COMENTÁRIO
B. OS PROBLEMAS DO PESSIMISTA (1:2-2:23)
i. O fracasso do secularismo (1:2-11). O Pregador desfaz a confiança na visão secular da vida, convidando seus leitores a tomar consciência de alguns fatos básicos: a futilidade da vida (v. 2), suas conseqüências para o homem (3), a impossibilidade de alguém livrar-se do reino ter reno, onde o problema se desenvolve (4) e as implicações que tudo isto traz para a visão que o homem tem da natureza (5-7) e da história (8-11). Tem-se em vista um secularismo prático, não necessariamente cem por cento intelectual. Pois, há um secularismo de indiferença, ou de timi dez, tanto quanto de filosofia. Da mesma forma, não se deve julgar que as opiniões estão sendo apresentadas como sendo “ meramente” pontos de vista seculares, e não como fatos verdadeiros. Para o Prega dor, tais fatos são verdadeiramente fatos, contudo, não constituem toda a verdade. Ele pode descrever sua própria vida como sendo “ vã” (7:15). Entretanto, sua visão engloba mais do que o reino terreno. •
2. Vaidade de vaidades é um superlativo hebraico: “ vaidade com
pleta!” A vaidade (hebel) inclui (i) brevidade e ausência de substância,
vazio, denunciada em Jó 7, onde a “ vaidade” (vers. 16, no hebraico)
da vida do homem é um “ sopro” (vers. 7), uma nuvem que se evapora (vers. 9), que logo se extinguirá (vers. 8) e não mais voltará (vers. 9s.); (ii) desconfiança e fraqueza, encontradas também no Salmo 62, onde Deus, a “ rocha” e “ alto refúgio” (vers. 2 e 6) é comparado ao ho mem, que é “ vaidade” (vers. 9), “ parede fendida” ou “ um muro pres tes a cair” (vers. 3); (iii) futilidade, como em Jó 9:29 (heb.), onde “ em vão” significa “ sem produzir efeito” ; (iv) engano (cf. Jr 16:19; Zc
10:2).2 O Eclesiastes inclui todas estas ênfases. Nada é digno de con fiança, nada é substancial; nenhum esforço de per si trará satisfação permanente; as maiores alegrias são transitórias. Entre 1:2 e 12:8 o Pre gador fará ecoar esta declaração-chave cerca de 30 vezes, como que para demonstrar que seu livro procura comprová-la, expondo-a. A vai
dade caracteriza todas as atividades humanas (1:14; 2:11): a alegria (2:1)
e a frustração (4:4; 7-8; 5:10) da mesma maneira, a vida (2:17; 6:12; 9:9), a juventude (11:10) e a morte (3:19; 11:8), os destinos dos sábios e dos tolos (2:15, 19), dos diligentes e dos preguiçosos (2:21, 23, 26).
2 Algumas idéias que apontariam para uma “ incapacidade de inclusão” são me nos centrais no uso de hebel (cf. W. E. Staples, “ The ‘Vanity’ of Ecclesiastes” , JNES, 2, 1943, págs. 95-104), “ zero” (H. L. Ginsberg, W IANE, pág. 138) ou “ algo muito pró ximo a ‘ironia’ e ‘irônico’”, que usa para salientar aquilo “que é incongruente” (E. M. Good, Irony in the Old Testament (1965), pág. 182, seguido de perto por T. Polk, “ The Wisdom of Irony” , Studia Biblica et Theologica, 6, 1976, págs. 3-17). Outras opi niões são mencionadas por Lys (pág. 89).
Tudo literalmente é “ todas as coisas, todos” . Toda a experiência
humana, vista como um todo, está “ sujeita à vaidade” (cf. Rm 8:20). A mesma expressão ocorre no hebraico destas passagens: 1:14; 2:11, 17; 3:1, 19; 12:8. Encontra-se um qualificativo no vers. 3 (“ debaixo do sol” ), repetido em 1:14; 2:11,17; e, com variante, em 3:1. A men sagem do Pregador somente pára em “ tudo é vaidade” , ao dirigir-se à pessoa que procura satisfação desconsiderando a Deus. Para todos quantos adotem a sua cósmovisão, ele tem uma nota de encorajamen to. Quando se introduz uma perspectiva de fé, “ tudo é vaidade” cons titui, ainda, uma verdade, porém, não toda a verdade; só é verdade “ debaixo do sol” . Quando novos fatores são trazidos à baila, como em 2:24-3:22, e intermitentemente, em seguida, (por ex.: a generosida de de Deus, a providência divina, o julgamento divino), não se esque ce da “ vaidade da vida, nem fica ela obliterada. Entretanto, os novos fatores transformam a perspectiva, mudando o pessimismo em fé. Es ta noção prefigura a perspectiva neotestamentária em que o crente, se corrompe no “ exterior” (2 Co 4:16), está sujeito “ à vaidade” e “ ge me” com a criação “ até agora” (Rm 8:20-22). Entretanto, ele sabe o que está acontecendo (Rm 8:22), vê as coisas numa perspectiva dife rente (2 Co 4:18), espera algo diferente (Rm 8:25). A nova perspectiva não cancela a velha perspectiva; o crente vive numa sobreposição de ambas. Contudo, a nova perspectiva revoluciona suas expectativas.
3. Este versículo explica as conseqüências da futilidade terrena pa ra a própria humanidade. Proveito (yitrôn) é termo comercial; a vida “ não paga dividendos” (Jones). Se o reino terreno está sujeito à vai dade, não há esperança de encontrar proveito (lucro) final, ou satisfa ção, apenas em seus recursos. Trabalho ( ‘ãmãl) pode denotar labor fí sico (Salmo 127:1), ou angústia mental (Salmo 25:18). No Eclesiastes a ênfase se coloca, em geral, no trabalho real, nos esforços humanos (especialmente em 2:10s., 18-23), mas, os aspectos mentais-emocionais do labor humano também devem ser mantidos em mente, aqui. Isto está de acordo com o uso de 'ãmãl em outros lugares: a “ angústia” de José (Gn 41:51), a “ desventura” de que Israel foi livrado (Números 23:21), o “ sofrimento” de Jó (Jó 3:10).3 Se nossa visão da vida não for mais longe do “ debaixo do sol” , todos os nossos esforços terão um sobretom de miséria.
No Velho Testamento, debaixo do sol ocorre apenas no Eclesias tes (1:3, 9, 14; 2:11, 17, 18, 19, 20, 22; 3:16; 4:1, 3, 7, 15; 5:13, 18;
3 C. S. Knopf inclui “ opacidade” no significado (“ The Optimism of Koheleth” ,
JBL, 49, 1930, págs. 195-199) contudo, isto é duvidoso. C. C. Form an (“ Koheleth’s
Use of Genesis” , JSS 5, 1956, pág. 262) e Lys (pág. 100) apontam para o pano de fundo em Gênesis 3.
6:1, 5,12; 8:9,15 (duas vezes), 17; 9:3, 6, 9 (duas vezes), 11,13; 10:5). Tem elos com outros escritos antigos, visto que ocorre em escritos fe- nícios, elamitas e gregos.4Vaidade caracteriza o homem e o reino que ele ocupa, e domina. Se seus recursos limitam-se totalmente a este nos so mundo, “ sem proveito” (sem lucro) é o lema que acompanha tudo quanto ele faz. O Pregador mencionará oportunamente (5:2) outro rei no, totalmente diferente, quando estiver falando de Deus, a Quem se pode abordar e adorar (5:1-7). No entretempo, deve explorar o abis mo de pessimismo.
4. O problema da humanidade é agravado ainda mais pelo con traste entre a brevidade da vida e a aparente permanência do reino ter- real (cf. Salmo 90:4s., em que a eficiência humana é comparada a uma guarda à meia-noite, à energia do sono, persistência da grama. Assim, a vaidade inerente do reino terreal não provê esperança de mudança.
Vai... vem... permanece representam particípios hebraicos, implican
do em continuidade de ação: “ está continuamente indo... vindo... per manecendo” . Para sempre significa que “ debaixo do sol” não há fim concebível para a futilidade terrena.
5-7. Estes versículos amplificam os versículos 2-4 em termos de cria ção. Embora houvesse atividade espalhafatosa, faltou o progresso. Não há proveito para o homem em seu trabalho; semelhantemente, não há proveito para a criação em seu trabalho. Três exemplos são dados: os ciclos repetitivos do sol, semelhante a um atleta correndo numa pista circular; o vento soprando em seus circuitos, aparentemente sem pro pósitos; as águas despejando-se nos mares, sem jamais encontrar um fim para suas tarefas.
Segundo a ortodoxia do Velho Testamento, a criação ressoa os lou vores do Senhor. A criação Lhe pertence. Nuvens, tempestades, tro vões, raios, tudo está sob Seu controle. Ele pode reter ou conceder a fertilidade ao homem, ao animal e às plantas. Ele estabeleceu os limi tes do mar, deu ordens ao verão e ao inverno, determinou que o sol governe o dia, a lua a noite, e chama as estrelas pelos seus nomes.5 Contudo, diz o Pregador: Tire-se-lhe Deus, e a criação já não refletirá Sua glória, mas ilustrará o enfado da humanidade. Quando Adão caiu, a criação também caiu (Gn 3:17-19). Se a humanidade está enfadada, a criação está enfadada com ela. Se nossa perspectiva é meramente “ de
4 Veja-se a Introdução, págs. 21-25 para referências, e o significado da frase na interpretação devida de Eclesiastes.
5 Veja-se ainda L. Koehler, Old Testament Theoíogy (1957),págs. 26-29, 85-92; H. H. Rowley, The Faith o f Israel (1956), págs. 25-27; J. L. McKenzie, “ God and Nature in the Old Testament” , CBQ, 14, 1952, págs. 18-19, 124-145.
baixo do sol” , nenhuma doxologia pode ser erguida Àquele que está “ nos céus” (5:2). A esperança dos profetas da humanidade redimida, e de um paraíso terreno reconquistado (Is 11:6-9; 65:17-25) não pode alicerçar-se em premissas seculares.
E volta ao seu lugar traduz um verbo que significa “ arfar, arque
jar, fungar” . Indica que o sol está cansado, como “ um atleta muito ofegante, na corrida” 6. Os particípios repetidos do versículo 6, no he braico, traduzidos por vai... fa z... volve-se... revolve-se... retorna... em si mesmos dão uma sensação de monotonia. No versículo 7, ao lu
gar para onde correm os rios, a tradução é correta. A idéia não é que
os rios voltam à sua fonte de origem (como indicam algumas tradu ções) mas, ao contrário, que os rios fluem perpetuamente, sem fazer qualquer progresso no enchimento do oceano.
8. O argumento é desenvolvido um pouco mais. A despeito do fa to de a criação permanecer ativa, ao ponto de uma exaustão tal, que não se pode descrever, ela é incapaz de dar ao homem secular qual quer satisfação duradoura. São canseiras se traduziria melhor numa forma passiva, difícil de exprimir-se em português, ao invés de em voz ativa, acompanhando seu significado claro em outras ocorrências (Dt 25:18; 2 Sm 17:2). Todas as cousas pode traduzir-se “ todas as pala vras” , o que enfatizaria que a insatisfação do homem está além das palavras (cf. NAB: Todas as falas estão carregadas de fadiga). Aquele pensamento está na frase seguinte. Aqui, todavia, a tradução comum leva o argumento adiante mais claramente.
Este ponto de vista de “ debaixo do sol” contrasta vigorosamente com aquele do crente da Velha Aliança, que amava a criação, e via nela a majestade do nome de Deus,7 olhava com grande admiração para os céus,8 ponderava nas lições ensinadas pelos animais, pelo ven to, pela erva e pelas árvores,9 e cantava para a glória de Deus, em fa ce daquilo que via e ouvia.10 Via a natureza cantar de alegria,11 e sa bia que o controle de Deus da criação era parte da redenção, à época
6 N. H. Snaith, Distinctive Ideas o f the Old Testament (1944), pág. 145. P. Joüon (“ Notes philologiques sur le texte Hébreu d ’Ecclésiaste” , Bib., 11, 1930, pág. 419) afir ma que o texto é suspeito; entretanto, faz sentido compreendê-lo, conforme exposto acima, no contexto. 7 Salmos 8:1, 9; 19:1; 89:9-12; 96:11-12. 8 Salmos 8:3; 19:1, 4-6. 9 Salmos 32:9; 34:10; 35:5; 37:2, 35; 42:1; 50:10-11; 55:6-7; 58:4-8; 59:6; 74:12-17; 77:16-19; 84:3; 93:3-4; 102:4, 6-7. 10 Salmos 8; 19; 29; 65; 104. 11 Salmo 65:12-13.
do êxodo.12 Tomando a deixa de Salomão,13 os sábios também se glo riavam na criação e usavam suas lições para atingirem seus próprios propósitos.14 O Pregador mantém o ponto de vista de que tudo isto se perde quando se alimenta uma perspectiva “ debaixo do sol” . Sobra apenas a natureza exaurida. O verbo enchem (sãba‘) normalmente se refere à “ satisfação” da fome física (por ex. Êx 16:8, 12); entretanto, aqui se refere à satisfação emocional e psicológica.
9-10. Estes versículos amplificam os versículos 2-4 em termos de esperança. Se Deus for deixado de lado, e a vida for vista sob o prisma “ debaixo do sol” , não pode haver nada novo; a história é um circuito fechado. Nem circunstâncias (o que foi) nem esforços humanos (o que
se fez) pode mudar. Isto contrasta, também, com a ortodoxia israeli
ta. Os hebreus acreditavam que a história era controlada por Deus. “ Sucederá algum mal à cidade, sem que o Senhor o tenha feito?” Amós 3:6. As provas difíceis que sobrevieram a José e a Jó foram atribuídas a Deus (Gn 50:20; Jó 42:2). Nabucodonozor era servo de Deus (Jr 25:9), Ciro, Seu ungido (Is 45:1). A redenção consiste em atos de Deus na história (cf. Salmo 106). A revelação exige que os intérpretes autoriza dos façam previsão dos atos de Deus, antes que ocorram, e que os ex ponham, depois. A história é uma trajetória na direção de um objeti vo, o Dia do Senhor, quando Ele completará Seu propósito, remirá Seu povo e julgará Seus inimigos.15
12 Salmo 78.
13 1 Reis 4:33. Não existe uma razão bem fundam entada para duvidar-se de que Salomão deu um impulso considerável à literatura sapiencial, em Israel, embora as ori gens da mesma sejam anteriores a Salomão, e internacionais. Veja-se a Introdução, págs.
33-41.
14 Jó 28:7-8; 39:1-30; 41:1-34; Prov 1:27; 5:19; 6:5-8; 7:22-23; 25:13; 27:8; 28:1, 15; 30:15, 19, 31.
15 B. Albrektson (History and the Gods — 1967) argumenta, com muita capaci dade de persuasão, que esta visão da história e da natureza não era exclusividade de Is rael (embora seja mais central, no pensamento do Velho Testamento) e que (contraria mente a opiniões anteriores) os deuses das nações vizinhas eram tidos como senhores tanto da natureza como da história (ao invés de senhores da natureza, mas não da histó ria). Albrektson argumenta, também, que o contraste entre a revelação na história e a revelação através da palavra é uma antítese inútil, ou desnecessária. Tanto no pensa mento israelita como no pensamento não-israelita, os eventos em si mesmos são mudos, não revelando as razões da deidade para esses eventos. “A revelação em palavras... de sempenha um papel importante” (págs. 117, 119). Esta é uma forma mais confiável de ler-se o pensamento veterotestamentário, e o pensamento antigo, não-israelita, do que exigir-se um contraste desnecessário entre a revelação através da história e a revelação através da palavra inspirada (cf. J. Baillie, The Idea o f Revelation in Recent Thought (1956), págs. 63ss.). Entretanto, Albrektson não explicou por que os hebreus produzi ram historiografia em alto nível, desconhecida em outros lugares do mundo antigo (cf. comentários de W. G. Lambert em Orientalia, 39, 1970, págs. 170-177). Quanto a uma
Novamente o Pregador salienta que isto não pode ser visto de ma neira secular. Se considerarmos a vida sob o prisma “ debaixo do sol” o conceito do governo de Deus desde os céus não se sustentará. Nin guém pode apelar para Deus, para que Ele “ olhe para baixo” e inter- venha (Is 63:15). Não poderá haver redenção, visto que nenhum fator novo pode ser introduzido. O reino celestial é a fonte daquilo que é realmente novo: o “ cântico novo” do salmista (Salmo 96:1) e a “ cou- sa nova” do profeta (Is 43:19).
No versículo 10, antecipa-se uma objeção: e aquilo que é compro- vadamente novo? A resposta é que tal cousa é ilusória. Tem-se obser vado com freqüência a semelhança com o pensamento grego, especial mente estóico. Von Rad acha que o Pregador capitulou diante da filo sofia secular, neste ponto.16 Entretanto, a identificação do Pregador com um horizonte voltado para o plano terreno é apenas parte de sua exposição; ainda virá a perspectiva vertical.
11. Encerra-se este estágio da argumentação pela consideração da abordagem que a humanidade faz da vida, à luz da avaliação pessimis ta da história, nos versículos 9s. O niilismo não apenas domina sua perspectiva como também projeta-se pela vida. Eventos passados são esquecidos, eventos futuros serão esquecidos. Lembrança, aqui, que deriva do verbo “ lembrar-se” , significa “ lembrar-se e agir de acordo” , um uso bem comprovado. A oração de Neemias “ Lembra-te de mim... para meu bem” (Ne 13:31) roga que as ações de Deus se originem em Suas promessas do passado (cf. Gn 40:14; Êx 20:8).17
Comentaristas têm debatido se a tradução mais apropriada deve ria ser “ pessoas que precederam” (como postulam NIV, Lyz e outros) ou “ coisas que precederam” . A primeira alternativa tem seus parale
los em 2:16 e 9:15, contudo, aqui, desde os versículos 9ss., o assunto é a história, mais genericamente. Aalders (acompanhando Thilo) cer tamente está com a razão em afirmar que a antítese é desnecessária. À luz da palavra séculos, no versículo 10, ele opta pela tradução ‘ ‘tem pos que precederam” , incluindo tanto pessoas como circunstâncias.18
O israelita ortodoxo vivia à luz dos eventos passados (Dt 5:15; 8:2; Salmo 77:11). Posteriormente, o Pregador nos convidará a lembrar-
pesquisa sucinta e penetrante das diferentes filosofias da história, veja-se David Beb- bington, Patterns in H istory (1979).
16 G. von Rad, Old Testament Theology, vol. 1 (1962), pág. 455. 17 Cf. B. S. Childs, M em ory and Tradition in Israel (1962), págs. 21s.
18 O assunto não pode resolver-se apelando-se para o princípio de que o neutro inglês é expresso pelo feminino hebraico. Há a possibilidade de exceções à regra, e os termos são adjetivos estritos, não podendo (conforme observa Aalders) ser neutros, mas masculinos, aludindo ao masculino séculos do versículo 10.
nos de nosso Criador (12:1), viver de acordo com esta memória; e a pessoa “ deve lembrar-se” daquilo que jaz à frente (11:8). Segundo as premissas seculares, nada disto tem interesse. “ Debaixo do sol” , o pas sado, o presente e o futuro deixam de oferecer significado, não apre sentam balizas. Estes são os efeitos lógicos dos versículos 2-10, a espi ral do desespero que desaba. O homem secular confirma a máxima: “ Aquele que não aprende com a história está destinado a repeti-la.” 19 ii. O fracasso da sabedoria em satisfazer a vida secular (1:12-18). Após o pessimismo de 1:2-11, as demais seções fecham todas as rotas de fu ga. Será que alguém procurará refúgio na sabedoria? Ela simplesmen te frustrará seus devotos seculares (1:12-18). Será que esse alguém, en tão, se esconderá dos problemas da vida, espremendo o suco dos pra- zeres deste mundo? O suco fica amargo (2:1-11). Será que essa pessoa vive num mundo centralizado ao redor do homem, em que não exis tem absolutos? Existe uma certeza apenas: a morte (2:12-23). Em ou tro lugar, o Pregador retrata a sabedoria como uma das bênçãos da vida, mas em 1:12-18, a argumentação é diferente. A sabedoria tem valor, mas não conseguirá resolver os problemas da vida.
12. A posição soberana adotada em 1:1 é reafirmada, como se fora um grande passo à frente, enquanto a discussão prossegue. Den tre todos os homens, Salomão era o que tinha recursos para documen tar suas investigações; estamos explorando a história que ele escreveu. O nome artificial denota o artifício literário.20
13. Diz o texto que o Pregador aplicou “ seu coração” , isto é, foi sincero e fervoroso; coração em oposição a “ aparência exterior” (1 Sm 16:7), denota a vida interior, o centro das capacidades mentais, emocionais e espirituais. Os verbos esquadrinhar e informar-me indi cam a seriedade da aplicação do autor. O primeiro significa “ procurar profundamente” ^ indo ao fundo das coisas; o segundo, “ procurar ex tensivamente, com amplidão” . Juntos dão idéia de estudo exaustivo.
Tudo quanto sucede debaixo do céu indica que o objetivo do estudo
foram os recursos totais de uma visão mundana, limitada; os aspectos verticais não estão em evidência,'por enquanto.
Seguem-se três conclusões. A primeira é que “ este enfadonho tra balho impôs Deus aos filhos dos homens” . O verbo “ impor” às vezes tem a força de “ dar” (por ex. Jr 1:5, ARC). As pessoas podem viver de maneira secular, no reino terreal; contudo, os problemas que en frentam foram ordenados por Deus, o Deus que reina nos céus. O ho mem não pode ficar indiferente, nem desligado, diante da futilidade
19 JB próximo ano não tem base no hebraico.
que o cerca. Trata-se de um “ fato inescapável da humanidade das pes soas” (Rylaarsdam). Trabalho (ocupação, na ARC) é ‘inyan, no he braico, denotando o desassossego da humanidade, e o vigor com que busca significado para a vida; deriva de ‘ãnãh,“ dedicar-se a algo” , “ empenhar-se em fazer algo” . Indica algo como compulsão, motivan do a busca. A humanidade pensa e planeja. Isto dificilmente se pode evitar, visto que o homem quer saber para onde caminha sua vida. Es te é o trabalho que, por decreto divino, todo homem deve suportar: o problema da vida não é um “ hobby” opcional.
As rodas da vida
Jamais param, mas giram continuamente.21
14. A segunda conclusão é que a humanidade, necessariamente, é frustrada. O homem experimenta um senso de ganho na vida (1:3) ou de satisfação no mundo ao seu redor (1:8) e no progresso da histó ria (1:9-11); todavia, tudo isto o ilude.
Debaixo do sol limita a declaração ao mundo visível, interpretado
em termos dele mesmo. O contexto imediato é a preocupação com a sabedoria. A vida deste homem exclui Deus, para todos os propósitos práticos. Enfrenta problemas que julga serem insolúveis; a história é repetitiva e sem esperança. Portanto, o corolário imediato da tarefa ordenada por Deus, para ele, é a frustração. Delitzsch quer limitar tu
do quanto sucede às obras humanas; contudo, uma revisão dos vinte
e um exemplos da ocorrência do termo em Eclesiastes mostra que essa expressão inclui todos os eventos do mundo, isto é, os feitos de Deus e os dos homens.
É difícil determinar o sentido de correr atrás do vento (aflição de
espírito na ARC). A frase re ‘üt rvth tem sido derivada de “ quebrar”
(/■"ou rss), dando a tradução “ aflição de espírito” , de “ esforçar-se” (r‘h), redundando em “ esforçando-se pelo vento” ; de “ alimentar” (/•70, que dá “ alimentando-se de vento” ; e fez-se derivar, também, de “ desejar” (r ‘h), que fornece “ desejar o vento” . A expressão tem sido ligada a cognatos aramaicos e fenícios. O hebraico rüah pode signifi car “ espírito” ou “ vento” . O contexto admite igualmente duas inter pretações: frustração diante do insolúvel (aflição de espírito), ou am bição pelo inatingível (correr atrás do vento). Este último, quase com certeza, é o verdadeiro sentido, aqui (e em 1:17; 2:11, 17, 26; 4:4, 6, 16; 6:9), visto ter paralelos, no Velho Testamento, no vento como lin guagem figurada, e também, porque em 5:16 “ trabalhado para o ven
to ” não poderia significar, facilmente, “ trabalhado para o espírito” . 15. A terceira conclusão explica por que o pensador tipo “ debaixo do sol” está tão frustrado. É que existem distorções (aquilo que é tor
to) e vácuos (o que falta) no pensamento todo. Não importa a forma
como o pensador pondera as coisas, ele não consegue solucionar as anomalias da vida, nem transpor tudo quanto vê para um sistema de cente. Assim, reitera o velhíssimo problema dos sábios do antigo Oriente Próximo: a consciência da finitude, e a incapacidade para descobrir, sem ajuda, a verdade a respeito da vida. Frustração e perplexidade ro deiam o filósofo. A sabedoria dele poderá ajudar, em alguns casos; contudo, não poderá resolver o problema fundamental da vida.22
O texto hebraico deveria ser traduzido por “ não pode tornar-se direito” . Ligeira emenda (litqõn mudado para letuqqan)n redundaria em “ não se pode indireitar” .
16-18. O Pregador explica a angústia do filósofo secular, mesmo