Há três razões básicas pelas quais poder-se-ia ver passagens inseridas: a presença de textos editoriais em 1:2; 7:27 e 12:8, nas quais o Prega dor é mencionado na terceira pessoa; epílogos adicionais em 12:9s. e 12:11-14; e, a mais importante, os elementos contraditórios dentro do livro. Parece que as adições do “ sábio” interrompem a seqüência de pensamento. Parece que as “ adições piedosas” variam de tom, e de sentimento, em relação a outras seções, e surgem apenas quando o Pre gador se aproxima de uma posição herética.
108 F. L. Moriarty, Introducing the Old Testament (1960), pág. 216.
109 C. Kuhl, The Old Testament, its Origin and Composition (1961), págs. 264ss. 110 Cf. D. B. Macdonald, The Hebrew Philosophical Genius: A Vindication (1936), cap. 5.
As possíveis adições do sábio são as seguintes: 4:5, 9-12; 6:7; 7:1a, 5-12, 19; 8:1; 9:17-10:3; 10:8-14a, 15, 18s. Possíveis adições do “ pie doso” são as seguintes: 2:26a; 3:17; 7:18b, 26b, 29; 8:2b-3, 5-6a, 11-13; 11:9b; 12:1a, 13s. Estas são as passagens cuja autenticidade ainda per manece em dúvida, a despeito da tendência mais conservadora, desde a publicação da obra de Podechard, em 1912. Há, entretanto, grandes objeções contra as teorias defensoras do extenso material de inserção.
Argumentação
É estranho imaginar-se um “ editor” que distribua uma obra com a qual não concorda, e que adicione longas notas, e um epílogo, como compensação. Por que razão um escritor ortodoxo haveria de repro duzir uma obra cética e, além disso, acrescentar glosas ortodoxas a fim de produzir algo que se tornaria, visivelmente, uma “ sacola mista?” . É perfeitamente concebível que um editor publicasse Eclèsiastes com uma nota elogiosa; mas, dificilmente alguém faria isto se se sentisse mal a respeito do conteúdo da obra. Não existe um documento sapien cial com duas versões, mostrando duas teologias opostas; é duvidoso que tenha existido em alguma época. É possível imaginar-se um escri tor ortodoxo reescrevendo uma obra perigosa, a fim de neutralizá-la; contudo, fosse este o caso, tal escritor teria sido excepcionalmente in feliz, visto que, ex hypothesi, ele deixou as opiniões “ perigosas” lado a lado com as ortodoxas. Se somos capazes de perceber isto, ele, certa mente, também seria.
Para ilustrar, podemos considerar 8:12s. com maiores detalhes. Ali, o pecador tem vida longa (“ ainda que... os dias se lhe prolonguem” — vers. 12), mas, “ não prolongará os seus dias” , de acordo com o vers. 13. Aqui, certamente, existe uma contradição interna. O pecador tem dias “ que se prolonguem” , isto é, tem vida longa, escreveu um Qoheleth original; contudo, ele “ não prolongará os seus dias” , escre veu um escriba piedoso de época posterior. O argumento é persuasivo, contudo, apresenta suas dificuldades. Por que o glosador deixou in tacta a flagrante contradição, ao invés de emendar claramente: “ Diz o Qoheleth: ainda que o pecador pratique o mal e viva longamente...
contudo, eu digo: ele não prolongará os seus dias” ? Ou, visto que ele
estava, ex hypothesis, fazendo uma revisão do original do Qoheleth, por que simplesmente não omitiu a observação ofensiva? Todas as ten tativas de reconstrução da situação, apelando-se para um escritor ori ginal mais redatores revisores, têm resultado em autores com imensa
falta de jeito, ou imensa estupidez, que teriam adotado procedimentos editoriais absolutamente inviáveis.
É mais provável que as contradições em justaposição (por ex., 8:12s.) seriam propositais, a fim de chamar nossa atenção para o pon
to de vista da fé, em contraste com o da obervação. Como ponto focal de observação empírica, há aquelas pessoas que praticam o mal e têm vidas longas. Como ponto focal de fé, o Pregador afirma que isto não prossegue indefinidamente: o ímpio não prolongará seus dias. Esta hi pótese torna-se mais viável ao considerar-se que os verbos introdutó rios são significativamente diferentes. O primeiro aspecto é apresenta do pelos verbos “ vi... vi...” (vers. 9s.); o ponto de vista da fé é apre sentado pela expressão “ eu sei com certeza” (vers. 12). Por que reco mendaríamos um escriba desajeitado e contraditório? Por que o Pre gador, por si mesmo, não responde, do ponto de vista da fé, no versí culo 13, à pergunta que ele próprio deliberadamente levantou no vers. 12, do ponto de vista da observação?
Há, todavia, sublinhando estas considerações, uma questão mais importante, a de método. A questão toda do material de inserção em documentos bíblicos é muito complicada, e a argumentação tende a ser circular. A teoria das inserções não originais e intrusas levanta-se em face da dificuldade de se expor o pensamento flutuante de forma consistente e coerente. Esta dificuldade tenta o intérprete a tratar cer tas frases como sendo não originais, a despeito da ausência total de qualquer outra evidência de uma variante.
Mas, que se diria se Eclesiastes puder ser exposto coerentemente, do jeito como está? No primeiro caso, uma convicção apriori, concer nente à exposição, dita o texto; no outro caso, o texto dita a exposi ção. Na ausência de qualquer outra evidência (e neste caso não há qual quer evidência mesmo), é certo que o último procedimento obtém nos so voto. Se se puder dar uma exposição coerente, já não é isto por si mesmo uma indicação positiva de que o texto, como o temos hoje, é original? (Deixo de lado a questão inteiramente diferente dos erros não intencionais dos copistas.)
O vocabulário
No Eclesiastes, há mais uma dificuldade, que é a extraordinária simi laridade entre o vocabulário das seções sob litígio, e o vocabulário das seções isentas de disputa. Assim, o versículo sob disputa, 2:26, contém
trabalho que é a palavra chave em seções pacíficas. Em 3:17 Então disse comigo e há tempo são frases admitidamente do estilo do Pregador.
Em 4:9 trabalho, outra palavra chave aparece e, outra vez, em 6:7. Me
lhor é a boa fam a do que o ungüento precioso (7:1) e 7:5-12 são consi
derados como inserções; entretanto, o provérbio tipo “ melhor é” , encontra-se por todo o Eclesiastes, enquanto algumas expressões em 7:5-12 são, definitivamente, reminiscências da linguagem do Pregador:
também isto é vaidade (7:6) de proveito para os que vêem o sol (7:11)
Em 7:7 a palavra opressão é discutida em termos semelhantes aos da passagem 4:1-3. O “ temor de Deus” que é eliminado de 7:18b; 8:12s, faz lembrar 3:14 e 5:7, considerados originais. Em 7:26 o modo auto biográfico de apresentação é traço distintivo do Pregador (como tam bém o é o uso pleonástico da primeira pessoa do singular (pronome eu) no hebraico). Perante Deus também é termo dele. 7:29 é coerente com a teologia de Gênesis 1-3, que subjaz o livro como um todo (cf. págs. 51s.). Em 7:lls., 19; 8:1; 9:18; 10:1,10 as alusões à sabedoria são consideradas como inserções. Embora as alusões à sabedoria sejam de caráter muito generalizado, para possibilitar claramente a tomada de uma ou outra opinião, deve-se todavia declarar que nas seções indis putáveis o Pregador é, obviamente, o próprio pregador, um homem sábio, que tem grande respeito pela sabedoria (1:13,17; 2:9, 13; 7:23; 8:16; 9:15). Costuma-se dizer que a sabedoria fortalece ao sábio é uma glosa, e que melhor é a sabedoria do que a força não é glosa (7:19; 9:16). A despeito da diferença superficial, ambas dizem a mesma coi sa, quase nas mesmas palavras. O voto de fidelidade (8:2b) é elimina do; entretanto, fica bem claro, por 5:9, que o Pregador desencorajava a rebelião.
Em 8:5-6a tempo e modo lembram 3:16-22. 8:11-13 é passagem eliminada, embora corresponda exatamente a 3:16, 18-22, que não o é. Além disso, o uso de m a‘aseh, o particípio com estilo pronominal, o verbo “vi” e para que Deus, todos têm paralelismos em outras passa gens autênticas, fora de qualquer disputa. Em 9:17-10:3, o provérbio que inclui a expressão “ melhor é” lembra-nos o cap. 7. A passagem disputada 9:17 lembra a passagem isenta de disputa em 4:6, tanto quan to 10:3 ecoa 2:14. Em 10:8-14a o termo vantagem (lOs.) reflete a ter minologia do livro em geral. O vers. 10:14b é mantido, presumivel mente porque representa, manifestamente, a linguagem do Pregador; entretanto, as frases em ambos os lados são consideradas glosas (10:8-14a, 15). Contudo, 10:14b não se alinha com 10:7, nem com 10:16. De onde vem esta frase, se não for parte de 10:14a e, dessa forma, prova da autoria do Pregador? Em 10:15, 19 o uso de trabalho, a combina ção de alegra e rir (cf. 2:2 e o hebraico de 10:19) são reminiscências de argumentos anteriores. O festim faz-se para rir (10:19) tem coerên cia com 2:25 e 3:22, entretanto, é removido. O julgamento em 11:9b e 12:14 lembra 3:16-22.
Em suma, as seções sob disputa contêm a teologia e o vocabulário do Pregador. Se constituem glosas, os glosadores eram verdadeiros pe ritos. Jastrow afirma que um interpolador copiou o estilo do Prega dor. Contudo, está à disposição de todos uma explicação mais sim ples. Enquanto Jones vê os interpoladores usando “ tons e sentimentos diferentes” , Jastrow vê-os copiando o estilo do Pregador, o que serve
de indicação para a subjetividade de tais julgamentos. De fato, não há a menor razão para eliminar qualquer versículo de Eclesiastes, ex ceto mediante uma concepção a priori, da tarefa do Pregador, a qual não permitiria que tais passagens ali estivessem. Elas ali permanecem sem disputa textual, exigindo-se metodologicamente que abordemos a interpretação de Eclesiastes de maneira tal a levá-las em consideração.
A questão de se o título (1:1) e o epílogo (12:9-14) são obra de um escritor diferente do autor do livro em si, já foi discutida quando ana lisamos o problema da autoria (vejam-se págs. 26-28).
Ponto final no assunto
Qualquer que seja a história textual de Eclesiastes, o presente livro é o único Eclesiastes de que dispomos. Visto que sua história literária é inteiramente hipotética, a tarefa de expor qualquer eventual original perdido é fútil e impossível. Nosso Eclesiastes é obra literária por di reito próprio, e exige que seja estudada como tal. Tudo quanto temos é o estágio final do texto.112