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2 DIREITOS HUMANOS E DIREITOS FUNDAMENTAIS

2.4 Dimensões dos Direitos Humanos Fundamentais

Muitos autores organizam os direitos fundamentais em gerações, categorias de direitos que foram reconhecidos na(s) sociedade(s) em um determinado momento. Esta visão, predominante na doutrina brasileira, vem sendo aceita e reafirmada em várias decisões do Supremo Tribunal Federal.60

Antes de adentrarmos na matéria, vale esclarecer o motivo da utilização da denominação “dimensões” dos direitos fundamentais, e não de “gerações”. Tal terminologia, “gerações”, mais comumente utilizada pela doutrina, é bastante precária, posto que ao se afirmar “gerações

59 DIMOULIS, Dimitri. MARTINS, Leonardo. Teoria Geral dos Direitos Fundamentais. 2. ed. São Paulo:

Revista dos Tribunais, 2009, p. 47.

60 ______. STF. MS 22.164. Rel. Min. Celso de Mello. DJ 17.11.1995, p. 39.206.

______. STF. ADIN 3540. Re. Min. Celso de Mello. DJ 03.02.2006. Vide Ementa. ______. STF. RE 40.7688. Rel. Min. Cezar Peluso. DJ 06.10.2006.

de direitos”, implicaria dizê-los graduais, passando uma idéia que ao evoluir, a nova geração de direitos substitui a antiga, a posterior tomando lugar da anterior.

Sabendo que isto não ocorre, que cada “geração” apenas acresce um rol de direitos já conferidos ao indivíduo ou coletividade, e, mesmo a Constituição Federal incluindo claramente todas as “gerações” de direitos, entendemos por bem denominá-las “dimensões”, em convergência com o pensamento do célebre doutrinador Antônio Augusto Cançado Trindade (já expresso no capitulo anterior sobre direitos humanos), ou mesmo “categorias” ou “espécies”61, posto que são, no mais, diferentes óticas dos direitos fundamentais, não sendo de

forma alguma mutuamente excludentes; são, na verdade, variáveis necessárias à descrição analítica de um conjunto, qual seja, dos direitos fundamentais.

Isto posto, à luz dos ensinamentos do reconhecido doutrinador Paulo Bonavides62, é

bom que compreendamos do que se tratam cada uma das dimensões dos direitos fundamentais.

Os direitos fundamentais de primeira dimensão são os direitos de liberdade. São as liberdades públicas que primeiro constaram no instrumento normativo constitucional (fase inaugural do constitucionalismo Ocidental), quais sejam, os direitos civis e políticos.

São direitos do homem, posto que o indivíduo é o seu titular; direitos subjetivos da pessoa, oponíveis ao Estado, figurando na categoria de status negativo, haja vista imporem resistência ou defesa ante as atividades estatais. A saber: a liberdade (em sentido geral), a segurança, a liberdade de locomoção, a liberdade de expressão, liberdade de associação, liberdade econômica e a propriedade (liberdade de usar e dispor dos bens); e seus corolários: a presunção de inocência, a legalidade criminal, a legalidade processual.

De outra sorte, nascidos de uma concepção de Estado Social e da ideologia antiliberal do século XX, os direitos de segunda dimensão são os direitos sociais, culturais e econômicos, bem como os direitos coletivos ou da coletividade. Fortemente ligados ao princípio da igualdade, estes direitos, que de nenhuma forma negam as liberdades públicas, mas a elas se somam, pregam que todos sejam tratados igualitariamente, exigindo uma atividade positiva do

61 DIMITRI, Dimoulis; MARTINS, Leonardo. Teoria Geral dos Direitos Fundamentais. 2. ed. São Paulo:

Revista dos Tribunais, 2009, p. 31.

Estado, dado necessitarem de determinadas prestações materiais do aparato Estatal, garantias institucionais, e não apenas uma abstenção de ação como ocorre com as liberdades públicas.

Quanto aos direitos fundamentais de terceira dimensão, estes surgem de uma consciência mundial que se instaura no final do século XX. Com teor de humanismo e universalidade, estes direitos dizem respeito não apenas ao indivíduo ou a uma comunidade (coletividade), mas referem-se ao gênero humano como um todo. São, portanto, os direitos de fraternidade e solidariedade: o direito ao desenvolvimento, o direito à paz, o direito ao meio

ambiente, o direito de comunicação, direito à autodeterminação dos povos e o direito de

propriedade sobre o patrimônio comum da humanidade.

O direito ao desenvolvimento, como será mais profundamente analisado em capítulo posterior, foi sustentado, de forma teórica, desde 1972 (Convenção de Estocolmo). Consagrado na Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento, seu artigo primeiro prevê o seguinte:

Artigo 1°. 1 – O direito ao desenvolvimento é um direito humano inalienável em virtude do qual toda pessoa humana e todos os povos estão habilitados a participar do desenvolvimento econômico, social, cultural e político, a ele contribuir e dele desfrutar, no qual todos os direitos humanos e liberdades fundamentais possam ser realizados.

Associando-o ao direito ao meio ambiente, chega-se a um conceito de desenvolvimento sustentável, preocupado não apenas com o crescimento econômico e com o incentivo aos direitos sociais, mas também com a preservação e proteção do meio ambiente.

Por fim, os direitos fundamentais de quarta dimensão compreendem o direito à democracia, o direito à informação e o direito ao pluralismo, os quais, se não assegurados, impossibilitariam uma efetiva proteção ao meio ambiente; isto porque, para se conceber uma vida sustentável, há de se: respeitar e cuidar da comunidade dos seres vivos, melhorar a qualidade de vida humana, conservar a vitalidade e a diversidade do planeta Terra, minimizar o esgotamento dos recursos não renováveis, permanecer nos limites da capacidade de suporte do planeta Terra, modificar atitudes e práticas pessoais, permitir que as comunidades cuidem de seu próprio meio ambiente, gerar uma estrutura nacional para a integração de desenvolvimento e conservação, e construir uma aliança global.63

63 MIRALÉ, Édis. Direito do Ambiente/Doutrina-Prática-Jurisprudência-Glossário. 2. ed. São Paulo: Revista

Ademais, hoje, haja vista a constante reformulação dos conceitos, por assim dizer, que se tem sobre cada direito, podemos vislumbrar o direito ao meio ambiente em cada uma das dimensões dos direitos fundamentais. Aliado ao direito de liberdade econômica e ao direito de propriedade (direitos de primeira dimensão), têm-se o dever ao cumprimento da função social do negócio e da propriedade, função social esta que se vincula, também, à questão ambiental.

A partir de uma perspectiva centrada na sustentabilidade, os direitos precisam ser complementados por obrigações. A mera defesa de direitos ambientais não alteraria o conceito antropocêntrico de direitos humanos. Se, por exemplo, os direitos de propriedade continuarem sendo compreendidos de maneira isolada e separada das limitações ecológicas, eles irão reforçar um antropocentrismo e incentivar um comportamento abusivo. (...).64

Quanto aos direitos de coletividade e igualdade (direitos de segunda dimensão), não há como negar que para que haja igualdade para as comunidades presentes e futuras há de se ter a preservação do meio ambiente como suporte à vida.

Ainda, não haveria como prover todas estas medidas e garantias ambientais sem o amparo de um Estado Democrático que tenha como princípio (administrativo e geral) o direito de informação.

Por todo o exposto, não há que se questionar o meio ambiente como um direito

fundamental; e por sê-lo condição essencial ao estabelecimento da própria vida, igualmente

reconhecê-lo como um direito humano. Desta forma, entendemos o direito ao meio ambiente

como um direito humano fundamental, vinculado e necessário ao direito à vida e à dignidade

da pessoa humana.

Direitos fundamentais do homem constitui a expressão mais adequada a este estudo, porque, além de referir-se a princípios que resumem a concepção do mundo e informam a ideologia política de cada ordenamento jurídico, é reservada para designar, no nível do direito positivo, aquelas prerrogativas e instituições que ele concretiza em garantias de uma convivência digna, livre e igual de todas as pessoas. No qualitativo fundamentais acha-se a indicação de que se trata de situações jurídicas sem as quais a pessoa humana não se realiza, não convive, e, às vezes, nem mesmo sobrevive; fundamentais do homem no sentido de que todos, por igual, devem ser, não apenas formalmente reconhecidos, mas concreta e materialmente efetivados.65

64 BOSSELMANN, Klaus. Direitos Humanos, Meio Ambiente e Sustentabilidade. In: SARLET, Ingo Wolfgang.

Estado Sócio Ambiental de Direitos Fundamentais. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010, p. 75.

3 TRATADOS INTERNACIONAIS DE DIREITOS HUMANOS E DE