1.3. M ODELOS DE DESEMPENHO INDIVIDUAL TRANSVERSAIS
1.3.1. O modelo dos comportamentos de papel e extra-papel
1.3.1.1. Os comportamentos e o conceito de papel
Os comportamentos de papel formalizados por Katz e Kahn (1987) remetem para o cumprimento
dos requisitos que são impostos ao trabalhador. Trata-se do desempenho de papel no sistema, ou
seja, as acções desenvolvidas pelo trabalhador de modo a concretizar as tarefas que lhe são atribuídas, satisfazendo ou excedendo os padrões quantitativos e qualitativos de desempenho/eficácia que são definidos pela Organização. Inicialmente, considerava-se que a descrição do trabalho escrita do posto informava acerca das acções que permitem concretizar essas tarefas (Lynch et al., 1999), mas a evolução do mundo organizacional revelou a inadequação desta definição, na medida em que aquilo que é requerido aos trabalhadores pode divergir ou ultrapassar a descrição do trabalho escrita do seu posto (Smith, Benson, & Horsnby, 1990; Werner, 1994).
O conceito de “papel” é um dos conceitos mais úteis na explicação do comportamento dos indivíduos nas organizações complexas5 (Katz & Kahn, 1987; Roos & Starke, 1981). Recorremos a ele de modo a procurar compreender melhor o que se entende por comportamento de papel.
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Apesar de se reconhecer há muito a existência de um espaço ou campo específico a cada trabalhador ou grupo de trabalhadores (e.g., Babbage, 1832; Gulick, 1937; Smith, 1776; Taylor, 1916; Weber, 1946), naquilo que poderá ser entendido como um prenúncio do reconhecimento do conceito de papel organizacional (apesar desses autores não se referirem explicitamente ao conceito de papel), o primeiro autor a falar do papel enquanto um conceito independente terá sido Linton, em 1936. Definindo “papel social” enquanto o conjunto de acções que um grupo ou uma sociedade esperam que o indivíduo desempenhe, dado o estatuto que este ocupa aí, Linton (2000) atribuiu a este conceito uma posição central no domínio das ciências sociais, segundo Katz e Kahn (1987). Para Katz e Kahn (1987) os “papéis” descrevem formas específicas de comportamento associado a determinadas tarefas que são requeridas de todos os elementos que desempenham uma parte num determinado relacionamento funcional na Organização. A definição de “papel” como os comportamentos adoptados em resposta a tarefas, deveres, responsabilidade e expectativas que se encontram associados a uma posição particular é uma das principais linhas de orientação identificadas na literatura acerca do tema (Krantz & Maltz, 1997).
O processo de construção do papel organizacional tem sido entendido enquanto um processo dinâmico de comunicação e de influência que se desenrola ao longo do tempo. Este processo é influenciado pelas expectativas de vários actores organizacionais, o indivíduo focal6 e todos aqueles que estabelecem uma relação funcional próxima deste e que representam, por isso, o seu conjunto de papéis, nomeadamente os seus pares, supervisores e eventuais subordinados (Ilgen & Hollenbeck, 1992; Katz & Kahn, 1987; Murphy & Jackson, 1999; Roos & Starke, 1981). É um processo cíclico contínuo, através do qual o indivíduo é socializado no seu papel organizacional, informado da aceitabilidade do seu comportamento em papel, corrigido quando necessário e, simultaneamente, interpreta o seu próprio papel, influenciando-o (Katz & Kahn, 1987; Krantz & Maltz, 1997; Murphy & Jackson, 1999).
As expectativas são um elemento importante na definição do papel. As organizações procuram definir a priori os postos de trabalho necessários para concretizar os seus objectivos, desenvolvendo esforços no sentido de despersonalizar o trabalho, isto é, torná-lo independente das características dos trabalhadores, através da identificação das especificações do trabalho a realizar. Os papéis organizacionais são definidos em função dos postos de trabalho existentes, segundo o contributo que cada um deverá dar para o objectivo da Organização (Selznick, 1948). Na sua «forma pura ou organizacional» (Katz & Kahn, 1987, p. 53) os papéis são requeridos aos indivíduos sem que sejam levados em conta os seus desejos pessoais ou obrigações interpessoais, que a Organização considera
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Expressão que Katz e Kahn (1987) utilizam para se referirem ao posto que é focado na análise do papel num dado momento.
irrelevantes ao relacionamento funcional a estabelecer entre os trabalhadores. Percebe-se daqui que o papel é elaborado em função das expectativas da Organização, traduzidas na descrição do conteúdo funcional, que representa o papel formal que é delegado ao indivíduo pela Organização (Krantz & Maltz, 1997). Contudo, estão também associados ao papel significados simbólicos, tarefas informais e trabalho implicitamente autorizado, ou seja, aspectos que não são ditos, mas que existem. O papel está sujeito a normas, «expectativas gerais com carácter de exigência» que reforçam os requisitos de desempenho do papel, assim como a valores «justificações e aspirações ideológicas mais generalizadas» da Organização (Katz & Kahn, 1987, p. 53). As expectativas de papel, que podem ser mais ou menos claras e reunir maior ou menor consenso, referem-se às características pessoais dos indivíduos a ocupar o papel (e.g., ser mais ou menos dinâmico), assim como ao comportamento que é esperado deles (as acções que lhes são requeridas) (Roos & Starke, 1981). As expectativas acerca de um determinado posto são transmitidas ao trabalhador não só pela descrição do conteúdo funcional do seu posto, mas por todos aqueles que constituem o seu conjunto de papéis. Essas expectativas são influenciadas por variáveis organizacionais (e.g., o tamanho da Organização, taxa de crescimento, tecnologia, estrutura dos subsistemas, políticas formais e recompensas e sanções praticadas); variáveis interpessoais (e.g., natureza da relação entre o indivíduo e aqueles que lidam com ele); e variáveis de personalidade (e.g., sensibilidade emocional, introversão/extroversão, flexibilidade/rigidez, necessidade de realização em carreira). Desenvolvendo-se originalmente a partir dos requisitos de tarefa, o processo de construção do papel para além de ser influenciado pela natureza das expectativas transmitidas é ainda influenciado pela clareza da comunicação, as características dos transmissores de expectativas e as características da pessoa focal (Katz & Kahn, 1987).
Resumindo, por comportamentos de papel (ou desempenho de papel) entende-se os comportamentos prescritos organizacionalmente que são adoptados pelo trabalhador de modo a transformar os inputs organizacionais em bens e serviços, ou seja, em outputs (Tepper, Lockhart, & Hoobler, 2001; Werner, 1994, 2000). Equivalem ao comportamento fidedigno que Katz e Kahn (1978) definem enquanto o segundo tipo de comportamentos necessários ao funcionamento e eficácia organizacional (Orr, Sackett, & Mercer, 1989). Sendo formas específicas de comportamento requerido, o seu conteúdo, ou seja, aquilo que é comportamento de papel num determinado posto, é função das expectativas que existem acerca desse posto, ultrapassando a descrição formal do trabalho. Isto significa que o estudo do comportamento de papel num posto exige a identificação das expectativas que lhe estão associadas.
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