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4 APORTES METODOLÓGICOS: PESQUISA-AÇÃO, PANDEMIA E CHAVES DE

5.3 GRUPO 3 - AULAS DE LÍNGUA PORTUGUESA

5.3.4 Antonia, Karolayne e Rodrigo

5.3.4.3 Comparação das respostas em texto e em audiovisual

Todas as imagens são captadas com o celular na posição vertical, assim como a produção de Daniel, do Grupo 2. Com o celular na mão, os estudantes nos levam para um passeio na escola. A maior parte do vídeo é feita em plano-sequência, sem cortes de imagem, dando a sensação de que os acompanhamos na caminhada. A falta de corte na imagem não se reflete no áudio, uma vez que as narradoras se revezam na locução do texto do vídeo. A edição de som é bem cuidada, e deixa a mesma música como base para as diferentes vozes, o que garante a sensação de continuidade à história narrada.

O efeito de arte gráfica que contorna as pessoas em algumas cenas é usado como uma brincadeira, que reforça a presença de quem está na imagem. Além do domínio nas escolhas dos planos das cenas e dos cortes de áudio, os estudantes também mostram saber emoldurar um vídeo. No início, uma tela preta com arte colorida anuncia o “trabalho de Português”. Ao final, exibem os créditos com seus nomes e, na sequência, a frase “Sempre é tempo de recomeço”, com a música mais alta ao fundo.

5.3.4.3 Comparação das respostas em texto e em audiovisual

Análise das respostas à pergunta “b) Eu preciso da escola?”

O texto dos estudantes valoriza os conteúdos aprendidos na escola. O vídeo diz mais:

além dos conteúdos, os estudantes fazem uma reflexão sobre a necessidade de auxílio e cuidado para se desenvolverem. A imagem dos jovens caminhando lado a lado e conversando no corredor da escola, no início da cena, dá lugar ao pátio vazio. É de lá que eles refletem sobre a relevância da convivência e da troca de conhecimento para amadurecerem e conviverem em sociedade.

d) O que aprendi durante a pandemia para a vida e meu futuro?

Quadro 51: Respostas Antonia, Karolayne e Rodrigo – pergunta O que eu aprendi durante a pandemia para a vida e meu futuro?

Texto Aprendemos a valorizar mais o contato físico, pois a pandemia nos privou de bastante coisa, como encontrar familiares e etc.

Vídeo Plano sequência em toda a cena:

Câmera subjetiva caminha até o portão da escola. Portão se abre e câmera entra no corredor. Câmera caminha mais um pouco e abre um novo portão, que dá acesso ao pátio da escola. Câmera segue o passeio pelo pátio, mostrando diferentes ângulos do espaço. Câmera aponta para uma janela do pátio, que revela uma quadra. //

Áudio: Trilha que acompanha todo o vídeo tem início.

Durante a pandemia, eu aprendi a valorizar mais o contato físico, pois a pandemia nos privou de bastante coisa, de rever familiares, amigos… mas, na verdade, o vírus fez o ser humano ter mais humildade e também fez nos dar conta das inúmeras pessoas que sofrem o tempo todo, mas que a gente não tinha olhos para elas. Por exemplo, a família que mora em um único cômodo e sai todos os dias para trabalhar para ganhar um prato de comida.

E, infelizmente, na pandemia teve que ficar em casa. Então, enquanto... quanto a isso, eu passei a olhar com um olhar mais de empatia e pensar em formas de como ajudar essas pessoas. Aprendi também que cada minuto ao lado de quem amamos deve ser aproveitado ao máximo e não desperdiçado.

Imagem: Corta para mais imagens de caminhada pelo pátio, agora no caminho de volta dacena anterior. Corta para foto de estudante no pátio escrevendo em seu caderno. Ele está de máscara. Efeito de arte gráfica contorna a silhueta do estudante.

Corta para foto do mesmo estudante cumprimentando a professora com o toque de mão comum da pandemia. Efeito gráfico contorna os dois. Foto de um cartaz da escola que mostra alguns protocolos da pandemia// Áudio: Infelizmente, durante a pandemia, tive a triste dor e notícia de perder meu vô durante a pandemia. Muitos anos sem revê-lo por conta da distância. Durante a pandemia fiquei impossibilitada de poder visitá-lo.

Imagem: Estudante das fotos anteriores agora em uma cena gravada em vídeo. Ele entra numa sala de aula, cumprimenta o professor que está no computador. Os dois

estão de máscara e conversam. Mesmo estudante subindo as escadas da escola.

Câmera o acompanha. No final da escada, encontra um amigo. Os dois conversam e arte gráfica contorna os dois.

Áudio: E infelizmente tive a lição mais dura que aprendi e esses tempos de poder aproveitar os momentos que tive com ele e aí vem isso na cabeça de que eu deveria ter aproveitado mais e de que… e de que deveria ter falado mais o quanto eu o amava.

Então, com a pandemia, eu também fui capaz de aprender que é importantíssimo guardar economias, porque a gente nunca sabe o que pode acontecer, se vamos ficar sem trabalhar, se vamos ficar impossibilitados de trabalhar por conta da saúde ou, enfim…

Fonte: a autora, 2022.

Análise das respostas à pergunta “d) O que eu aprendi durante a pandemia para a vida e meu futuro?”

A resposta em texto é apenas o início da resposta em vídeo e não é a questão principal explorada no audiovisual. O vídeo começa com essa resposta. É por meio dela que as imagens do portão da escola se abrem e que entramos no pátio junto com a câmera. A pandemia, diz o vídeo, ensinou os estudantes a terem mais solidariedade. Assim como as produções de outros estudantes, este vídeo abordou a questão do olhar solidário para famílias que moram em casas apertadas e que passaram dificuldade durante a pandemia.

A questão econômica é abordada como uma das lições aprendidas na pandemia.

Precisamos guardar economias, porque nunca sabemos o que pode acontecer. O audiovisual aborda ainda uma questão pessoal narrada por uma das estudantes: a tristeza de ter perdido seu avô durante a pandemia. Essa perda é apresentada como a “lição mais dura que aprendi”, a de que deveria ter aproveitado mais o tempo com o avô e falado mais o quanto ela o amava.

e) Como está sendo a volta para minha escola?

Quadro 52: Respostas Antonia, Karolayne e Rodrigo – pergunta e) Como está sendo a volta para a minha escola?

Texto Está sendo bom, é possível rever amigos e professores, e maior compreensão dos conteúdos por mais que não esteja tudo normalizado ainda.

Vídeo Câmera olha para o outro lado do pátio - visão de grande parte do pátio. Corta para imagem de plantas atrás de grades, que ficam no mesmo pátio. Imagem da escada, cujos degraus são pintados com cálculos da tabuada. Câmera revela mural com o nome da escola ao final da escada

//

Áudio: Narração muda novamente, e trilha segue a mesma Diante dessa pandemia, voltar para a escola presencial, rever amigos, colegas, professores, cumprimentar, conversar… é muito gratificante para nós, que muitas vezes pensamos que isso não seria mais possível.

Mas graças a Deus estamos tendo novamente essa oportunidade de ter essa troca e nos dá o sentimento de gratidão e esperança de que pode sim haver dias melhores. Mas

que tenhamos também consciência de que ainda precisamos continuar nos cuidando, que a gente seja cuidadoso um com o outro, seja mais generoso e paciente nas nossas relações.

Fonte: a autora, 2022.

Análise das respostas à pergunta “e) Como está sendo a volta para minha escola?”

O vídeo detalha algumas questões que o texto traz. Enquanto o texto afirma: “Está sendo bom, é possível rever amigos e professores”, o vídeo enfatiza a alegria dos encontros com amigos, colegas e professores. A afirmação de que está sendo bom, “por mais que não esteja tudo normalizado ainda” é tratada com otimismo na produção audiovisual. Os estudantes falam sobre o sentimento de gratidão e de esperança por dias melhores – o que depende, também, da consciência, do cuidado, da generosidade e da paciência de todos.

Para falar sobre a oportunidade do reencontro e sobre esperança, os estudantes escolhem imagens de plantas que estão atrás de grades no pátio da escola e, em seguida, sobem uma escada, que revela, no topo do enquadramento, o nome da Etelvina.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES AO FIM

Projetora e produtora de sentidos, a produção audiovisual dos estudantes que participaram desta pesquisa indica que, para eles, a pandemia ressignificou a escola. Se antes era compreendida como obrigação, a escola passou a ser apresentada e representada pelos jovens como um lugar de bons encontros, do qual eles sentiram saudades e sem o qual a vida virou uma bagunça e passou a se limitar ao espaço da casa. Mesmo entre estudantes que trabalharam presencialmente durante a pandemia, a falta da escola é representada pela falta de acesso ao mundo e a si mesmos.

A conclusão acima só pode ser feita a partir da análise das peças audiovisuais dos estudantes, uma vez que está na combinação de imagem e texto narrado o sentido da escola ressignificada. Enquanto afirma que a vida está desorganizada, Camila mostra cenas da rotina repetitiva e organizada de casa; para acompanhar a narração de que a escola é “cultura, descontração, esperança, liberdade [...], acesso e direção ao mundo exterior”, Duda escolhe a imagem de um par de chuteiras amarrado na tela da uma quadra esportiva, em um enquadramento que revela prédios altos no entorno da favela; Emily conta que a vida sem a escola foi “como pular o tempo”, compartilhando com o espectador a imagem da rua que ela vê passar pela janela de um ônibus.

Ao convidar estudantes para produzirem vídeos sobre o que é a escola e o conhecimento, esta pesquisa demonstra que a produção audiovisual pode ser explorada no currículo escolar como uma linguagem capaz de traduzir as concepções de mundo dos estudantes. A nova imaginação, que pressupõe um salto da existência linear para um nível de existência abstrato e sem dimensões (FLUSSER, 2017), encontra na linguagem audiovisual uma forma de se representar.

A pesquisa também demonstra que a cultura digital não só privilegia, conforme estabelece a BNCC, “análises superficiais e o uso de imagens e formas de expressão mais sintéticas, diferentes dos modos de dizer e argumentar característicos da vida escolar”

(BRASIL, 2018, p. 59). Ao contrário: a narrativa audiovisual dos participantes deste estudo mostraram-se mais profundas do que suas entrevistas e textos. Mesmo os vídeos mais simples do ponto de vista da estrutura são mais bem elaborados do que o texto de seus autores e apresentam, sempre, possibilidades de serem interpretados a partir da sequência de imagens e da montagem realizada.

Para a professora de Língua Portuguesa que realizou a atividade desta pesquisa em suas aulas, isso pode ser compreendido pelo fato de os textos no audiovisual serem mais

espontâneos. “Para muitos deles [os estudantes] escrever é difícil, quando pensamos na língua mais formal, em conseguir se expressar nessa escrita. Talvez esses textos no audiovisual sejam mais elaborados por serem mais espontâneos do que a escrita”, afirma (JOSIE, 2022).A produção dos vídeos também indicou à professora maneiras de abordar o tema em sala de aula. “Essas turmas com que a gente trabalhou são novas para mim e foi interessante perceber as potencialidades que eles têm. Vimos que eles, sim, são capazes de fazer coisas muito boas, e isso me deu ideias de trabalhar alguns gêneros, tentando fazer essa transposição”, aponta.

É imprescindível, dispõe a BNCC, que a escola compreenda e incorpore as novas linguagens e seus modos de funcionamento, aproveitando o potencial de comunicação do universo digital. O documento afirma a importância de se desvendar possibilidades de comunicação e de manipulação das novas linguagens, visando a uma educação para “usos mais democráticos das tecnologias e para uma participação mais consciente na cultura digital”

(BRASIL, 2018, p. 59).

O acompanhamento de estudantes em suas produções audiovisuais e a constatação de como eles sabem manipular essa linguagem podem apontar para experiências curriculares mais ousadas, que se orientem para além do bom uso das novas tecnologias e de uma participação consciente na cultura digital. Quando os jovens escolhem as cenas, os enquadramentos, o ritmo da montagem, o conteúdo e o tom das narrações, eles revelam características de si e de seu olhar para as questões da vida. Considerações que podem ser exploradas em sala de aula, levando o estudante a refletir sobre como se projeta no mundo.

Flusser (2017) afirma que, para ser superada, a tecnologia precisa ser transformada em outra coisa. Em um âmbito circunscrito aos limites do presente estudo, a defesa desta tese é a de que o uso do audiovisual no currículo pode mediar pedagogicamente a transformação dessa tecnologia em reflexão sobre as projeções que os estudantes têm e fazem de si. A transformação da tecnologia depende de atitude crítica: uma vez que os instrumentos

“são coisas já manipuladas” (FLUSSER, 2017. p.19), devem ser compreendidos como problemas, e não aceitos passivamente.

As produções aqui analisadas revelam que os celulares dos estudantes, seus instrumentos neste estudo, foram utilizados de maneira consciente e crítica pelos jovens.

Quando eles enquadram a imagem e entram na cena, mostrando apenas uma parte de si;

quando editam imagens e manchetes acompanhadas pelo som da respiração para relatar como o coronavírus está avançando no mundo; quando usam imagens próprias para falar do que pensam e escolhem imagens de terceiros para abordar o que não viveram, os estudantes manipulam essa tecnologia de maneira a transformá-la nas histórias que querem contar.

Apesar de a coleta de dados da pesquisa não ter sido realizada nas aulas de Projeto de Vida, como idealizou o coordenador pedagógico em nossas primeiras conversas, o material analisado oferece indícios do que os estudantes almejam em seu futuro e de como enxergam a contribuição da escola nesse projeto. Em trechos de vídeos que mostram como a vida dos jovens mudou com a distância física da escola, eles evidenciam que a organização da rotina e a presença na escola são fundamentais não só para planejarem o que querem, mas também para se projetarem em direção a seus planos.

Talvez a resposta fosse diferente com grupos de estudantes de escolas particulares ou de outras regiões da cidade e do país. Os estudantes que participaram desta pesquisa, realizada em uma escola da favela de Paraisópolis, no entanto, veem a escola e o conhecimento escolar como a possibilidade de projeção de si no mundo e no futuro. “Sem a educação da escola, a gente nunca poderá ser livre de verdade”, afirma Fernando em seu vídeo. A educação da escola é diretamente relacionada aos professores. Os estudantes relataram ter sentido falta dos professores no período do distanciamento, e se sentiram acolhidos na volta por estarem junto a seus professores novamente.

A escola também é compreendida como rede de apoio à comunidade que a cerca, uma vez que todos os estudantes ouvidos afirmaram a relevância de a instituição ter sido transformada em centro de acolhimento a pacientes com COVID-19 durante alguns meses da pandemia. Para contar como foi essa experiência, da qual eles não participaram diretamente, os jovens utilizam manchetes de jornal, imagens de reportagens televisivas e fotos publicadas na imprensa, narradas por suas impressões sobre a ação. “Formidável, espantoso, marcante, necessário e gratificante” são algumas das palavras que descrevem suas percepções.

Nessas passagens, eles demonstram solidariedade a pessoas que não puderam se isolar na pandemia e denunciam a desigualdade social: “Dentro mesmo do Paraisópolis tem casas de dois cômodos, onde moram seis, sete pessoas em um só local”, afirma Camila. “[...] eu passei a olhar com um olhar mais de empatia e pensar em formas de como ajudar essas pessoas”, diz Antonia. “[...] as pessoas que residem aqui geralmente vivem em pequenos cômodos com famílias inteiras [...], quem não tem como praticar a quarentena vai e volta do serviço diariamente pra não morrer de fome. Mas assim coloca a si e a seus entes queridos em risco.

Por conta da desigualdade, por não poderem fazer o mínimo, que é se manter em casa, isolados”, aponta Duda.

A metodologia da pesquisa-ação adotada no estudo permitiu que as constantes variações do contexto pudessem ser acompanhadas e integradas à coleta de dados. O fechamento da escola, a falta de acesso aos estudantes e as novas reflexões trazidas pela

pandemia conduziram, tanto pesquisa quanto ação, a outros desenhos. O olhar fenomenológico para a descrição do território e do desenvolvimento da ação dos estudantes, por sua vez, permitiu uma compreensão mais abrangente do significado das mudanças.

Realizado entre 2019 e 2022, o presente estudo foi transformado a partir das radicais mudanças que ocorreram nas escolas, no currículo e no Brasil, com o advento da pandemia de COVID-19. Se a pandemia ressignificou a escola para os estudantes, o mesmo ocorreu em relação a esta pesquisa.

A passagem do tempo foi tema bastante presente nos vídeos realizados depois de um e dois anos do início da pandemia. Em cenas lentas, que inspiram a reflexão sobre o tempo, ou em imagens aceleradas, que reforçam como o tempo passou rápido, os estudantes contam como amadureceram e aprenderam a lidar mais consigo mesmos ao longo desse período.

Ainda falta distanciamento histórico para compreendermos o significado da pandemia em nossas vidas. As produções dos estudantes desta pesquisa deixam claro, no entanto, que o tempo sem a escola e seus professores foi sentido e retratado como um tempo de menos esperança, menos projetos e menos futuro.

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