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4 APORTES METODOLÓGICOS: PESQUISA-AÇÃO, PANDEMIA E CHAVES DE

5.2. VÍDEOS E ENTREVISTAS DO GRUPO 1

5.2.1 Maria Eduarda, 3º ano do ensino médio

5.2.1.3 Segunda entrevista com Duda

inteiras.

20 Volta para a imagem de uma porta - cena interna, noturna, de uma casa.

Onde quem não tem como praticar a quarentena vai e volta do serviço diariamente pra não morrer de fome.

Mas assim coloca a si e a seus entes queridos em risco. Por conta da desigualdade, por não poderem fazer o mínimo, que é se manter em casa, isolados.

21 Foto da sala de aula da Etelvina transformada em espaço para leitos de pacientes com sintomas de COVID-19.

Corta para fachada da escola com faixa

“Centro para isolamento do convívio social! ”

Então, de saber que essas pessoas têm a possibilidade de se isolar pra proteger tanto seus familiares quanto a si mesmos é algo realmente reconfortante.

Fonte: a autora, 2022.

A narrativa é fluida, e a amarração entre áudio e vídeo mostra a intimidade da estudante com o audiovisual e sua maturidade para usar essa linguagem de acordo com o que quer contar. Com muitas cenas captadas pela própria estudante, o vídeo tem bom ritmo e identidade. A escolha das imagens, assim como o alinhamento de suas sequências, é consistente: a estudante equilibra bem os cortes entre as cenas e o tempo de cada uma no vídeo. Apesar de alguns cortes no áudio não serem precisos, isso não diminui o acerto do ritmo da edição.

Como a edição, a escolha da trilha sonora contribui com a narrativa do vídeo. A música instrumental calma, presente na maior parte do tempo, faz uma base sonora que valoriza a locução da estudante. O momento em que a trilha aparece é, por si só, carregado de sentidos. Duda faz a pergunta: “Eu preciso da escola?” e, junto com o início da resposta, tem início a trilha.

A estudante narra o texto que escreveu para o vídeo em tom coloquial, que convida o espectador a ouvi-la. Além de muito bem escrito, o texto traz respostas que vão além das perguntas feitas pela atividade, sugerindo muitas outras reflexões.

A segunda conversa foi realizada em dezembro de 2020. A gravação da entrevista, transcrita a seguir, começou a ser feita depois do início da conversa e dos cumprimentos entre pesquisadora e estudante.

Lucila - Gravando, Duda! Minha primeira pergunta é a seguinte: nesse ano, que no fim a gente ficou fisicamente longe da escola praticamente o ano todo, do que você mais sentiu falta?

Duda - Eu acho que realmente o contato. É meio clichê falar isso, mas realmente o contato. E é louco pensar nisso, porque você tendo… Não tá tendo contato físico, mas tá tendo contato com professor, com os orientadores. E não é a mesma coisa. Por mais que eles estejam ali te ensinando, te mostrando as coisas, se você perguntar alguma coisa eles estejam ali pra te responder as suas dúvidas, é muito louco porque eles, tendo esse mesmo trabalho de apoio com você via internet e pessoalmente, não é a mesma coisa. Então eu acho que é do que eu mais sinto falta.

Lucila - O contato com os professores e com os estudantes também?

Duda - Também. Acho que rola muito uma troca, sabe. Por mais que o professor esteja lá nessa posição de vou te ensinar algo que teoricamente você não sabe, a gente aprende muita coisa também conversando com os colegas. Aí dá até um negocinho (coloca a mão no coração). Eu senti saudade agora.

Lucila - Você acha que você mudou seu jeito de ver a escola esse ano?

Duda - Acho que sim. Muito, muito. Assim, eu sempre valorizei muito os professores. Eu sempre fiquei muito é… nessa posição de dizer que professor é realmente um mestre e… ah, eu sempre fui muito devota aos professores. Engraçado eu falar a palavra devota. Mas é que eu sempre fui muito muito apaixonada pelos meus professores. A minha relação com eles é…

ai, se eu parar pra falar vou ficar falando um tempão, mas eu acho que esse ano realmente mostrou que eu deveria continuar assim e ser assim ainda mais. Porque dá muito trabalho. Eu, pelo menos, já tô no 3º ano, então eu tenho como estudar sozinha. Mas eu fico pensando muito em quem eu vejo, meus vizinhos ou, por exemplo, o meu amigo. Ele tá tendo que ensinar os irmãos dele agora. Então, ver isso, o quão difícil é você ensinar alguém, principalmente criança pequena, alfabetizar alguém, que é esse o caso do meu amigo, que a irmã dele ainda não sabe ler e escrever, inclusive ele acabou de me mandar mensagem. Então ele tá tendo que ensinar ela a ler e escrever. Então, eu não tô tendo palavras pra falar, tô me

enrolando um pouquinho… Mas acho que sim. Acho que aprendi a valorizar muito mais, sabe? Não só os professores, na verdade. Todo mundo que coordena a escola, porque é um trabalho imenso você cuidar daquilo tudo…

Lucila - Então você não mudou o jeito de ver a escola, você reforçou o que você já imaginava. Isso ficou mais forte ainda nesse ano, é isso?

Duda - Sim. Sim.

Lucila - A próxima pergunta é uma que eu já te fiz. Você precisa da escola? E em que você precisa da escola.

Duda - Acho que em tudo. Porque acho que, geralmente, quando a gente não tem uma situação de pandemia pra gente parar pra pensar nisso, a gente só pensa: tá, é um lugar pra gente ir, sentar lá na cadeira e aprender. Mas quando a gente tá longe a gente vê a necessidade do apoio. Eu, por exemplo, muitas vezes parei pra conversar com o coordenador da escola, ou com o diretor, ou até com colegas meus, pra, enfim, pra “ene” coisas, sabe? E aí, você estando longe você vê o quão frequente é isso. Porque você tem aquilo registrado. No dia a dia você só vai, pergunta, tá bom perguntei tal dia, você não lembra. Mas você tendo aquilo registrado, se você parar um dia pra pensar “caramba, olha o tanto de vezes que eu chamei essa pessoa pra pedir ajuda pra algo”, ou então o tanto de vezes que a gente parou pra falar sobre alguma coisa, pra refletir o quão importante era aquilo… E é o que eu já tinha dito antes: não é só essa questão do aprendizado, eu acho que é o apoio, sabe? Às vezes a pessoa não está nem ali, não falou aquilo claramente pra você, “estou aqui pra te apoiar”, mas a forma como isso acontece já tá pressuposto que um tá ali pra ajudar o outro.

Lucila - Outra pergunta que eu também já te fiz, e que você me respondeu hoje mesmo um pouco. Mas vou refazer só para ter todas as perguntas refeitas. O que você só encontra na escola?

Duda - É a mesma coisa que eu falei agora. Esse apoio, essa rede de acolhimento, os professores –não vou parar pra falar dos professores, senão vou ficar falando um milhão de anos… Acho que essa troca que eu também já tinha dito com as pessoas. E são momentos que só são vivenciados ali. Por mais que você na sua casa esteja aprendendo o mesmo conteúdo, não vai ser a mesma coisa que você estar ali dentro, naquele horário, com aquelas pessoas específicas. É algo que só vai acontecer ali. Aquele momento só acontece uma vez naquele mesmo segundo, porque depois passa. Então acho que tudo. Sem contar que, querendo ou

não, também tem a questão dos equipamentos. Porque nem sempre todo mundo tem em casa.

Fico pensando muito nisso porque eu, por exemplo, tenho internet em casa e tenho um celular que eu posso acessar pra poder fazer as tarefas ou pra assistir aula. Mas tem gente que não tem como. Então, assim… vai ser, infelizmente, pra algumas pessoas, um ano perdido no quesito letivo, né?

Lucila -Pensando no ano perdido ou não. Essa pandemia te ensinou alguma coisa? E aí, se te ensinou, como é que o conhecimento escolar te ajudou a compreender isso? A pergunta é se você aprendeu coisas que não teria aprendido se não fosse a pandemia, e se o conhecimento escolar, todos esses anos de conhecimento escolar, te ajudou a enxergar isso que você estava aprendendo.

Duda - Então… Eu não sei se a pandemia me fez aprender isso, mas eu acho que nisso eu vou colocar o conhecimento escolar. Que é todas as questões que a gente tá vivendo – não só esse ano, na verdade, a gente sempre viveu, mas eu acho que a matéria de Sociologia e a matéria de Filosofia ajudaram muito a repensar nisso. Eu falo isso porque nesse momento, às vezes, a gente sozinho em casa precisa conversar e colocar essas discussões em dia. E aí eu e meus amigos a gente conversa muito sobre isso, então, sobre questões sociológicas e sobre filosofia.

E aí eu acho que sim, ajuda muito. Eu não sei se é isso que eu tô falando, que eu não sei se é bem aprender, porque não foi algo que eu parei, aprendi e fiz, sabe? Não foi algo material, até porque essas discussões não tem como materializar. Mas acho que ajuda muito nisso, sabe?

Na gente parar pra refletir tudo o que está acontecendo. Não só agora, mas eu acho que agora, talvez, por as pessoas estarem mais em casa, tenham parado mais pra enxergar isso, tenham parado mais pra assistir jornal, pra ver notícias, e aí acho que ajuda muito nesse debate.

Muitas vezes a gente tava discutindo sobre alguma coisa e na mesma semana o professor colocava aquilo como matéria pra estudar. E aí enriquecia muito essas discussões. Porque você não tava só tirando coisa assim “olha, minha opinião é essa e essa”, você tava falando sobre fatos, sobre coisas que você estudou de fato, não só você, como o professor que estudou e tá ali pra te passar aquilo, e aí você consequentemente estudou aquilo também e tá ali debatendo com outras pessoas. Não sei se eu fugi um pouco do raciocínio…

Lucila - Não, é isso mesmo, superlegal. Duda, a próxima pergunta é se você mudou o seu jeito de ver a sua comunidade. O que você aprendeu em relação a essa comunidade durante esse tempo que você ficou mais em casa?

Duda - Eu acho que… Não sei se em tudo, mas pelo menos aqui na minha rua, com meus vizinhos, o como o pessoal é bem parceiro. Porque antes era assim: ia pro trabalho, dava oi, bom dia, tchau e voltava. E o contato era esse. Mas eu acho que agora todo mundo tá numa situação de dificuldade e aí tá um ajudando o outro. Se alguém tá precisando de alguma coisa, pelo menos é o que eu vejo aqui próximo, o outro tá ali se dispondo “olha só, você tá precisando de alguma coisa? Me manda mensagem, liga”, ou sei lá, alguém tem filho pequeno: “Olha, se você precisar eu fico pra você, porque eu sei que você infelizmente não tá podendo ficar em casa e tá tendo que ir trabalhar”. Aqui também já teve do pessoal se candidatar pra ser presidente de rua, aqui na nossa rua tiveram dois presidentes ou três. E aí a gente conseguiu também arrecadar marmita, distribuir pro pessoal daqui e tava tendo isso todo dia… Então eu percebo muito agora que todo mundo tá se disponibilizando pra ajudar de algum modo, sabe? Até quem, entre muitas aspas, não podia de alguma forma.

Lucila - Legal, Duda, essas são as perguntas. Eu queria agora mostrar o vídeo que você fez e conversar com você sobre ele.

(assistimos juntas ao vídeo, exibido em tela compartilhada. Ao fim da apresentação, voltamos a conversar):

Lucila - É legal assistir? Você acha que esse vídeo te representa?

Duda - Sim, me representa. Mas eu tenho um pouco de vergonha, na verdade, de assistir, porque eu tenho vergonha de assistir tudo o que eu faço, na verdade. Não é esse vídeo em particular, é tudo. Qualquer coisa que eu faça, principalmente se tiver algum take que eu apareça, eu não gosto de assistir.

Lucila - Tá muito lindo o seu vídeo. Você devia deixar a autocrítica pra lá, porque tá muito lindo.

Duda - Obrigada!

Lucila - Você diz que a escola é precipício e apoio. Essa frase me chama muita atenção. E eu queria que você me explicasse o que você quis dizer com isso.

Duda - Eu penso nisso mais na questão do ensino médio, porque a escola realmente nos dá muito apoio, mas em dado momento não é bem ela que é precipício, mas acho que sim, esse corte de você tá ali, tem todo o apoio, tudo na sua mão, porque tá precisando de uma documentação pra mandar pra algum lugar, pede ajuda, tá precisando de alguma coisa em outro lugar, pede ajuda pro professor, pede ajuda pro diretor. E depois que aquilo acaba, você

se vê meio perdido. Por isso eu tô falando do ensino médio, porque é essa troca de estar no 3º ano, estar ali com todo mundo. E depois, olha, fez o vestibular, vai pra faculdade e agora você se vira, sabe. Você arruma a documentação, você agora é um jovem adulto e tem que tomar conta de tudo. Não é bem a escola em si, mas eu acho que é essa troca, sabe, essa transição, aliás, de você tá aqui, tá protegidinho e você agora tá no meio do mundo. E também por ser uma minimização da sociedade, né? Porque lá dentro tem tudo o que acontece do lado de fora entre muitas aspas, só que num espaço menor. Então assim: se tem preconceito do lado de fora, infelizmente vai acontecer do lado de dentro. Se tem pessoas boas do lado de fora, vão ter pessoas boas também do lado de dentro. Então você tem que aprender a conviver ali com aquelas pessoas.

Lucila - Perfeito, Duda, muito obrigada, era isso que eu queria te perguntar. Entro em contato com vocês pela turma do WhatsApp. Um abraço para você e muito obrigada!

Duda - Eu que agradeço! Abraço também!