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Complementaridade ou alternativa?

3.5 Blogs e participação

3.5.1 Complementaridade ou alternativa?

Será importante analisar a participação em dois sentidos diferentes:

quando o blog desempenha um papel complementar ou, desempenha mesmo, um papel alternativo. No primeiro caso, um blogpode funci-onar enquanto dispositivo complementar da edição de notícias, através do qual é possível acrescentar novos dados e até discutir com o autor das mesmas, comentando-as. Neste caso, o blogseria uma acrescento à própria versão onlinedo meio de comunicação relacionando-o com o público e criando interactividade com os leitores, aumentando o nú-mero de informação disponível sobre um determinado assunto. Oblog sobre as eleições presidenciais norte-americanas62, disponibilizado no Públicoon-line, foi um bom exemplo disso.

Também já observámos alguns casos de blogs em que o trabalho desenvolvido pelos seus autores constituiu um bom exemplo de com-plementaridade com os media. Na noite das eleições legislativas de 2005, José Pacheco Pereira foi convidado de um programa televisivo da SIC, onde foi comentador e em simultâneo fazia actualizações no seublog, colocando tambémonlineas opiniões dos seus companheiros na mesa de comentários da SIC, bem como as mensagens que recebia dos leitores. Ainda no âmbito destas eleições, o Abruptoteve uma ini-ciativa pioneira na blogosfera portuguesa, que foi a de acompanhar o debate televisivo entre os dois principais candidatos (José Sócrates e Pedro Santana Lopes) acrescentando comentários pessoais e dos leito-res que chegavam viae-mail. O autor descreveu o resultado da seguinte forma: “OAbruptovai a caminho de mais de 18000 “pageviews”, com um pico durante o debate, chegando a ter quase trezentas pessoas ao mesmo tempo em linha e quase 4000 numa hora. Muitos leitores fora de Portugal acompanharam o debate pelo Abrupto. Fico contente por este resultado, porque a experiência era inédita na blogosfera portu-guesa (com a tentativa anterior da chegada da Huygens a Titã).

Re-62http://presidenciaiseua.blogspot.com– Esteblogfoi escrito pelo jornalista Pedro Ribeiro que também publicava a opinião dos leitores que recebia viae-mail.

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sultou por mérito dos leitores doAbruptoe da sua colaboração”63. Na noite eleitoral das eleições presidenciais de 2006, a iniciativa voltou a ser repetida com o mesmo sucesso. No blogforam sendo acrescenta-dos novos daacrescenta-dos e opiniões que, partindo de pontos de vista pessoais, contribuíram para o enriquecimento do debate e complementaram o que ia sendo avançado na estação televisiva. O Blasfémias64 também acompanhou o debate com comentários praticamente em tempo real.

À Internet acrescentam-se um conjunto de características que me-recem ser referidas e que influenciam de forma decisiva a comunicação entre as pessoas. A interactividade é um desses aspectos que apesar de ser já possibilitado por meios anteriores parece atingir na rede a sua total plenitude. Osblogssão um bom exemplo isso, porque a maioria permite comentários sobre os seus conteúdos, praticamente em tempo real. Estes dispositivos acabam por cumprir aquela que foi sempre uma promessa da web, a comunicação e troca de informação entre as pes-soas, de uma forma instantânea, independentemente da sua localização geográfica. Para além disso, através doslinkse hiperligações, cadablog acaba por ser uma sugestão para visitar outrossites, outrosblogs, outras opiniões. O facto de a opinião ser o motor para o funcionamento dos blogsnão é inédito. Também noutras fases da história ela teve grande importância, os dispositivos utilizados é que mudaram.

A complementaridade entreblogs e meios de comunicação social parece estar a ganhar cada vez mais adeptos. O BlogTalk, integrado na edição electrónica da revistaNewsweek, é um exemplo interessante disso mesmo, porque permite conhecer de imediato o que está a ser dito na blogosfera em relação a um determinado artigo publicado no site. Também naNewsweekoBlogRoundupapresenta uma lista doTop 10, das notícias com mais ligações, e consequentemente mais aborda-das, na blogosfera. Verifica-se assim uma articulação entre a revista e os blogspor intermédio do que nela é editado, o que permite colher opiniões e acrescentar dados ao tema tratado. Em Janeiro de 2006, o

63http://abrupto.blogspot.com/2005_02_01_abrupto_archive.html

64http://ablasfemia.blogspot.com/2005/02/o-incio-do-debate.html

Blogs e a fragmentação do espaço público 69 provedor do leitor do jornal Público65 também criou um blogque foi incluído na versão onlinedo jornal, permitindo comentários e estando atento aos mesmos. Esta foi mais uma forma de complementar uma importante parte desta publicação: a do provedor e em última instância a dos seus leitores.

Porém, umblogpode também apresentar características típicas do jornalismo alternativo, no sentido em que apresenta notícias que não aparecem nosmediatradicionais. Às vezes surgem através dos próprios jornalistas que têm no espaço dobloguma outra liberdade que não têm no meio de comunicação para o qual trabalham. Neste caso específico, osblogsassumem formas específicas de jornalismo e abordam questões que osmedianão tocam66.

Pensar osblogscomo uma forma de jornalismo alternativo é, apesar de tudo, algo que ainda está longe de reunir consenso. Se, por um lado, é possível acrescentar num bloginformação que não cabe nos media tradicionais, por outro lado, questiona-se se será ético usar informações recolhidas durante a actividade jornalística com outra finalidade a não ser a de servir o meio de comunicação para o qual se trabalha. Para

65 http://blogs.publico.pt/provedor/- A existência deste espaço é explicada da se-guinte forma: “O blog do Provedor dos Leitores do Público foi criado para facilitar a expressão dos sentimentos e das opiniões dos leitores sobre o Público e para alargar as formas de contacto com o Provedor. Este blog não pretende substituir as cartas e osmailsque constituem a base do trabalho do Provedor e que permitem um contacto mais pessoal, mas sim constituir um espaço de debate, aberto aos leitores, à Direcção do Público e aos seus jornalistas em torno das questões levantadas pelo Provedor.

Serão aqui publicados semanalmente os textos do Provedor dos Leitores do Público e espera-se que eles suscitem reacções. O Provedor não se pode comprometer a res-ponder a todos os “posts” nem a arbitrar todas as discussões que aqui tiverem lugar.

Mas ele seguirá atentamente tudo o que aqui for publicado”.

66 Oblogbrasileiro da autoria de Ricardo Noblat - www.noblat.blig.ig.com.br - é o exemplo de um espaço jornalístico já reconhecido pelo público. O autor cita in-formações de vários meios de comunicação social, mas avança frequentemente novas informações sobre os mais variados assuntos, talvez um sinal das fontes privilegiadas de que dispõe e que guardou do seu tempo de jornalista. Noblat já chegou mesmo a antecipar-se a grandes jornais e estações de televisão. As notícias são normalmente curtas e concisas, dizendo o essencial. Algunspostschegaram a ter 900 comentários.

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comprovar este dilema, basta mencionar o caso do jornalista Emanuel Bento, que foi despedido doDiário de Notícias da Madeirapor textos que escreveu no seublogpessoalEsquina do Mundo67.

Estes dispositivos podem, contudo, assumir formas específicas de jornalismo e abordar questões que osmedianão tocam. Houve já algu-mas tentativas de introdução deblogsem meios de comunicaçãoonline portugueses. Um exemplo disso foi o blogcolectivo de campanha da SIC68, escrito pelos jornalistas que acompanharam os principais candi-datos às últimas eleições legislativas. Tratou-se de um exercício origi-nal e inédito em Portugal, com informação complementar interessante, curiosidades que não são referidas nas notícias e que permitiam com-preender os bastidores de uma determinada acção política. Por outro lado, o blog permitia conhecer as opiniões dos jornalistas em ques-tão. Este tipo de actuações pode ser arriscada, uma vez que perante determinadas posições tomadas, os leitores podem colocar em causa a credibilidade dos jornalistas envolvidos.

Gillmor diz que “um repórter pode facilmente afixar apontamentos da sua rotina, o tipo de anotações que dantes se faziam num “bloco de notas”, bem como notícias que não puderam ser incluídas no jornal devido a problemas de espaço”.69 Mas a verdade é que o jornalista pode fazer muita coisa no seublogpara além de o utilizar como uma espécie de bloco de apontamentos. Pode mesmo dar a sua opinião sobre os assuntos em que trabalha desde que não coloque em causa esse mesmo trabalho, bem como a sua credibilidade e isenção na forma como o abordou. O jornalista tem também direito à opinião, desde que bem identificada.

67http://esquina-do-mundo.blogspot.com/

68http://diariodacampanha.blogs.sapo.pt/

69Dan Gillmor,Nós os Media, Lisboa, Editorial Presença, 2005, p. 120.

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3.6 Credibilidade: uma questão