8. PROPOSTA PARA A INTEGRAÇÃO DA AVALIAÇÃO DE IMPACTOS
8.1. Oportunidade I: Reconhecimento da necessidade da AIC no processo de AIA
Conforme explicitado em capítulos anteriores, a Resolução CONAMA n° 01/1986 estabelece a necessidade de discriminar as propriedades cumulativas e sinérgicas na análise dos impactos ambientais durante a elaboração de um EIA. Ainda, observou-se em outros requerimentos legais a necessidade da consideração de impactos cumulativos no processo de licenciamento ambientais de diversos projetos. Especificamente para o setor sucroenergético no estado de São Paulo, a Resolução SMA n° 88/2008 considera a necessidade da adequada avaliação dos impactos ambientais associados à atividade canavieira, inclusive os impactos cumulativos, além da Resolução SMA n° 121/2010.
Todavia, a abordagem empregada nas resoluções é pontual, de projeto a projeto, considerando apenas o potencial de cumulatividade e sinergia dos impactos de um empreendimento, sem explicitar a necessidade de contemplar os impactos de outras atividades que podem se combinar com os impactos do projeto que está sendo licenciado, e assim afetar as condições dos mesmos componentes ambientais de interesse – conforme preconizado pelas boas práticas internacionais em AIC.
Ademais, destaca-se que o guia procedimental desenvolvido pela CETESB, o “Manual para Elaboração de Estudos para o Licenciamento com Avaliação de Impacto Ambiental”, determina que, quando aplicável, deve ser realizada a avaliação da cumulatividade e sinergia de impactos considerando os empreendimentos existentes na região. Porém, não são especificados quais critérios ou fatores são empregados para determinar a necessidade da avaliação desses impactos, nem como conduzir a mesma quando constatada sua necessidade.
Nesse sentido, recomenda-se que a AIC seja integrada ao processo de AIA de projetos submetidos ao licenciamento ambiental que tenham impactos significativos ou irreversíveis sob condições futuras de um ou mais componentes ambientais relacionados à biodiversidade, considerando o potencial de acumulação no tempo e no espaço, bem como o potencial de contribuição de outros empreendimentos em uma mesma região. Assim, indica-se que a análise não seja restrita somente aos empreendimentos existentes na região, mas que haja a inclusão de outras atividades e projetos que ocorreram no passado e os que são razoavelmente previsíveis no futuro que podem também afetar os mesmos componentes ambientais de interesse.
É também evidenciado na literatura sobre a necessidade da AIC quando da concentração de uma série de empreendimentos de mesma tipologia, existentes e/ou em
planejamento, que podem impactar componentes ambientais de interesse, de maneira a ser um fator relevante a ser contemplado quando da determinação da necessidade da AIC. Como exemplo, destaca-se diversas atividades de mineração em uma dada área que podem comprometer a fauna e flora local, a disponibilidade e a qualidade da água, bem como as comunidades locais. Ainda, uma série de empreendimentos agrícolas, como a concentração de áreas de cultivo de cana-de-açúcar em uma região, também tem o potencial de afetar de maneira cumulativa determinados componentes ambientais (IFC, 2013). Em resumo, o ponto chave para a determinação da necessidade da AIC é o potencial de um ou mais componentes ambientais serem cumulativamente impactados por empreendimentos de mesma ou de diferente natureza.
Em relação à ausência de orientações para a AIC, Masden et al. (2010) apontam que a falta de uma definição apropriada para os impactos cumulativos, bem como orientações de métodos para a avaliação, cria um ambiente regulatório incerto para os profissionais envolvidos no processo de AIA. Piper (2001) também apresenta que a indisponibilidade de diretrizes ou abordagens recomendadas é uma significante barreira para a implementação da AIC, impossibilitando que os requisitos da legislação sejam cumpridos de modo satisfatório, com uma variedade de abordagens sendo adotadas, as quais podem não refletir os elementos de boas práticas relacionados à AIC.
Diante da necessidade de documentos de orientação que guiem a condução da AIC, Duinker et al. (2013) discutem que os mesmos devem incluir: (i) um melhor detalhamento de como os impactos se tornam cumulativos; (ii) uma maior especificação do que são projetos e atividades razoavelmente previsíveis, as quais devem ser incluídas na avaliação; (iii) uma atualização dos métodos analíticos que podem ser usados para avaliar os impactos cumulativos, como as análises espaciais e modelagem; (iv) uma maior discussão acerca das incertezas envolvendo a delimitação de limites que devem ser estabelecidos para a avaliação da significância dos impactos cumulativos; e (v) a necessidade de compartilhar os resultados de outras AIC, de modo que auxilie futuras avaliações.
Considerando o cenário atual da necessidade de compreender os fundamentos e etapas da AIC para sua inclusão na elaboração de um estudo de impacto ambiental, é imprescindível o desenvolvimento de um guia técnico de boas práticas, o qual pode ser conduzido pelo órgão ambiental em colaboração com especialistas em AIA. Recomenda-se que esse guia contemple: (i) uma definição para o termo impacto cumulativo; (ii) a descrição das etapas do processo de AIC e dos elementos a serem considerados, orientado como a avaliação deve ser
realizada; (iii) uma apresentação de casos de estudos internacionais que avaliaram impactos cumulativos, com exemplos de componentes ambientais selecionados, principalmente os relacionados à biodiversidade, e com destaque para as lições aprendidas que podem ser adotadas; (iv) indicação de métodos e ferramentas que podem auxiliar a AIC, bem como de indicadores que podem ser empregados para analisar as tendências dos componentes ambientais, com exemplos de aplicação para componentes ambientais selecionados.
A indicação de consulta a guias de boas práticas de AIC elaborados e disseminados no contexto internacional também pode ser uma orientação estabelecida no guia técnico, visando facilitar o entendimento do processo. Como exemplos de guias desenvolvidos, destacam-se os apresentados no Quadro 12.
Quadro 12. Guias de boas práticas para a AIC disponíveis no contexto internacional.
Ano País/Instituição Guia Referência
1997 Estados Unidos Considering Cumulative Effects Under the National Environmental Policy Act
CEQ, 1997 1999 Estados Unidos Consideration of Cumulative Impacts in EPA Review of NEPA
Documents
EPA, 1999 1999 Canadá Cumulative Effects Assessment Practitioners Guide Hegmann et al., 1999 1999 Comissão
Europeia
Guidelines for the Assessment of Indirect and Cumulative Impacts as well as Impact Interactions
EC, 1999 2004 África do Sul Cumulative Effects Assessment, Integrated Environmental
Management
DEAT, 2004 2005 Estados Unidos Guidance on the Consideration of Past Actions in Cumulative
Effects Analysis
CEQ, 2005 2012 Estados Unidos Guidance on Cumulative Effects Analysis in Environmental
Assessments and Environmental Impact Statements
NOAA, 2012 2013 Corporação
Financeira Internacional
Good Practice Handbook: Cumulative Impact Assessment and Management, Guidance for the Private Sector in Emerging Markets
IFC, 2013
2014 Canadá Technical Guidance for Assessing Cumulative Environmental Effects under the Canadian Environmental Assessment Act, 2012
CEAA, 2014 2015 Canadá Operational Policy Statement: Assessing Cumulative
Environmental Effects under the Canadian Environmental Assessment Act, 2012
CEAA, 2015
Fonte: Elaborada pela autora.
Sendo assim, o fornecimento de um guia técnico de boas práticas, que auxilie tanto as empresas de consultoria na elaboração do EIA, quanto à agência ambiental na definição de diretrizes nos Termos de Referência e análise técnica do EIA, possibilitará uma melhor orientação do que deve ser considerado e como deve ser conduzida a AIC, contribuindo para uma avaliação mais precisa e consistente acerca dos potenciais impactos cumulativos de um projeto em combinação com outras atividades e projetos (MA; BECKER; KILGORE, 2012).
8.2. Oportunidade II: O processo de condução da avaliação de impactos cumulativos