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O PROPÓSITO DE ECLESIASTES

No documento Eclesiastes e Cantares (páginas 51-56)

A pesquisa de uma explicação convincente do propósito de Eclesiastes deve começar pela aceitação da integridade textual do livro, como o temos hoje. Se houvesse uma revisão editorial tão substancial como às vezes ténta-se fazer crer, a questão concernente ao propósito do li­ vro seria mudada: nós nos perguntaríamos sobre o propósito dos edi­ tores. É necessário, também, que se aceite o vinco pessimista que per­ corre o livro. É que a ortodoxia crítica efetivamente eliminou alguns elementos ortodoxos de Eclesiastes, e a tradição ortodoxa, às vezes, da mesma forma efetiva ignorou, diminuiu ou alegorizou o elemento pessimista. Nenhuma destas abordagens encaixa-se bem com o livro, como o temos.

Qual é, então, o propósito de Eclesiastes? Trata-se de um ensaio a respeito de apologética. Defende a vida de fé num Deus generoso, enfatizando o horror de outra alternativa.

Comecemos pela dicotomia céu-terra. O Pregador divide a reali­ dade em duas áreas: uma delas é o lugar da habitação de Deus, a outra é o lugar da habitação do homem. “ Deus está nos céus, e tu estás so­ bre a terra” (5:2) é pressuposição que sublinha o texto todo. Três ex­

112 Esta abordagem tem sido enfatizada, recentemente, por B. S. Childs, Introduc-

tion to the Old Testament as Scripture (1979), págs. 46-106. Cj. também G. T. Shep-

pard, “ The Epilogue to Qoheleth as Theological Commentary” , CBQ, 1977, págs. 182-189.

pressões são usadas para o lado terreno desta dualidade: “ debaixo do sol” , “ debaixo do céu” e “ na terra” . A identidade de “ debaixo do céu” e de “ debaixo do sol” torna-se clara em 1:13-14. Há bem pouca dúvida, embora não seja fácil provar, que “ na terra” é um terceiro sinônimo.

Este estilo de linguagem é conhecido em outras obras antigas. Es­ critos babilônicos falam de dois reinos. Marduk é “ senhor dos céus e da terra” .113 “ Ver a luz do sol” é estar vivo, e os mortos não po­ dem “ ver o sol” .114 De vez em quando se encontram antíteses simila­ res, nos escritos egípcios. Na obra Uma Canção do Harpista, “ lá em cima” (reino dos mortos, após-vida) é expressão distinta de “ na ter­ ra” .115 G. Ryckmans refere-se a formulações similares, em inscrições do Sul da Arábia.116

A expressão “ debaixo do sol” ocorre, também, numa inscrição elamita.117 Na inscrição fenícia de Tabnith, rei de Sidom, no quarto século, a frase (fenício: th t sms) tem exatamente a mesma forma de Eclesiastes. A inscrição refere-se aos “ vivos debaixo do sol” (linha 7), contrastando com os mortos que estão num lugar inteiramente dife­ rente (“ entre as sombras” , linha 8). Terminologia semelhante é encon­ trada na inscrição de Eshmunnazar, rei de Sidom, (linha 12)118 no fi­ nal do quarto século a.C . Finalmente, os escritores gregos Teogônio e Eurípedes usam expressões semelhantes.119

Não se tem certeza sobre se Eclesiastes tomou emprestado direta­ mente da terminologia antiga, visto que tais expressões lingüísticas te­ riam de emergir, independentemente de contatos reais com escritos es­ pecíficos de culturas ao redor. O que fica bastante claro é que o estilo do Pregador èra facilmente compreendido no mundo antigo, e que ele usava a dicotomia céu-terra para atingir seus próprios propósitos. O ponto de vista do Pregador é que aquilo que se vê com total pessimis­

113 Lambert, pág. 113, linha 17; cf. também linha 30.

114 Lambert, pág. 59, linha 31 no contexto das linhas 29-36; Lambert, pág. 201, reverso IV, linha 2. Cf. também a referência a “ céu e terra” em Nisaba and Wheat (Lam­ bert, pág. 175, linha 11); em Ludlul Bel Nemeqi (“ a terra é estendida... o céu é dispos­ to ” , Lambert, pág. 59, linha 37); e em Address to a Prince (Lambert, pág. 115, linha 42). O dualismo é evidente, também, em The Sammas H ym n (Lambert, págs. 126-138).

115 A N E T , pág. 467.

116 G. Ryckmans, “ Heaven and Earth in the South Arabian Inscriptions” , JSS, 3, 1958, págs. 225-236, esp. pág. 231.

117 Cf. J. Friedrich, Orientalia, New Series, 18, 1948, págs. 28-29.

118 Cf. H. Donner e W. Rõllig, Kanaanische und Aramaische Inschriften (Band I, 1962), págs. 2-3 (textos 13 e 14).

mo “ debaixo do sol” pode ser visto de forma diferente, à luz da fé na generosidade de Deus; a humanidade não ganha nada “ debaixo do sol” (1:3); a “ terra” dominada pela futilidade “ permanece para sem­ pre” (1:4); nada de novo pode acontecer “ debaixo do sol” (1:9-11). Quanto ao escopo das pesquisas do Pregador, ele procurou o que esta­ va feito “ debaixo do céu” (1:13), e avaliou que recursos poderiam ser encontrados “ debaixo do sol” (1:14). Sua busca de prazer de forma semelhante não encontrou esperança de lucro “ debaixo do sol” (2:11); tudo quanto era feito “ debaixo do sol” lhe era penoso (2:17s.).

Durante boa parte do tempo, a discussão deixa Deus de lado. En­ tão, dramaticamente, o Pregador apresenta Deus, e tudo muda. A ter­ minologia “ debaixo do sol” recua para o pano de fundo, ou desapare­ ce completamente (2:24-26; 11:1-12:14); ao invés, refere-se o Pregador à “ mão de Deus” (2:24), à alegria do homem (2:25; 3:12; 5:18, 20; 9:7; 11:7-9), e à generosidade de Deus (2:26; 3:13; 5:19). Eclesiastes é, portanto, uma exploração da esterilidade da vida quando não há fé prática em Deus. Há convites, no livro, misturados ao pessimismo, para ter-se uma visão inteiramente diferente, na qual a alegria e um propósito definidos são encontrados, desde que Deus seja visto “ ali” , caracterizado de modo supremo pela generosidade. Em 12 ocasiões se diz a respeito de Deus que Ele “ deu” (ou outro verbo correlato) al­ go.120 Em sete ocasiões se diz da humanidade que ela recebeu uma “ porção” alegre (ou “ recompensa” ) da parte de Deus.121

Outro ângulo para abordagem é considerar o relacionamento en­ tre Eclesiastes e Gn 1-11. C. C. Forman chama:nos a atenção para nu­ merosos pontos de contato. Nos primeiros capítulos de Gênesis, a raça humana está excluída da presença mantenedora da vida, que é Deus (Gn 3:22-24), estando a terra amaldiçoada (Gn 3:17s.). O homem é con­ denado ao trabalho estafante, que já não faz parte da bênção original (Gn 2:15), mas um fardo diário que lhe é imposto por julgamento (Gn 3:19). Seu destino final, físico, é a morte (Gn 3:19b). Estes temas são elos muito óbvios entre Eclesiastes e Gênesis. O Gênesis fala da terra como estando amaldiçoada (3:17); o Pregador fala das falhas (aquilo

que é torto) e faltas (o que falta) da vida, que são irrevogáveis, porque

impostas por Deus (7:13). No Gênesis o homem é uma combinação instável de pó e fôlego (Gn 2:7; 3:19); o Pregador afirma a mesma coi­ sa (3:21; 12:7). Forman vê significado no elo entre Abel (hebel) e “ vai­ dade” (hebel). Qualquer que tenha sido o significado original do no­ me Abel, o Pregador usa o sentido que ele tem de “ vaidade” como

120 Ec 1:13; 2:26 (duas vezes); 3:10, 11; 5:18, 19; 6:2; 8:15; 9:9; 12:7, 11. 121 Ec 2:10, 21; 3:22; 5:18, 19; 9:6, 9.

tema de seu discurso. No Gênesis, originalmente o homem era reto, e depois caiu; o Pregador salienta a retidão original (7:29) bem como os resultados calamitosos da queda (7:20). Forman enfatiza, também, a sememlhança entre 8:11, 9:3 e Gênesis 6:5s.; 7:26ss. e a história de Eva enganando Adão (Gn 3:6, 12); 9:9 e Gênesis 2:18-25; a preocupa­ ção do Pregador com a ignorância humana, e a história da expulsão do homem, que ficou sem acesso à árvore do conhecimento (Gn 2:15ss.).122 Parece, então, que o Pregador está capitalizando os temas destes capítulos de Gênesis, extraindo deles as grandes implicações.

Uma característica adicional muito notável de Eclesiastes, são as impressionantes omissões. Não faz menção a Javé, o Senhor, o nome do Deus da aliança com Israel. Mal se refere à lei de Deus, havendo uma única referência possível, em 12:13. Mal se refere à nação de Is­ rael (apenas em 1:12). Por que estas omissões? Parece que a resposta é que a argumentação do Pregador sustenta-se em seus próprios pés, não dependendo da fé pactuai de Israel, para ter validade. Apela para fatos observáveis universalmente, não restritos à revelação do Velho Testamento. “ Vi” é frase característica do Pregador. Os fenícios tive­ ram permissão para trazer pedras para o templo de Israel, mas não po­ diam determinar-lhe a planta. Da mesma maneira, pagãos podem con­ tribuir com seus tijolos literários. Podem ver, pensar, construir sen­ tenças que representem fatos básicos. Contudo, poderiam eles discer­ nir os desígnios que jazem por detrás dos elementos básicos da vida? O Pregador salienta uma área de chão comum, com pouquíssimas re­ ferências aos pontos distintivos da história de Israel e à sua fé. Em se­ guida ele propõe uma questão: é possível vivermos com os fatos reais da vida, sem a luz da fé num Deus generoso?

É extraordinário, contudo, que quando o Pregador se refere a “Deus”, a palavra hebraica raramente é ,elõhim (apenas em três lu­ gares); normalmente é ha’eíòhim, “o Deus” aquele que lhe é conhe­ cido, o único que ele reconhece como Deus. A característica de Deus mais mencionada é Sua generosidade. Assim, o Pregador está lidando com um Deus que é conhecido, e conhecido como um Deus generoso.

Em certa ocasião, o apóstolo Paulo pregou um sermão para filó­ sofos pagãos, no qual, de acordo com Atos 17, não havia menção às Escrituras, nem à nação de Israel, nem ao ministério de João Batista. O corpo do sermão concernia “ vós... vosso culto... O Deus que fez

122 C. C. Forman, “ Koheleth’s Use of Genesis” , JSS, 5, 1960, págs. 256-263, que suplementa um artigo anterior, “ The Pessimism o f Ecclesiastes” , JSS, 3, 1958, págs. 336-343. W. Zimmerli também nota que “ há muitas indicações de que Eclesiastes co­ nhecia o texto composto de Gênesis 1-3” (SJT, 17, 1964, pág. 155).

o mundo... vida, respiração e tudo o mais... sendo, pois, geração de Deus... divindade ”. Somente na última sentença ele menciona Jesus, e não pelo nome, mas apenas como “ um varão que (Deus) destinou” ; sua última sentença contém o único elemento radicalmente cristão: “ ressuscitando-o dentre os mortos” .

O Pregador, à sua própria maneira pré-cristã, faz algo semelhan­ te. Somente no fim de sua argumentação ele alude aos mandamentos de Deus. Ele não começa enfatizando a necessidade de obediência, mas bem mais atrás, num ponto onde todos se encontram um dia, aqui no mundo, confrontados por certas realidades observáveis. Tampouco o Pregador nos encaminha por uma rota sólida até a fé messiânica. A obra dele não é evangelismo de escopo mundial; é apenas o prólogo de uma mensagem evangelística que conduz à fé, ao longo de uma tri­ lha denominada convicção de necessidade. Ele pergunta a todos os ho­ mens, começando com o mesmo material de construção, se já apren­ deram a enquadrar-se nesta vida, como ela realmente é.

Uma implicação subsidiária da argumentação do Pregador é a imi­ tação imposta à sabedoria. Quando ele enfatiza a futilidade da vida humana toda “ debaixo do sol” , a sabedoria também é mostrada co­ mo inadequada para ajudar. Permite-se a sabedoria concedida por Deus, posta em ação na presença de Deus; contudo, a sabedoria autô­ noma, auto-suficiente, lançada como panacéia para as mazelas do ho­ mem “ debaixo do sol” , não se permite. Desta forma, há muita verda­ de na declaração de Zimmerli de que o Eclesiastes é o “ guarda de fron­ teira que proíbe à sabedoria cruzar a fronteira, para ir na direção de uma arte abrangente da vida” . 123

Entretanto, o propósito do Pregador é maior que isso. Ele estabe­ lece limites não apenas à sabedoria, mas a todos os recursos humanos. É o guarda de fronteira armado contra qualquer forma de autocon­ fiança. O temor do Senhor que ele recomenda (3:14; 5:7; 8:12; 12:13) não é apenas o princípio da sabedoria; é, também, o princípio da ale­ gria, da satisfação e de uma vida cheia de energia e de propósito.

O Pregador deseja livrar-nos de uma vida cor-de-rosa, de autocon­ fiança, sem Deus, com o inevitável cinismo e amargura que a acompa­ nham; quer livrar-nos, ainda, da confiança na sabedoria, no prazer, nas riquezas, na justiça e integridade humanas. Seu desejo é levar-nos a ver que Deus está presente, que Ele é bom e generoso, e que apenas esta perspectiva torna a vida coerente e cheia de significado.

123 W. Zimmerli, “ The Place and Limit o f the Wisdom in the Framework o f the Old Testament Theology” , SJT, 17, 1964, págs. 146-158, esp. pág. 158.

No documento Eclesiastes e Cantares (páginas 51-56)