3 COMPLEXIDADE E RECONHECIMENTO: UMA
4.1 Como Dédalo, sobrevoando o labirinto
Dédalo, pai de Ícaro, foi condenado, junto com seu filho, à prisão. Eram eles os construtores do labirinto, mas ao rei Minos não agradava a ideia de que os artífices de seu monumento-armadilha expusessem seus segredos para o mundo. Deveriam morrer em reclusão e para isso foram aprisionados em alta torre, tendo por vista sua obra imortal. Dédalo, entretanto, era dotado de inigualável argúcia. Reunindo as penas dos pássaros que em sua masmorra pousavam e unindo-as com cera de abelhas, de uma colmeia ao alcance da janela, o arquiteto construiu para si e para seu filho dois pares de asas. Com esses aparatos, ambos conseguiram fugir. Sobrevoaram longamente o labirinto, desfrutando da visão panorâmica de sua obra, e partiram, enfim, para a Sicília. Sabe-se que Ícaro enamorou-se do sol e acabou morrendo ao tentar dele aproximar-se. Dédalo, embora inconsolável, seguiu caminho. Era a única maneira de salvar-se e salvar a memória do filho morto. Jamais esqueceu a visão do labirinto.
Nesta seção, irei sobrevoar o labirinto. Será uma visão ainda um tanto distante, panorâmica, mas permitirá vislumbrar-lhe os primeiros contornos. São sessenta e dois memoriais que de alguma forma aparecerão aqui para contextualizar a pesquisa. Os sessenta e dois textos que li e analisei ao longo do ano de 2013 e parte de 2014. Nessa contextualização, valho-me de números e gráficos para que a abrangência desse primeiro momento de trabalho torne-se mais perceptível.
Começo delineando a pesquisa realizada entre os três grupos vinculados à Rede Gaúcha de Ensino Superior a Distância. Nesse projeto, estavam ligados à Universidade Federal de Santa Maria os polos de Santa Maria, Sobradinho e Três de Maio, cujas localizações aparecem no mapa da Figura 1.
Figura 1: Polos REGESD
O polo de Santa Maria funciona ainda hoje nas dependências do Núcleo de Tecnologias Educacionais da UFSM. Inicialmente, apenas turmas da REGESD eram atendidas em Santa Maria, cidade sede da universidade, e só mais tarde foi autorizada pela CAPES a abertura de turmas da UAB nesse polo. Sua estrutura é das melhores entre os polos, em termos de recursos tecnológicos. O fato de tratar- se de um grupo formado na cidade da própria universidade, porém, pode dar a ideia de que esses alunos tivessem um acesso presencial mais fácil e constante aos professores do curso, mas isso não é verdade. Em primeiro lugar, a coordenação do curso sempre procurou evitar que o polo de Santa Maria fosse, de alguma forma, beneficiado por essa proximidade. Essa postura visava impedir que alunos de outros polos pudessem ver-se como preteridos ou prejudicados. Em segundo lugar, porque boa parte dos alunos vinculados a esse polo não moravam na cidade: eram residentes em cidades próximas.
Em Santa Maria constituiu-se um grupo relativamente pequeno e que sofreu muito com a evasão. Houve, no polo, inclusive dois raros casos de desligamento de alunas, pois era norma da REGESD que um aluno não poderia reprovar em mais de duas disciplinas, o que acabou acontecendo. Essas alunas, mais tarde, conseguiram reingresso por meio da UAB. A maioria dos alunos desse polo era de professores já
em atuação nas escolas, ainda que em outras disciplinas. Esse é o caso de Panteia, a colaboradora que prestou as informações como representante da turma formada em 2013 nesse polo, professora do Ensino Básico já com vários anos de experiência.
Gráfico 1: Ocorrências no Polo Santa Maria - REGESD
Conforme critérios e limitações já expostos, do polo de Santa Maria obtive apenas dois memoriais. Foram duas alunas que escreveram, juntas, um total de vinte e seis páginas. Em nenhum dos dois textos surgiu qualquer referência a questões envolvendo conflito ou reconhecimento afetivo. Não houve menção de qualquer tipo. Conforme comentei no capítulo sobre metodologia, isso acabou levando-me a convidar as duas alunas para que fossem entrevistadas. Assim como a anomalia não passou despercebida, era preciso encontrar ou, pelo menos, buscar uma explicação para o fato. Das duas alunas, uma, a quem chamo Panteia, respondeu-me. Sua entrevista foi bastante esclarecedora e ficou evidente que as relações humanas de conflito e/ou reconhecimento só não apareceram no seu escrito por conta da temática desenvolvida em seu trabalho.
A então aluna concentrou-se na discussão sobre estratégias de aprendizagem de língua e deu ênfase a seu avanço ao cursar uma disciplina voltada para o uso pedagógico de tecnologias digitais. Também desenvolveu alguns tópicos
Conflito 0% Reconhecimento 0% Ambos 0% Nenhum 100%
a respeito do estágio. Na entrevista, indicou que não achou necessidade de abordar as relações entre si e seus colegas e professores porque isso fugia da proposta que estava desenvolvendo. Pondera que não tocou no assunto: “[...] talvez porque a gente não sentisse que era o momento... eu não senti o momento de relatar a relação afetiva [...]”. Na entrevista, conforme ver-se-á, é possível perceber que Panteia sentiu a presença do reconhecimento afetivo ao longo do curso.
A inexistência de elementos relevantes para esta pesquisa no texto da professora em formação mostrou-se, assim, mero contratempo. Não foi possível identificar nenhum motivo para essa omissão além da simples falta de necessidade de abordar o tema. A entrevista que mais adiante exponho coloca em evidência que o silêncio inicial, ao menos nesse caso, não foi conduzido por outra razão que não a economia narrativa no memorial.
Gráfico 2: Ocorrências no Polo Sobradinho - REGESD
O segundo polo analisado, vinculado à REGESD, foi o polo de Sobradinho. A cidade se originou de uma casa de comércio de secos e molhados fundada na região central do Rio Grande do Sul, em um pequeno sobrado, por um paulista de nome João Lopes, em 1825. Tornou-se município em 1927. Hoje, conta com quase quinze mil habitantes, dos quais, cerca de dois mil e quinhentos são crianças e adolescentes que cursam o Ensino Básico, atendidos por pouco menos de duzentos
Conflito 0% Reconhecimento 50% Ambos 20% Nenhum 30%
professores (BRASIL, 2012). No polo dessa cidade, encontrei dez trabalhos de conclusão de curso, num total de cento e quarenta e três páginas. Dos dez trabalhos, encontrei referências exclusivas a situações de reconhecimento afetivo em cinco. Em outros dois, encontrei referências tanto a situações de conflito quanto de reconhecimento. Nos três restantes, não identifiquei elementos vinculados a esta pesquisa.
Entre os dois trabalhos que abordavam tanto a face da afetividade quanto a do conflito, selecionei aquele em que o tema era abordado com mais ênfase e que, portanto, contava com mais elementos para discussão. Adotei esse procedimento para as demais seleções, conforme esclareci no capítulo sobre metodologia, na expectativa de que, ao enfatizar o tema no TCC, o colaborador/narrador estivesse disposto a aprofundá-lo ainda mais nas entrevistas. A partir dessa seleção inicial, emergiu o nome de Elma, já professora de séries iniciais, em que o tema do conflito, muito especialmente, recobriu-se de cores um tanto lúgubres espalhadas em pinceladas dramáticas:
[...] na minha percepção, o professor responsável por esta disciplina [Espanhol I] era uma pessoa inacessível, tanto como professor quanto como ser humano, e dificultou ao máximo a minha permanência no curso. Na realidade, eu, que estava muito motivada no início da graduação, me decepcionei de tal maneira ao cursar “Espanhol I” que somente agora, durante meu estágio no final do curso, é que estou novamente tendo gosto em aprender e ensinar a Língua Espanhola. (p.9)
Assim, apesar de jamais ter revisto sua impressão com relação a esse professor que considera “inacessível”, conforme confirma em sua entrevista, ao longo dos semestres que se seguiram, ao que parece, a aluna conseguiu superar em parte o que se pode chamar de um trauma inicial. No TCC, Elma explica o motivo:
Tendo passado pela disciplina de “Espanhol I”, encontrei nesta graduação grandes e maravilhosos professores, além de tutores e colegas que me fizeram seguir adiante nos meus estudos. Foram pessoas extremamente humanas, competentes e acessíveis. Grandes indivíduos e ótimos profissionais a quem eu deixo aqui o meu sincero agradecimento. (p.9)
Discutirei mais detidamente essa reavaliação do curso por parte da aluna quando analise sua entrevista.
Ainda no polo de Sobradinho, encontrei material bastante denso em pelo menos um dos sete trabalhos em que a questão da afetividade surgiu. Conforme já esclareci, acabei por selecionar a autora do trabalho para uma entrevista, mesmo já tendo uma representante deste polo, imaginando que sua colaboração poderia ser relevante. A ela, também professora em uma escola estadual, nomeei Flora. Em seu TCC, diz, ao referir-se aos estudos, que “são os relacionamentos que nos motivam” (p.8). Apenas isso seria suficiente para fazer-me interessar por seu trabalho como fonte de informação para minha pesquisa. Ao longo de seu TCC, porém, Flora tem a relação humana na EaD como tema recorrente. Apesar de ser do mesmo polo de Elma e terem cursado juntas as mesmas disciplinas com os mesmos professores, chama atenção o fato de que Flora não faz qualquer menção a qualquer conflito no seu TCC. Quando questionada sobre isso, na entrevista, Flora reafirmou a convivência tranquila e harmoniosa, como menciona no seguinte trecho do memorial: “Todos os professores da Universidade foram amigos e muito pacientes, especialmente com os nossos primeiros passos e acompanharam com muito carinho e dedicação nossa caminhada.” (p.9). E reafirma isso à guisa de conclusão de seu texto, enfatizando a importância dessa qualidade de relação no seu processo de aprendizagem:
Guardaremos o que nos tocou afetivamente, tais como o carinho e atenção dos professores e tutores, a amizade e o companheirismo das colegas e o apoio de nossos familiares, que deixaram de contar com nossa atenção e presença para obtermos mais esta formação e também a realização pessoal. Repito: o que nos moveu foi a afetividade, as emoções; elas nos ensinam, nos fazem viver e é com elas que aprendemos. Estes laços é que fizeram este Curso ser tão especial e realmente valer a pena. (p.12)
Selecionadas as representantes de Sobradinho, fechei os polos vinculados ao projeto REGESD analisando os treze memoriais elaborados pelas alunas de Três de Maio, todas mulheres, num total de cento e noventa e nove páginas. Emancipado em 1954, o município de Três de Maio teve uma trajetória conturbada, como em geral ocorreu nas Missões Jesuíticas, região onde está situado. Ao longo de sua história, esteve vinculado a diferentes cidades, como Santo Ângelo e Santa Rosa, antes de conseguir sua autonomia política. Hoje, tem perto de vinte e cinco mil
habitantes. Seus cerca de trezentos e vinte docentes atendem a um total de aproximadamente três mil e setecentos alunos, entre o Ensino Fundamental e Médio (BRASIL, 2012).
Gráfico 3: Ocorrências no Polo Três de Maio - REGESD
Em cinco dos memoriais analisados no polo dessa cidade, não encontrei menções significativas referentes ao tema deste trabalho, ao passo que em quatro havia material a respeito de reconhecimento afetivo, um a respeito de conflitos e outros três mencionando ambos os aspectos. Escolhi o TCC da aluna chamada aqui de Ida, professora como as anteriores. Mais uma vez, o critério de relevância dada ao tema no memorial foi o que me guiou. Ainda no início de sua exposição, a aluna identifica que “as dificuldades e desafios encontrados no ensino a distância na maioria das vezes é o modo como se estabelecem as inter-relações entre emissor e receptor” (p.8), afirmação que se aproxima do eixo central que move minha preocupação aqui.
Na sequência, a aluna menciona que a comunicação e as relações humanas que se estabelecem na EaD têm natureza distinta daquelas que se constituem numa sala de aula presencial, pois são mediadas por recursos tecnológicos. Para Ida, porém, muito diferente de desumanizar ou criar obstáculos para o estabelecimento de relações sólidas, esses recursos possibilitam “a comunicação em grupo, as
Conflito 8% Reconhecimento 31% Ambos 23% Nenhum 38%
afinidades, a afetividade, as trocas de saberes, enfim, uma mescla de sentimentos que corroboram para que as aprendizagens se tornem significativas” (p.12). E acrescenta:
Esta modalidade, além de facilitar o acesso a uma formação Superior, autônoma, democrática e de qualidade, favorece o estreitamento de laços de afetividade, de interatividade entre grande parte dos envolvidos neste processo. (p.12)
Ainda assim, Ida faz questão de destacar que:
[...] essa relação de afetividade, nem sempre acontece com os professores que elaboram os materiais das disciplinas que serão trabalhados, mesmo sendo eles que organizam as estratégias de ensino. Geralmente essa mediação se destina a um tutor que fica encarregado não só de responder aos questionamentos dos alunos, mas também envolver-se nas interações entre eles. [...] Os tutores têm suprido essa necessidade e feito do curso de EaD, um momento de aprendizagens significativas, momentos de interação que envolvem trocas de saberes, conhecimentos compartilhados e momentos de afetividade. (p.8-9)
Como se vê, Ida dá grande valor ao trabalho dos professores-tutores no que diz respeito a essa relação de afetividade que afirma haver, reservando aos professores-formadores papel mais técnico. Nas entrevistas que coletei, esse ponto de vista é parcialmente corroborado. Professores-tutores são realmente apontados com frequência como protagonistas de situações de reconhecimento afetivo, porém professores-formadores parecem ter grande peso nessas relações, sendo mencionados, inclusive, com maior frequência pela maioria dos entrevistados.
Quatro professoras em formação em língua espanhola pela REGESD, portanto, todas já profissionais atuando na educação, foram convidadas a colaborar com esta pesquisa e cederam parte de seu tempo e de suas memórias para me ajudar a compor o texto final desta tese. Em suas entrevistas, os nomes de alguns professores foram surgindo, os quais elas vincularam a momentos de afetividade ou a momentos de conflito. Esses mesmos professores foram convidados para entrevistas e puderam contar suas respectivas versões dos fatos. Antes de passar a essas entrevistas, porém, é importante dar continuidade a esta seção, descrevendo
as informações colhidas a partir da análise dos trabalhos dos alunos do curso no projeto Universidade Aberta do Brasil.
No total, no que tange ao projeto UAB, analisei trabalhos dos seis polos vinculados à primeira edição do curso: Itaqui, Jaquirana, Quaraí, São Francisco de Paula, São Lourenço do Sul e Tapejara. A localização dessas cidades é contemplada na Figura 2. Foram quinhentas e dezoito páginas analisadas em trinta e sete memoriais. Seguindo a ordem alfabética, começo pelo polo de Itaqui.
Figura 2: Polos UAB
A fronteiriça Itaqui é separada da Argentina pelo Rio Uruguai. O município conta, segundo o último censo, com pouco mais de trinta e oito mil habitantes. Desses, 7619 são crianças e jovens matriculados no Ensino Básico nas cerca de vinte escolas da cidade (BRASIL, 2012). Possivelmente por sua situação geográfica, o município sempre apresentou forte demanda pelo curso de formação de professores de espanhol: das cinco edições do curso até o momento, três turmas foram abertas no polo lá estabelecido. Duas foram concluídas e uma terceira está
em andamento. Para a edição de 2016 do curso, já autorizada pela CAPES, haverá abertura de nova turma.
Gráfico 4: Ocorrências no Polo Itaqui - UAB
Nesse polo, deparei-me com menções constantes a situações de reconhecimento afetivo na EaD. Cinco dos sete trabalhos lidos faziam algum tipo de menção à afetividade estabelecida entre professores e alunos ao longo do curso. Chamou-me atenção especialmente o memorial da aluna a quem chamarei Haidê por sua interessante referência à presença apesar da distância e, em contrapartida, à possibilidade de uma ausência apesar da proximidade, conforme se lê no seguinte trecho:
Tentei propor a formação de um grupo de estudos para que houvesse uma maior colaboração entre os colegas, entretanto, devido a dificuldades de conciliação dos horários de cada um não obtive sucesso na tentativa. Com o passar do tempo, as dificuldades iniciais foram sendo superadas, passei a ser mais dinâmica, mais segura e um fator que considero importante salientar, foi o papel dos professores e tutores, os quais foram incansáveis (com raras exceções) em nos orientar, nos passar segurança, e se fazerem "sempre presentes", apesar da distância. Sempre aguardava com ansiedade os feedbacks de orientação deles. (p. 7)
Conflito 0% Reconhecimento 71% Ambos 0% Nenhum 29%
Como se pode ler, a autora deixa claro que houve exceções, mas seus professores procuravam manter-se presentes não apenas orientando, mas esforçando-se por passar tranquilidade. Ao contrário, seus colegas, que moravam na mesma cidade, faziam-se ausentes. Nem mesmo um grupo de estudos foi possível constituir naquele momento.
Ainda a respeito desse jogo de ausências – em geral, físicas – e presenças – em geral, digitais -, Haidê destaca que esperava “com muita alegria” os encontros presenciais que teve com seus professores. Conforme explicado no capítulo em que tratei sobre a dinâmica do curso, os professores, organizados em escala, fazem uma visita semestral aos polos. Para Haidê, “embora fossem pouco frequentes” esses encontros eram “marcantes e muito proveitosos” porque neles “trocávamos ideias, dividíamos angústias, expectativas” (p.8). Ela deixa claro, entretanto, que via esses encontros como exceção e que no ambiente online, com as interações online, encontrou material – didático e humano – suficiente para seu desenvolvimento no curso, como aluna autônoma, aprendendo com o auxílio de “novas formas de interações” (p.8).
Com a leitura do material de Haidê, à época da escrita e ainda hoje trabalhando como funcionária administrativa de uma escola estadual, recebi uma série de impressões sobre a possibilidade de uma formação pedagógica alimentada por afetividade, mesmo a distância. Já no trabalho de Calidora, que segue, encontrei a outra face.
A segunda cidade vinculada à UAB que visitei em minhas leituras, a da aluna a quem passei a chamar Calidora, foi Jaquirana, uma pequena cidade situada na serra gaúcha com pouco mais de quatro mil habitantes, o que corresponde a praticamente uma décima parte do verificado em Itaqui. Distrito de São Francisco de Paula até 1989, desde sua emancipação tem como uma das principais atividades econômicas o extrativismo madeireiro, no qual boa parcela da população está envolvida direta ou indiretamente. É uma cidade com cinco escolas, sendo três estaduais e duas municipais. Em 2012 contava com um total de sessenta e seis professores para um universo de 832 alunos no Ensino Básico (BRASIL, 2012).
Gráfico 5: Ocorrências no Polo Jaquirana - UAB
Do polo de Jaquirana, encontrei seis memoriais disponíveis na coordenação do curso. Oitenta e oito páginas escritas todas por mulheres. Desses memoriais, quatro contavam com trechos relevantes para minha pesquisa, um narrando situação envolvendo reconhecimento afetivo e três gravitando em torno de conflitos. Um deles, porém, chamou-me a atenção por não abordar exatamente o conflito, mas o que sua autora, Calidora, considerou como falta de afetividade. A aluna, à época de sua formação inicial, era escrevente autorizada em um cartório local e no momento de sua entrevista, no início de 2014, ainda se mantinha em seu trabalho. Em seu TCC, Calidora afirma:
Esperava mais compreensão dos professores. Também sentia falta da afetividade dentro da universidade, para que me sentisse mais segura e, consequentemente, conseguisse superar as dificuldades; sendo assim, quando as relações que ocorrem no contexto escolar são marcadas pela afetividade, há contribuição, de alguma maneira ao desempenho do aluno com relação aos conteúdos e às atividades propostas a serem desenvolvidas. E isso não encontrei muito na universidade. (p. 9)
Como é possível perceber, Calidora começa o trecho dizendo que sentiu falta de afetividade ao longo de seu curso. Ao final, entretanto, modaliza, afirmando que não encontrou “muita” afetividade. Sua preocupação em torno da afetividade em seu texto de conclusão do curso é evidente. Ao longo de todo o escrito ela faz
Conflito 50% Reconhecimento 17% Ambos 0% Nenhum 33%
comparações entre o que viveu na universidade e o que procurou fazer em sua prática de estágio, dando especial ênfase à relação interpessoal com os alunos: “temos que tratar nossos alunos da maneira como gostaríamos de ser tratados” (p.11). Em sua entrevista, Calidora retoma o tema, indicando que, em alguns momentos, percebeu reações “estúpidas” de alguns professores. Mais que a ausência da afetividade, então, percebe-se a situação de conflito. Ainda assim, na