2. O PROCEDIMENTO RELATIVO A TUTELA ANTECIPADA
2.2 Admissibilidade da petição inicial
2.2.1 Condições Específicas da ação
2.2.1.2 Compatibilidade do pedido final indicado com o procedimento comum
Essa condição da ação antecedente antecipada pode ser intuída como uma decorrência do próprio sistema na qual está inserida. Note-se que o artigo 303, § 1º do CPC trata do procedimento a ser seguido após a concessão da tutela antecipada requerida na modalidade antecedente e em seu inciso II há clara menção que com o aditamento, o processo seguirá o procedimento comum. Essa é a única conclusão possível, já que menciona a necessidade de
atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2018, pgs. 991-992.
191 Por todos ver: THEODORO JUNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil – Teoria Geral do Direito
Processual Civil, Processo de Conhecimento e Procedimento Comum - v. 1. 56ª ed. rev. atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2015, pg. 648.
intimação do réu para a audiência de conciliação ou mediação, prevista no artigo 334 do CPC, que trata do procedimento comum.
Se a partir do aditamento da inicial o processo seguirá pelo procedimento comum, não há como o pedido final (após aditamento ou emenda) seguir procedimento diverso. Em outras palavras, se houver necessidade de seguir com algum procedimento especial para analisar o pedido final, é porque não era cabível a ação antecedente antecipada192.
É claro que se for possível prosseguir pelo procedimento comum para julgar o pedido final, mesmo que em tese pudesse ter sido processado por algum rito especial, não há que se falar em falta de condição da ação, pois o procedimento especial escolhido afinal foi o antecedente antecipado, cuja segunda parte pressupõe o procedimento comum (e não mais o especial que poderia ter sido escolhido inicialmente, ao invés do antecedente).
Vale destacar que o artigo 327, § 2º do CPC193 parece indicar ao contrário, permitindo o emprego de “técnicas processuais diferenciadas” típicas de procedimento especial no procedimento comum, se não forem incompatíveis com esse. Porém esse artigo, que trata de cumulação de pedidos, prevê a aplicação do procedimento comum com algumas técnicas do especial. Em primeiro lugar, não se pode afirmar que estamos diante necessariamente de cumulação de pedidos, já que o pedido fina não é formulado na inicial simplificada e o pedido final pode não conter a confirmação da tutela antecipada. Ocorre que a situação em estudo se
192 “As ´liminares´ dos procedimentos especiais poderão adquirir a estabilidade do art. 304 sempre que não
houver regime procedimental que colida com essa possibilidade. Essa impossibilidade ocorrerá sempre que o procedimento especial carecer de previsão de tutela provisória antecedente capaz de ser processada com aparência de autônoma (ressalvando a obrigatória indicação da lide principal), o que, pode-se dizer, ocorre com todos os procedimentos especiais codificados. Portanto, não há como conceber a estabilização em tais casos. Não porque haja vedação explícita, mas porque não há procedimento especial que comporte o procedimento de concessão antecipada da tutela provisória a ensejar eventual estabilização na forma do art. 304” (VEIGA, Daniel Brajal; FONSECA, Geraldo; D´ORIO, Rodrigo; FAGUNDES, Cristiane Druve Tavares; ARMELIN, Roberto. Tutela Provisória: Questões Polêmicas. In Tutela provisória no CPC: dos 20 anos de vigência do art. 273 do CPC/73 ao CPC/2015. Coordenação de Cássio Scarpinella Bueno... [et al.]. 2 ed. São Paulo: Saraiva Educação 2018, pg. 562). Apesar de admitir a possibilidade de se valer da tutela antecipada antecedente em procedimentos especiais, o texto acima na verdade reitera que ela não se aplica quando após o aditamento vá se seguir procedimento diverso do comum, que não tenha expressa previsão semelhante ao do artigo 304 do CPC. Em outras palavras, só seria possível pensar em estabilização e utilização da tutela antecipada antecedente em procedimentos especiais que expressamente a prevejam. Ocorre que nesse último caso, não estaríamos diante de aplicação do procedimento previsto no artigo 303 e 304 do CPC e sim de um novo procedimento (com determinações semelhantes), mas previsto no rito especial em questão (hipotético).
193 Artigo 327, § 2º do CPC: “Quando, para cada pedido, corresponder tipo diverso de procedimento, será
admitida a cumulação se o autor empregar o procedimento comum, sem prejuízo do emprego das técnicas processuais diferenciadas previstas nos procedimentos especiais a que se sujeitam um ou mais pedidos cumulados, que não forem incompatíveis com as disposições sobre o procedimento comum”.
refere justamente ao contrário, pois estamos diante de um procedimento especial, previsto no artigo 303 e 304 do CPC e não da aplicação integral do procedimento comum, mesmo que se admita na hipótese a cumulação de pedidos. Mais que isso, após o aditamento quando o Código determina o seguimento pelo procedimento comum, esse continua a ser um procedimento especial, pois como dito acima, o procedimento especial nada mais é do que algumas fases diversas com a complementação do procedimento comum.
Podemos dizer que não há consenso em relação a essa condição da ação antecedente antecipada. Na verdade, a maioria da doutrina parece se inclinar pela aplicação da ação antecedente mesmo que após o aditamento ou emenda vá-se seguir outro procedimento especial. Vejamos duas situações que podem servir de exemplo: ação de alimentos e ação rescisória. Ambas foram alvo de enunciados doutrinários de fóruns respeitados, a primeira do Conselho da Justiça Federal (CJF) e a última do Fórum Permanente de Processualistas Civis (FPPC).
O enunciado 500 do FPPC, apresenta a seguinte redação: “o regime da estabilização da tutela antecipada antecedente aplica-se aos alimentos provisórios previstos no art. 4º da Lei 5.478/1968, observado o §1º do art. 13 da mesma lei”. Com todas as vênias de quem defende tal entendimento194, esse enunciado pode causar mais confusão do que explicação.
Em primeiro lugar, o disposto no artigo 4º daquela lei se refere à alimentos provisórios, concedidos no bojo do procedimento especial da Lei 5478, sendo impossível falar em estabilização sem pedido expresso do autor, como visto acima. Mais que isso, o artigo 13, § 1º, também mencionado no enunciado 500, prevê a possibilidade de revisão dos alimentos provisórios (segundo o enunciado, que podem ser estabilizados) a qualquer tempo, o que contraria frontalmente o disposto no artigo 304, § 5º do CPC, que por sua vez estabelece o prazo decadencial de dois anos para a revisão da decisão estável.
Poderíamos interpretar tal enunciado no sentido que o pedido de alimentos provisórios, feito em ação antecedente antecipada pode se estabilizar normalmente, desde que siga o rito dos artigos 303 e 304 do CPC, mas isso também estaria equivocado pela própria natureza da decisão que concede alimentos. Alterada a situação financeira das partes, a decisão sobre alimentos pode ser revista, o que implica dizer que nem o transito em julgado
194 Nesse sentido: DIAS, Maria Berenice. Alimentos: Direito, Ação, Eficácia e Execução. 2ª ed. em ebook
da decisão anterior impediria uma rediscussão da questão195, logo sequer haveria interesse
processual em uma estabilização, que não teria qualquer efeito prático. Isso sem mencionar que se pode argumentar que não é admissível estabilização quando a ação versa sobre direito indisponível196.
Já o enunciado 43 da I Jornada de Processo Civil do CJF apresenta a seguinte redação: “Não ocorre a estabilização da tutela antecipada requerida em caráter antecedente, quando deferida em ação rescisória”. Esse enunciado se mostra contraditório em si, pois apesar de parecer permitir a possibilidade de ação antecedente antecipada em casos de eventual e futura ação rescisória (após o aditamento do pedido), lhe nega o seu principal efeito, qual seja a estabilização da decisão.
Na ação rescisória197 admite-se a concessão de tutela provisória (artigo 969 do CPC), o que não implica na conclusão que pode ser alcançada através do procedimento antecedente antecipado. Ao contrário do que o enunciado e alguns autores defendem198, não vislumbro a possibilidade de aplicação parcial de um procedimento especial, como se fosse uma aplicação subsidiária, típica do procedimento comum. É certo que uma das principais exigências para a admissibilidade da ação antecedente antecipada é que o autor não possa formular petição inicial íntegra a tempo de preservar seu direito, mas isso implica em aceitar o procedimento como um todo e em consequência também a estabilização.
O grande problema é que a estabilização em si é incompatível com a ação rescisória, procedimento mais rígido que visa desconstituir a própria coisa julgada199. Em outras
palavras, a mera falta de interposição de recurso pelo réu não pode ser o suficiente para
195 Isso não significa que a sentença que julga ação de alimentos não faz coisa julgada material, como
textualmente prevê o artigo 15 da Lei 5478. Na verdade, não se deve tratar dessa sentença como diferente de qualquer outra de mérito, pois a permissão de rediscussão da questão envolve necessariamente a alteração da causa de pedir, qual seja a situação financeira das partes, em razão da cláusula rebus sic stantibus ínsita na decisão que fixa alimentos (CAHALI, Yussef Said. Dos Alimentos. 8ª ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013, pgs. 635-638).
196 O tema será melhor tratado e aprofundado no terceiro capítulo.
197 É indiscutível que a ação rescisória é regida por procedimento especial ,tanto que o próprio artigo 970 do
CPC faz menção à adoção do procedimento comum somente após a contestação e no que for compatível com o rito especial tratado entre os artigos 966 a 975 do CPC.
198 Em sentido contrário, defendendo a possibilidade de utilização do rito da ação antecedente antecipada na ação
rescisória ver: GOMES, Frederico Augusto. A Estabilização da Tutela Antecipada. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2018, pgs. 149-150.
199 ATAÍDE JUNIOR, Jaldemiro Rodrigues. Comentários ao Código de Processo Civil. Coordenadores:
Angélica Arruda Alvim, Araken de Assis, Eduardo Arruda Alvim e George Salomão Leite. São Paulo: Saraiva, 2016, pg. 1118.
desconstituir a coisa julgada com base em decisão interlocutória proferida em cognição sumária200. Estar-se-ia invertendo a ordem natural dos institutos jurídicos em questão, tornando a estabilidade mais forte que a coisa julgada, o que viola a própria lógica do sistema.