2 ANTES DE LEVAR AO FOGO, ESSENCIAL: COMPREENDER A COMIDA COMO EXPRESSÃO CULTURAL
2.2 COMIDA COMO PATRIMÔNIO
Introduzir aqui algumas reflexões sobre a patrimonialização alimentar é de grande pertinência, não apenas no sentido de complementar as discussões já iniciadas na primeira parte deste capítulo, mas também para pensar as possibilidades do Barreado enquanto patrimônio imaterial.
Deve-se mencionar que a 10ª Superintendência Regional do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), a do Paraná, está conduzindo a segunda fase do Inventário de Referências Culturais (INRC) no município de Paranaguá. Segundo informações fornecidas por Hélina S. de Souza Baumel (2008), Chefe da Divisão Técnica da Superintendência, responsável pelo projeto do INRC, para a execução das atividades foi contratada a empresa Traço Cultural que também realizou a primeira fase do referido INRC. O cronograma inicial prevê que o inventário seja realizado em cinco anos, entretanto esse prazo poderá ser revisto.
A primeira fase foi iniciada em 2007 e consistiu no mapeamento e indicação das referências culturais, sendo que na segunda fase estão previstos o aprofundamento das atividades de pesquisa e análise das referências apontadas na fase anterior. Segundo Baumel (2008), tal inventário é
desenvolvido por fases anuais e em 2008 a prioridade residiu na categoria celebrações, sendo que as demais categorias estabelecidas pela metodologia do INRC deverão ser analisadas na seqüência. Ela explica de que forma o Barreado faz parte de tal inventário: Assim sendo o Barreado é e será objeto do inventário. Na primeira fase foi identificado e cadastrado como uma das referências passíveis de inventariação e consta do rol das próximas fases.
Entretanto, deve-se observar que o objeto do INRC é o município de Paranaguá, e não sendo específico do Barreado (BAUMEL, 2008).
Segundo Hélina o inventário é uma decisão da regional do IPHAN, a Prefeitura de Paranaguá tem participação no desenvolvimento das atividades, pois é considerada fundamental a participação da comunidade e da Secretaria de Cultura local. Sobre o Barreado de forma específica, a responsável comenta:
[...] a análise do Barreado é uma das etapas das fases atual e seguinte, mas não estamos ainda em fase de inclusão em Livro de Registro. Sabemos apenas que após o Encontro Fandango e Cultura Caiçara18, ocorrido em Guaraqueçaba, há um grupo interessado no registro, mas esta solicitação é realizada via Brasília e até o momento a regional não recebeu nada neste sentido (BAUMEL, 2008).
Acredita-se que o Barreado, por conta de suas características, possui grande potencial para ser objeto de um inventário visando sua inscrição no Livro de Saberes do IPHAN, tendo em vista que é entendido aqui como um elemento de patrimônio imaterial. Entretanto, enquanto os estudos que fomentam tal inscrição não são viabilizados, cabe refletir sobre as mudanças na concepção de patrimônio bem como das políticas voltadas para sua proteção, a fim de perceber como se construiu o quadro que terminou por acolher os saberes-fazeres culinários como patrimônio histórico, artístico e cultural do país.
18 O II Encontro de Fandango e Cultura Caiçara aconteceu em Guaraqueçaba de 24 a 27 de julho de 2008 e teve como proposta reunir grupos de Fandango e de outras manifestações ligadas à cultura caiçara, do litoral de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. O evento foi marcado por apresentações, oficinas, mesas-redondas e bailes, contou com a presença de mais de 20 grupos de Fandango das cidades de Guaraqueçaba, Morretes, Paranaguá, Cananéia e Iguape, e foi promovido pela Associação dos Fandangueiros do Município de Guaraqueçaba com patrocínio do Prêmio Avon Cultura de Vida e da Prefeitura Municipal de Guaraqueçaba, com o apoio de diversas instituições das cidades envolvidas (http://www.encontrodeFandango.com.br/site/index.php).
Verifica-se que o debate sobre as concepções e estratégias de proteção do patrimônio cultural tem movimentado historiadores, antropólogos, sociólogos e outros estudiosos brasileiros e estrangeiros há várias décadas, tendo em vista que:
[...] el patrimonio cultural no es un hecho dado, una realidad que exista por si misma sino que es una construcción histórica, una concepción y una representación que se crea a través de un proceso en el que se intervienen tanto los distintos intereses de clases y grupos sociales que integran a la nación, como las diferencias históricas y políticas que oponen a los países19 (ALVAREZ, 2002, p.12).
Argumentando que as políticas voltadas à proteção patrimonial são alteradas de acordo com os conceitos de identidade nacional dos governos que se sucedem no poder, Funari e Pelegrini (2006) observam que a Constituição Federal de 1934 inaugurou a preocupação com o patrimônio cultural brasileiro, declarando impedimentos à evasão de obras de arte do território nacional e introduzindo o abrandamento do direito de propriedade nas cidades históricas mineiras, que posteriormente se tornaria decisivo para a proteção do patrimônio nacional.
Dois anos mais tarde, em 1936, o Ministro de Estado da Educação e Saúde Gustavo Capanema solicitou a Mário de Andrade a elaboração de um anteprojeto de lei visando à salvaguarda do patrimônio cultural brasileiro, e, no mesmo ano entrava em atividade, de forma experimental, o SPHAN, Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O ante-projeto de Mário de Andrade foi preterido em favor do texto de Rodrigo M. F. de Andrade, que deu forma e conteúdo definitivo ao Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937. Este dispositivo legal, como aponta Maria Cecília Londres Fonseca (1997), explicitou os valores que justificam a proteção, pelo Estado, dos chamados “bens móveis e imóveis”, tendo como objetivo resolver a questão da propriedade desses bens, organizando a proteção do patrimônio histórico e artístico nacional e dando base para o início dos processos de tombamento (vide anexo I).
19 “O patrimônio cultural não é fato dado, uma realidade que existe por si mesma, é uma construção histórica, uma concepção e uma representação que é criada através de um processo no qual intervêm tanto os diferentes interesses de classes e grupos sociais que integram a nação, quanto as diferenças históricas e políticas” [tradução livre].
Deve-se mencionar, porém, que o texto adotado possuía uma concepção de patrimônio mais restritiva do que a originalmente pensada por Mário de Andrade, mas, por outro lado, estava voltado para [...] garantir ao órgão que surgia os meios legais para sua atuação num campo extremamente complexo: a questão da propriedade (LONDRES, 1997, p.114), aspecto que consistia no principal entrave à institucionalização da proteção do patrimônio histórico e artístico nacional. Sobre a proposta de Mario de Andrade, a autora esclarece:
[...] no seu anteprojeto Mário de Andrade desenvolveu uma concepção de patrimônio extremamente avançada para seu tempo, que em alguns pontos antecipa, inclusive, os preceitos da Carta de Veneza, de 1964. Ao reunir num mesmo conceito – arte20 – manifestações eruditas e populares, Mário de Andrade afirma o caráter ao mesmo tempo particular/nacional e universal da arte autêntica, ou seja a que merece proteção (LONDRES, 1997, p.108)
Nota-se que, neste período, a concepção de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional era baseada nos bens móveis e imóveis de excepcional valor arqueológico ou etnográfico e os processos de tombamento visavam à inclusão em um dos quatro livros existentes: Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico (das coisas pertencentes às categorias de arte arqueológica, etnográfica, ameríndia e popular); Livro do Tombo Histórico (das coisas de interesse histórico e as obras de arte histórica); Livro do Tombo das Belas Artes (das coisas de arte erudita, nacional ou estrangeira) e Livro do Tombo das Artes Aplicadas (das obras que se incluírem na categoria das artes aplicadas, nacionais ou estrangeiras).
No que tange às demais Constituições brasileiras, verifica-se que o tema patrimônio cultural tornou-se uma constante. A Constituição Federal de 1946 inaugurou a preocupação com a proteção de documentos históricos e
20 “A noção de arte no anteprojeto (“arte é uma palavra geral, que neste seu sentido geral significa a habilidade com que o engenho humano se utiliza da ciência, das coisas e dos fatos”) se aproxima da concepção antropológica de cultura. E uma análise de texto do anteprojeto em seu conjunto deixa claro que a ênfase na noção de arte não significa uma posição esteticista. A preocupação em explicitar o que entende por cada uma das oito categorias de arte (arte arqueológica; arte ameríndia; arte popular; arte histórica; arte erudita nacional, arte erudita estrangeira; artes aplicadas nacionais; artes aplicadas estrangeiras) e como elas se agrupariam nos quatro livros do tombo e nos museus correspondentes, indica em Mário uma visão abrangente e avançada para a sua época em relação às noções de arte e de história vigentes, inclusive nos serviços de proteção já existentes na Europa” (LONDRES, 1997, p.108).
reafirmou o que havia sido prescrito na Constituição Federal de 1937. Em 1946 o SPHAN passou a denominar-se Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN). A Constituição Federal de 1967, por sua vez, criou novas categorias de bens a serem preservados, elegendo como patrimônio as jazidas e os sítios arqueológicos, anteriormente classificados apenas como locais de valor histórico.
Fazendo um balanço da chamada “fase heróica” (que corresponde ao período entre 1937 e 1967, quando Rodrigo de Melo França esteve à frente da direção geral do órgão), Maria Cecília Londres (1997) esclarece que prevaleceu nitidamente uma apreciação de caráter estético baseada nos cânones da arquitetura modernista, que terminou por privilegiar a proteção de bens de “cal e pedra”21.
Em 1970 o DPHAN se transformou em Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e a ampliação do conceito de patrimônio deu origem a iniciativas como a criação junto à SEPLAN (Secretaria de Planejamento da Presidência da República) do Programa de Reconstrução das Cidades Históricas (PCH); elaboração da Política Nacional de Cultura pelo MEC em 1975 e a criação do Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC) no mesmo ano.
O CNRC iniciou suas atividades com uma proposta de criar um banco de dados sobre a cultura brasileira, um centro de documentação que utilizasse as formas modernas de referenciamento e possibilitasse a identificação e o acesso aos produtos culturais brasileiros (LONDRES, 1997, p.163), concepção esta que foi sendo reelaborada e ampliada. Progressivamente, foi sendo formulada a idéia de bem cultural, que surgiu como uma alternativa atualizada e mais abrangente à noção de patrimônio histórico (LONDRES, 1997, p.171),
21 Nota-se que tal perspectiva de valorização do patrimônio histórico-arquitetônico identificada no Brasil acompanhava discussões internacionais, como pode ser percebido nas Cartas Patrimoniais até então elaboradas: Carta de Atenas (de 1931, focava na proteção de monumentos de interesse histórico, artístico ou científico pertencentes às diferentes nações);
Carta de Atenas (de 1933, focava no diagnóstico e nas conclusões sobre os problemas urbanísticos das principais e grandes cidades do mundo levantados durante o Congresso Internacional de Arquitetura Moderna em Atenas, no mesmo ano); Recomendação de Nova Delhi (de 1956, versa sobre pesquisas e bens arqueológicos); Carta de Veneza (de 1964, trata da conservação e restauração de monumentos e sítios históricos, baseando-se nas contribuições do Congresso Internacional de arquitetos e técnicos dos monumentos históricos ocorrido em 1964); Recomendação de Paris (de 1964, recomenda medidas destinadas a proibir e impedir a exportação e a transferência de propriedades ilícitas de bens culturais móveis e imóveis) (IPHAN, 2008).
sendo que, dentre tais bens, o CNRC se voltou prioritariamente para aqueles até então excluídos das representações de cultura brasileira construídas pelos demais órgãos oficiais.
Analisando a atuação do Centro, Maria Cecília pondera que a valorização das raízes populares na construção da identidade nacional não constitui a inovação da abordagem do CNRC, algo que alguns modernistas já haviam feito ainda na década de 1930. Entretanto:
O novo na proposta do CNRC era a perspectiva a partir da qual se valorizavam estas manifestações, que não eram apreciadas, via folclore ou etnografia. Tratava-se de revelar um interesse até então não percebido: sua capacidade de gerar valor econômico e de apresentar alternativas apropriadas ao desenvolvimento brasileiro. Era introduzida, assim, uma mediação politicamente relevante entre a cultura popular e o interesse nacional (LONDRES, 1997, p.1972).
Em 1979 ocorreu a fusão IPHAN/PCH/CNRC e foi criada uma nova estrutura, composta pela Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) e um órgão executivo, a Fundação Nacional Pró-Memória em 1979, com o objetivo de driblar os entraves burocráticos e acelerar a captação de recursos para realizar programas e projetos da área de cultura.
Segundo Funari e Pelegrini (2006, p.49), a abertura democrática no país, vivenciada na década de 1980, permitiu o surgimento de revisões teóricas no campo da preservação dos bens culturais e a superação das práticas limitadas à conservação e recuperação apenas da imagem plástica e das feições estilísticas dos conjuntos históricos, pois o reconhecimento de uma vasta gama de bens procedentes, sobretudo, do saber popular alargou a concepção de patrimônio agora assentada na diversidade cultural, étnica e religiosa do país.
Em termos práticos, na década de 1980 a proteção de monumentos isolados, outrora priorizada, foi suplantada pela preservação de espaços de convívio, assim como a recuperação dos modos de viver de distintas comunidades, manifestas, por exemplo, na restauração de mercados públicos e de outros espaços populares (FUNARI e PELEGRINI, 2006, p.49).
Em 1985 foi elaborada a Declaração do México, durante a Conferência Mundial sobre as Políticas Culturais promovida pelo ICOMOS, Conselho Internacional de Monumentos e Sítios. Neste documento a educação e a cultura são apontadas como essenciais para o verdadeiro desenvolvimento do indivíduo e da sociedade e é enfatizada a necessidade de estreitar a colaboração entre nações para garantir o respeito ao direito dos demais e assegurar o exercício das liberdades fundamentais do homem e dos povos, e do seu direito à autodeterminação. No mesmo texto, é apresentado o seguinte conceito de patrimônio cultural:
O patrimônio cultural de um povo compreende as obras de seus artistas, arquitetos, músicos, escritores e sábios, assim como as criações anônimas surgidas da alma popular e o conjunto de valores que dão sentido à vida. Ou seja, as obras materiais e não materiais que expressam a criatividade desse povo: a língua, os ritos, as crenças, os lugares e monumentos históricos, a cultura, as obras de arte e os arquivos e bibliotecas (IPHAN, 2008).
Esta visão mais ampla de patrimônio cultural também deu base à Constituição Federal de 1988, que no artigo 21522, reafirmou a ação em prol do patrimônio cultural, no sentido de apoiar, incentivar e proteger as manifestações das culturas populares indígenas e afro-brasileiras ou de quaisquer outros segmentos étnicos nacionais, propondo, inclusive, a fixação de datas comemorativas concernentes aos respectivos interesses, bem como estabeleceu um Plano Nacional de Cultura de duração plurianual para dar conta de tais objetivos.
O artigo 216 da Carta Magna23 define como integrantes do Patrimônio Cultural Brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados
22 Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. §1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional. §2º A lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais. § 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do poder público que conduzem à: I - defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro; II - produção, promoção e difusão de bens culturais; III - formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões; IV - democratização do acesso aos bens de cultura; V - valorização da diversidade étnica e regional (BRASIL, 1988).
23 Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à
individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira (BRASIL, 1988).Neste conjunto de bens se incluem:
I- as formas de expressão; II - os modos de criar, fazer e viver;
III -as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico (BRASIL, 1988).
Este artigo também estabelece que o poder público, com a colaboração da comunidade, deverá promover e proteger o patrimônio cultural brasileiro por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, além de outras formas de acautelamento e preservação. Neste sentido, tal dispositivo – juntamente com outras discussões que se deram nos planos internacional e nacional 24 - foi fundamental para a criação de um novo memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I - as formas de expressão; II- os modos de criar, fazer e viver; III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.
§1º O poder público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preservação.
§ 2º Cabem à administração pública, na forma da lei, a gestão da documentação governamental e as providências para franquear sua consulta a quantos dela necessitem.
§ 3º A lei estabelecerá incentivos para a produção e o conhecimento de bens e valores culturais.
§ 4º Os danos e ameaças ao patrimônio cultural serão punidos, na forma da lei.
§5º Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos.
§6º É facultado aos Estados e ao Distrito Federal vincular a fundo estadual de fomento à cultura até cinco décimos por cento de sua receita tributária líquida, para o financiamento de programas e projetos culturais, vedada a aplicação desses recursos no pagamento de: I - despesas com pessoal e encargos sociais; II - serviço da dívida; III - qualquer outra despesa corrente não vinculada diretamente aos investimentos ou ações apoiados (BRASIL, 1988).
24 Pode-se citar aqui a Recomendação de Paris de 15 de novembro de 1989 (que ressaltava a importância da cultura tradicional e popular e argumentava em favor de sua salvaguarda); a Carta de Fortaleza de 14 de novembro de 1997 (produto do “Seminário Patrimônio Imaterial:
Estratégias e Formas de Proteção” promovido pelo IPHAN, documento que argumenta que os bens de natureza imaterial deveriam ser objeto de proteção específica e que os institutos de proteção até então em vigor no âmbito federal não tinham se mostrado adequados à proteção do patrimônio cultural de natureza imaterial. Assim, dentre várias recomendações, a Carta indicava a necessidade de um aprofundamento da reflexão sobre o conceito de bem cultural de natureza imaterial, bem como a criação de um grupo de trabalho no Ministério da Cultura, sob coordenação do IPHAN para propor um instrumento legal que tratasse da criação de um instituto jurídico denominado registro voltado especificamente para os bens de natureza imaterial); e a Carta de Mar Del Plata sobre Patrimônio Intangível de 17 de junho de 1997 (que
instrumento de preservação do país: o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial, implementado pelo Decreto nº. 3.551/2000, publicado em 4 de agosto de 2000 e desde então em vigor (vide anexo II). Deve-se observar que tal decreto recupera uma concepção ampla de patrimônio, já ensaiada por Mário de Andrade em suas propostas apresentadas na década de 1930.
Assim, o Decreto nº. 3.551/2000 instituiu que o Registro dos Bens Culturais de Natureza Imaterial sempre terá como referência a continuidade histórica do bem e sua relevância nacional para a memória, a identidade e a formação da sociedade brasileira, e poderá ser feito nos seguintes livros: Livro de Registro dos Saberes (onde serão inscritos conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades); Livro de Registro das Celebrações (inscritos os rituais e festas que marcam a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social); Livro de Registro das Formas de Expressão (inscritas manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas) e Livro de Registro dos Lugares (inscritos mercados, feiras, santuários, praças e demais espaços onde se concentram e reproduzem práticas culturais coletivas). No Brasil, para que seja realizado o registro de um bem cultural de natureza imaterial, alguns requisitos precisam ser preenchidos, dentre eles a manifestação formal de anuência com o processo de registro por parte da comunidade envolvida, além do cumprimento das etapas de inventariação e de análise realizadas pelo corpo
Assim, o Decreto nº. 3.551/2000 instituiu que o Registro dos Bens Culturais de Natureza Imaterial sempre terá como referência a continuidade histórica do bem e sua relevância nacional para a memória, a identidade e a formação da sociedade brasileira, e poderá ser feito nos seguintes livros: Livro de Registro dos Saberes (onde serão inscritos conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades); Livro de Registro das Celebrações (inscritos os rituais e festas que marcam a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social); Livro de Registro das Formas de Expressão (inscritas manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas) e Livro de Registro dos Lugares (inscritos mercados, feiras, santuários, praças e demais espaços onde se concentram e reproduzem práticas culturais coletivas). No Brasil, para que seja realizado o registro de um bem cultural de natureza imaterial, alguns requisitos precisam ser preenchidos, dentre eles a manifestação formal de anuência com o processo de registro por parte da comunidade envolvida, além do cumprimento das etapas de inventariação e de análise realizadas pelo corpo