Conforme visto, tem-se no Código de Processo Civil de 2015 duas formas de execução: o cumprimento de sentença e a execução propriamente dita, sendo que a principal diferença entre eles é que para o primeiro ocorrer não é necessária a propositura de uma nova ação, enquanto na segunda é preciso.
A expressão “cumprimento de sentença” é considerada genérica, pois o artigo 515 do CPC/2015, onde são enumerados os títulos judiciais suscetíveis a tal providência, não arrola somente as sentenças em sentido estrito. São previstas também as decisões interlocutórias que reconheçam a exigibilidade da obrigação, as quais podem exercer a mesma função de uma sentença.
31 THEODORO JR., Humberto. Curso de Direito Processual Civil – vol. III. Forense, Rio de Janeiro,
Já a execução propriamente dita é um processo novo, com base em títulos extrajudiciais, em que a obrigação constante deverá ser sempre líquida, certa e exigível. Aqui, para chegar à satisfação do direito do credor titular da ação, é necessário um prévio acertamento em sentença.
3.2.2 Pressupostos
O processo de execução realiza pretensões de direito material elaborado pelo credor em desfavor do devedor. A prática da execução forçada é exclusiva do Estado; ao credor cabe somente a possibilidade de requerer ou não a atuação estatal. Com isso, a execução é uma ação e o seu uso é subordinado aos pressupostos e às condições da ação, tal qual no processo de conhecimento. Para Humberto Theodoro Jr., pressupostos processuais são:
aquelas exigências legais sem cujo atendimento o processo, como relação jurídica, não se estabelece ou não se desenvolve validamente. E, em consequência, não atinge a sentença que deveria apreciar o mérito da causa. São, em suma, requisitos jurídicos para a validade da relação processual. São, pois, requisitos de validade do processo.32
Dessa forma, a relação processual deve ser válida desde o seu estabelecimento até o provimento executivo final. Tais pressupostos podem ser classificados como de existência (ou validade) e de desenvolvimento, que são aqueles que possam ser atendidos durante o processo. Outros pressupostos são: a competência do juiz para a causa, a capacidade civil das partes e a sua representação por advogado.
Quanto às condições da ação, estas servem para que o processo tenha seu curso legal mantido até solução final da lide. São consideradas condições da ação a legitimidade das partes e o interesse de agir.
Para o processo de execução forçada, tais condições são mantidas. Contudo, a conferência delas se torna mais fácil, porque a lei só admite o processo de execução quando o credor possuir um título executivo e a obrigação nele contida seja exigível.
Dessa forma, são pressupostos ou condições específicos da execução forçada: o formal, que é a existência de um título executivo, do qual se extrai a liquidez e a certeza da dívida; e o prático, que consiste no inadimplemento da obrigação, comprovando-se a exigibilidade da dívida.
32 THEODORO JR., Humberto. Curso de Direito Processual Civil – vol. I. Forense, Rio de Janeiro,
3.2.3 Princípios
Os princípios não têm a mesma importância em todos os processos, nem são aplicados de modo rígido e linear. Os princípios de maior relevância para o processo de execução e o cumprimento de sentença são: da autonomia, do título, da responsabilidade patrimonial, do resultado, da disponibilidade, da especificidade e do ônus da execução.
Ainda que admitida a execução no mesmo processo, como são os casos do artigo 515 do Código de Processo Civil de 201533, em que desaparece a necessidade da instauração de um
novo processo e simultaneamente a necessidade de autonomia, subsiste a autonomia funcional, mesmo que os atos coercitivos do direito reconhecido no provimento sejam distintos dos atos que foram utilizados no processo de conhecimento. Já perante os casos do artigo 784 do Código de Processo Civil de 201534, tem-se a necessidade da instauração de um processo novo e, por
isso, a autonomia está presente.
33Art. 515. São títulos executivos judiciais, cujo cumprimento dar-se-á de acordo com os artigos previstos
neste Título:
I - as decisões proferidas no processo civil que reconheçam a exigibilidade de obrigação de pagar quantia, de fazer, de não fazer ou de entregar coisa;
II - a decisão homologatória de autocomposição judicial;
III - a decisão homologatória de autocomposição extrajudicial de qualquer natureza;
IV - o formal e a certidão de partilha, exclusivamente em relação ao inventariante, aos herdeiros e aos sucessores a título singular ou universal;
V - o crédito de auxiliar da justiça, quando as custas, emolumentos ou honorários tiverem sido aprovados por decisão judicial;
VI - a sentença penal condenatória transitada em julgado; VII - a sentença arbitral;
VIII - a sentença estrangeira homologada pelo Superior Tribunal de Justiça;
IX - a decisão interlocutória estrangeira, após a concessão do exequatur à carta rogatória pelo Superior Tribunal de Justiça;
X - (VETADO).
§ 1º Nos casos dos incisos VI a IX, o devedor será citado no juízo cível para o cumprimento da sentença ou para a liquidação no prazo de 15 (quinze) dias.
§ 2º A autocomposição judicial pode envolver sujeito estranho ao processo e versar sobre relação jurídica que não tenha sido deduzida em juízo.
34 Art. 784 - São títulos executivos extrajudiciais:
I - a letra de câmbio, a nota promissória, a duplicata, a debênture e o cheque; II - a escritura pública ou outro documento público assinado pelo devedor; III - o documento particular assinado pelo devedor e por 2 (duas) testemunhas;
IV - o instrumento de transação referendado pelo Ministério Público, pela Defensoria Pública, pela Advocacia Pública, pelos advogados dos transatores ou por conciliador ou mediador credenciado por tribunal;
V - o contrato garantido por hipoteca, penhor, anticrese ou outro direito real de garantia e aquele garantido por caução;
VI - o contrato de seguro de vida em caso de morte; VII - o crédito decorrente de foro e laudêmio;
VIII - o crédito, documentalmente comprovado, decorrente de aluguel de imóvel, bem como de encargos acessórios, tais como taxas e despesas de condomínio;
IX - a certidão de dívida ativa da Fazenda Pública da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, correspondente aos créditos inscritos na forma da lei;
A pretensão de executar sempre terá base em um título executivo, seja ele judicial (art. 515, CPC/15) ou extrajudicial (art. 784, CPC/15). O artigo 783 do CPC/2015 coloca que “a execução para cobrança de crédito fundar-se-á sempre em título de obrigação certa, líquida e exigível.” 35 Ademais, se não houver título, há nulidade da ação (artigo 803, I do CPC/2015).36.
Por conta disso, o credor, ao dar ingresso ao processo de execução, é obrigado a invocar e exibir título executivo, sob pena de inépcia da inicial.
De mais a mais, quando é afirmado que toda execução é real, tem-se por objetivo afirmar que, no direito processual civil, a atividade jurisdicional executiva incide, direta e exclusivamente, sobre o patrimônio, e não sobre o devedor. Este deve responder com todos os seus bens presentes ou futuros, salvo as restrições estabelecidas em lei, conforme o artigo 789 do Código de Processo Civil de 2015 37, sendo que, em tal artigo, é assentado o princípio da
responsabilidade patrimonial do executado.
Entretanto, quando o meio executório implica o emprego da coerção pessoal, como será visto a seguir, o caráter patrimonial da execução, apesar de passar a impressão de desaparecimento, apenas abranda-se, de modo que a coerção pessoal se torna uma pressão psicológica que recai sobre o patrimônio.
O princípio do resultado ou da satisfatividade abrange a ideia, segundo Humberto Theodoro Jr., de que toda execução pretende apenas a satisfação do direito do credor correspondente à limitação que é imposta à atividade jurisdicional executiva. A incidência sobre o patrimônio do devedor há de se fazer, em princípio, parcialmente, não atingindo todos os seus bens, mas apenas aqueles necessários para a satisfação da obrigação.
Além disso, uma execução é bem sucedida quando é entregue ao exequente o bem da vida, o objeto da prestação inadimplida, ou é obtido o direito reconhecido no título executivo.
X - o crédito referente às contribuições ordinárias ou extraordinárias de condomínio edilício, previstas na respectiva convenção ou aprovadas em assembleia geral, desde que documentalmente comprovadas;
XI - a certidão expedida por serventia notarial ou de registro relativa a valores de emolumentos e demais despesas devidas pelos atos por ela praticados, fixados nas tabelas estabelecidas em lei;
XII - todos os demais títulos aos quais, por disposição expressa, a lei atribuir força executiva.
§ 1º A propositura de qualquer ação relativa a débito constante de título executivo não inibe o credor de promover-lhe a execução.
§ 2º Os títulos executivos extrajudiciais oriundos de país estrangeiro não dependem de homologação para serem executados.
§ 3º O título estrangeiro só terá eficácia executiva quando satisfeitos os requisitos de formação exigidos pela lei do lugar de sua celebração e quando o Brasil for indicado como o lugar de cumprimento da obrigação.
35 Código de Processo Civil de 2015. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-
2018/2015/lei/l13105.htm> Acesso em 08 mai 2019.
36 Art. 803 do CPC/2015 – É nula a execução se: I – o título executivo extrajudicial não corresponder a
obrigação certa, líquida e exigível.
37 Art. 789 do CPC/2015 – O devedor responde com todos os seus bens presentes e futuros para o
O Código de Processo Civil de 2015, em seu artigo 899 38, prevê a interrupção da alienação no
momento em que o montante da venda dos bens penhorados satisfizer o crédito, ou seja, o princípio do resultado ou satisfatividade implica a alienação, apenas, dos bens necessários para o adimplemento da obrigação.
Ao se fundar o processo de execução no princípio do resultado, da satisfação plena do credor, admite-se a este a livre disponibilidade do processo de execução. Isto é, ele não se acha obrigado a executar seu título, nem se encontra jungido ao dever de prosseguir na execução forçada a que deu início, até as últimas consequências.39 A atividade jurisdicional aqui é
exercida totalmente em favor do atendimento de um direito que já foi reconhecido no título executivo.
Dessa forma, no processo de execução, o Código de Processo Civil de 2015 instituiu em seu artigo 775 40 o direito de o exequente desistir de toda a execução ou de alguma medida
executiva. Tal desistência é semelhante à desistência da ação, no procedimento comum, mas exibe algumas características como, por exemplo, o fato de a anuência ou a resistência do executado ser irrelevante para que ocorra a desistência.
Já o princípio da especificidade afirma que a execução deve ser específica, ou seja, ao credor, na medida do possível, deve ser entregue o que se obteria caso a obrigação fosse cumprida pessoalmente pelo devedor. No entanto, é permitida a substituição da prestação por perdas e danos quando a entrega da coisa devida é impossibilitada ou de recusa da prestação de fato. A especificidade deve ser tamanha que, para Theodoro Jr.:
Nas sentenças que condenam ao cumprimento de obrigações de entrega de coisa e de fazer ou não fazer, a lei determina ao juiz que seja concedida, sempre que possível, a tutela específica. Na hipótese de obrigações de fazer ou não fazer, a sentença, portanto, há de determinar providências concretas para assegurar o resultado prático equivalente ao do adimplemento (art. 497, caput); e no caso de obrigações de dar, a recomendação será de expedição, em favor do credor, de mandado de busca e apreensão ou de imissão na posse, conforme se trate de entrega de coisa móvel ou imóvel (art. 806, §2º). A conversão em perdas e danos somente se dará quando requerida pelo próprio credor, ou quando se tornar impossível a tutela específica (art. 499).41
38 Art. 899 do CPC/2015 – Será suspensa a arrematação logo que o produto da alienação dos bens for
suficiente para o pagamento do credor e satisfação das despesas da execução.
39 THEODORO JR., Humberto. Curso de Direito Processual Civil – vol. I. Forense, Rio de Janeiro,
2017, p. 241.
40 Art. 775 do CPC/2015 – O exequente tem o direito de desistir de toda execução ou de apenas alguma
medida executiva.
41 THEODORO JR., Humberto. Curso de Direito Processual Civil – vol. I. Forense, Rio de Janeiro,
A partir desses princípios, têm-se a ideia de que o processo de execução deve conter um título executivo. Este deve ser certo, a fim de que as medidas para a obtenção da obrigação contida nele sejam adimplidas de maneira eficaz.