• Nenhum resultado encontrado

6. A PRÁTICA DA AVALIAÇÃO DE IMPACTOS CUMULATIVOS SOBRE A

6.1. Potenciais impactos cumulativos sobre componentes ambientais relacionados à

6.1.3. Componente ambiental relevante: fauna terrestre

Outro potencial impacto envolvendo as monoculturas de cana é o aumento da mortalidade de animais nas estradas e rodovias devido ao atropelamento ocasionado pelo tráfico de caminhões e maquinários nos canaviais. Como consequência, há um impacto direto sobre as populações de animais, alterando a viabilidade das mesmas (TREWEEK, 1999), podendo reduzir a abundância populacional se houver elevadas taxas de mortalidade (COFFIN, 2007; JACKSON; FAHRIG, 2011).

Assim, além da redução da densidade de populações em escalas locais, há também consequências incertas sobre o efeito em metapopulações, a qual pode ser definida como um conjunto de subpopulações interconectadas que funcionam como uma unidade geográfica (KARLSON; MÖRTBERG; BALFORS, 2014).

A mortalidade dos animais também está relacionada a locomoção dos mesmos, devido a necessidade de obtenção de recursos, como água e alimentos. Assim, os que possuem movimento mais lento, geralmente são os mais afetados pela mortalidade devido a colisões com veículos. Cabe destacar também que os atropelamentos não ocorrem somente com mamíferos. A herpetofauna também tem sido significativamente afetada pelas colisões (COFFIN, 2007).

Almeida e Cardoso Júnior (2014) realizaram um levantamento dos atropelamentos de animais silvestres em uma rodovia do interior de São Paulo, que é utilizada por caminhões e

maquinários para o corte e transporte da cana-de-açúcar na região. Como resultados, os autores identificaram 148 espécimes atropeladas e constataram que estes variam de acordo com a sazonalidade. Além disso, também notaram uma frequência maior de atropelamentos nas proximidades de fragmentos de mata, pela ocorrência natural das espécies no local. Do mesmo modo, Oliveira (2011) identificou 114 mamíferos atropelados em uma rodovia no interior de São Paulo, no bioma Cerrado, inferindo que estes animais geralmente apresentam grandes densidades populacionais, os quais frequentemente vivem em ambientes agrícolas, e possuem hábitos generalistas.

Diante disso, faz-se necessário um maior aprofundamento das consequências da redução da abundância populacional de animais pelos atropelamentos, para a elaboração e efetiva implementação de medidas de mitigação.

Nesse sentido, Glista, Devault e Dewoody (2009) ressaltam que há diversas abordagens para a atenuação da mortalidade da população de animais por essa causa, as quais envolvem principalmente a instalação de placas de sinalização e ações voltadas para a conscientização de motoristas, bem como a adoção de mecanismos que alteram o comportamento dos animais, como a instalação de passagens para a fauna.

Outra fonte geradora de impacto a ser considerada é o processo de mudança de uso do solo para a implantação das áreas de cultivo de cana-de-açúcar, principalmente pela substituição de áreas de pastagens, que pode ter consequências tanto para a densidade e distribuição das populações da fauna silvestre nas áreas de cultivo, quanto para a riqueza de espécies em fragmentos florestais.

No sentido de comparar diferentes áreas, Gheler-Costa et al. (2012) investigaram a ocupação de pequenos mamíferos em remanescentes florestais, plantações de Eucalyptus, pastagens e áreas de cana-de-açúcar no estado de São Paulo. Dos 177 roedores e marsupiais identificados, a maioria é composta por espécies generalistas, as quais são comuns em áreas degradadas. Foi observado que as áreas de cana tiveram uma maior abundância desses pequenos mamíferos em relação às outras áreas analisadas, e as pastagens registraram a menor riqueza de espécies.

Dotta e Verdade (2007) e Dotta e Verdade (2011) também realizaram uma comparação entre a riqueza e abundância de mamíferos de médio e grande porte na mesma região do estado de São Paulo, comparando os diferentes elementos da paisagem, e também constataram que as áreas de cultivo de cana abrigam uma maior abundância de espécies de

mamíferos de médio e grande porte em relação às pastagens, possivelmente pela maior disponibilidade de presas, como roedores.

Ainda na mesma região de estudo, Dotta e Verdade (2009) coletaram informações acerca da abundância e diversidade especificamente de espécies de felinos nas quatro diferentes paisagens agrícolas. Foram identificadas cinco espécies: onça parda, jaguatirica, gato-maracajá, jaguarundi e gato-do-mato, porém com baixa abundância em todas as diferentes áreas analisadas. Os autores também ressaltam que estudos conduzidos na mesma área identificaram uma maior abundância de pequenos roedores em canaviais, em comparação com áreas de pastagens. Visto que os roedores são a presa mais consumida por pequenas espécies de felinos, há possibilidade de um aumento da abundância e manutenção destes nas áreas de cultivo de cana.

Nesse sentido, com um aumento na abundância de roedores nas áreas de cultivo de cana-de-açúcar, incluindo também capivaras, por exemplo, pode-se inferir que haverá um aumento de predadores na mesma área, incluindo canídeos e felinos, contribuindo para a conservação das espécies em agroecossistemas (VERDADE et al., 2011).

O aumento de pequenos e mesopredadores (níveis tróficos intermediários) nas culturas de cana se deve principalmente pela grande quantidade de alimentos para os animais que se alimentam de plantas C4 (VERDADE et al., 2012), de maneira que exercem um papel importante como fonte de alimento para outras espécies (GHELER-COSTA et al., 2012).

Diante do apresentado, ressalta-se que a compreensão da composição e abundância de mamíferos em diferentes mosaicos da paisagem agrícolas, como as áreas de cultivo de cana- de-açúcar, é fundamental para a definição de estratégias de conservação, visando à diversidade biológica em agroecossistemas (DOTTA; VERDADE, 2011).

Em relação à conservação de felinos, uma parceria entre a União da Indústria de Cana- de-Açúcar (UNICA), Corredor de Onças, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a Financial Management Control (FMC) desenvolvem o Projeto Cana Conviver, que tem como objetivo instruir e preparar os profissionais que atuam nas áreas de cana-de-açúcar, de maneira a adotarem as melhores práticas de manejo, visando a conservação da biodiversidade nos canaviais e arredores, em especial da onça-parda. Além disso, há um acompanhamento dos indivíduos da espécie por meio de colares GPS, o qual já aponta uma recomposição da população de onças-pardas nas áreas monitoradas (UNICA, 2016).

Destaca-se nesse âmbito a necessidade de um planejamento paisagístico que inclua, além do estabelecimento e gestão de áreas protegidas, o desenvolvimento de iniciativas para a restauração da vegetação nativa e proteção de habitat para as espécies no estado de São Paulo, promovendo a recuperação da paisagem caracterizada por áreas fragmentadas, e assim a melhoria da adequabilidade de áreas para diversas espécies (ANGELIERI et al., 2016).

Há também de se considerar a questão da queimada de cana, que pode também ocasionar a mortalidade de indivíduos da fauna silvestre, conforme contemplado no item anterior, juntamente com os impactos sobre o componente ambiental vegetação.

Adicionalmente, nas discussões sobre os impactos sobre a biodiversidade do setor sucroenergético, Von Glehn (2008) aponta que os fragmentos de vegetação nativa remanescentes pertencentes às regiões canavieiras devem ser protegidos, minimizando-se o efeito de borda, principalmente devido ao índice reduzido de vegetação nativa nessas regiões. A fragmentação de habitats, assim como a perda, são as maiores ameaças ao declínio de populações e espécies e à alteração de diferentes processos dos ecossistemas (LAURANCE, 2010). Isso se deve, pois, o arranjo espacial dos fragmentos de vegetação nativa é fundamental para os processos ecológicos, que podem tanto ser beneficiados ou prejudicados (RIBEIRO et al., 2009).

Para Metzger (1999), a fragmentação ocasiona a redução e isolamento das áreas propícias à sobrevivência das espécies, pois quando a estrutura de uma paisagem é modificada, há uma alteração na taxa de imigração ou recolonização de um fragmento, ocasionando na alteração da riqueza e diversidade nas comunidades. Assim, a fragmentação de habitats pode ocasionar a redução da diversidade de espécies e aumentar o risco de extinção das populações (BARBAULT, 1995).

Para Franklin, Noon e George (2002), a fragmentação de habitats deve ser entendida como um conjunto de mecanismos que ocasiona a descontinuidade na distribuição espacial dos recursos e condições em um determinado local, sob uma escala que afeta tanto a ocupação como a reprodução e sobrevivência de uma espécie. Os autores ressaltam que a fragmentação de habitats não deve ser somente relacionada ao potencial de causar impactos negativos.

No mesmo sentido, Treweek (1999) apresenta que a fragmentação de habitats é geralmente um processo que pode ocasionar, além da redução de habitats, um aumento no efeito de borda e também uma mudança na composição de espécies. E, apesar de ser um processo de característica prejudicial, de ocorrência mais frequente nas últimas décadas, a

fragmentação de habitats pode ser benéfica, ocasionando, por exemplo, o aumento da abundância de determinada espécie.

Além disso, as populações de fragmentos isolados tendem a possuir menor probabilidade de sobrevivência em comparação com populações em um fragmento conectado (LEFKOVITCH; FAHRIG, 1985; BENNETT; SAUNDERS, 2010), devido à ausência de movimentos dos indivíduos para a dispersão e aquisição de recursos, bem como para sua reprodução, já que as espécies necessitam de habitats diferentes (HOBBS, 2002). Desse modo, a dispersão é um fator chave na determinação da persistência das espécies, visto que em fragmentos isolados há uma maior mortalidade de indivíduos do que em áreas conectadas (BENNETT; SAUNDERS, 2010). Além da taxa de circulação de organismos entre as manchas de habitat, a sobrevivência de uma população depende da taxa de extinção local (FAHRIG; MERRIAN, 1985).

O tamanho de um fragmento também pode influenciar a ocorrência e até ausência das espécies, devido à necessidade de uma área mínima tanto para um indivíduo quanto para a reprodução. Ademais, as espécies diferem na sensibilidade quanto ao isolamento, dependendo tanto do tipo e escala de movimento necessário para a circulação entre fragmentos, como também pelos hábitos noturnos ou diurnos e mesmo a resposta quanto à alteração na paisagem. Assim, observa-se uma perda maior de comunidades de espécies com exigências ecológicas mais especializadas nos fragmentos isolados (BENNETT; SAUNDERS, 2010).

Em análise sobre a riqueza e composição de mamíferos de médio e grande porte em fragmentos de Mata Atlântica localizados em áreas canavieiras paulistas, Beca (2016) observou somente 50% das espécies esperadas para as regiões, concluindo que os fragmentos se encontram empobrecidos, visto que a maioria dos mamíferos são espécies generalistas, exóticas ou mesmo típicas do Cerrado.

Na perspectiva do apresentado, salienta-se que a Ecologia da Paisagem deveria ser integrada no manejo de culturas agrícolas como a cana-de-açúcar, de modo a promover a conservação da biodiversidade (VON GHLEN, 2008).

A necessidade considerar a Ecologia da Paisagem no processo de licenciamento ambiental do setor foi estabelecida pela Resolução SMA n° 67/2008, anterior à Resolução SMA n° 88/2009 e SMA n°121/2010. Nesta, estava explícita a necessidade de apresentar “estudos de ecologia da paisagem, contemplando a função das árvores remanescentes como trampolins ecológicos ou pontos de ligação de fauna, para subsidiar solicitação de autorização de supressão de árvores nativas isoladas”, onde o cultivo de cana estava localizado nas áreas

consideradas como adequadas com limitações e restrições ambientais, de acordo com o zoneamento. Entretanto, a resolução atual não dispõe sobre a necessidade da adoção da Ecologia da Paisagem para o licenciamento ambiental do setor.

A Ecologia da Paisagem tem sua relevância pela possibilidade de compreender as interações entre as unidades da paisagem, que possuem uma dependência espacial entre si. Ou seja, o funcionamento de uma unidade depende das interações existentes com unidades vizinhas, juntamente ao estudo funcional da ecologia. Assim, tem-se como foco o estudo do efeito da estrutura da paisagem nos processos ecológicos (TURNER, 1989; ZAÚ, 1997; METZGER, 2001).

De acordo com Metzger (2001, p. 4), a paisagem pode ser definida como “um mosaico heterogêneo formado por unidades interativas, sendo esta hererogeneidade existente para pelo menos um fator, segundo um observador e numa determinada escala de observação”.

A paisagem é caracterizada por três elementos básicos: mancha, corredor e matriz. A mancha (patch) pode ser caracterizada como uma área homogênea de uma unidade de paisagem que difere em aparência de seu entorno; o corredor é uma área homogênea de uma unidade de paisagem, que se distingue das unidades vizinhas e que apresenta disposição espacial linear. Além do mais, o corredor é considerado um fator de conectividade por possibilitar a ligação entre elementos, permitindo o movimento e intercâmbio genético entre fragmentos. Já a matriz é uma unidade da paisagem que controla a dinâmica da paisagem, que em geral pode recobrir a maior parte da paisagem (FORMAN; GODRON, 1986; HOBBS, 2002).

Ademais, o estudo da Ecologia da Paisagem visa compreender (i) a estrutura: como o padrão espacial da paisagem – tamanho, forma, tipos de ecossistemas – determinam a distribuição de energia, materiais e organismos; (ii) a função: são as interações entre os elementos espaciais – fluxos de energia, materiais e espécies – e os ecossistemas; e (iii) a mudança de uma região heterogênea composta de ecossistemas: alteração na estrutura e função do mosaico ecológico através do tempo (FORMAN; GODRON, 1986; HOBBS, 1997). Estes três aspectos de paisagem estão intimamente ligados, visto que a estrutura tem forte influência sobre a função, que pode servir de base para a estrutura, e a alteração da paisagem pode afetar tanto a estrutura quanto a função da paisagem (HOBBS, 2002).

Dentre os processos ecológicos que podem ser estudados destacam-se o estudo da ecologia de populações com a consideração de taxas de natalidade, mortalidade e migração,

bem como dos processos de interação que ocorrem entre populações como a polinização e dispersão; dos processos de estruturação de uma comunidade por meio da ecologia de comunidades; da produtividade e ciclagem de nutrientes e de outros processos relacionados à ecologia de ecossistemas, além de outros (METZGER, 2001).

Visto que esse campo da Ecologia considera que a conectividade é um elemento fundamental para facilitar o movimento das espécies entre as unidades de uma matriz (METZGER, 1999) e para a sobrevivência destas em fragmentos de uma paisagem (METZGER; DÉCAMPS, 1997), esta deve ser empregada para uma melhor compreensão dos impactos sobre a densidade, distribuição e riqueza de espécies nas áreas de cultivo de cana.

6.2. Análise da prática atual da avaliação de impactos cumulativos sobre a