• Nenhum resultado encontrado

4 APORTES METODOLÓGICOS: PESQUISA-AÇÃO, PANDEMIA E CHAVES DE

5.3 VÍDEO E ENTREVISTA DO GRUPO 2

5.3.1 Daniel, 3º ano do ensino médio

5.3.1.1 Entrevista com Daniel

Depois de nos cumprimentarmos e de eu perguntar se poderia gravar nossa conversa, começamos a entrevista, conforme transcrição abaixo:

Lucila: Daniel, como é que está sendo a volta para a escola? Apesar de ser uma escola nova para você [ele tinha acabado de entrar na Etelvina], como é que está sendo voltar para a escola?

Daniel: Então, a volta pra escola tá sendo… uma coisa muito nova, que a gente ficou quase um ano e pouco sem estar presente na escola. E, pra mim, estar voltando pra escola é alguma coisa que eu tenho que me reacostumar. Tem gente que não tá voltando agora, que vai voltar no ano que vem. Então o ano que vem é que as pessoas vão ter essa experiência da volta da escola. No meu caso, a volta está sendo algo novo. Tem muita coisa nova acontecendo na escola. Tá tendo projeto novo, muita gente nova entrando, muita gente saindo também da escola por causa de trabalho. Tem gente abandonando a escola por causa da pandemia. E tá acontecendo algo novo, porquehouve muita mudança na pandemia. A tecnologia avançou drasticamente. Então, pra mim tá sendo algo novo.

Lucila: Você trabalhou durante toda a pandemia?

Daniel: Sim.

Lucila: Presencialmente?

Daniel: Sim.

Lucila:Você não parou de sair de casa?

Daniel: É, eu segui trabalhando. Não podia faltar nenhum dia. Antes de entrar nessa empresa que eu tô agora eu tava trabalhando presencialmente.

Lucila: E você conseguia acompanhar a escola?

Daniel: Então, meu horário de trabalho era meio confuso. Eu trabalhava em restaurante, e tinha semana que a gente funcionava e semana que a gente não funcionava. Aí tinha dia que ia trabalhar, tinha dia que não. E aí minha escala era meio que desbalanceada. Aí não tinha os dias corretos para fazer as aulas online. A presença minha era fazendo as atividades.

Lucila: Você já respondeu um pouco, mas me diz como foi sua vida sem ir para a escola.

Daniel: A minha vida sem ir pra escola… Ah, praticamente foi trabalho. Trabalho e prever coisas para o meu futuro. Investimento e meu projeto de vida. Preparando pra quando chegar o ano que vem que eu quero começar a faculdade, ter certeza do que eu quero fazer. Então na pandemia eu comecei a ver o que eu quero pra minha vida, fazer daqui cinco anos, minha faculdade…

Lucila: O que você quer fazer?

Daniel: Quero fazer Letras e bacharelado.

Lucila: Que legal! E o que você aprendeu em casa, durante a pandemia?

Daniel: Pode ser qualquer coisa?

Lucila: Qualquer coisa.

Daniel: Eu aprendi a me organizar melhor. Há um tempo atrás foi uma época muito desorganizada. A organização veio à tona para mim porque eu vi que eu tinha que me planejar o mínimo, sabe, pra fazer qualquer tipo de coisa. Acordar de manhã cedo, lavar a louça, arrumar a casa. E planejamento é o que a gente precisa pra qualquer coisa que a gente for fazer. Porque senão as coisas viram uma bagunça. E a pandemia já tava bagunçada. As coisas lá fora já tavam uma bagunça. Não podia deixar essa zona de fora aqui dentro de casa. Então tanto para a organização psicológica, de acordo com a minha família… tanto psicológica quanto física. Então eu aprendi a me organizar mentalmente, psicologicamente, e ajudar minha família também.

Lucila: E você acha que a pandemia te ensinou isso porque antes você não precisava se organizar tanto?

Daniel: É… praticamente me ensinou isso porque, antes da pandemia, as pessoas não se importavam tanto com seu psicológico, com a saúde mental. Além da organização, acho que

eu passei a estudar mais também. A pandemia ensinou isso pra todo mundo. Autoajuda e autoestudo.

Lucila: O que você acha que só encontra na escola?

Daniel: Hummmm… só encontra na escola… além da Etelvina?

Lucila: Bom, as escolas pelas quais você passou. O que você acha que você só encontra em uma escola?

Daniel: Eu encontrei na escola, nos alunos, uma falta de planejamento na vida. Vejo muito muitos jovens assim hoje em dia. Em todas as escolas em que eu já estive eu vejo muitos jovens vivendo de acordo com o que os pais deles propõem pra eles. Vai fazer isso, vai seguir isso, vai ter a vida assim. Aí ele fica preso naquela caixa. É uma coisa padrão que eu vejo em várias escolas. Dá pra pensar em mais coisas além disso. Não tem que ser sobre os alunos, mas sobre o sistema escolar. Tem mais coisa, mas tem que pensar mais e mais e mais. É um assunto extenso pra conversar também.

Lucila: Deixa eu ver se entendi sua resposta: você diz que as famílias às vezes levam as pessoas a pensarem no que elas têm que fazer e a escola é quem desconstrói isso ou é quem apoia isso? É isso?

Daniel: Então, aí depende da escola. Porque se a família propõe uma coisa pro filho, a escola, a partir do projeto de vida, pode ajudar o filho a fazer o que ele quiser. Mas o filho já tá preso naquilo que os pais colocaram pra ele fazer. Então, ele continua seguindo esse caminho, e a escola ajuda nesse caminho que os pais colocaram pra ele, entendeu?

Lucila: Tá… E isso as pessoas só encontram na escola, esse apoio ou não ao que a família propõe. É isso?

Daniel: É… você encontra bastante isso na escola. Na vida real eu nunca vi um amigo ou familiar que seguiu esse caminho que os pais propuseram, mas ele já esteve na escola. Talvez possa ter tido um certo apoio da escola pra estar seguindo assim.

Lucila: E aí a última pergunta: você acha que precisa da escola?

Daniel: Minha sincera opinião, acho que sim. Acho não, [tenho] certeza que eu preciso da escola. Hoje em dia, a escola vem evoluindo em vários fatos sociais, que vai ajudar os jovens dessa geração que tá vindo agora e os jovens da nossa geração, que já tá saindo da escola. A gente tava falando do que a gente não aprendeu na hora certa, no momento certo, e eles estão

aprendendo no momento certo. A gente já no 3º, em idade mais avançada, tá aprendendo isso saindo da escola, com os pés pra fora. Na escola a gente tá aprendendo um monte de coisa que a gente tem que aprender pra colocar o pé lá no mundo.

Lucila: Que tipo de coisa é essa“para colocar o pé no mundo”?

Daniel: Ah, então, preparação para como lidar com a vida, né? Como ela vai reagir bem com o que vai chegar pra ela, as consequências das atitudes dela. Exemplo: eu tenho um amigo, que nunca fez faculdade. Aí ele saiu da escola e já está há um ano sem fazer faculdade, sem fazer nada. Tá seguindo esse caminho, que é estar com o pé lá fora. E antes de sair da escola, ele não sabia o que queria, ele não tinha nem noção do que ele poderia fazer. E hoje em dia, tem pessoas da idade dele que já sabem o que quer fazer no dia atual, mas, sei lá, dois, três anos atrás ele não sabia o que queria fazer, porque a escola não colocava o propósito dele na frente dele, com as coisas que ele poderia fazer. Então, por conta de um amor, uma amizade, fez com que ele levantasse e realmente olhasse pra trás: ah, devia ter feito isso, faculdade mais cedo. E hoje ele quer fazer engenharia. Eu super apoio ele. Falei pra ele que seria bom ter pensado um pouquinho mais lá atrás pra poder planejar mais. Então é isso que eu acho que a escola tá colocando pras pessoas hoje em dia. E por isso que é importante projeto de vida. É uma matéria que entrou faz pouco tempo. A valorização dessa matéria tem que vir à tona, porque, normalmente, nenhum adolescente vai conseguir colocar o pé lá fora de uma maneira madura.

Lucila: Agora você é uma pessoa que escreve, que já tem vários projetos definidos… Já pensou no que você quer fazer, você sabe que quer fazer letras, tem muito a ver com o que você gosta de fazer, que é escrever. A escola te ajudou nesse caminho de definir seu projeto de vida? Você acha?

Daniel: (pensa bastante) Ela ajudou de uma forma indireta. Em 2016, eu conheci uma garota, amiga, que hoje em dia ela é mais minha amiga, mas naquela época a gente era melhores amigos. E acho que a consequência de eu ter conhecido ela acabou sendo de eu planejar tudo o que eu tenho agora. Porque ela quer fazer a mesma faculdade que eu. E ela fala muito bem daquela faculdade e aí eu comecei a pesquisar. Se não fosse por ela, se não fosse pela escola, eu não teria planejado tudo isso que eu tenho agora, esse caminho concreto. Então a escola ajudou pra mim de uma forma indireta, entendeu? E o que tá me ajudando mais ainda é falar com professores, quem já fez faculdade de Letras… Eu conversei ontem com a professora da Etelvina que fez bacharelado e cada dia que passa eu tenho mais certeza ainda. Então a escola

me ajudou de forma indireta: se eu não tivesse conhecido essa garota, não tivesse ido pra essa certa escola, tenho certeza que eu não teria esse projeto que eu tenho hoje.

Lucila: Muito bom! De forma indireta, porque essa menina estava na escola, no ambiente que você a conhece.

Daniel: Isso mesmo.

Lucila: Maravilha, Daniel, muito obrigada! Eram essas as perguntas. Agora eu vou te passar aqui pelo WhatsApp algumas indicações minhas, que eu acho que você vai gostar. A continuação da atividade independe de você assistir ou não às indicações, mas eu acho que você vai gostar bastante. E aí eu vou te mandar também por WhatsApp essas mesmas perguntas e a ideia é que você faça um audiovisual respondendo a essas mesmas perguntas, mas aí em outra linguagem, não mais falando comigo, mas produzindo um vídeo sobre isso.

Daniel: Tipo um documentário, né?

Lucila: Isso, tipo um pequeno documentário, exatamente. Aí você pode fazer o vídeo do jeito que você quiser. Pode ser com uma narração sua, pode ser com uma poesia sua, com várias poesias. Pode ser.. Não sei. Você pode escrever um roteiro pra ir falando e aí fazer várias imagens que podem ser pelas ruas, pode ser pela escola, pode ser dentro de casa, pode ser de você. Você que escolhe. Então essa é a ideia. O prazo para você me entregar isso a gente pode combinar. Eu estou no seguinte processo no meu doutorado: agora, no fim de outubro, eu qualifico, que é uma primeira etapa para ir adiante com a tese. Eu estou fazendo minha pesquisa de campo, que ficou muito prejudicada com a pandemia, que é isso que eu estou fazendo com vocês. Então eu vou propor uma data e você vai me pontuando, se precisar de um pouco mais de tempo. Eu conto com o vídeo! O prazo não é muito rigoroso, mas eu quero muito receber seu vídeo! Vou te passar tudo isso por mensagem.

Daniel: Tá bom, perfeito.

Lucila: Então beleza, muitíssimo obrigada por me atender e agora seguimos em contato. Um beijo pra você, bom dia também!

Daniel - Pra ti também, bom dia!