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5 SISTEMAS INTERNACIONAIS DE DIREITOS HUMANOS E O

5.2 Casos nas Cortes Internacionais – Tutela Reflexa na Proteção do Meio

5.2.2 Comissão Interamericana de Direitos Humanos

No âmbito do Sistema Interamericano, o órgão que mais tem emitido relatórios e resoluções que trazem a efetivação a um direito ao meio ambiente sadio e equilibrado é a Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

A exemplo disto, podemos citar o caso Comunidades Indígenas Maia do Distrito de Toledo v. Belize219, que foi submetido à análise da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, sobre a outorga de concessão para explorar recursos naturais em territórios indígenas.

Mais particularmente, os órgãos do Sistema Interamericano de Direitos Humanos têm admitido que os povos indígenas desfrutem de uma relação particular com as terras e recursos tradicionalmente ocupados e usados por eles, daí porque essas terras e recursos são considerados como de propriedade e usufruídos pela comunidade como um todo, do que decorre que o uso e a fruição de terra e de seus recursos são componentes integrais da sobrevivência física e cultural das comunidades indígenas, e, mais amplamente, da efetiva realização de seus direitos humanos.220

Ainda, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, exercendo o seu “direito a consulta”, sobre os direitos dos povos indígenas à propriedade e aos recursos naturais:

[...] a adoção de medidas especiais para assegurar o reconhecimento do interesse particular e coletivo que os povos indígenas têm na ocupação e uso de suas terras e recursos tradicionais; e seu direito de não serem privados desse interesse, exceto com

219 ______. Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Comunidades Indígenas Maia do Distrito de Toledo

v. Belize. Caso 12.053, Relatório n. 40/04, OEA/Ser.L/V/II.122, doc. 5, ver. 1 (2004). Fonte: Associação Interamericana para a Defesa do Ambiente – AIDA. Guia de Defesa Ambiental: construindo a estratégia para o litígio de casos diante do sistema interamericano de Direitos Humanos. AIDA, 2010, p. 57.

220______. Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Comunidades Indígenas Maia do Distrito de Toledo v.

Belize. Caso 12.053, Relatório n. 40/04, OEA/Ser.L/V/II.122, doc. 5, ver. 1 (2004). Fonte: Associação Interamericana para a Defesa do Ambiente – AIDA. Guia de Defesa Ambiental: construindo a estratégia para o litígio de casos diante do sistema interamericano de Direitos Humanos. AIDA, 2010, p. 149.

consentimento plenamente informado, sob condições de igualdade e de justa compensação.221

Vê-se que, mesmo que mencionada a imprescindibilidade daquele meio à sobrevivência da comunidade indígena Maia, o Sistema Interamericano tratou, preponderantemente, o caso como referente aos direitos de propriedade dos povos indígenas.

A violação dos direitos de propriedade dos povos Maia - Mopan e Ke’kchi - do Distrito de Toledo, ao norte de Belize, em seu direito comunal sobre à terra ancestral e seus recursos naturais foi que definiu a situação a seu favor.

A grande questão é que, a violação do direito de propriedade, quando o Estado outorgou concessão para a exploração de madeira e petróleo neste território, resultou em impacto nas terras tradicionalmente utilizadas para habitação e sustento dos povos. O dano ambiental, que, dependendo da área, comprometeu as terras total ou parcialmente, invariavelmente terminou por afetar os membros das comunidades.

Mesmo que possamos embasar o caso, como bem fez a corte, no direito de propriedade dos povos indígenas, claro está também a potencialidade de defesa ambiental do caso sob a perspectiva dos direitos humanos.

Em busca de proteger o meio ambiente sadio e equilibrado, necessário à manutenção da própria vida, poder-se-ia alegar um “direito humano fundamental de meio ambiente para a proteção do direito à vida” daquela comunidade, invocando conjuntamente Direitos Humanos e Direito Ambiental, o direito à vida e o princípio da prevenção e da precaução. Esta abordagem seria suficiente para impedir a outorga de concessão de exploração das terras sem o mínimo de estudo prévio de impacto ambiental.

O reconhecimento do direito ao meio ambiente sadio como um dos direitos humanos decorre da interdependência entre o meio ambiente e a garantia do direito à vida, devendo entender como tal não somente o direito à existência, mas sim a garantia da sadia qualidade de vida, isto é, baseia-se na compreensão de que não há vida saudável e digna sem a garantia de um ambiente ecologicamente equilibrado que lhe sirva de suporte.222 (grifo nosso)

221 Idem Ibidem, p. 117.

222 MOREIRA, Eliane. A proteção do meio ambiente no contexto da atuação das cortes internacionais de Direitos

Humanos. In: DIAS, Jean Carlos; FONSECA, Luciana Costa da. Sustentabilidade: ensaios sobre direito ambiental. Rio de Janeiro: Forense; Belém: CESUPA, 2010, p. 76.

Sobre outros aspectos, a comissão vem incorporando as preocupações com o meio ambiente dentro do contexto do direito ao desenvolvimento. Assim, observa-se que o Estado, em sua soberania, tem o direito de explorar seus recursos naturais, podendo fazer outorga de concessões ou abrindo sua economia e território para investimentos externos. Entretanto, os Estados, apesar de livres para usarem de seus recursos, devem ter parâmetros para implementar de forma adequada qualquer política que venham a adotar, para impedir que problemas ambientais se convertam em violações aos Direitos Humanos.

Em busca de uma implementação de uma doutrina ambiental, a Comissão estabeleceu em seu Relatório sobre a Situação dos Direitos Humanos no Equador:

O respeito pela dignidade inerente à pessoa é o princípio que sustenta as proteções fundamentais ao direito à vida e à preservação do bem-estar físico. Condições de poluição ambiental extrema, que podem levar à serias doenças físicas, debilitação e sofrimento por parte da população local, são incompatíveis com o direito de ser respeitado como ser humano.

... A busca para se evitar condições ambientais que ameacem a saúde humana requer que indivíduos tenham acesso à: informação, participação nos processos decisórios relevantes de tutela jurisdicional.

... O direito doméstico exija que as partes interessadas numa autorização para o desenvolvimento de atividades que possam afetar o ambiente produzam estudos de impacto ambiental e outras informações específicas como uma pré-condição. ... indivíduos devem ter acesso à tutela jurisdicional para reivindicar os direitos à vida, à integridade física e a viver em um ambiente seguro.

... As normas do Sistema Interamericano de Direitos Humanos não impedem nem desestimulam o desenvolvimento; pelo contrário, elas demandam que o desenvolvimento tenha lugar sob condições que respeitem e assegurem os direitos humanos dos indivíduos afetados. Conforme previsto na Declaração de Princípios da Cúpula das Américas: “O progresso social e a prosperidade econômica apenas podem ser sustentados se o nosso povo viver em um ambiente sadio e os nossos ecossistemas e recursos naturais forem geridos cuidadosa e responsavelmente”.223 (grifo nosso).

Vê-se, nitidamente, o estabelecimento do meio ambiente como um direito humano

fundamental e como uma própria extensão do direito à vida. A proteção ao meio ambiente e a

luta pela sustentabilidade, apesar de temas complexos, são determinantes para o desenvolvimento social, cultural e econômico da sociedade contemporânea.

Muitas das demandas que chegam à Comissão são relativas aos direitos indígenas, mas implicações ao Direito Ambiental podem ser claramente visualizadas. Dentro dos direitos indígenas coletivos de propriedade, há a importância de se proteger o ambiente.

223 ______. OEA. Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Relatório sobre a Situação dos Direitos

Em outro exemplo, temos o caso Comunidade de San Mateo de Huanchor e seus Membros v. Peru224. A comunidade alega que houve violação dos direitos da comunidade, em seu território, por atividade de mineração bem como efeitos de poluição ambiental oriunda de deposito de resíduos tóxicos nas proximidades da área de habitação, causando males direitos aos moradores das comunidades.

Constata-se um caminho lógico de causa e efeito: a violação do território pela atividade de mineração causou uma degradação ambiental, que, por sua vez, desencadeou uma crise ecologia, contaminando os recursos naturais próximos, que desenvolveu problemas à saúde pública, o que, indiscutivelmente, é uma violação ao direito à vida, uma agressão aos direitos humanos fundamentais daquela comunidade.

A exposição aos refugos minerais que continham resíduos de chumbo e outras substancias nocivas, tornou-se uma crise de saúde pública; a poluição ambiental reverteu-se em danos, possivelmente irreparáveis, às funções neurológicas e ao desenvolvimento psicológico das pessoas expostas. Diante destes fatos, a Comissão deferiu medida cautelar para proteger e resguardar a vida e a integridade física dos membros da comunidade de San mateo de Huanchor.

Há, portanto, uma relação patente entre vida plena e meio ambiente saudável. Não se trata apenas do esgotamento dos recursos minerais, ou da poluição de um rio (que por se tratar de recurso hídrico, é, teoricamente, bio-renovável), ou ainda da aniquilação dos peixes, animais e plantas que compõem aquele ecossistema (apesar de, de forma alguma, negar a imensa importância destes fatores). A visão ambientalista restrita já foi ultrapassada. Falar em ecologia e proteção ambiental significa preservação da vida em si.

Da magnitude das consequências que podem advir de uma imprudência ambiental, cite- se as medidas cautelares imputadas ao Peru pela Comissão: criação de programas de assistência médica para os residentes de San Mateo de Huanchor, especialmente para as suas crianças, buscando identificar aqueles que foram possivelmente afetados pelos refugos minerais, e lhes oferecer cuidados médicos a longo prazo; o tratamento e a transferência dos rejeitos para um

224______. OEA. Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Comunidade de San mateo de Huanchor e

local seguro, onde não ocorressem vazamentos; a realização de um relatório de impacto ambiental; e a participação da comunidade afetada e de seus representantes na implementação das medidas.225

Em 17 de julho de 2012, foi julgada a admissibilidade do Caso dos Moradores do Conjunto “Habitacional Barão de Mauá” (petição P-1073-05). Trata-se o caso de uma petição protocolada em 19 de setembro de 2005, perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos contra a República Federativa do Brasil, alegando sua responsabilidade internacional pela violação dos artigos 1.1, 4, 5, 8 e 25 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos. A petição afirma que o Brasil é internacionalmente responsável pela degradação ambiental e pelo risco para a vida humana, a integridade pessoal e a saúde decorrente da contaminação do solo e do consequente dano ambiental, em detrimento dos moradores do Conjunto Habitacional “Barão de Mauá” (CHBM), dos que trabalharam nas fundações e na construção do CHBM, dos ex-moradores do CHBM e de quem quer que trabalhe ou tenha trabalhado no CHBM (“supostas vítimas”). A petição foi apresentada pelo advogado Aurélio Alexandre Esteimber Pereira Okada, representando todas as supostas vítimas.

Analisada a posição de cada uma das partes, dos peticionários e do Estado demandado, o Brasil, bem como observadas as questões de competência e legitimidade, do esgotamento de recursos internos, e do prazo tempestivo de apresentação de petição, a CIDH considerou:

29. Neste caso, a Comissão Interamericana considera que as alegações são admissíveis nos termos do artigo 4 da Convenção Americana com relação à suposta vítima que morreu como resultado de lesões na explosão de 20 de abril de 2000. Além disso, a CIDH estudará a possível aplicação do artigo 4 na fase de mérito em relação às alegações de que a presumida contaminação constitui uma ameaça direta às vidas dos moradores e de outras pessoas que passaram algum tempo no CHBM. Na etapa de mérito, a Comissão Interamericana examinará adicionalmente o grau em que a presumida contaminação pode ter afetado o uso e gozo da propriedade das supostas vítimas de modo a constituir uma violação do artigo 21 da Convenção Americana. A CIDH também conclui que, se comprovadas verdadeiras, as alegações do peticionário poderiam caracterizar violações dos artigos 5.1, 8 e 25 da Convenção Americana, em concordância com o artigo 1.1 do mesmo tratado, em detrimento das supostas vítimas que foram expostas à degradação ambiental no CHBM. Finalmente, a Comissão Interamericana constata que a presumida falta e/ou manipulação de informações sobre a degradação ambiental do terreno em que o CHBM foi construído e sobre seus efeitos para a saúde e a vida das supostas vítimas poderiam caracterizar uma violação do artigo 13 da Convenção Americana.

30. Em conclusão, a CIDH declara que o peticionário atendeu prima facie aos requisitos estabelecidos pelo artigo 47.b da Convenção Americana no que diz respeito

225 ______. OEA. Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Relatório Anual da Comissão

a potenciais violações de seus artigos 4, 5.1, 8, 13, 21 e 25, em concordância com o artigo 1.1 do mesmo instrumento, conforme detalhado acima.226227

A aceitação de petição com pedido de responsabilização internacional de um Estado, por ter sido colocado em risco a vida humana, a integridade pessoal e a saúde, não são novidades no Sistema Interamericano de proteção dos direitos humanos, entretanto, a recepção de caso versando especificamente de responsabilização por degradação ambiental, como o comprometimento do direito à vida decorrente da contaminação do solo e do consequente dano ambiental aponta para o entendimento da necessidade de proteção do meio ambiente como satisfação necessária e intrínseca à proteção plena dos direitos humanos.

Pelos casos apresentados, temos a esperança de que, neste buraco negro que é a tutela do meio ambiente em nível internacional, pela vinculação da proteção ambiental com os direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais, os organismos e cortes internacionais de direitos humanos poderiam suprir essa carência, e mais, tratar de forma holística a defesa da vida e da dignidade da pessoa humana.

Desta forma, vê-se claramente que quando ações ou medidas protetivas do meio ambiente são tomadas previamente ou de forma mais incisiva, estar-se-ia protegendo os direitos humanos em si. Então, por analogia, se o direito ao meio ambiente for encarado como um direito humanos fundamental, sua tutelabilidade, tanto no âmbito interno de cada país quanto em âmbito internacional, poderá ser melhor alcançada.

226 OEA. Relatório Nº 71/12. Petição P-1073-05. Caso Barão de Mauá. 2012. Disponível em:

<http://www.cidh.oas.org/casos.port.htm>. Acesso em: 26 jun. 2015.