A pesquisa de uma explicação convincente do propósito de Eclesiastes deve começar pela aceitação da integridade textual do livro, como o temos hoje. Se houvesse uma revisão editorial tão substancial como às vezes ténta-se fazer crer, a questão concernente ao propósito do li vro seria mudada: nós nos perguntaríamos sobre o propósito dos edi tores. É necessário, também, que se aceite o vinco pessimista que per corre o livro. É que a ortodoxia crítica efetivamente eliminou alguns elementos ortodoxos de Eclesiastes, e a tradição ortodoxa, às vezes, da mesma forma efetiva ignorou, diminuiu ou alegorizou o elemento pessimista. Nenhuma destas abordagens encaixa-se bem com o livro, como o temos.
Qual é, então, o propósito de Eclesiastes? Trata-se de um ensaio a respeito de apologética. Defende a vida de fé num Deus generoso, enfatizando o horror de outra alternativa.
Comecemos pela dicotomia céu-terra. O Pregador divide a reali dade em duas áreas: uma delas é o lugar da habitação de Deus, a outra é o lugar da habitação do homem. “ Deus está nos céus, e tu estás so bre a terra” (5:2) é pressuposição que sublinha o texto todo. Três ex
112 Esta abordagem tem sido enfatizada, recentemente, por B. S. Childs, Introduc-
tion to the Old Testament as Scripture (1979), págs. 46-106. Cj. também G. T. Shep-
pard, “ The Epilogue to Qoheleth as Theological Commentary” , CBQ, 1977, págs. 182-189.
pressões são usadas para o lado terreno desta dualidade: “ debaixo do sol” , “ debaixo do céu” e “ na terra” . A identidade de “ debaixo do céu” e de “ debaixo do sol” torna-se clara em 1:13-14. Há bem pouca dúvida, embora não seja fácil provar, que “ na terra” é um terceiro sinônimo.
Este estilo de linguagem é conhecido em outras obras antigas. Es critos babilônicos falam de dois reinos. Marduk é “ senhor dos céus e da terra” .113 “ Ver a luz do sol” é estar vivo, e os mortos não po dem “ ver o sol” .114 De vez em quando se encontram antíteses simila res, nos escritos egípcios. Na obra Uma Canção do Harpista, “ lá em cima” (reino dos mortos, após-vida) é expressão distinta de “ na ter ra” .115 G. Ryckmans refere-se a formulações similares, em inscrições do Sul da Arábia.116
A expressão “ debaixo do sol” ocorre, também, numa inscrição elamita.117 Na inscrição fenícia de Tabnith, rei de Sidom, no quarto século, a frase (fenício: th t sms) tem exatamente a mesma forma de Eclesiastes. A inscrição refere-se aos “ vivos debaixo do sol” (linha 7), contrastando com os mortos que estão num lugar inteiramente dife rente (“ entre as sombras” , linha 8). Terminologia semelhante é encon trada na inscrição de Eshmunnazar, rei de Sidom, (linha 12)118 no fi nal do quarto século a.C . Finalmente, os escritores gregos Teogônio e Eurípedes usam expressões semelhantes.119
Não se tem certeza sobre se Eclesiastes tomou emprestado direta mente da terminologia antiga, visto que tais expressões lingüísticas te riam de emergir, independentemente de contatos reais com escritos es pecíficos de culturas ao redor. O que fica bastante claro é que o estilo do Pregador èra facilmente compreendido no mundo antigo, e que ele usava a dicotomia céu-terra para atingir seus próprios propósitos. O ponto de vista do Pregador é que aquilo que se vê com total pessimis
113 Lambert, pág. 113, linha 17; cf. também linha 30.
114 Lambert, pág. 59, linha 31 no contexto das linhas 29-36; Lambert, pág. 201, reverso IV, linha 2. Cf. também a referência a “ céu e terra” em Nisaba and Wheat (Lam bert, pág. 175, linha 11); em Ludlul Bel Nemeqi (“ a terra é estendida... o céu é dispos to ” , Lambert, pág. 59, linha 37); e em Address to a Prince (Lambert, pág. 115, linha 42). O dualismo é evidente, também, em The Sammas H ym n (Lambert, págs. 126-138).
115 A N E T , pág. 467.
116 G. Ryckmans, “ Heaven and Earth in the South Arabian Inscriptions” , JSS, 3, 1958, págs. 225-236, esp. pág. 231.
117 Cf. J. Friedrich, Orientalia, New Series, 18, 1948, págs. 28-29.
118 Cf. H. Donner e W. Rõllig, Kanaanische und Aramaische Inschriften (Band I, 1962), págs. 2-3 (textos 13 e 14).
mo “ debaixo do sol” pode ser visto de forma diferente, à luz da fé na generosidade de Deus; a humanidade não ganha nada “ debaixo do sol” (1:3); a “ terra” dominada pela futilidade “ permanece para sem pre” (1:4); nada de novo pode acontecer “ debaixo do sol” (1:9-11). Quanto ao escopo das pesquisas do Pregador, ele procurou o que esta va feito “ debaixo do céu” (1:13), e avaliou que recursos poderiam ser encontrados “ debaixo do sol” (1:14). Sua busca de prazer de forma semelhante não encontrou esperança de lucro “ debaixo do sol” (2:11); tudo quanto era feito “ debaixo do sol” lhe era penoso (2:17s.).
Durante boa parte do tempo, a discussão deixa Deus de lado. En tão, dramaticamente, o Pregador apresenta Deus, e tudo muda. A ter minologia “ debaixo do sol” recua para o pano de fundo, ou desapare ce completamente (2:24-26; 11:1-12:14); ao invés, refere-se o Pregador à “ mão de Deus” (2:24), à alegria do homem (2:25; 3:12; 5:18, 20; 9:7; 11:7-9), e à generosidade de Deus (2:26; 3:13; 5:19). Eclesiastes é, portanto, uma exploração da esterilidade da vida quando não há fé prática em Deus. Há convites, no livro, misturados ao pessimismo, para ter-se uma visão inteiramente diferente, na qual a alegria e um propósito definidos são encontrados, desde que Deus seja visto “ ali” , caracterizado de modo supremo pela generosidade. Em 12 ocasiões se diz a respeito de Deus que Ele “ deu” (ou outro verbo correlato) al go.120 Em sete ocasiões se diz da humanidade que ela recebeu uma “ porção” alegre (ou “ recompensa” ) da parte de Deus.121
Outro ângulo para abordagem é considerar o relacionamento en tre Eclesiastes e Gn 1-11. C. C. Forman chama:nos a atenção para nu merosos pontos de contato. Nos primeiros capítulos de Gênesis, a raça humana está excluída da presença mantenedora da vida, que é Deus (Gn 3:22-24), estando a terra amaldiçoada (Gn 3:17s.). O homem é con denado ao trabalho estafante, que já não faz parte da bênção original (Gn 2:15), mas um fardo diário que lhe é imposto por julgamento (Gn 3:19). Seu destino final, físico, é a morte (Gn 3:19b). Estes temas são elos muito óbvios entre Eclesiastes e Gênesis. O Gênesis fala da terra como estando amaldiçoada (3:17); o Pregador fala das falhas (aquilo
que é torto) e faltas (o que falta) da vida, que são irrevogáveis, porque
impostas por Deus (7:13). No Gênesis o homem é uma combinação instável de pó e fôlego (Gn 2:7; 3:19); o Pregador afirma a mesma coi sa (3:21; 12:7). Forman vê significado no elo entre Abel (hebel) e “ vai dade” (hebel). Qualquer que tenha sido o significado original do no me Abel, o Pregador usa o sentido que ele tem de “ vaidade” como
120 Ec 1:13; 2:26 (duas vezes); 3:10, 11; 5:18, 19; 6:2; 8:15; 9:9; 12:7, 11. 121 Ec 2:10, 21; 3:22; 5:18, 19; 9:6, 9.
tema de seu discurso. No Gênesis, originalmente o homem era reto, e depois caiu; o Pregador salienta a retidão original (7:29) bem como os resultados calamitosos da queda (7:20). Forman enfatiza, também, a sememlhança entre 8:11, 9:3 e Gênesis 6:5s.; 7:26ss. e a história de Eva enganando Adão (Gn 3:6, 12); 9:9 e Gênesis 2:18-25; a preocupa ção do Pregador com a ignorância humana, e a história da expulsão do homem, que ficou sem acesso à árvore do conhecimento (Gn 2:15ss.).122 Parece, então, que o Pregador está capitalizando os temas destes capítulos de Gênesis, extraindo deles as grandes implicações.
Uma característica adicional muito notável de Eclesiastes, são as impressionantes omissões. Não faz menção a Javé, o Senhor, o nome do Deus da aliança com Israel. Mal se refere à lei de Deus, havendo uma única referência possível, em 12:13. Mal se refere à nação de Is rael (apenas em 1:12). Por que estas omissões? Parece que a resposta é que a argumentação do Pregador sustenta-se em seus próprios pés, não dependendo da fé pactuai de Israel, para ter validade. Apela para fatos observáveis universalmente, não restritos à revelação do Velho Testamento. “ Vi” é frase característica do Pregador. Os fenícios tive ram permissão para trazer pedras para o templo de Israel, mas não po diam determinar-lhe a planta. Da mesma maneira, pagãos podem con tribuir com seus tijolos literários. Podem ver, pensar, construir sen tenças que representem fatos básicos. Contudo, poderiam eles discer nir os desígnios que jazem por detrás dos elementos básicos da vida? O Pregador salienta uma área de chão comum, com pouquíssimas re ferências aos pontos distintivos da história de Israel e à sua fé. Em se guida ele propõe uma questão: é possível vivermos com os fatos reais da vida, sem a luz da fé num Deus generoso?
É extraordinário, contudo, que quando o Pregador se refere a “Deus”, a palavra hebraica raramente é ,elõhim (apenas em três lu gares); normalmente é ha’eíòhim, “o Deus” aquele que lhe é conhe cido, o único que ele reconhece como Deus. A característica de Deus mais mencionada é Sua generosidade. Assim, o Pregador está lidando com um Deus que é conhecido, e conhecido como um Deus generoso.
Em certa ocasião, o apóstolo Paulo pregou um sermão para filó sofos pagãos, no qual, de acordo com Atos 17, não havia menção às Escrituras, nem à nação de Israel, nem ao ministério de João Batista. O corpo do sermão concernia “ vós... vosso culto... O Deus que fez
122 C. C. Forman, “ Koheleth’s Use of Genesis” , JSS, 5, 1960, págs. 256-263, que suplementa um artigo anterior, “ The Pessimism o f Ecclesiastes” , JSS, 3, 1958, págs. 336-343. W. Zimmerli também nota que “ há muitas indicações de que Eclesiastes co nhecia o texto composto de Gênesis 1-3” (SJT, 17, 1964, pág. 155).
o mundo... vida, respiração e tudo o mais... sendo, pois, geração de Deus... divindade ”. Somente na última sentença ele menciona Jesus, e não pelo nome, mas apenas como “ um varão que (Deus) destinou” ; sua última sentença contém o único elemento radicalmente cristão: “ ressuscitando-o dentre os mortos” .
O Pregador, à sua própria maneira pré-cristã, faz algo semelhan te. Somente no fim de sua argumentação ele alude aos mandamentos de Deus. Ele não começa enfatizando a necessidade de obediência, mas bem mais atrás, num ponto onde todos se encontram um dia, aqui no mundo, confrontados por certas realidades observáveis. Tampouco o Pregador nos encaminha por uma rota sólida até a fé messiânica. A obra dele não é evangelismo de escopo mundial; é apenas o prólogo de uma mensagem evangelística que conduz à fé, ao longo de uma tri lha denominada convicção de necessidade. Ele pergunta a todos os ho mens, começando com o mesmo material de construção, se já apren deram a enquadrar-se nesta vida, como ela realmente é.
Uma implicação subsidiária da argumentação do Pregador é a imi tação imposta à sabedoria. Quando ele enfatiza a futilidade da vida humana toda “ debaixo do sol” , a sabedoria também é mostrada co mo inadequada para ajudar. Permite-se a sabedoria concedida por Deus, posta em ação na presença de Deus; contudo, a sabedoria autô noma, auto-suficiente, lançada como panacéia para as mazelas do ho mem “ debaixo do sol” , não se permite. Desta forma, há muita verda de na declaração de Zimmerli de que o Eclesiastes é o “ guarda de fron teira que proíbe à sabedoria cruzar a fronteira, para ir na direção de uma arte abrangente da vida” . 123
Entretanto, o propósito do Pregador é maior que isso. Ele estabe lece limites não apenas à sabedoria, mas a todos os recursos humanos. É o guarda de fronteira armado contra qualquer forma de autocon fiança. O temor do Senhor que ele recomenda (3:14; 5:7; 8:12; 12:13) não é apenas o princípio da sabedoria; é, também, o princípio da ale gria, da satisfação e de uma vida cheia de energia e de propósito.
O Pregador deseja livrar-nos de uma vida cor-de-rosa, de autocon fiança, sem Deus, com o inevitável cinismo e amargura que a acompa nham; quer livrar-nos, ainda, da confiança na sabedoria, no prazer, nas riquezas, na justiça e integridade humanas. Seu desejo é levar-nos a ver que Deus está presente, que Ele é bom e generoso, e que apenas esta perspectiva torna a vida coerente e cheia de significado.
123 W. Zimmerli, “ The Place and Limit o f the Wisdom in the Framework o f the Old Testament Theology” , SJT, 17, 1964, págs. 146-158, esp. pág. 158.