4 ATRIBUTOS DO LUGAR: ABORDAGENS COSTIANAS
4.3 A PAISAGEM
4.3.1 Componentes para o projeto
No Plano Piloto da Barra da Tijuca (1969), Costa evoca, na memória do projeto, a paisagem e os elementos constituintes desse sítio em particular: “Primeiro, era só a paisagem. Estranha e bela paisagem marcada por três penhascos inconfundíveis: do mar, a Pedra da Gávea, na Barra o Pão de Açúcar, o Corcovado na enseada” (1995, p. 346). Os mesmos elementos são também citados nas indagações de Costa a respeito dos modos de intervenção a serem adotados para a área: “Qual o destino dessa imensa área triangular que se estende das montanhas ao mar numa frente de vinte quilômetros de praias e dunas e que, conquanto próxima, a topografia preservou? Em que medida antecipar, intervir? Como proceder?” (IDEM).
Nos desenhos do Plano, a paisagem natural predomina. Vistas em perfil (Figura 23), que
alcançam toda a área contemplada nessa intervenção, mostram as relações de altura que se estabelecem entre os diversos conjuntos edilícios que compõem o plano, cujos gabaritos são diferenciados, e ainda a relação destes com as montanhas ao redor.
Figura 23 – Plano Piloto da Barra da Tijuca (1969). Estudo de massas.
Fonte: Acervo virtual da Casa de Lucio Costa.
Para outros edifícios em altura, a relação que o arquiteto estabelece entre o projeto e o entorno é quase métrica. No Ministério de Educação e Saúde (1936) (Figura 24), a paisagem é
essencialmente urbana e fortemente adensada. Costa estabelece nas elevações do conjunto uma relação de alturas entre o projeto e a massa edificada que o rodeia. Chega, inclusive, a indicar o número de pavimentos dos edifícios vizinhos.
Figura 24 – Ministério de Educação e Saúde (1936). Estudo de massas.
Nos anos 1960, Costa reuniu em forma de depoimento algumas prescrições urbanísticas por ocasião das obras de recuperação do Outeiro da Glória (1965), no Rio de Janeiro. O arquiteto afirma aqui o desejo pela “recuperação de um pequeno trecho de uma paisagem perdida”. Percebe-se, no texto, que o que está em jogo não é só a preservação da Igreja de Nossa Senhora da Glória, mas, nas palavras do arquiteto, o “embelezamento urbano” de toda uma porção da paisagem urbana carregada de tradição, nem que para isso fosse necessária, a cargo da prefeitura, a remoção das edificações existentes e que constituíam um entrave ao conjunto:
(...) o objetivo em vista só poderá ser precisamente esse (...) no sentido de beneficiar, tanto quanto possível, a igreja (bastariam, para comprová-lo, as medidas anteriormente tomadas visando a limitação da altura das construções naquela área e o presente projeto de desafogo a pretexto da criação de um novo acesso ao outeiro), apenas, voltados como estão os referidos técnicos para a solução de problemas urbanísticos de muito maior vulto e complexidade, terão deixado de encarar com a necessária amplitude este problema estritamente paisagístico, pois não se trata tanto, no caso, de beneficiar a igreja, como, principalmente, a “paisagem urbana”, num dos seus trechos mais característicos e impregnados de tradição (IDEM, s.d.).
Em uma perspectiva, Costa representa todo o conjunto da intervenção, o novo acesso previsto e a Igreja no cume do outeiro (Figura 25), reforçando a importância do edifício religioso nesse
trecho de paisagem urbana.
Figura 25 – Outeiro da Glória (1965). Perspectiva externa.
Fonte: Acervo virtual da Casa de Lucio Costa.
Em outros desenhos para intervenções em áreas históricas, o arquiteto também procura estabelecer uma relação visual entre o novo e o antigo, representando, juntamente com o objeto da intervenção, o edifício histórico aparentemente mais importante do conjunto. Em
uma perspectiva do Museu das Missões (1937) (Figura 26), por exemplo, o edifício proposto
domina totalmente a cena em primeiro plano, mas é possível mesmo assim observar, ao
fundo, por entre os espaços alpendrados do museu, as ruínas da Igreja de São Miguel Arcanjo. De modo parecido, a perspectiva do conjunto de edifícios a serem implantados defronte ao
Parque Guinle (década de 1940) (Figura 27) mostra, em primeiro plano, o edifício histórico, a
residência da família Guinle (hoje Palácio Laranjeiras), insinuado desde os primeiros esboços do projeto. Ao fundo, o conjunto moderno, originalmente com 06 blocos, sendo 03 deles construídos. O parque, uma extensão da propriedade histórica, faz a intermediação entre a edificação antiga e a intervenção moderna.
Figura 26 – Museu das Missões (Década de 1937). Perspectiva externa.
Fonte: Acervo virtual da Casa de Lucio Costa.
Figura 27 – Parque Guinle (Década de 1940). Perspectiva externa.
Na memória de projeto da Vila Monlevade (1934) o desejo de se interferir minimamente na paisagem local se revela em uma das premissas do projeto: “Prejudicar o menos possível a beleza natural do lugar a que se refere, muito a propósito, o programa” (IDEM, 2007, p. 43). Nos desenhos desse conjunto, a representação da paisagem fictícia tem por objetivo sugerir a contextualização do edifício num possível entorno. Uma perspectiva “voo de pássaro”, por exemplo, mostra os equipamentos e moradias que compõem o conjunto (Figura 7), em meio a
uma densa vegetação – que não se sabe se viria antes ou depois das construções –, com um lago artificial que aparece em primeiro plano.
A representação de elementos naturais do entorno do edifício pode ser mais do que uma opção meramente ilustrativa. Em situações como essa, a paisagem tem, no desenho, a mesma força que o objeto projetado, como ocorre em uma perspectiva do altar do Congresso
Eucarístico (1955) (Figura 28), na qual o mar e as montanhas se tornam o pano de fundo para o
grande velame com as cores do Vaticano, situado em frente à barra da Baía de Guanabara.
Figura 28 – Congresso Eucarístico (1955). Perspectivas, plantas e cortes.
Por outro lado, a ausência de elementos do entorno nos desenhos pode indicar duas situações: a postura do arquiteto no que diz respeito a relação do projeto com o meio, e o próprio caráter da paisagem. Nos desenhos de Brasília (1957) (Figura 29), ambas as situações parecem
convergir. De um lado, o relevo predominantemente plano, coberto pela vegetação rarefeita do cerrado. De outro, o desejo de construir a capital federal a partir de uma “tabula rasa”. O vazio em que os edifícios são representados pode indicar também o vazio da paisagem local.
Figura 29 – Plano Piloto de Brasília (1957). Croquis.
Fonte: Acervo virtual da Casa de Lucio Costa.