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3 COMPLEXIDADE E RECONHECIMENTO: UMA

3.2 Desfiando a Complexidade

O primeiro passo para que seja possível entender a Teoria da Complexidade é assimilar o simples fato de que não é possível simplificá-la. Essa afirmação pode parecer bastante tola e quase tautológica, mas é relevante se pensarmos que há uma natural tendência do pensamento ocidental em se deixar levar pela lógica cartesiana, a lógica separatista que extrai a parte do todo para procurar entendê-la, sem considerar que este movimento se assemelha aos procedimentos de uma dissecação: arranca-se um braço para entender os mecanismos do corpo, produz-se a morte para tentar compreender a vida.

Dito isso, começo nosso passeio estabelecendo que a moderna Teoria da Complexidade conheceu sua aurora entre os anos 1912 e 1917, pelas reflexões desenvolvidas pelo pensador bielorrusso Alexander Bogdanov. Conforme Capra:

Bogdanov deu à sua teoria o nome de “tectologia”, a partir da palavra grega

tekton (construtor), que pode ser traduzido como “ciência das estruturas”. O

principal objetivo de Bogdanov era o de esclarecer e generalizar os princípios de organização de todas as estruturas vivas e não-vivas. (CAPRA, 2006, p. 51)

Bogdanov foi um filósofo transdisciplinar. Com formação em Medicina e Psiquiatria, desenvolveu experimentos envolvendo transfusões de sangue em busca de uma científica e controlável fonte da juventude. Esses experimentos foram descritos em seu romance de ficção científica Estrela Vermelha, em que projeta uma futurista sociedade utópica em Marte. Nessa obra, mostra-se também precursor do feminismo, descrevendo a mulher em uma posição de igualdade com o homem, capaz de trabalhar e escolher seus parceiros. Isso foi no ano 1908. Bogdanov também foi ativista político, vinculado ao pensamento marxista. Chegou a tornar-se o maior opositor de Lenin dentro do partido bolchevique, até que foi expulso por seu adversário. Essas informações, claro, não estão diretamente ligadas ao pensamento sistêmico, mas servem para dar um vislumbre do caráter e da visão deste pesquisador. Sua ambiciosa intenção, com a Tectologia, era desenvolver uma

ciência que abrangesse “os assuntos de todas as outras ciências” (CAPRA, 2006, p. 51) e desse conta de explicar tanto sistemas vivos como não vivos.

Com esse fito, Bogdanov antecipou os trabalhos de Ilya Prigogine, um dos papas da termodinâmica, falando da crise organizacional, que leva a uma ruptura do equilíbrio sistêmico e a um posterior reequilíbrio. Descreveu, com décadas de antecedência, o que viria a ser o conceito de realimentação ou retroalimentação do sistema (feedback), base da cibernética, desenvolvido por Norbert Wiener somente após a Segunda Guerra Mundial. E, claro, adiantou os trabalhos daquele que passou a ser considerado o pai dos sistemas complexos, Bertalanffy, abordando a abertura dos sistemas a influências externas e estudando seus processos de regulação e autorregulação. Mais tarde, neste capítulo, tratarei de maneira detalhada destes conceitos sob a ótica de Edgar Morin, uma vez que ele lança seu olhar para os fenômenos sistêmicos no contexto social, ressignificando cada um dos princípios, o que é fundamental para entendermos os processos da Educação a Distância da maneira como trabalho nesta pesquisa.

Nos anos 1930, Ludwig Von Bertalanffy, biólogo de nacionalidade austríaca, apresentou em congressos seus primeiros trabalhos sobre sistemas complexos. A construção de sua teoria se desenvolveu por vários anos, durante os quais, além de aprofundar seus estudos, o pesquisador precisou enfrentar as agruras da Segunda Guerra Mundial, que se espalharam de maneira especialmente dura por toda a Europa. Sua criação coroou-se no ano de 1968, quando finalmente conseguiu publicar seu livro intitulado Teoria Geral dos Sistemas. Em nenhum momento ele cita Bogdanov, ainda que seja difícil entender como não teve acesso a uma obra traduzida ao alemão em 1928 e várias vezes revista. Seja como for, antes da revisão realizada por Capra, que dá o devido crédito a Bogdanov, Bertalanffy foi aclamado como criador da teoria que avançava sobre a ciência tradicional no sentido de desenvolver a concepção dos sistemas vivos como sistemas abertos, isto é, sistemas capazes de realizar trocas com o meio-ambiente, realimentando-se, algo que era impensável pela visão mecanicista da ciência, que só percebia um sistema como algo fechado em si mesmo, sem interação com o meio e tendente à entropia, ou seja, à perda de energia e consequente deterioração (BERTALANFFY, 1989). Segundo o autor,

Um sistema pode ser compreendido como um complexo de elementos em interação. A interação significa que os elementos, p, estabelecem relações, R, de tal modo que o comportamento de um elemento p em Ré diferente de seu comportamento em outra relação R’. (BERTALANFFY, 1989, p.56 – tradução minha)

Diferente do trabalho de Bogdanov, sua obra rapidamente ficou conhecida e seus conceitos logo foram extrapolados a outros campos, incluindo as ciências sociais. O próprio autor transitou pela Psicologia e pela Sociologia desenvolvendo discussões sobre a natureza e a interação humana em obras como Robots, Men and

Minds (1967), The Organismic Psychology and Systems Theory (1968) e A Systems View of Man: Collected Essays (1981).

Trilhando caminhos semelhantes aos de Bertalanffy, Humberto Maturana, também biólogo, de nacionalidade chilena, uniu-se a seu aluno e, mais tarde, colega pesquisador, Francisco Varela, para, no ano de 1973, lançar o livro intitulado De

Máquinas y Seres Vivos. Na obra, os estudiosos mantêm como ponto central de sua

pesquisa a grande questão de Bertalanffy: “¿Qué clase de sistema es un ser vivo?”5

(MATURANA e VARELA, 1998, p.11). Esclarece Maturana, em sua introdução à quinta edição do livro, que à época a explicação para essa questão ainda não era suficientemente nítida para ele e que foi na busca de uma resposta que, junto com seu colega, chegaram ao conceito de autopoiesis, palavra grega que designa o processo de autogeração, a capacidade dos seres vivos de gerarem a si mesmos, de se auto-organizarem.

Apesar de aceitar amplamente o conceito de autopoiesis, porém, a teoria desenvolvida por Morin apresenta uma diferença fundamental com relação aos pesquisadores chilenos. Para estes, um sistema vivo é fechado, no sentido de que não pode ser determinado pelo meio-ambiente (MATURANA e VARELA, 1998). Já Morin, com o qual identifico minha pesquisa, utiliza-se dos conceitos da termodinâmica, defendendo que um sistema complexo é aberto, do ponto de vista de que está sempre se autoproduzindo e se autorregulando a partir de sua própria dinâmica interna, mas sempre influenciado pela interação com o meio. O meio, portanto, não determina, mas influencia fortemente. Essa diferença é basilar quando se trata de entender o Pensamento Complexo a partir da perspectiva de Morin.

Muitos dos pesquisadores da complexidade iniciaram suas pesquisas pensando em termos de seres vivos, o corpo humano, por exemplo, ou em termos de fenômenos físico-químicos. A complexidade é extremamente interdisciplinar. Mais tarde, porém, esses mesmos pensadores e outros ainda levariam seus estudos a novos patamares, adaptando-os a diferentes contextos, como a Psicologia, a Sociologia, a Antropologia, a Filosofia, entre outros. O próprio Maturana voltou seu olhar para sistemas sociais, especialmente para a Educação, tornando-se grande referência para educadores de todo o mundo, com suas ideias sobre uma educação mais humana, desenvolvida em torno de seus conceitos de emocionar, brincar e linguajear. Varela, infelizmente, faleceu em 2001, tendo levado suas pesquisas, antes disso, a outros rumos.

Extrapolando a área da Biologia, grandes nomes da Matemática e da Física também levaram suas contribuições ao entendimento dos sistemas complexos. Henri Poincaré, físico e matemático francês, que viveu de meados do século XIX até a segunda década do século XX, desenvolveu trabalhos em vários ramos das duas ciências, sendo apontado como um dos últimos universalistas, em oposição aos hiperespecialistas surgidos já no século passado. Poincaré, em busca de entendimento sobre a impossibilidade de resolução das equações diferenciais não lineares, descobriu a possibilidade de existência de sistemas desordenados, com variáveis surgidas ao acaso, o que contrariava totalmente os preceitos de harmonia universal da Física Clássica. Suas descobertas, a princípio desconsideradas pela ciência oficial, geraram discussões que levaram à elaboração do princípio da incerteza ou imprevisibilidade dos sistemas, elemento base da Teoria do Caos (O’SHEA, 2009). A Teoria do Caos, aliás, surgiu por meio dos estudos desenvolvidos por Edward Lorenz, matemático e meteorologista estadunidense, que levou em conta as pesquisas anteriores de Poincaré.

Lorenz, nos anos 1960, começou a trabalhar na área de Meteorologia do Massachussets Institute of Technology (MIT). Em suas pesquisas, trabalhando com modelos teóricos computacionais, deu-se conta de que infinitesimais alterações nas condições iniciais de um evento climático poderiam desencadear, ao longo do tempo, resultados surpreendentes. Essa descoberta deu origem ao popular e muitas vezes não compreendido conceito do Efeito Borboleta, segundo o qual o bater de asas de uma borboleta na China, ao longo do tempo, poderia desencadear um

tornado na Califórnia. Lorenz, ao enunciar o conceito, não o estava fazendo literalmente, mas utilizando-se de uma metáfora para exemplificar a importância das condições iniciais e a imprevisibilidade do sistema atmosférico. Essa percepção inicial levou-o a rever os estudos de Poincaré sobre imprevisibilidade ou incerteza nos sistemas complexos abertos e criar seu Modelo do Atrator Estranho. O modelo parte do princípio da Física Clássica de que todo sistema se encaminha para um fim predeterminado, ou seja, há um atrator, uma força que o conduz para determinado resultado. Para Lorenz, contudo, condições iniciais imprevistas e a não-linearidade do sistema atmosférico poderiam levá-lo a um resultado inesperado, gerando a ideia de que haveria um atrator estranho (LORENZ, 1995).

Também matemático, o polonês Benoît Mandelbrot, por sua vez, contribuiu com o Pensamento Complexo a partir do desenvolvimento de sua Teoria dos Fractais. Em 1975, Mandelbrot definiu um fractal como um objeto geométrico cuja estrutura básica se repete em diferentes escalas, de tal modo que a menor parte do objeto se equivale, estruturalmente, ao seu todo (MANDELBROT, 1997). De maneira bastante singela, poderíamos pensar, a título de exemplo, na estrutura de uma couve flor ou das folhas da samambaia. Essa ideia tornou-se extremamente importante na conceituação de sistemas complexos, permitindo a visão de que o todo está nas partes, assim como cada parte representa o todo. A compreensão de um sistema complexo, portanto, passa pela percepção de que não é possível entendê-lo observando apenas suas menores partes, como é a prática da ciência tradicional, assim como tampouco é possível entender um sistema lançando o olhar exclusivamente para o todo. Morin, como veremos adiante, utiliza essa ideia para discutir sistemas sociais complexos. Enquanto outros pesquisadores, entretanto, como a brasileira Vera Menezes, apropriam-se da terminologia de Mandelbrot, Morin prefere apoiar-se nos estudos do físico húngaro, Dennis Gabor, que, em 1971, foi agraciado com o Nobel de Física pela invenção do holograma. À ideia de dar tanta atenção ao todo como às partes de um sistema, Morin chama de Princípio Hologramático, já que a composição de um holograma lembra a de um fractal, ou seja, na menor parte está a exata representação do todo e vice-versa.

Ainda das chamadas ciências duras, surge o nome de Ilya Prigogine. Físico e químico nascido na Rússia, ganhou o Prêmio Nobel de Química em 1977 pela publicação de sua Teoria das Estruturas Dissipativas. Antes de Prigogine, estava

bem assentada a ideia expressa pela Segunda Lei ou Segundo Princípio da Termodinâmica, segundo o qual dois corpos, componentes de um sistema, trocariam calor a ponto de um ceder energia ao outro até que ambos se igualassem, nivelando-se por baixo, isto é, conforme o enunciado de Rudolf Clausius, físico alemão do século XIX, “o calor não pode fluir, de forma espontânea, de um corpo de temperatura menor, para outro corpo de temperatura mais alta”. Essa ideia leva ao conceito de entropia. À medida que há a troca de calor entre os corpos, uma parte desse calor dissipa-se para o ambiente, ou seja, há perda de energia. No sistema fechado da Física Clássica, a tendência é que a entropia tome tal força com o tempo que o sistema seja levado à perda total de calor e, consequentemente, à extinção ou máximo caos. Na teoria de Prigogine, aparece um elemento novo. O físico defende e comprova que nos sistemas complexos abertos, que se desenvolvem em situação afastada do equilíbrio e apresentam interação com o meio externo, é possível que novas forças incidam sobre o sistema, fazendo com que a entropia e a consequente desordem por ela gerada – caos sistêmico – converta-se em uma nova organização ou, em outros termos, ordem em um novo patamar. Em síntese, Prigogine ensina que um sistema desequilibrado é capaz de se reequilibrar por meio de forças externas, voltando a desequilibrar-se e reequilibrando-se novamente (PRIGOGINE, 1999).

Quero terminar este passeio preliminar pela Complexidade apresentando o conceito de retroalimentação ou realimentação (feedback), proveniente da Cibernética e nascido do pensamento do matemático estadunidense Norbert Wiener. Segundo o pesquisador, um sistema aberto que adota determinado comportamento pode receber uma força externa (input) para modificar seu comportamento. Wiener usa como exemplo o funcionamento de uma máquina a vapor. Variações da carga de vapor de entrada podem gerar aumento ou diminuição da velocidade de funcionamento (WIENER, 1965). Essa ideia começou a ser explorada pelo próprio Wiener em função de sistemas complexos sociais (WIENER, 1965; WIENER, 1993) e logo passou a ser adotada por outros autores.

Até aqui, acredito ter sido possível começar a perceber a amplitude e a profundidade do Pensamento Complexo, um pensamento aglutinador que transita por e se alimenta de várias ciências. O mais importante, talvez, seja notar que toda essa teoria é originária das chamadas ciências duras, que, ao longo do tempo,

interagindo e compartilhando com as ciências humanas, têm se flexibilizado e adaptado, permitindo-nos, então, entender melhor a dinâmica das relações humanas. Edgar Morin, sociólogo e filósofo francês, parece ser um dos estudiosos que melhor soube traduzir esse movimento. Antes de discutir as ideias de Morin, entretanto, sinto a necessidade de propiciar uma breve visão do pensamento de outro sociólogo, o alemão Niklas Luhmann. Figura controversa, Luhmann tem uma percepção muito particular do papel do ser humano no sistema social, sobretudo quando se trata da comunicação. Não considero Luhmann uma referência no meu trabalho, mas devido a sua importância na Sociologia e no Pensamento Complexo, penso que é importante abordar, em rápidas pinceladas, seu pensamento, e os motivos pelos quais não me identifico com seu ponto de vista.