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Comentários gerais sobre as propostas agrupadas sob o tema “Recursos”

4.3 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

4.3.3 Treinamento

4.3.4.1 Comentários gerais sobre as propostas agrupadas sob o tema “Recursos”

As propostas 16 a 19 focam em recursos, em especial recursos humanos (todas as propostas), mas também recursos financeiros (Proposta 19).

A importância dos recursos humanos é destacada por todos os autores utilizados como referência no Capítulo 2, Revisão da Literatura. Obadia et al. (2007) lembram que as análises de acidentes em indústrias de tecnologia perigosa têm demonstrado que a segurança depende não somente de fatores técnicos relativos à operação dos processos industriais, mas também de aspectos relacionados a fatores humanos e organizacionais, trazendo a necessidade do desenvolvimento de novas abordagens de gestão da segurança. Cooper (2000) menciona que dentre as inúmeras definições de cultura de segurança organizacional muitas focam na maneira como as pessoas pensam ou se comportam. Choudry et al. (2007) lembra que o ambiente de trabalho e as percepções subjacentes, atitudes, práticas habituais dos colaboradores em todos os níveis (cultura de segurança) influenciarão o emprego e efetivo uso dos recursos, políticas, práticas e procedimentos do sistema de gestão da segurança. Os estudos de Veltri et al. (2013) indicam que a compreensão da segurança e, portanto, da habilidade para melhorar a segurança, cresce quando se considera um contexto organizacional mais amplo, e que um atributo crítico do sistema de gestão não é a existência do sistema em si, mas o fato da organização focar nele e esperar que seja seguido, ou seja, a atitude com relação ao sistema.

A AIEA esclarece que ‘cultura da segurança’ diz respeito tanto à organização como aos indivíduos e, desta forma, refere-se à estrutura, mas também a atitudes (IAEA, 2007). Atitude, para a AIEA, são os sentimentos, opiniões, maneiras de pensar, percepções, valores, comportamentos e interesses de um indivíduo, que permitem que um trabalho ou tarefa seja realizado com sua melhor habilidade; não são ensinadas diretamente e são, em parte, consequência da cultura organizacional (IAEA, 2013).

Beckmerhagen et al. (2003) menciona que o sistema de gestão de segurança fornece um meio que a organização pode usar para promover e apoiar uma cultura de segurança forte, posto que o sistema molda o ambiente, influenciando comportamentos e atitudes das pessoas em direção à segurança, sendo um de seus objetivos alimentar e apoiar uma forte cultura de segurança, desenvolvendo e reforçando atitudes e comportamentos positivos com relação à

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segurança. Mengolini e Debarberis (2007) citam dentre as lições aprendidas em seu estudo a importância do envolvimento do pessoal e motivação através de equipes de melhoria.

O’Connor e Mcneil (2013) destacam, dentre os desafios a serem enfrentados pelo Departamento de Energia dos EUA, a imprevisibilidade orçamentária, problemas com a contratação e desenvolvimento de recursos humanos com a competência necessária, além da lentidão em aceitar mudanças. Já Germán; Navajas e Silla (2016) mencionam como principais desafios da indústria nuclear espanhola, relacionado à questão organizacional, a mudança geracional e a aprendizagem organizacional.

Considera-se fundamental relembrar, neste tópico, o Princípio Fundamental de Segurança nº 2. Papel do Governo (IAEA, 2006a), o qual estabelece, dentre outras coisas, que as autoridades governamentais devem garantir que o órgão regulador tenha adequada autoridade legal, adequada competência técnica e gerencial, e adequados recursos humanos e financeiros para se desincumbir de suas responsabilidades. No Brasil, o órgão regulador na área nuclear é a CNEN, e a DRS atua como autoridade competente na área de transporte (organização definida pela autoridade legislativa ou executiva para agir em nome de um país em assuntos envolvendo o transporte de material radioativo), devendo dispor de poderes e recursos suficientes para uma regulamentação e execução eficazes (IAEA, 2012b).

Espera-se ainda dos órgãos reguladores que tenham um sistema de gestão de competências integrado a seu sistema de gestão. O sistema de gestão de competência deve abranger um processo para desenvolver e manter as competências necessárias à sua equipe, processo este estabelecido como parte da gestão do conhecimento (AIEA, 2013).

4.3.5 Processos

Proposta 20 – Recomendação: Estabelecer um critério de prioridade para as inspeções,

como por exemplo a dose de radiação sofrida pelos motoristas (quanto maior a dose, mais prioritária seria a inspeção).

Comentário: A carência de recurso humanos e financeiros impõe a necessidade do estabelecimento de critérios de prioridade para a realização das inspeções. Entre os critérios

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possíveis, está o de priorizar empresas cujos motoristas tenham sofrido uma dose maior de radiação.

A maior parte da movimentação de materiais radioativos está relacionada à medicina nuclear e não requer autorização e inspeção por parte do Grupo de Transporte. Outro tipo de operação de transporte de material radioativo, este sim requer autorização e inspeção, relaciona- se a serviços de radiografia industrial. Existem 82 empresas especializadas em ensaios não- destrutivos, autorizadas a realizar este tipo de transporte, segundo o site da CNEN. Estas realizam uma grande quantidade de operações, como testes de solda em tubulações. Segundo o Coordenador do Grupo de Transporte, considerando as grandes distâncias e número de operações realizadas anualmente, seria aconselhável a realização de ao menos uma inspeção em cada uma destas empresas, a cada três anos, mas nenhuma é realizada. O Grupo conta com dois inspetores, que conseguem realizar seis inspeções programadas por ano (surgem outras não programadas durante o ano). Em 2016, foram programadas cinco inspeções, mas apenas uma foi realizada, por falta de aprovação das demais. O critério de prioridade por magnitude da dose pode ser suportado por uma das seções da lista de verificação, que trata do controle dosimétrico das pessoas envolvidas nas operações de transporte.

Proposta 21 – Recomendação: Estabelecer regras mais claras sobre responsabilidade

na segurança do transporte a serem incluídas em contratos firmados entre transportadora habilitada e suas subcontratadas.

Comentário: Segundo informado pelo Coordenador do Grupo, em se tratando de transporte realizado em três etapas (terra-ar-terra), ocorre de a transportadora habilitada pelo Grupo de Transporte realizar a primeira etapa (produção até aeroporto de origem) e subcontratar a terceira e última (aeroporto de destino até destino final). A transportadora subcontratada via de regra não é habilitada pelo Grupo, que também não tem recursos para realizar estas inspeções. Faz-se necessário, portanto, exigir das transportadoras habilitadas a inclusão de regras de responsabilidade, em eventuais contratos com empresas subcontratadas, que garantam a segurança do transporte até o destino final.

Proposta 22 – Recomendação: Elaborar e formalizar procedimento a ser seguido

quando da identificação de tendência a ultrapassar limites de doses definidos pela regulamentação.

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Comentário: Segundo o Coordenador do Grupo de Transporte, faltam avaliações mais profundas de eventuais tendências em extrapolar os valores definidos na regulamentação, sob a ótica do princípio de otimização da proteção radiológica. Em uma inspeção, uma das seções da lista de verificação trata do controle dosimétrico das pessoas envolvidas nas operações de transporte, mas, apesar do controle, não há procedimento formal a ser seguido quando da identificação de tendência a ultrapassar os limites permitidos pela regulamentação nem procedimento tratando de medidas corretivas, quando os limites são efetivamente ultrapassados.