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3 TRATADOS INTERNACIONAIS DE DIREITOS HUMANOS E DE

4.1 A Vinculação da Proteção Internacional do Meio Ambiente aos Direitos

4.1.1 O meio ambiente e a interdependência com o direito à vida, o direito à

Quatro anos depois da formulação do direito ao desenvolvimento como um direito humano pela Declaração das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Humano de 1986, o Programa de Desenvolvimento das ONU começou a trabalhar na elaboração de um conceito de desenvolvimento humano.

O marco principal foi o Relatório de Desenvolvimento Humano de 1990, que questionou a satisfatoriedade e adequação de indicadores como o PIB. Passou-se a adotar o IDH – índice de desenvolvimento humano – como novo indicador, o qual levava em consideração: a longevidade (expectativa de vida/saúde), conhecimento (educação) e renda (padrão decente de vida). Logo foram somados a estes mais indicadores de progresso humano, como liberdade humana (a ser almejada, mais adiante, como liberdade política) e avanços no domínio cultural.

Partindo da ideia do IDH, foram cada vez mais se agregando fatores. No Relatório de Desenvolvimento Humano de 1993, o tema central foi a participação popular (social ou pública), e o tipo de desenvolvimento para o qual se estava caminhando ou objetivando, se para um desenvolvimento das pessoas (investimento em capacitação humana); um desenvolvimento para as pessoas (assegurando que o crescimento econômico seja distribuído para todos e de forma justa); ou ainda um desenvolvimento pelas pessoas (dando todos a chance de participar). As pessoas passam a ser o centro das mudanças político-econômicas, e adota-se um paradigma de um desenvolvimento holístico.

Sobre a concretização do direito ao desenvolvimento como um direito humano, a Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento da ONU de 1986 proclamou:

Artigo 1º

1.O direito ao desenvolvimento é um direito humano inalienável, em virtude do qual toda pessoa e todos os povos estão habilitados a participar do desenvolvimento econômico, social, cultural e político, a ele contribuir e dele desfrutar, no qual todos os direitos humanos e liberdades fundamentais possam ser plenamente realizados.

Artigo 6º

2.Todos os direitos humanos e liberdades fundamentais são indivisíveis e interdependentes; atenção igual e consideração urgente devem ser dadas à implementação, promoção e proteção dos direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais.

Artigo 9º

1.Todos os aspectos do direito ao desenvolvimento estabelecidos na presente Declaração são indivisíveis e interdependentes, e cada um deles deve ser considerado no contexto do todo.196

O direito ao desenvolvimento, em todos os seus aspectos, deve ser assegurado pelos Estados, em nível nacional e internacional (cada qual em sua soberania, bem como todos em cooperação internacional) – artigos 3º, 4º, 8º e 10º da Declaração: “Artigo 3º - 1.Os Estados têm a responsabilidade primária pela criação das condições nacionais e internacionais favoráveis à realização do direito ao desenvolvimento”.197

O reconhecimento do direito ao desenvolvimento como um direito humano é apenas um reforço, uma reafirmação, de todos os demais direitos humanos previamente estabelecidos e ainda a agregar os que ainda estão por vir. Nesse sentido, podemos observar a ampliação ou acréscimo de dimensões ao direito humano ao desenvolvimento.

Observa-se, por exemplo, que a Agenda 21, adotada na RIO-92 (Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas - Rio de Janeiro, 1992), preocupou-se, especialmente, com os grupos vulneráveis e a satisfação das necessidades humanas básicas (alimentação, saúde, moradia, educação,...). Neste documento há um capítulo exclusivo sobre combate à pobreza, e este sendo realisticamente encarado como um “problema multidimensionalmente complexo”. Desta conferência também surgiram outros documentos de suma importância, como a Convenção-Quadro sobre Mudanças Climáticas, a Convenção sobre Diversidade Biológica, e a Declaração de Princípios sobre Florestas, todas, apesar de partirem de perspectivas diferentes, enfatizaram a necessidade de medidas para a erradicação da pobreza, e vinculam a degradação ambiental e afetação do meio ambiente como um todo como fator preponderante.

A Declaração de Viena e Programa de Ação adotada pela II Conferência Mundial de Direitos Humanos de 1993, tratou do desenvolvimento sustentável em relação à aspectos distintos de direito internacional de direitos humanos, como o fortalecimento das instituições

196 ONU. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento, 1986. 197 Idem Ibidem.

democrática; ação internacional conjunta para assegurar o bem-estar econômico, social e cultural das populações indígenas; participação plena e igualitária das mulheres em todos os direitos humanos; dentre outros.

Ainda, a Declaração de Viena salientou a inter-relação existente entre Democracia, Desenvolvimento e respeito aos Direitos Humanos, fazendo a advertência que a ausência de desenvolvimento não poderia ser invocada para justificar a simplificação de direitos humanos reconhecidos internacionalmente. Novamente aqui a vinculação da proteção do meio ambiente com os direitos humanos inibiria escusas para a adoção de medidas sob o argumento de problemas mais urgentes e de primeira necessidade.

10.A Conferência Mundial sobre Direitos do Homem reafirma o direito ao desenvolvimento, conforme estabelecido na Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento, enquanto direito universal e inelianável e parte integrante dos Direitos do homem fundamentais.

Conforme estabelecido na Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento, a pessoa humana é o sujeito central de desenvolvimento.

Enquanto o desenvolvimento facilita o gozo de todos os Direitos do homem, a falta de desenvolvimento não pode ser invocada para justificar a limitação de direitos do homem internacionalmente reconhecidos.

Os Estados deverão cooperar entre si para assegurar o desenvolvimento e eliminar os entraves que lhe sejam colocados. A comunidade internacional deverá promover uma cooperação internacional efetiva com vista à efetivação do direito ao desenvolvimento e à eliminação de entraves ao desenvolvimento.

O progresso duradouro no cumprimento do direito ao desenvolvimento requer políticas de desenvolvimento efetivas a nível nacional, bem como relações económicas equitativas e um ambiente económico favorável a nível internacional. 11.O direito ao desenvolvimento deverá ser exercido de modo a satisfazer, de forma equitativa, as necessidades ambientais e de desenvolvimento das gerações presentes e vindouras. A Conferência Mundial sobre Direitos do Homem reconhece que a descarga ilícita de substâncias e resíduos tóxicos e perigosos representa potencialmente uma ameaça séria aos Direitos do homem à vida e à saúde.

Consequentemente, a Conferência Mundial sobre Direitos do Homem apela a todos os Estados que adoptem e cumpram, de forma vigorosa, as convenções em vigor relacionadas com a descarga de substâncias e resíduos tóxicos e perigosos, e que cooperem na prevenção de descargas ilícitas.198199

198 Declaração e Programa de Ação de Viena, 1993.

199 10. The World Conference on Human Rights reaffirms the right to development, as established in the

Declaration on the Right to Development, as a universal and inalienable right and an integral part of fundamental human rights.

As stated in the Declaration on the Right to Development, the human person is the central subject of development. While development facilitates the enjoyment of all human rights, the lack of development may not be invoked to justify the abridgement of internationally recognized human rights.

States should cooperate with each other in ensuring development and eliminating obstacles to development. The international community should promote an effective international cooperation for the realization of the right to development and the elimination of obstacles to development.

Lasting progress towards the implementation of the right to development requires effective development policies at the national level, as well as equitable economic relations and a favourable economic environment at the international level.

11. The right to development should be fulfilled so as to meet equitably the developmental and environmental needs of present and future generations. The World Conference on Human Rights recognizes that illicit dumping

A Declaração e o Plano de Ação da Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Social, de Copenhagen, 1995, teve como objeto três temas centrais: a erradicação da pobreza (origem, alívio e redução), a promoção do pleno emprego e da integração social (principalmente para os grupos em maior desvantagem). Objetivo maior de erradicação da pobreza, através da promoção do “empoderamento” das pessoas (direito à educação)200, com empregabilidade e

integração social, é a busca do respeito aos direitos humanos e o alcance do desenvolvimento humano. Esta Declaração buscou levantar a relação entre direitos humanos e desenvolvimento sustentável, a influência direta entre poluição e degradação ambiental e a degradação social.

Salientamos, ainda, a Conferência das Nações Unidas sobre Assentamentos Humanos (Habitat –II), de Istambul, 1996, teve como foco a problemática dos assentamentos urbanos sustentáveis no mundo urbanizado e do abrigo adequado para todos (o que se configura no direito à moradia) – o direito de todos a um adequado ambiente e standard de vida (alimentação, vestuário, moradia, água e saneamento).

Observa-se que, seja através de expressões como “ambiente”, “meio”, “condições de moradia” ou “meio ambiente” de fato, as questões ambientais foram cada vez mais ganhando espaço no tratamento dos direitos humanos, confirmando a relação direita que um exerce sobre o outro.

Neste sentido assinala a doutrinadora Consuelo Yoshida, que a pobreza pode ser tanto vista como um agente poluidor (que por seus atos violam o meio ambiente de forma abusiva), como também ser a vítima da poluição (uma carência maior da população justamente pela falta de meio ambiente sadio), um sofre pela indigência do outro; mas não deixa escapar a origem semelhante, quando aponta o paralelo entre pobreza e degradação ambiental, destacando que

of toxic and dangerous substances and waste potentially constitutes a serious threat to the human rights to life and health of everyone.

Consequently, the World Conference on Human Rights calls on all States to adopt and vigorously implement existing conventions relating to the dumping of toxic and dangerous products and waste and to cooperate in the prevention of illicit dumping.

200 Sobre o princípio da participação e o “empoderamento” das pessoas para que estas se tornem aptas e hábeis à

contribuição e funcionamento em sociedade, válido e interessante citar o Nobel de economia Amartya Sen, que em seu trabalho “ Desenvolvimento como liberdade”, fala de forma bem compreensiva da necessidade de se tirar os grupos pobres ou de risco da invisibilidade (“teoria da invisibilidade”), posto que apenas “com oportunidades sociais adequadas, os indivíduos podem efetivamente moldar seu próprio destino e ajudar uns aos outros”. (SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 26).

tanto uma quanto a outra, de uma perspectiva ecológica e econômica, são ambas “sintomas de sistema econômico funcionando precariamente”201.

Se a perpetuação da pobreza contribui para a degradação ambiental, e se a falência dos sistemas ambientais inviabiliza a vida digna com os mínimos existenciais, dizer-se proteger a vida, lutar pela dignidade humana, prezar pela saúde e trabalhar pelo desenvolvimento humano, não se poderia excluir da equação o meio ambiente.

4.1.2 Estruturação ou reestruturação para a implementação das normas de direito