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OS PROBLEMAS DO PESSIMISTA (1:2-2:23)

No documento Eclesiastes e Cantares (páginas 64-81)

COMENTÁRIO

B. OS PROBLEMAS DO PESSIMISTA (1:2-2:23)

i. O fracasso do secularismo (1:2-11). O Pregador desfaz a confiança na visão secular da vida, convidando seus leitores a tomar consciência de alguns fatos básicos: a futilidade da vida (v. 2), suas conseqüências para o homem (3), a impossibilidade de alguém livrar-se do reino ter­ reno, onde o problema se desenvolve (4) e as implicações que tudo isto traz para a visão que o homem tem da natureza (5-7) e da história (8-11). Tem-se em vista um secularismo prático, não necessariamente cem por cento intelectual. Pois, há um secularismo de indiferença, ou de timi­ dez, tanto quanto de filosofia. Da mesma forma, não se deve julgar que as opiniões estão sendo apresentadas como sendo “ meramente” pontos de vista seculares, e não como fatos verdadeiros. Para o Prega­ dor, tais fatos são verdadeiramente fatos, contudo, não constituem toda a verdade. Ele pode descrever sua própria vida como sendo “ vã” (7:15). Entretanto, sua visão engloba mais do que o reino terreno. •

2. Vaidade de vaidades é um superlativo hebraico: “ vaidade com­

pleta!” A vaidade (hebel) inclui (i) brevidade e ausência de substância,

vazio, denunciada em Jó 7, onde a “ vaidade” (vers. 16, no hebraico)

da vida do homem é um “ sopro” (vers. 7), uma nuvem que se evapora (vers. 9), que logo se extinguirá (vers. 8) e não mais voltará (vers. 9s.); (ii) desconfiança e fraqueza, encontradas também no Salmo 62, onde Deus, a “ rocha” e “ alto refúgio” (vers. 2 e 6) é comparado ao ho­ mem, que é “ vaidade” (vers. 9), “ parede fendida” ou “ um muro pres­ tes a cair” (vers. 3); (iii) futilidade, como em Jó 9:29 (heb.), onde “ em vão” significa “ sem produzir efeito” ; (iv) engano (cf. Jr 16:19; Zc

10:2).2 O Eclesiastes inclui todas estas ênfases. Nada é digno de con­ fiança, nada é substancial; nenhum esforço de per si trará satisfação permanente; as maiores alegrias são transitórias. Entre 1:2 e 12:8 o Pre­ gador fará ecoar esta declaração-chave cerca de 30 vezes, como que para demonstrar que seu livro procura comprová-la, expondo-a. A vai­

dade caracteriza todas as atividades humanas (1:14; 2:11): a alegria (2:1)

e a frustração (4:4; 7-8; 5:10) da mesma maneira, a vida (2:17; 6:12; 9:9), a juventude (11:10) e a morte (3:19; 11:8), os destinos dos sábios e dos tolos (2:15, 19), dos diligentes e dos preguiçosos (2:21, 23, 26).

2 Algumas idéias que apontariam para uma “ incapacidade de inclusão” são me­ nos centrais no uso de hebel (cf. W. E. Staples, “ The ‘Vanity’ of Ecclesiastes” , JNES, 2, 1943, págs. 95-104), “ zero” (H. L. Ginsberg, W IANE, pág. 138) ou “ algo muito pró­ ximo a ‘ironia’ e ‘irônico’”, que usa para salientar aquilo “que é incongruente” (E. M. Good, Irony in the Old Testament (1965), pág. 182, seguido de perto por T. Polk, “ The Wisdom of Irony” , Studia Biblica et Theologica, 6, 1976, págs. 3-17). Outras opi­ niões são mencionadas por Lys (pág. 89).

Tudo literalmente é “ todas as coisas, todos” . Toda a experiência

humana, vista como um todo, está “ sujeita à vaidade” (cf. Rm 8:20). A mesma expressão ocorre no hebraico destas passagens: 1:14; 2:11, 17; 3:1, 19; 12:8. Encontra-se um qualificativo no vers. 3 (“ debaixo do sol” ), repetido em 1:14; 2:11,17; e, com variante, em 3:1. A men­ sagem do Pregador somente pára em “ tudo é vaidade” , ao dirigir-se à pessoa que procura satisfação desconsiderando a Deus. Para todos quantos adotem a sua cósmovisão, ele tem uma nota de encorajamen­ to. Quando se introduz uma perspectiva de fé, “ tudo é vaidade” cons­ titui, ainda, uma verdade, porém, não toda a verdade; só é verdade “ debaixo do sol” . Quando novos fatores são trazidos à baila, como em 2:24-3:22, e intermitentemente, em seguida, (por ex.: a generosida­ de de Deus, a providência divina, o julgamento divino), não se esque­ ce da “ vaidade da vida, nem fica ela obliterada. Entretanto, os novos fatores transformam a perspectiva, mudando o pessimismo em fé. Es­ ta noção prefigura a perspectiva neotestamentária em que o crente, se corrompe no “ exterior” (2 Co 4:16), está sujeito “ à vaidade” e “ ge­ me” com a criação “ até agora” (Rm 8:20-22). Entretanto, ele sabe o que está acontecendo (Rm 8:22), vê as coisas numa perspectiva dife­ rente (2 Co 4:18), espera algo diferente (Rm 8:25). A nova perspectiva não cancela a velha perspectiva; o crente vive numa sobreposição de ambas. Contudo, a nova perspectiva revoluciona suas expectativas.

3. Este versículo explica as conseqüências da futilidade terrena pa­ ra a própria humanidade. Proveito (yitrôn) é termo comercial; a vida “ não paga dividendos” (Jones). Se o reino terreno está sujeito à vai­ dade, não há esperança de encontrar proveito (lucro) final, ou satisfa­ ção, apenas em seus recursos. Trabalho ( ‘ãmãl) pode denotar labor fí­ sico (Salmo 127:1), ou angústia mental (Salmo 25:18). No Eclesiastes a ênfase se coloca, em geral, no trabalho real, nos esforços humanos (especialmente em 2:10s., 18-23), mas, os aspectos mentais-emocionais do labor humano também devem ser mantidos em mente, aqui. Isto está de acordo com o uso de 'ãmãl em outros lugares: a “ angústia” de José (Gn 41:51), a “ desventura” de que Israel foi livrado (Números 23:21), o “ sofrimento” de Jó (Jó 3:10).3 Se nossa visão da vida não for mais longe do “ debaixo do sol” , todos os nossos esforços terão um sobretom de miséria.

No Velho Testamento, debaixo do sol ocorre apenas no Eclesias­ tes (1:3, 9, 14; 2:11, 17, 18, 19, 20, 22; 3:16; 4:1, 3, 7, 15; 5:13, 18;

3 C. S. Knopf inclui “ opacidade” no significado (“ The Optimism of Koheleth” ,

JBL, 49, 1930, págs. 195-199) contudo, isto é duvidoso. C. C. Form an (“ Koheleth’s

Use of Genesis” , JSS 5, 1956, pág. 262) e Lys (pág. 100) apontam para o pano de fundo em Gênesis 3.

6:1, 5,12; 8:9,15 (duas vezes), 17; 9:3, 6, 9 (duas vezes), 11,13; 10:5). Tem elos com outros escritos antigos, visto que ocorre em escritos fe- nícios, elamitas e gregos.4Vaidade caracteriza o homem e o reino que ele ocupa, e domina. Se seus recursos limitam-se totalmente a este nos­ so mundo, “ sem proveito” (sem lucro) é o lema que acompanha tudo quanto ele faz. O Pregador mencionará oportunamente (5:2) outro rei­ no, totalmente diferente, quando estiver falando de Deus, a Quem se pode abordar e adorar (5:1-7). No entretempo, deve explorar o abis­ mo de pessimismo.

4. O problema da humanidade é agravado ainda mais pelo con­ traste entre a brevidade da vida e a aparente permanência do reino ter- real (cf. Salmo 90:4s., em que a eficiência humana é comparada a uma guarda à meia-noite, à energia do sono, persistência da grama. Assim, a vaidade inerente do reino terreal não provê esperança de mudança.

Vai... vem... permanece representam particípios hebraicos, implican­

do em continuidade de ação: “ está continuamente indo... vindo... per­ manecendo” . Para sempre significa que “ debaixo do sol” não há fim concebível para a futilidade terrena.

5-7. Estes versículos amplificam os versículos 2-4 em termos de cria­ ção. Embora houvesse atividade espalhafatosa, faltou o progresso. Não há proveito para o homem em seu trabalho; semelhantemente, não há proveito para a criação em seu trabalho. Três exemplos são dados: os ciclos repetitivos do sol, semelhante a um atleta correndo numa pista circular; o vento soprando em seus circuitos, aparentemente sem pro­ pósitos; as águas despejando-se nos mares, sem jamais encontrar um fim para suas tarefas.

Segundo a ortodoxia do Velho Testamento, a criação ressoa os lou­ vores do Senhor. A criação Lhe pertence. Nuvens, tempestades, tro­ vões, raios, tudo está sob Seu controle. Ele pode reter ou conceder a fertilidade ao homem, ao animal e às plantas. Ele estabeleceu os limi­ tes do mar, deu ordens ao verão e ao inverno, determinou que o sol governe o dia, a lua a noite, e chama as estrelas pelos seus nomes.5 Contudo, diz o Pregador: Tire-se-lhe Deus, e a criação já não refletirá Sua glória, mas ilustrará o enfado da humanidade. Quando Adão caiu, a criação também caiu (Gn 3:17-19). Se a humanidade está enfadada, a criação está enfadada com ela. Se nossa perspectiva é meramente “ de­

4 Veja-se a Introdução, págs. 21-25 para referências, e o significado da frase na interpretação devida de Eclesiastes.

5 Veja-se ainda L. Koehler, Old Testament Theoíogy (1957),págs. 26-29, 85-92; H. H. Rowley, The Faith o f Israel (1956), págs. 25-27; J. L. McKenzie, “ God and Nature in the Old Testament” , CBQ, 14, 1952, págs. 18-19, 124-145.

baixo do sol” , nenhuma doxologia pode ser erguida Àquele que está “ nos céus” (5:2). A esperança dos profetas da humanidade redimida, e de um paraíso terreno reconquistado (Is 11:6-9; 65:17-25) não pode alicerçar-se em premissas seculares.

E volta ao seu lugar traduz um verbo que significa “ arfar, arque­

jar, fungar” . Indica que o sol está cansado, como “ um atleta muito ofegante, na corrida” 6. Os particípios repetidos do versículo 6, no he­ braico, traduzidos por vai... fa z... volve-se... revolve-se... retorna... em si mesmos dão uma sensação de monotonia. No versículo 7, ao lu­

gar para onde correm os rios, a tradução é correta. A idéia não é que

os rios voltam à sua fonte de origem (como indicam algumas tradu­ ções) mas, ao contrário, que os rios fluem perpetuamente, sem fazer qualquer progresso no enchimento do oceano.

8. O argumento é desenvolvido um pouco mais. A despeito do fa­ to de a criação permanecer ativa, ao ponto de uma exaustão tal, que não se pode descrever, ela é incapaz de dar ao homem secular qual­ quer satisfação duradoura. São canseiras se traduziria melhor numa forma passiva, difícil de exprimir-se em português, ao invés de em voz ativa, acompanhando seu significado claro em outras ocorrências (Dt 25:18; 2 Sm 17:2). Todas as cousas pode traduzir-se “ todas as pala­ vras” , o que enfatizaria que a insatisfação do homem está além das palavras (cf. NAB: Todas as falas estão carregadas de fadiga). Aquele pensamento está na frase seguinte. Aqui, todavia, a tradução comum leva o argumento adiante mais claramente.

Este ponto de vista de “ debaixo do sol” contrasta vigorosamente com aquele do crente da Velha Aliança, que amava a criação, e via nela a majestade do nome de Deus,7 olhava com grande admiração para os céus,8 ponderava nas lições ensinadas pelos animais, pelo ven­ to, pela erva e pelas árvores,9 e cantava para a glória de Deus, em fa­ ce daquilo que via e ouvia.10 Via a natureza cantar de alegria,11 e sa­ bia que o controle de Deus da criação era parte da redenção, à época

6 N. H. Snaith, Distinctive Ideas o f the Old Testament (1944), pág. 145. P. Joüon (“ Notes philologiques sur le texte Hébreu d ’Ecclésiaste” , Bib., 11, 1930, pág. 419) afir­ ma que o texto é suspeito; entretanto, faz sentido compreendê-lo, conforme exposto acima, no contexto. 7 Salmos 8:1, 9; 19:1; 89:9-12; 96:11-12. 8 Salmos 8:3; 19:1, 4-6. 9 Salmos 32:9; 34:10; 35:5; 37:2, 35; 42:1; 50:10-11; 55:6-7; 58:4-8; 59:6; 74:12-17; 77:16-19; 84:3; 93:3-4; 102:4, 6-7. 10 Salmos 8; 19; 29; 65; 104. 11 Salmo 65:12-13.

do êxodo.12 Tomando a deixa de Salomão,13 os sábios também se glo­ riavam na criação e usavam suas lições para atingirem seus próprios propósitos.14 O Pregador mantém o ponto de vista de que tudo isto se perde quando se alimenta uma perspectiva “ debaixo do sol” . Sobra apenas a natureza exaurida. O verbo enchem (sãba‘) normalmente se refere à “ satisfação” da fome física (por ex. Êx 16:8, 12); entretanto, aqui se refere à satisfação emocional e psicológica.

9-10. Estes versículos amplificam os versículos 2-4 em termos de esperança. Se Deus for deixado de lado, e a vida for vista sob o prisma “ debaixo do sol” , não pode haver nada novo; a história é um circuito fechado. Nem circunstâncias (o que foi) nem esforços humanos (o que

se fez) pode mudar. Isto contrasta, também, com a ortodoxia israeli­

ta. Os hebreus acreditavam que a história era controlada por Deus. “ Sucederá algum mal à cidade, sem que o Senhor o tenha feito?” Amós 3:6. As provas difíceis que sobrevieram a José e a Jó foram atribuídas a Deus (Gn 50:20; Jó 42:2). Nabucodonozor era servo de Deus (Jr 25:9), Ciro, Seu ungido (Is 45:1). A redenção consiste em atos de Deus na história (cf. Salmo 106). A revelação exige que os intérpretes autoriza­ dos façam previsão dos atos de Deus, antes que ocorram, e que os ex­ ponham, depois. A história é uma trajetória na direção de um objeti­ vo, o Dia do Senhor, quando Ele completará Seu propósito, remirá Seu povo e julgará Seus inimigos.15

12 Salmo 78.

13 1 Reis 4:33. Não existe uma razão bem fundam entada para duvidar-se de que Salomão deu um impulso considerável à literatura sapiencial, em Israel, embora as ori­ gens da mesma sejam anteriores a Salomão, e internacionais. Veja-se a Introdução, págs.

33-41.

14 Jó 28:7-8; 39:1-30; 41:1-34; Prov 1:27; 5:19; 6:5-8; 7:22-23; 25:13; 27:8; 28:1, 15; 30:15, 19, 31.

15 B. Albrektson (History and the Gods — 1967) argumenta, com muita capaci­ dade de persuasão, que esta visão da história e da natureza não era exclusividade de Is­ rael (embora seja mais central, no pensamento do Velho Testamento) e que (contraria­ mente a opiniões anteriores) os deuses das nações vizinhas eram tidos como senhores tanto da natureza como da história (ao invés de senhores da natureza, mas não da histó­ ria). Albrektson argumenta, também, que o contraste entre a revelação na história e a revelação através da palavra é uma antítese inútil, ou desnecessária. Tanto no pensa­ mento israelita como no pensamento não-israelita, os eventos em si mesmos são mudos, não revelando as razões da deidade para esses eventos. “A revelação em palavras... de­ sempenha um papel importante” (págs. 117, 119). Esta é uma forma mais confiável de ler-se o pensamento veterotestamentário, e o pensamento antigo, não-israelita, do que exigir-se um contraste desnecessário entre a revelação através da história e a revelação através da palavra inspirada (cf. J. Baillie, The Idea o f Revelation in Recent Thought (1956), págs. 63ss.). Entretanto, Albrektson não explicou por que os hebreus produzi­ ram historiografia em alto nível, desconhecida em outros lugares do mundo antigo (cf. comentários de W. G. Lambert em Orientalia, 39, 1970, págs. 170-177). Quanto a uma

Novamente o Pregador salienta que isto não pode ser visto de ma­ neira secular. Se considerarmos a vida sob o prisma “ debaixo do sol” o conceito do governo de Deus desde os céus não se sustentará. Nin­ guém pode apelar para Deus, para que Ele “ olhe para baixo” e inter- venha (Is 63:15). Não poderá haver redenção, visto que nenhum fator novo pode ser introduzido. O reino celestial é a fonte daquilo que é realmente novo: o “ cântico novo” do salmista (Salmo 96:1) e a “ cou- sa nova” do profeta (Is 43:19).

No versículo 10, antecipa-se uma objeção: e aquilo que é compro- vadamente novo? A resposta é que tal cousa é ilusória. Tem-se obser­ vado com freqüência a semelhança com o pensamento grego, especial­ mente estóico. Von Rad acha que o Pregador capitulou diante da filo­ sofia secular, neste ponto.16 Entretanto, a identificação do Pregador com um horizonte voltado para o plano terreno é apenas parte de sua exposição; ainda virá a perspectiva vertical.

11. Encerra-se este estágio da argumentação pela consideração da abordagem que a humanidade faz da vida, à luz da avaliação pessimis­ ta da história, nos versículos 9s. O niilismo não apenas domina sua perspectiva como também projeta-se pela vida. Eventos passados são esquecidos, eventos futuros serão esquecidos. Lembrança, aqui, que deriva do verbo “ lembrar-se” , significa “ lembrar-se e agir de acordo” , um uso bem comprovado. A oração de Neemias “ Lembra-te de mim... para meu bem” (Ne 13:31) roga que as ações de Deus se originem em Suas promessas do passado (cf. Gn 40:14; Êx 20:8).17

Comentaristas têm debatido se a tradução mais apropriada deve­ ria ser “ pessoas que precederam” (como postulam NIV, Lyz e outros) ou “ coisas que precederam” . A primeira alternativa tem seus parale­

los em 2:16 e 9:15, contudo, aqui, desde os versículos 9ss., o assunto é a história, mais genericamente. Aalders (acompanhando Thilo) cer­ tamente está com a razão em afirmar que a antítese é desnecessária. À luz da palavra séculos, no versículo 10, ele opta pela tradução ‘ ‘tem­ pos que precederam” , incluindo tanto pessoas como circunstâncias.18

O israelita ortodoxo vivia à luz dos eventos passados (Dt 5:15; 8:2; Salmo 77:11). Posteriormente, o Pregador nos convidará a lembrar-

pesquisa sucinta e penetrante das diferentes filosofias da história, veja-se David Beb- bington, Patterns in H istory (1979).

16 G. von Rad, Old Testament Theology, vol. 1 (1962), pág. 455. 17 Cf. B. S. Childs, M em ory and Tradition in Israel (1962), págs. 21s.

18 O assunto não pode resolver-se apelando-se para o princípio de que o neutro inglês é expresso pelo feminino hebraico. Há a possibilidade de exceções à regra, e os termos são adjetivos estritos, não podendo (conforme observa Aalders) ser neutros, mas masculinos, aludindo ao masculino séculos do versículo 10.

nos de nosso Criador (12:1), viver de acordo com esta memória; e a pessoa “ deve lembrar-se” daquilo que jaz à frente (11:8). Segundo as premissas seculares, nada disto tem interesse. “ Debaixo do sol” , o pas­ sado, o presente e o futuro deixam de oferecer significado, não apre­ sentam balizas. Estes são os efeitos lógicos dos versículos 2-10, a espi­ ral do desespero que desaba. O homem secular confirma a máxima: “ Aquele que não aprende com a história está destinado a repeti-la.” 19 ii. O fracasso da sabedoria em satisfazer a vida secular (1:12-18). Após o pessimismo de 1:2-11, as demais seções fecham todas as rotas de fu­ ga. Será que alguém procurará refúgio na sabedoria? Ela simplesmen­ te frustrará seus devotos seculares (1:12-18). Será que esse alguém, en­ tão, se esconderá dos problemas da vida, espremendo o suco dos pra- zeres deste mundo? O suco fica amargo (2:1-11). Será que essa pessoa vive num mundo centralizado ao redor do homem, em que não exis­ tem absolutos? Existe uma certeza apenas: a morte (2:12-23). Em ou­ tro lugar, o Pregador retrata a sabedoria como uma das bênçãos da vida, mas em 1:12-18, a argumentação é diferente. A sabedoria tem valor, mas não conseguirá resolver os problemas da vida.

12. A posição soberana adotada em 1:1 é reafirmada, como se fora um grande passo à frente, enquanto a discussão prossegue. Den­ tre todos os homens, Salomão era o que tinha recursos para documen­ tar suas investigações; estamos explorando a história que ele escreveu. O nome artificial denota o artifício literário.20

13. Diz o texto que o Pregador aplicou “ seu coração” , isto é, foi sincero e fervoroso; coração em oposição a “ aparência exterior” (1 Sm 16:7), denota a vida interior, o centro das capacidades mentais, emocionais e espirituais. Os verbos esquadrinhar e informar-me indi­ cam a seriedade da aplicação do autor. O primeiro significa “ procurar profundamente” ^ indo ao fundo das coisas; o segundo, “ procurar ex­ tensivamente, com amplidão” . Juntos dão idéia de estudo exaustivo.

Tudo quanto sucede debaixo do céu indica que o objetivo do estudo

foram os recursos totais de uma visão mundana, limitada; os aspectos verticais não estão em evidência,'por enquanto.

Seguem-se três conclusões. A primeira é que “ este enfadonho tra­ balho impôs Deus aos filhos dos homens” . O verbo “ impor” às vezes tem a força de “ dar” (por ex. Jr 1:5, ARC). As pessoas podem viver de maneira secular, no reino terreal; contudo, os problemas que en­ frentam foram ordenados por Deus, o Deus que reina nos céus. O ho­ mem não pode ficar indiferente, nem desligado, diante da futilidade

19 JB próximo ano não tem base no hebraico.

que o cerca. Trata-se de um “ fato inescapável da humanidade das pes­ soas” (Rylaarsdam). Trabalho (ocupação, na ARC) é ‘inyan, no he­ braico, denotando o desassossego da humanidade, e o vigor com que busca significado para a vida; deriva de ‘ãnãh,“ dedicar-se a algo” , “ empenhar-se em fazer algo” . Indica algo como compulsão, motivan­ do a busca. A humanidade pensa e planeja. Isto dificilmente se pode evitar, visto que o homem quer saber para onde caminha sua vida. Es­ te é o trabalho que, por decreto divino, todo homem deve suportar: o problema da vida não é um “ hobby” opcional.

As rodas da vida

Jamais param, mas giram continuamente.21

14. A segunda conclusão é que a humanidade, necessariamente, é frustrada. O homem experimenta um senso de ganho na vida (1:3) ou de satisfação no mundo ao seu redor (1:8) e no progresso da histó­ ria (1:9-11); todavia, tudo isto o ilude.

Debaixo do sol limita a declaração ao mundo visível, interpretado

em termos dele mesmo. O contexto imediato é a preocupação com a sabedoria. A vida deste homem exclui Deus, para todos os propósitos práticos. Enfrenta problemas que julga serem insolúveis; a história é repetitiva e sem esperança. Portanto, o corolário imediato da tarefa ordenada por Deus, para ele, é a frustração. Delitzsch quer limitar tu­

do quanto sucede às obras humanas; contudo, uma revisão dos vinte

e um exemplos da ocorrência do termo em Eclesiastes mostra que essa expressão inclui todos os eventos do mundo, isto é, os feitos de Deus e os dos homens.

É difícil determinar o sentido de correr atrás do vento (aflição de

espírito na ARC). A frase re ‘üt rvth tem sido derivada de “ quebrar”

(/■"ou rss), dando a tradução “ aflição de espírito” , de “ esforçar-se” (r‘h), redundando em “ esforçando-se pelo vento” ; de “ alimentar” (/•70, que dá “ alimentando-se de vento” ; e fez-se derivar, também, de “ desejar” (r ‘h), que fornece “ desejar o vento” . A expressão tem sido ligada a cognatos aramaicos e fenícios. O hebraico rüah pode signifi­ car “ espírito” ou “ vento” . O contexto admite igualmente duas inter­ pretações: frustração diante do insolúvel (aflição de espírito), ou am­ bição pelo inatingível (correr atrás do vento). Este último, quase com certeza, é o verdadeiro sentido, aqui (e em 1:17; 2:11, 17, 26; 4:4, 6, 16; 6:9), visto ter paralelos, no Velho Testamento, no vento como lin­ guagem figurada, e também, porque em 5:16 “ trabalhado para o ven­

to ” não poderia significar, facilmente, “ trabalhado para o espírito” . 15. A terceira conclusão explica por que o pensador tipo “ debaixo do sol” está tão frustrado. É que existem distorções (aquilo que é tor­

to) e vácuos (o que falta) no pensamento todo. Não importa a forma

como o pensador pondera as coisas, ele não consegue solucionar as anomalias da vida, nem transpor tudo quanto vê para um sistema de­ cente. Assim, reitera o velhíssimo problema dos sábios do antigo Oriente Próximo: a consciência da finitude, e a incapacidade para descobrir, sem ajuda, a verdade a respeito da vida. Frustração e perplexidade ro­ deiam o filósofo. A sabedoria dele poderá ajudar, em alguns casos; contudo, não poderá resolver o problema fundamental da vida.22

O texto hebraico deveria ser traduzido por “ não pode tornar-se direito” . Ligeira emenda (litqõn mudado para letuqqan)n redundaria em “ não se pode indireitar” .

16-18. O Pregador explica a angústia do filósofo secular, mesmo

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