3.5 Procedimentos dos processos de execução
3.5.3 Obrigações de pagar quantia certa
A obrigação de pagar quantia certa é aquela em que o cumprimento é realizado por meio da entrega de uma soma de dinheiro. Essa modalidade executiva tem como atos fundamentais a penhora, a alienação e o pagamento. A execução por meio de título executivo judicial, que reconhece a exigibilidade de obrigação de pagar quantia certa, está prevista nos artigos 523 a 527 do CPC/2015. Já a execução por título executivo extrajudicial encontra-se nos artigos 824 a 909.
O cumprimento de sentença referente ao título judicial obedecerá à mesma sistemática quando a condenação for para cumprir prestação em dinheiro, mesmo aquelas advindas de imposição ou sanção legal, sejam de direito público ou privado.
Existe, ainda, a possibilidade de se aplicarem, quando cabíveis, as normas do procedimento de execução de título extrajudicial no procedimento de execução de título judicial, e vice-versa. Um exemplo disso é o que ocorre com as disposições sobre penhora e expropriação de bens, situadas na parte da execução de título extrajudicial que prevalecerão no incidente de cumprimento de sentença por quantia certa. Além disso, as prestações vincendas até o pagamento da obrigação são incluídas no débito a ser satisfeito.
O cumprimento de sentença consiste em uma atividade jurisdicional expropriatória, em que o Estado age se apropriando dos bens do devedor e os transformando em dinheiro para a efetiva satisfação do crédito.
Apesar de esse tipo de procedimento não depender da instauração de uma nova ação, o mandado de cumprimento só será expedido caso o exequente venha a requerê-lo e apresentar, juntamente ao requerimento, o demonstrativo atualizado do crédito. Todavia, o executado não está impedido de comparecer em juízo e oferecer em pagamento o valor que entender devido, apresentando a memória do cálculo.
64 THEODORO JR., Humberto. Curso de Direito Processual Civil – vol. I. Forense, Rio de Janeiro,
Tem-se agora duas possibilidades para o prosseguimento do processo: caso a quantia depositada seja insuficiente, incidirá sobre a diferença multa e honorários, ambos de 10%, seguindo-se para os meios expropriatórios; ou, não havendo oposição do exequente acerca do valor depositado, o magistrado declarará satisfeita a obrigação e extinguirá o processo.65
A multa acima referida está prevista no artigo 523, § 1º do CPC/2015 66, e o devedor
só terá a liberação de seu pagamento se proceder à quitação do débito, acrescido das eventuais custas, ou ao depósito em juízo com a destinação de saldá-lo. Este, quando feito para garantir o juízo e permitir a impugnação, não tem força para liberar o executado de tal sanção.
No que concerne a execução de título executivo extrajudicial, é possível dividi-la em duas formas: a execução por quantia certa contra devedor solvente, regida pelas regras dos artigos 824 a 909 do CPC/2015, e a execução por quantia certa contra devedor insolvente ou insolvência civil, regida pelos artigos 748 a 786 do CPC/1973.
Na segunda forma, o CPC/1973 instituiu o concurso de credores com feição de verdadeira falência civil sob o nome de execução por quantia certa contra devedor insolvente. Por meio do processo executivo concursal, é feita a união de todos os bens do devedor comum em uma massa para responder pelo conjunto de créditos. Contudo, para que esse processo ocorra, é necessário, além do inadimplemento e do título executivo, que haja uma declaração judicial de que o patrimônio do devedor é insuficiente para a satisfação integral de todas as obrigações.
Para isso, é preciso primeiramente ingressar com um processo para que essa insolvência seja declarada. Quando apresentada, seu maior efeito é a perda do direito de administrar os seus bens e dispor deles até a liquidação total da massa.67
Já na primeira forma de execução citada anteriormente, o devedor é solvente, ou seja, o patrimônio ativo dele é maior que o passivo. A execução por quantia certa contra devedor solvente consiste em expropriar tantos bens quantos forem necessários para a satisfação do débito. Nesse caso, é imprescindível o requerimento do credor, mediante petição inicial, para que seja dado início ao processo executório.
Da mesma maneira que ocorre com o título judicial, aqui é essencial que a peça inicial seja acompanhada da memória de cálculo, constando a atualização monetária, os juros, os
65 Art. 526 do CPC/2015.
66 Art. 523, §1º do CPC/2015 – Não ocorrendo o pagamento voluntário no prazo do caput, o débito será
acrescido de multa de dez por cento e, também, de honorários de advogado de dez por cento.
67 Art. 752 do CPC/1973 - Declarada a insolvência, o devedor perde o direito de administrar os seus
termos inicial e final e a especificação do desconto obrigatório realizado, para que o devedor tenha condições de se defender contra pretensões abusivas ou exorbitantes do título e da lei. Além desses documentos, cabe ao exequente indicar bens à penhora.
Deferida a inicial, o órgão judicial providenciará a expedição do mandado consistente em citar o devedor e intimá-lo ao cumprimento da obrigação em três dias, sob pena de penhora. No mesmo mandado, o oficial de justiça terá a responsabilidade de citar o executado e realizar penhora e avaliação. Isto é, depois de decorrido o prazo de três dias do devedor, o oficial verificará em juízo se houve pagamento ou não. Ocorrendo o inadimplemento, procederá à penhora com imediata intimação do executado.
A penhora é o ato executivo e não compartilha a natureza do penhor e do arresto. A penhora não extrai o poder de disposição do executado.68 É por meio dela que o Estado excuta
o processo de expropriação, sendo o primeiro ato de um processo de execução por quantia certa. A regra básica da penhora é que ela só atingirá bens possíveis de alienação e conversão em valor econômico. Apesar disso, há no CPC/2015, no artigo 833, uma enumeração de bens que, mesmo sendo disponíveis por sua natureza, são considerados impenhoráveis. Entre eles estão vestuário e pertences de uso pessoal, vencimentos e salários, livros, máquinas, utensílios e ferramentas necessários ao exercício da profissão, pensões e montepios, seguro de vida e imóvel de residência da família.
Ademais, no artigo 834 são apontados outros casos em que a impenhorabilidade se manifesta, mas em caráter relativo, ou seja, autoriza a exclusão do bem à falta de outros valores econômicos disponíveis como, por exemplo, os frutos e rendimentos dos bens inalienáveis.
Na execução por obrigação de pagar quantia certa, é atribuído ao credor o poder de indicar bens à penhora. No entanto, o devedor possui o direito de impugnar a nomeação, caso esta não obedeça à ordem legal ou não respeite o “modo menos gravoso para o executado”.70
A ordem de preferência legal para a escolha dos bens a serem penhorados encontra-se no art. 835 do CPC/2015 e é endereçada ao exequente. Contudo, se houver desobediência, cabe ao executado a impugnação da escolha feita e o requerimento da substituição do bem.
A penhora de coisas corpóreas é realizada mediante apreensão física, com deslocamento de posse. Porém, há algumas particularidades e cuidados que devem ser observados quando a penhora recair sobre bens incorpóreos ou bens corpóreos de natureza especial, como, por exemplo, penhora de dinheiro em depósito ou aplicação financeira.
68 ASSIS, Araken de. Manual da Execução. Revista dos Tribunais, São Paulo, 2016, p. 911. 70 Art. 805 do CPC/2015.
Somado ao fato de que, na ordem de preferência legal, o dinheiro encontra-se como primeira opção, a penhora online revela-se como o meio mais eficaz para satisfazer o exequente. Apesar disso, nem toda aplicação pode ser considerada como dinheiro disponível – a exemplo das cotas de fundo de investimento –, afinal, estas não têm valor certo nem líquido, por depender de fatos futuros que não podem ser previstos.
Sendo o dinheiro a primeira opção na lista preferencial, a determinação do magistrado para que as instituições financeiras efetuem o bloqueio é feita “sem dar ciência prévia do ato ao executado”.71 O procedimento da penhora de conta bancária tem sido aperfeiçoado com o
tempo, sendo hoje realizado através do Bacen Jud, convênio que o Banco Central mantém com o Poder Judiciário.
A partir desse sistema, é indisponibilizado o valor requerido, sendo que o banco deve especificar onde o numerário ficou constrito. Eventualmente, o valor localizado poderá ser menor que o requisitado. Entretanto, não é admitido que sejam bloqueados valores superiores aos informados na requisição.
Depois de realizada a penhora online, o executado é intimado para se manifestar, no prazo de cinco dias, para comprovar que as quantias indisponíveis são impenhoráveis ou que há indisponibilidade excessiva de ativos financeiros. O exequente terá a chance de se manifestar, observando-se, assim, o princípio do contraditório.
Em seguida, o magistrado deverá decidir; acolhendo a defesa do devedor, determinará o cancelamento da indisponibilidade. Mas, se rejeitada a defesa ou não sendo esta apresentada, a indisponibilidade tornar-se-á penhora e será determinada à instituição financeira a transferência do montante bloqueado para a conta judicial vinculada ao processo.
O processo de execução é encerrado com a efetiva satisfação da obrigação exequenda. Não é a sentença que extingue a execução, ela só reconhece que esta já se encerrou.