociação das normas culturais envolvidas e o desenvolvimento de capacidades críticas que permitam o reconhecimento da identidade negligenciada ou marginalizada e de sua relação com outras, privilegiadas. Assim, Olson levanta um novo objetivo normativo a ser perseguido por formulações visando à equidade de gêneros: a igualdade de agência cultural como condição para uma sociedade culturalmente justa. Vejamos mais detalhadamente o que isso significa.
A proposta específica de Kevin Olson, conforme a compreendemos, é que a agência cultural seja incluída dentre os princípios imprescindíveis à equidade de gêneros, sobretudo sendo utilizada como conceito para medir os regimes de bem-estar em termos culturais e sociais, avaliando-os:
326 Olson, Op. Cit., p.75. Tradução livre. No original: the conception focuses on what we would call a person’s epistemic and discursive opportunities – her actual opportunities to act as an agent in processes of knowledge construction.
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A questão trazida por esse conceito é se um determinado grupo de arranjos coloca as mulheres em uma posição melhor para renegociar as normas aplicadas a elas, independentemente de quais são esses arranjos ou como eles seriam institucionalizados327.
Aqui, portanto, o autor adiciona um novo princípio ao sistema desenvolvido por Fraser, segundo o qual as políticas podem ser avaliadas e medidas em seu potencial transformador. A partir desse ponto, então, Olson se move à compreensão detalhada das normas de gênero, intentando chegar a políticas públicas voltadas ao desenvolvimento dessa agência cultural que poderiam preencher as lacunas deixadas por Fraser no modelo da Cuidadora Universal. Na prática, haveriam cinco âmbitos nos quais a relação entre normas de gênero e práticas sociais poderiam ser trabalhadas em busca de arranjos mais igualitários. O primeiro deles é a relação identitária, na qual se determinam os significados sociais de “ser mulher” e “ser homem”. Esses, de acordo com Fraser, pediriam por uma desconstrução desses papeis sociais, “que é provavelmente o resultado agregado de várias formas menores de mudança social328”, abordadas nos próximos pontos (1). O significado das práticas – procedimentos,
implicações práticas de realizar essa atividade, a quem ela é automaticamente endereçada, etc. – pode também ser transformado através de uma ressignificação realizada através do discurso e da negociação. Falamos aqui, evidentemente, de práticas cujas características (dentre as quais, as atribuições de gênero) estão disponíveis cognitivamente, ou seja, são acessáveis e compreensíveis conscientemente pelos indivíduos (2). Em práticas que, ao contrário, resultam da naturalização de papeis, as quais se mantém invisíveis a despeito de sua aplicação costumeira, é necessário proceder uma ressimbolização através da representação. Dito de outro modo, a transformação dessas práticas está sujeita ao questionamento de suas associações e ao realinhamento dessas associações, modificando o significado atribuído a elas (3). Há, ainda, o tipo de norma que está imbricada ao cotidiano, posicionada como obrigatória ou costumeira, e que é reproduzida de forma inconsciente – como a obrigação das mulheres sobre o trabalho de cuidados. Para estas, é necessária uma mudança de hábitos (4). Por fim, algumas normas estão situadas na própria estrutura institucional, seja pela reprodução de associações valorativas ou pela omissão do Estado em
327 Olson, Op. Cit., p.79. Tradução livre. No original: The question posed by this concept is whether a given set of arrangements puts women in a better position to renegotiate the norms applied to them, regardless of what those arrangements are or how they would be institutionalized.
328 Olson, Op. Cit., p.79. Tradução livre. No original: that is likely the aggregate outcome of many smaller forms of social change.
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sua transformação. Bons exemplos são a divisão do trabalho doméstico e profissional, reforçada pelo antigo family wage, e a ausência de regulamentação pública em problemas como a violência contra as mulheres. Em ambos os casos, através de procedimentos diversos, o Estado e o aparato institucional ratifica e reproduz as normas de gênero, reforçando a subordinação das mulheres. Nesse sentido, nada menos que uma reestruturação institucional é necessária, realinhando os interesses institucionais e estruturais em favor de uma perspectiva igualitária (5).
Para observar como isso funcionaria na prática, o autor avalia dois tipos de políticas públicas que intervêm na reprodução das normas de gênero. O primeiro tipo é baseado na jämställdhet, a doutrina sueca de equidade de gêneros, que é ensinada obrigatoriamente nas escolas suecas. A educação voltada à equalização das capacidades dos meninos e meninas desde a juventude é complementada pelo ensino de habilidades críticas e analíticas em um sentido mais amplo, ampliando o potencial de percepções socioculturais em geral. Através do debate e compreensão das normas de gênero que articulam as interações na sociedade, tal medida pode contribuir para a desconstrução dos papeis de gênero de uma forma ampla (1), mas também, chamando atenção para processos mais específicos a partir dos quais essas interações se dão, poderia trabalhar a influência do discurso (2), representação (3) e formação de hábitos (4) na consolidação de normas desvantajosas às mulheres. Essa política, segundo Olson, está centrada na transformação do aspecto individual (agent-rooted) das capacidades.
O caráter estrutural e institucional das capacidades é acessado através de políticas que permitam que as mulheres negociem mais livremente, oferecendo-lhes poder de negociação e margem para mais controle sobre suas vidas – em resumo, por políticas que ampliem sua voz. Falamos aqui, de acordo com Olson, de políticas de equalização de salários e condições de trabalho, bem como de políticas que facilitem a saída (exit) de situações desvantajosas, tais como abrigos para mulheres vítimas de violência e programas de creches em período integral329.
329 É interessante notar como essas políticas se situam como um quarto momento dos direitos conforme caracterizados por Marshall, classificação retomada por Honneth. Depois dos direitos sociais garantidos aos homens adultos no Século XIX, vemos, agora, a “pressão evolutiva” caracterizada por Marshall apontando no
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Renegociar a divisão do trabalho no lar é imprescindível para renegociar os papeis de gênero, uma vez que a articular uma compreensão diferente de quem faz o que articula uma nova noção do que significa ser um homem ou uma mulher num lar específico (cf. item 2). Ao mesmo tempo, realocar o trabalho doméstico transforma a rotina diária e responsabilidades de um casal. Isso, portanto, internaliza novos hábitos, transformando a percepção das pessoas sobre as expectativas colocadas em suas condutas (cf. item 4). Finalmente, aumentar a saída e voz coloca as mulheres em pé de igualdade com os homens, ressimbolizando seus poderes e agências relativos (cf. item 3)330.
O autor destaca, ainda, a importância da participação igualitária na formulação de leis que normatizam e reproduzem as normas de gênero, e da politização de novas áreas. Assim, a presença das mulheres na dimensão política oficial é também essencial, engendrando representações delas como cidadãs capazes (3) e trazendo suas questões identitárias mais fortemente à esfera pública (3). “Maior participação política para as mulheres também pode ajudar a transformas as normas habituais do discurso entre homens e mulheres331” (4).
sentido de consolidar como direitos as políticas voltadas a populações marginalizadas como as mulheres, os negros e os homossexuais, visando à sua plena inserção social e realização de sua cidadania política.
330 Olson, Op. Cit., p.82. Tradução livre. No original: Renegotiating the household division of labor is tantamount to renegotiating gender roles because articulating a different understanding of who does what articulates a new notion of what it means to be a man or a woman in a given household (cf. item 2). At the same time, reallocating domestic labor changes a couple’s daily routines and responsibilities. It thus ingrains new habits, changing people’s perceptions about the expectations placed on their conduct (cf. item 4). Finally, increasing exit and voice place women on a more equal footing with men, resymbolizing their relative power and agency (cf. item 3).
331 Olson, Op. Cit., p.84. Tradução livre. No original: Greater political participation for women could also help to change habitual norms of discourse between men and women.
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CONCLUSÃO
A inquirição que instigou esta dissertação consistia em compreender de que maneira é possível reconhecer o trabalho doméstico. Interessava-nos, então, compreender de que modo um trabalho responsável pela própria formação dos indivíduos, poderia ser tratado como algo irrelevante do ponto de vista da sociedade. Nesse âmbito, a questão implicava em determinar a relevância do trabalho doméstico, isto é, o quanto ele era, de fato, trabalho – com uma porção de esforço equivalente àquelas das atividades que recebem reconhecimento social –, e, enfim, determinar que forma de reconhecimento atenderia às suas particularidades, respeitando, ao mesmo tempo, sua racionalidade específica. Tornou-se claro que a questão levantada era, efetivamente, mais ampla e complexa, com desdobramento que não foram, inicialmente vislumbrados: de fato, a parte do debate que está focada na proposta ou na rejeição da remuneração nos mostra as dificuldades de pensar uma forma de reconhecimento para o trabalho doméstico relacionada a um alvo mais amplo, o de uma contribuição à equidade de gêneros. A autonomia econômica obtida através das pensões – a princípio vistas como um grande avanço na condição das mulheres, liberando- as de relações indesejadas, pois concede poder de negociação dentro do casamento e da família e, além disso, amplia sua possibilidade de autodeterminação – acaba produzindo como efeito objetivo a reafirmação de seu confinamento na esfera privada e, nessa medida, tende a marginalizar as mulheres dos âmbitos de participação na sociedade civil. Ao mesmo tempo, a ênfase na entrada no mercado de trabalho como solução para a desigualdade entre homens e mulheres pressupõe um sistema de trabalho masculino como norma, conformando as vidas das mulheres à biografia tradicionalmente masculina.
Assim, chegamos às teorias que determinam a redistribuição do trabalho doméstico, a partir da diminuição da jornada de trabalho assalariado. Essa proposta está atrelada ao desmantelamento da divisão sexual do trabalho e, assim, parece-nos mais promissora à equidade de gêneros. O modo como essas propostas são construídas, no entanto, simplificam a questão, deixando espaço para que se compreenda a divisão sexual do trabalho apenas como uma “questão de tempo livre”. Assim, essas propostas negligenciam a força dos papeis sociais de gênero construídos historicamente e das determinações sociais como pesos gigantescos sobre os indivíduos. Levando-os em conta, percebemos que homens e mulheres
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dispõem de oportunidades diferentes de realizar suas escolhas, mesmo quando lhes são oferecidas as mesmas oportunidades objetivas. Assim, a redução do tempo de trabalho remunerado não é, isoladamente, suficiente para transformar a divisão sexual do trabalho, redistribuindo as tarefas de acordo com uma perspectiva equânime. É preciso, ao mesmo tempo, reformar as estruturas institucionais que reforçam as distinções de gênero, atribuem papeis e auxiliam na segmentação da sociedade.
Chegamos, assim, ao terceiro capítulo, no qual nos dedicamos aos debates em torno da teoria do reconhecimento de Axel Honneth e Nancy Fraser, além de outras contribuições dos autores. Trata-se, no primeiro caso, de uma fundamentação dos conflitos sociais sobre a busca de reconhecimento identitário, dividido em três esferas (amor, direitos, estima social). O reconhecimento, aqui, é um pressuposto para a construção de identidades saudáveis,