Todas as características vantajosas apresentadas sobre as criptomoedas possuem uma feição delicada. Por elas ainda não estarem sujeitas a nenhuma regulamentação e nenhum controle do governo, possuem seu valor definido com base na oferta e demanda, obtendo uma grande volatilidade e uma dificuldade em ser valorada em termos patrimoniais.
Apesar disso, é incontroverso que são bens imateriais dotados de valor econômico. Portanto, elas são, em tese, passíveis de sofrerem com os atos de constrição patrimoniais por via judicial.
74 Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil. Perguntas e Respostas do Imposto de Renda da
Pessoa Física. Ministério da Economia, 2019, p. 183. Disponível em: <http://receita.economia.gov.br/interface/cidadao/irpf/2019/perguntao/perguntas-e-respostas-irpf-2019.pdf> Acesso em 19 abr 2019.
75 Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil. Perguntas e Respostas do Imposto de Renda da
Pessoa Física. Ministério da Economia, 2019, p. 245. Disponível em: <http://receita.economia.gov.br/interface/cidadao/irpf/2019/perguntao/perguntas-e-respostas-irpf-2019.pdf> Acesso em 19 abr 2019.
Conforme exposto anteriormente, o artigo 789 do Código de Processo Civil de 201576
salienta que o devedor responde com todos os seus bens, presentes ou futuros, pelas suas obrigações, ressalvadas as restrições estabelecidas em lei. Sendo assim, pelo fato de as criptomoedas possuírem conteúdo econômico, elas fazem parte do patrimônio do devedor, podendo ser executadas.
Além do mais, não existe uma regra ou lei específica sobre as criptomoedas no ordenamento jurídico brasileiro que afirme que elas não possam ser objeto de constrição patrimonial. O CPC/2015 traz um rol de bens que não podem ser penhorados:
Art. 833 - São impenhoráveis:
I - os bens inalienáveis e os declarados, por ato voluntário, não sujeitos à execução;
II - os móveis, os pertences e as utilidades domésticas que guarnecem a residência do executado, salvo os de elevado valor ou os que ultrapassem as necessidades comuns correspondentes a um médio padrão de vida;
III - os vestuários, bem como os pertences de uso pessoal do executado, salvo se de elevado valor;
IV - os vencimentos, os subsídios, os soldos, os salários, as remunerações, os proventos de aposentadoria, as pensões, os pecúlios e os montepios, bem como as quantias recebidas por liberalidade de terceiro e destinadas ao sustento do devedor e de sua família, os ganhos de trabalhador autônomo e os honorários de profissional liberal, ressalvado o § 2º ;
V - os livros, as máquinas, as ferramentas, os utensílios, os instrumentos ou outros bens móveis necessários ou úteis ao exercício da profissão do executado;
VI - o seguro de vida;
VII - os materiais necessários para obras em andamento, salvo se essas forem penhoradas;
VIII - a pequena propriedade rural, assim definida em lei, desde que trabalhada pela família;
IX - os recursos públicos recebidos por instituições privadas para aplicação compulsória em educação, saúde ou assistência social;
X - a quantia depositada em caderneta de poupança, até o limite de 40 (quarenta) salários-mínimos;
XI - os recursos públicos do fundo partidário recebidos por partido político, nos termos da lei;
XII - os créditos oriundos de alienação de unidades imobiliárias, sob regime de incorporação imobiliária, vinculados à execução da obra.
Poder-se-ia, então, argumentar que a elevada volatilidade de uma moeda virtual tornaria a constrição inofensiva, ao passo que no momento da penhora a avaliação seria de um valor, e no momento da expropriação para a satisfação do débito o valor poderia ser outro.
76 Art. 789 do CPC/2015 – O devedor responde com todos os seus bens presentes e futuros para o
Para Alexandre Antônio Freitas Câmara 77, a volatilidade atrapalha, mas ao se pensar
em um procedimento padrão, essa variação também pode ocorrer, tendo a seguinte solução: caso essa variação seja para mais, será realizada a expropriação e o excedente retorna para o executado; caso ocorra uma variação para menos, é possível aplicar de forma analógica ou extensiva o artigo 852, inciso I, do CPC/2015 78, que permite a expropriação imediata de bens
perecíveis, como seria o caso de uma safra de grãos.
Dessa forma, tem-se uma flexibilização procedimental prevista em lei com a finalidade de garantir a eficácia da determinação judicial e a satisfação da obrigação.
Além desses pontos, é debatida a possibilidade prática de se encontrar as moedas virtuais do devedor. Aqueles que entendem que sua penhora seja ineficaz, assim como Marcelo Lauar Leite, alegam que:
O grande debate a ser travado sobre esse tema diz respeito à efetividade de uma ordem de penhora sobre BTCs, tamanha a complexidade de seus processos de organização, validação e circulação. Em outras palavras, penhorar criptomoeda é, hoje, um ato jurídico exequível? Se a prudência recomenda a ressalva do ‘depende’ na formulação de respostas jurídicas em geral, aqui, estamos diante de um caso potencializado. [...] Por quê? Diferente do que ocorre com a circulação de moedas e valores imobiliários, as criptomoedas padecem de controle de autoridades financeiras ou do mercado de capitais (como o Banco Central e a CVM). Para penhorar BTCs, o magistrado precisaria saber onde eles estão depositados, informação obscura quando (i) inexiste um poder ou intermediador centralizado[...].79
Certamente a existência de um poder centralizado, uma reguladora ou certificadora, facilitaria a busca de bens pelo Poder Judiciário, com o envio de um ofício determinando o fornecimento das informações sobre possíveis bens que o executado venha a ter. Não obstante, é possível realizar a penhora de inúmeros bens que, assim como a criptomoeda, carecem de uma autoridade central, como, por exemplo, joias, obras de arte, vestidos de grife, aparelhos de televisão etc. A penhora desses bens já está consolidada na jurisprudência, posto que possui conteúdo econômico da mesma forma que uma moeda virtual:
77 CANAL PROFESSORA PRISCILLA MENEZES. Entrevista Des. Alexandre Câmara –
Possibilidade de penhora de criptomoedas. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=2s_0g-8tjjA> Acesso em: 20 mai 2019.
78 Art. 852, I do CPC/2015 – O juiz determinará a alienação antecipada dos bens penhorados quando: I
– se tratar de veículos automotores, de pedras e metais preciosos e de outros bens móveis sujeitos à depreciação ou à deterioração.
79LEITE, Marcelo Lauar. Penhora de bitcoins é possível, mas de difícil realização. Consultor
Jurídico, 2017. Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2017-dez-07/marcelo-lauar-execucao-penhora- bitcoins-improvavel> Acesso em: 02 abr 2019.
AGRAVO DE PETIÇÃO – ARGUIÇÃO DE IMPENHORABILIDADE DOS BENS CONSTRITOS – ALCANCE E ESCOPO DA LEI N. 8.009/90. A impenhorabilidade dos bens que guarnecem a residência do executado, assegurada na Lei 8.009/90, não abrange todo e qualquer móvel, posto que o escopo da lei não é amparar o executado de meios legais para se furtar à responsabilização pelos seus débitos, mas garantir-lhe, e à sua família, o mínimo necessário para uma sobrevivência digna. Na hipótese vertente, não afronta aos ditames legais a constrição judicial que recai sobre aparelhos de televisão e home theater, que, embora se mostrem úteis e tragam comodidade à vida doméstica, ao conforto mediano do devedor e de sua família, não se sobrepõem à necessidade de subsistência do trabalhador, revestidos que são os créditos trabalhistas de ínsita natureza alimentar. Agravo desprovido, ao enfoque. (Agravo de Petição nº 0001558-49.2011.5.03.0022 4ª Turma do TRT 3ª Região Rel. Júlio Bernardo do Carmo. Julgado em 02 mai 2012).80
O oficial de justiça, ao entrar em um imóvel, consegue detectar bens materiais como os citados acima com certa facilidade. Contudo, para encontrar moedas virtuais, não seria tão simples. Para isso, teoricamente, duas alternativas são possíveis: o armazenamento virtual ou o armazenamento em disco rígido (hardware).
Na primeira alternativa, havendo informações de que o executado tem o hábito de investir em moedas virtuais, cabe ao Poder Judiciário enviar ofícios às corretoras com o objetivo de obter informações acerca da posse ou não dessas moedas. Esses hábitos, na atualidade, estão muito presentes em redes sociais de modo público, uma vez que seus próprios possuidores têm a intenção de publicá-los com o ensejo de demonstrar poder, riqueza ou até mesmo por ato de vaidade.
Já no segundo caso, quando houver o download das moedas virtuais e realizado o armazenamento em hardware (como pen drives e HDs externos), é possível a determinação de busca e apreensão desses bens para que seja realizada uma varredura à procura de dados que indiquem a posse de criptomoedas.
O desembargador Alexandre Câmara explica que é viável realizar tal busca e apreensão por meio da analogia do artigo 846 do Código de Processo Civil de 2015 81 – a
modalidade de penhora portas adentro –, argumentando que as portas, nos dias de hoje, também são virtuais.
80 Disponível em: <https://www.migalhas.com.br/Quentes/17,MI160403,61044-
Televisao+LCD+e+home+theater+sao+penhoraveis> Acesso em: 26 mai 2019.
81 Art. 846 do CPC/2015 - Se o executado fechar as portas da casa a fim de obstar a penhora dos bens, o
oficial de justiça comunicará o fato ao juiz, solicitando-lhe ordem de arrombamento. § 1 o Deferido o pedido, 2
(dois) oficiais de justiça cumprirão o mandado, arrombando cômodos e móveis em que se presuma estarem os bens, e lavrarão de tudo auto circunstanciado, que será assinado por 2 (duas) testemunhas presentes à diligência.
É advertido, ainda, que se tenha cuidado ao ser determinada a varredura na vida virtual de qualquer pessoa, uma vez que serão encontrados elementos não relacionados à moeda virtual, e sim à privacidade do executado. Assim, aponta-se como solução a decretação de segredo de justiça ao processo durante o andamento da investigação. Após esta ser finalizada e serem colocadas nos autos apenas as partes referentes às criptomoedas, o segredo de justiça é retirado.
Durante o ano de 2017, a 36ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo confirmou a denegação pelo juiz de primeira instância ao pedido de penhora de bitcoins. Tratava-se de um agravo de instrumento contra decisão em processo de execução no qual o exequente indicou as criptmoedas dos executados, de acordo com o artigo 798, inciso II, alínea c 82, cumulado com o artigo 829, § 2º 83, ambos do CPC/2015.
A parte agravante sustentou que a penhora de moedas virtuais é possível, mesmo que sejam bens imateriais, pois exibem conteúdo econômico. Argumentou que a ordem deveria ser emitida para as corretoras de criptomoedas e alegou que a ausência de regulamentação não poderia ser justificativa do indeferimento da penhora. Concluiu afirmando que seu pedido estava em conformidade com o artigo 139, inciso IV do CPC/2015.84 Tal pedido foi indeferido
pelo relator do recurso.
No acórdão foi fixado o entendimento de que o Bitcoin é bem imaterial com caráter patrimonial. Portando, em tese, está sujeito aos atos de constrição. Apesar disso, tanto o juiz de primeiro grau quanto o Tribunal de Justiça entenderam não ser possível acatar o pedido de penhora, como se observa a seguir:
Por se tratar de bem imaterial com conteúdo patrimonial, em tese, não há óbice para que a moeda virtual possa ser penhorada para garantir a execução. Entretanto, a agravante não apresentou sequer indícios de que os agravados tenham investimentos em bitcoins ou, de qualquer outra forma, sejam titulares de bens dessa natureza. Tampouco evidenciado que os executados utilizam moedas virtuais em suas atividades. Como se nota o pedido é genérico e, por essa razão, não era mesmo de ser acolhido. Competia à agravante comprovar a existência dos bens que pretende penhorar, uma vez que não pode admitir o
82 Art. 798, II, c do CPC/2015 – Ao propor a execução, incumbe ao exequente: II – indicar: c) os bens
suscetíveis de penhora, sempre que possível.
83 Art. 829, § 2º do CPC/2015 – O executado será citado para pagar a dívida no prazo de 3 (três) dias,
contado da citação. § 2º - A penhora recairá sobre os bens indicados pelo exequente, salvo se outros forem indicados pelo executado e aceitos pelo juiz, mediante demonstração de que a constrição proposta lhe será menos onerosa e não trará prejuízo ao exequente.
84 Art. 139, IV do CPC/2015 – O juiz dirigirá o processo conforme as disposições deste código,
incumbindo-lhe: IV – determinar todas as medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou sub-rogatórias necessárias para assegurar o cumprimento de ordem judicial, inclusive nas ações que tenham por objeto prestação pecuniária.
envio indiscriminado de ofícios sem a presença de indícios mínimos de que os executados sejam titulares dos bens.85
Para o relator, o ônus da prova da existência dos bens cabe ao exequente. Como ele não teve sucesso em provar que o executado possuía negócios com as corretoras, nem mesmo que essas corretoras trabalhavam com moedas virtuais, o recurso foi desprovido.
Entretanto, não se pode impor ao exequente um ônus do qual ele não pode se desincumbir. Ainda que houvesse uma autoridade central acerca das criptomoedas, seria necessária a emissão de um ofício do Poder Judiciário para que se tivesse acesso às informações solicitadas. O trabalho de identificação de bens do devedor a respeito das moedas virtuais só poderá lograr êxito com o efetivo auxílio do judiciário.
Além da forma processual, não se pode esquecer que a possibilidade do adimplemento de execução com as moedas virtuais também é possível por meio da autocomposição. Nesta, o executado oferece ao exequente que o pagamento da obrigação seja efetuado por meio de criptomoeda. Com o aceite do credor, a transação é realizada, satisfazendo, assim, o crédito.
Portanto, há uma forma concreta de satisfação de créditos com criptomoedas, que é por meio de acordo entre as partes e, em tese, é possível a realização da penhora, desde que se tenha o auxílio do Poder Judiciário.
85 TJSP nº 2202157-35.2017.8.26.0000, Relator: Milton Carvalho, Data de julgamento: 21/11/2016,
5 CONCLUSÃO
O objetivo desse trabalho de pesquisa foi descobrir se há possibilidade do adimplemento de execuções com criptomoedas. Para isso, foi preciso compreender o processo de execução e suas ramificações, bem como entender o que são e como surgiram as criptomoedas.
Foi utilizado, para a elaboração da pesquisa, o método dedutivo, o qual parte de argumentos gerais para alcançar os específicos. Além disso, como método auxiliar, empregou- se o método histórico, levando em consideração o contexto pretérito e atual acerca dos entendimentos quanto ao processo de execução e quanto às criptomoedas.
Na primeira seção dessa monografia, estudou-se o que são as criptomoedas, o contexto histórico de sua criação e sua expansão mundial.
Discorreu-se, também, sobre as principais características do Bitcoin, como a descentralização, a transparência das transações por meio da tecnologia do blockchain, o anonimato e a baixa incidência de taxas nas transações. Ainda nessa seção, analisou-se com mais profundidade as características específicas do blockchain, uma vez que possuem grande influência para compreender o que faz das moedas virtuais uma forma de dinheiro.
Durante o segundo capítulo, desenvolveu-se um estudo sobre o processo de execução e suas ramificações. Primeiramente, dissertou-se sobre o histórico desse procedimento, uma vez que, desde o início dos tempos, o conflito está presente na sociedade civil. A existência de tais conflitos gerou três formas de solucioná-los: a autotutela, a autocomposição e a heterocomposição. A primeira é mais conhecida como “justiça pelas próprias mãos”; a segunda, a qual vem ganhando espaço no direito moderno, tem como base a convergência das partes em busca de um acordo; e a última é a busca a partir de um terceiro pela harmonização entre as partes.
No Brasil, o Estado assumiu a posição de terceiro, a fim de manter a ordem na sociedade, regulamentando os atos e garantindo a aplicação das normas jurídicas à lide.
O novo Código de Processo Civil reconhece duas vias para se realizar a execução forçada: a do cumprimento de sentença e a do processo de execução. O primeiro está inserido na mesma relação processual do processo principal e o segundo é uma relação autônoma, ou seja, é preciso a instauração de um novo processo.
Os títulos extrajudiciais podem ser classificados em particulares – originados de negócio jurídico privado e elaborado pelas próprias partes – ou públicos, constituídos por meio de documento oficial, emanado de algum órgão da administração pública.
Já os títulos judiciais, genericamente, são aqueles oriundos de um processo. Podem ser decisões homologatórias de acordos judiciais ou extrajudiciais, o formal e a certidão de partilha, a sentença arbitral e a sentença penal condenatória.
Entretanto, tais títulos só poderão ser executados se não houver nenhuma nulidade que os atinja. Segundo o artigo 783 do Código de Processo Civil, a execução será nula sempre que se basear em um crédito que não seja líquido, certo e exigível.
A ação executiva no direito brasileiro pode ser de cinco formas: pagar quantia certa para devedor solvente, pagar quantia certa para devedor insolvente (insolvência civil), fazer ou não fazer, dar coisa certa ou incerta, e alimentos. Com base nesses exemplos, fica clara a dependência da execução de atos materiais que tendem a outorgar ao vencedor o bem da vida. Uma das mais utilizadas é a execução que versa sobre uma obrigação pecuniária. Nesta, o Estado possui o papel de sub-rogar-se no lugar do devedor a fim de adimplir a obrigação. Tal medida é concretizada por meio de penhora de bens e de expropriação para a satisfação do crédito.
No último capítulo, relatou-se a questão central do presente trabalho, fazendo-se uma análise das regulamentações sobre as criptomoedas no mundo e de até onde o Brasil avançou em seu uso. Também foi apresentado uma jurisprudência para afirmar que é possível, pelo menos em tese, o adimplemento de execuções com moedas virtuais.
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