COMENTÁRIO
E. SABEDORIA E LOUCURA (9:11-10:20)
Na opinião de muitos comentaristas, não há uma argumentação sus tentável, nestes versículos. Gordis fala da “ variedade de assuntos, e da falta de organização lógica da seção” . Assim se queixava Delitzsch: “ Quanto tempo, estudo e papel se tem gasto na tentativa de encontrar uma conexão entre este grupo de versículos com o precedente! ” Entre tanto, alguns eruditos (Leupold, Hertzberg e outros) têm tentado es boçar uma argumentação. Leupold julgava “ que o autor está escre vendo um discurso coerente, com seqüência e pensamento lógicos” (veja-se comentário a respeito de 10:1). Não se determina com facilida de a verdade do texto. É certo que as tentativas de coordenar-se uma argumentação detalhada não convenceram; por outro lado, coerência na argumentação é algo diferente de coerência de assunto. Se não há evidência de coerência argumentativa nestes versículos, há coerência de assunto em grande escala, visto que cada unidade trata diretamen te, de alguma forma, com a loucura ou com a sabedoria.
i. Tempo e oportunidade (9:11-12). Em primeiro lugar, os versículos
apresentam os temas da sabedoria e seus limites, e além disso contra balançam os versículos 7-10. O homem sábio não deve empolgar-se tan to com as alegrias da vida a ponto de esquecer-se das frustrações, visto que estas não desaparecem, mesmo quando o homem sábio se certifica da aprovação de Deus.
172 Cf. N. J. Tromp, Primitive Conceptions o f Death and the Nether World (1969),
cap. 2; P. Watson, M ot, the God o f Death, at Ugarit and in the Old Testament (Univer- sity Microfilms, 1971); J. Zandee, Death as an Enem y According to A ncient Egyptian
Conceptions (1960); E. F. Sutcliffe, The Old Testament and the Future L ife (1947), caps.
11. Relacionam-se cinco desempenhos, nenhum dos quais garante o sucesso ou a prosperidade: (i) o campeão de corridas pode perder uma competição (cf 2 Sm 2:18); (ii) força militar não é garantia de su cesso na batalha (cf. Is 36-37); (iii) a sabedoria, de modo semelhante, não é garantia de vida (cf. 9:13-16; 10:1); (iv) o entendimento pode fazer-se acompanhar da pobreza (cf. 9:15); (v) graça e justiça poderão demorar para o inocente José (Gn 37-41); e jamais vir para outros (9:13-16). Dois fatores poderão perturbar todos os cálculos humanos. Em primeiro lugar, o tempo nos limita, como um eco do ensino que percorre todo o Eclesiastes, segundo o qual as épocas de nossa vida estão nas mãos de Deus; esta é uma garantia para a fé, e também um golpe mortal na autoconfiança. Em segundo lugar, o acaso é aquele fator inesperado que pode transtornar esquemas seguros, não impor tando o quanto tenham sido exaustivamente estudados.173
12. As épocas da vida são imprevisíveis (o homem não sabe como serão, antecipadamente), são inescapáveis (a rede traiçoeira... o laço), são repentinas (de repente sobre eles), contudo, são típicas da vida co mo a vida realmente é; os filhos dos homens é expressão genérica rela cionada às coisas corriqueiras da vida. Tempo da calamidade de al guém poderá ser a época da morte, como sugere Lauha (cf. 7:17). Con tudo, visto que em outros lugares (cf. 8:5-7) o Pregador focaliza o flu xo de acontecimentos como trabalhando contra os objetivos e espe ranças do homem, o tempo da calamidade pode perfeitamente referir- se a outras calamidades além daquela que é terminal.
ii. A sabedoria não reconhecida (9:13-16). Como em outra parte, o Pre gador relata, primeiro, uma observação, e em seguida, baseado nela, erige uma série de comentários e reflexões.
13. O Pregador apresenta outro exemplo de sabedoria que ele ha- viâ observado. Vi. é a expressão costumeira dele para descrever inci dentes reais que aguçaram suas reflexões. Por esta razão, o assunto não deverià ser tratado como sendo puramente ficção parabólica (Hengstenberg e outros).
14. Foi atingido por uma luta entre o prestígio (um grande rei) e a insignificância (uma pequena cidade); força (grandes baluartes)™ combatia a fraqueza (poucos homens). Têm-se tentado algumas iden tificações, que incluem o livramento de Siracusa, por Arquimedes, con
173 Veja-se comentário, às págs. 75-76.
1/4 O hebraico n fsô d ím (“ redes” ) talvez seja um lapso dos copistas, ao copiar a palavra nfsôrtm (“ baluartes” ). Outros (e.g., Gordis) argumentam que n fsô d im real mente significa “ baluartes” .
tra os romanos, ao afundar-lhes os navios (212 a.C.), o cerco de Dor, por Antíoco, o Grande (218 a.C.), e mais tarde, por Antíoco VII (138 a.C.), o cerco de Bete-Sura por Antíoco V,175 o livramento de Atenas por Tfemístocles, o cerco de Abel de Bete-Maaca (2 Sm 20:15-22) e o livramento de Tebes (Jz 9:50-55).
15. Além das teorias acima, Cox adicionou a idéia de que o ho
mem pobre poderia ser o próprio Pregador. Nada disto é convincente;
o caso é que ninguém se lembrou mais daquele pobre. Significaria isto que ele fora esquecido após haver libertado a cidade? Se assim for, “ de veria ele aprender a não contar com uma coisa tão transitória como a gratidão do público” (Kidner). Ou teria ele sido esquecido quando poderia ter livrado a cidade? Esta é a hipótese mais provável, se se guirmos GNB, NEB e NASV mg.; e que a livrou pela sua sabedoria (ARA); Poderia ter livrado a cidade (assim traduzem Aalders, McNei le, Hertzberg);176 eis como os versículos subseqüentes aplicam as lições do incidente.
16. Ele aplica a lição da parábola; a sabedoria nem sempre é pres tigiada. Embora a sabedoria possa livrar alguém das situações mais ad versas, as circunstâncias pobres dos menos privilegiados177 depõem contra estes, e desprezam a sabedoria. Força refere-se a poderio físico, individual ou militar, que era freqüentemente notada como conquista de rei, à luz de uma série de alusões aos arquivos de Israel.178 iii. A sabedoria distorcida (9:17-10:1). 17. O Pregador continua a enfa tizar a facilidade com que a sabedoria é violentada. A inversão contida no versículo 16 é verdadeira, no sentido em que os governantes são ca pazes de se fazer ouvir, enquanto a sabedoria corre o risco de perder-se em meio ao clamor. O contraste tríplice (palavras... gritos, sábios... quem
governa... em silêncio... entre tolos) enfatiza a tese. Quem governa não
se refere exclusivamente ao rei, mas a qualquer que pertença às classes governantes (cf. 2 Cr 23:20; Pv 22:7). Equilibrando-se sábios com quem
governa, o autor indica que a autoridade não está, necessariamente, do
mesmo lado da sabedoria. Gritos parece referir-se, aqui, aos berros de autoconfiança de um “governador distrital” local. Ao seu lado há um bando de bajuladores vociferantes que exercem péssima influência. Há
175 Os incidentes mencionados encontram-se em Políbio V; Josefo, Antigüidades xiii; 1 Mc 6 e 2 Mc 13.
176 Cf. GK106 (p) quanto ao uso do tempo pretérito perfeito “ para exprimir ações e fatos... não como sendo reais, mas como sendo possíveis” .
177 Cf. 4:13 e nota de rodapé 97, à pág. 101.
178 Cf. 1 Rs 15:23; 16:5, 27; 22:45; 2 Rs 10:34; 13:8, 12; 14:15, 28; 20:20; 1 Cr 29:30; Et 10:2.
mais esperança de sabedoria nas palavras ouvidas em silêncio (ligado à confiança em Is 30:15, e à alegria, em 4:6). Desta forma, a sabedoria nem sempre prevalecerá; a gritaria, a verbosidade e o poder poderão triunfar contra ela. A sabedoria não dispõe de garantias embutidas.179
18. Outro perigo é que a sabedoria é facilmente destituída. Alguns eruditos têm afirmado (e.g. Ginsburg) que a “ destruição” aqui é de ordem intelectual, e que pecador não tem, neste ponto, conotações mo rais. Entretanto, “ sabedoria” e “loucura” são categorias que apresen tam conotações morais na literatura sapiencial de Israel, especialmen te em Eclesiastes. A sabedoria envolve a largueza de mente, que é ca racterística salomônica, mais o amplo conhecimento do reino natural (1 Rs 4:29-34); contudo, esta capacidade é concedida por Deus (1 Rs 4:29), e tem condicionamento moral, visto que é dada a fim de “ dis cernir entre o bem e o mal” (1 Rs 3:9). No Deuteronômio há “ estatu tos e ordenanças” a serem guardados: “ isto será a vossa sabedoria” (Dt 4:5s.). O padrão de Eclesiastes é o mesmo, essencialmente: largue za de vistas (1:13), perícia na seleção e disposição de provérbios (12:9s.), grande interesse a respeito da natureza (1:5-7; 2:4-7), a sabedoria co mo algo concedido por Deus e moralmente condicionada (“ ao homem que lhe agrada” , 2:26). Em 2:26 “ sabedoria” fica explicitamente co locada em oposição a “ pecador” , em termos que são claramente mo rais. É duvidoso, portanto, que o elemento moral possa ser excluído da palavra pecador, aqui.
10:1. A despeito da divisão do capítulo, este versículo prossegue no tema dos versículos anteriores, num nível mais individual. As duas metades formam uma comparação, e a tradução poderia ser a seguin te: “ Assim como as moscas mortas... assim também um pouco de es tultícia...” O provérbio sublinha a fragrância do caráter do sábio (un-
güento do perfumador... a sabedoria e a honra). Entretanto, um pe
queno erro faz com que o mau cheiro de sua loucura sobrepuje a fra grância de sua sabedoria. Mais uma vez o provérbio adverte os leitores a não colocarem absoluta confiança nem mesmo na sabedoria. A vida deve ser recebida dia a dia das mãos de Deus. Em nenhum outro lugar há segurança, nem mesmo na sabedoria. lS0Estultícia (sekel) ou o es
179 A RV entende o versículo de maneira diferente: / l i palavras do sábio... são ou
vidas mais do que o grito daquele que governa. Depende de como o particípio ouvidas
se une às palavras ao redor. Seria: “ ouvidas em silêncio?” Ou no silêncio são ouvi das?” Visto que o contexto trata dos limites da sabedoria e, portanto, de seu fracasso em potencial (cf. vers. 11,16,18) a RV é menos plausível. Em 9:16 nega-se que a silen ciosa sabedoria seja sempre ouvida.
180 O hebraico pode ser traduzido “ moscas mortas” ou “ moscas da morte” . A ana logia do uso (cf. o hebraico de 1 Sm 5:11; SI 7:13; 18:5; Pv 14:27) indica a última alter
tulto (sãkãl) associa-se a impiedade (7:17), sendo o oposto de sabedo ria (2:19). Resulta de uma deficiência interna da personalidade (vers. 2), que se torna óbvia aos observadores (vers. 3), especialmente quan to às palavras do estulto (vers. 14). Em outra passagem se diz do estul to que é sábio “ para o mal” (Jr 4:22), devendo ser caracterizado pela insensibilidade moral (cf. Jr 5:21). A queixa é antes moral, do que intelectual).
iv. loucura (10:2-3). O resto da seção (10:2-20) considera a natureza da loucura, descrevendo-a, primeiro, em termos genéricos.
2. A loucura é relacionada a uma falta no coração, a parte inter na, invisível, da vida do homem, em contraste com sua face (7:3), suas mãos (7:26) e seu corpo (11:10), que são as partes externas de nosso ser (cf. 1 Sm 16:7). Inclui a mente, visto que “ dar o coração” a algo significa estudar o assunto (1:13, 17; 8:9, 16). A natureza do coração produz os problemas com que o Pregador luta. Por um lado, no cora ção está colocada a “ eternidade” ; não podemos estar contentes com as limitações do mundo (3:11); entretanto, o coração é mau (8:11; 9:3) e defeituoso (10:2). Entretanto, Deus pode agir em nós de tal forma que nosso coração fica cheio de alegria (5:20); o coração pode tornar- se “ melhor” (7:3); pode tornar-se “ sábio” (8:5). A “ anatomia dúbia” (Kidner) é algo deliberado e humorístico, como freqüentemente acon tece na literatura sapiencial. A AV, RV e ARA traduzem corretamen te: O coração do sábio se inclina para o lado direito... A mão direita sempre esteve associada à idéia de força salvadora que apóia e protege (SI 16:8; Is 41:13). A destreza dos Israelitas levou-os, sem dúvida, a associar a esquerda com desgraça (cf. Mt 25:33, 41), e com desajeitada incompetência (cf. Jz 3:15; 20:16).181 Ter o coração à mão direita é ser destro e cheio de recursos na vida diária. Ter o coração à mão esquer
da é ter “ as fontes da vida” (Pv 4:23) na área da incompetência práti
ca e espiritual.
3. O tema é explorado de forma mais explícita. O estulto ama can ções turbulentas (7:5), o riso barulhento e oco (7:6); é preguiçoso (4:5), palrador (5:3; 1Q:12), irascível (7:9), avesso ao aconselhamento (9:17), moralmente cego (2:14), tem uma doença mortal no coração (10:2), e está sob a desaprovação de Deus (5:4). Pode ser encontrado em qual quer camada da sociedade, até mesmo no templo (5:1), ou no trono nativa como a mais plausível, tendo sido adotada por Leupold. Entretanto, o provérbio está mais ligado à pequenez da influência putrefaciente do que à sua letalidade. A ana logia do uso não é suficiente para minimizar aquilo que é exigido pelo impacto do argumento.
181 Cf. também Z. W. Falk, “ Gestures Expressing A ffirm ations” , JSS, 4, 1959,
(4:13). S. A. Mandry explora o talento do insensato para mentir, en ganar, enfurecer os outros, e para a loquacidade; é hábil, enganador, e dotado de autoconfiança; evita a punição e quaisquer tentativas para discipliná-lo; rebela-se contra a religião.182
A primeira parte pode ser traduzida assim: falta-lhe coração (RSV e ARA: falta-lhe o entendimento; cf. Pv 10:21) ou, dando-lhe redação diferente: “ seu coração tem falta” . Em vista da deficiência interna (vers. 2), esta última hipótese é plausível. A segunda parte tem sido tomada como significando que o estulto “ chama de estulto todos quantos dis cordam dele, quando tentam corrigi-lo... O estulto confia em seu pró prio julgamento e mofa do aconselhamento” (Jones). Isto é plausível, visto que nem a persuasão suave (Pv 23:9), nem forte repreensão (Pv 17:10) afetam-no. Entretanto, nada há, no texto, concernente a acon selhamento; é melhor entendê-lo assim: que o insensato não pode se esconder. Assim, a deficiência interna do estulto sai e mostra-se, para que todos a vejam.
v. Loucura em altas esferas (10:4-7). 4. Em toda esta seção a respeito da sabedoria e loucura, apenas este versículo contém (com 10:20) al guma forma de comando. Aqui, o comando se faz acompanhar das razões que o tornam necessário. A indignação do governador183 deve ser aplacada com paciência calma que jamais entra em pânico e pavor, nem foge em amargura. O mesmo vocabulário ocorre (“ indignação... acalma” ) em Juizes 8:3, como ilustração do tema.
5. A passagem volta-se para os males observáveis (v/) por detrás da advertência do versículo 4. Algumas versões suavizam a declaração (NIV como se; RSV como se fosse), contudo, o hebraico é bem mais asseverativo (“verdadeiramente”, “realmente”) do que comparativo (“ como” , “ semelhante a” ).184 Leupold sustenta que o governador é Deus, argumentando que (i) o contexto torna a idéia plausível; (ii) a palavra hebraica (sallit) é diferente da que aparece no versículo 4 (imôsêl), indicando dois tipos de governador; (iii) o artigo definido no hebraico aponta para a mesma direção; (iv) sallit é empregado para designar Deus em Dn 4:17, 25, 32; 5:21. A isto pode-se replicar: (i)
182 S. A. Mandry, There is no Cod: A Study o f the Fool in the Old Testament (1972), esp. pág. 55; T. Donald, “ The Semantic Field of ‘Folly’ in Proverbs, Job, Psalms, and Ecclesiastes” , VT, 13, 1963, págs. 285-292.
183 O hebraico é rüah (espírito), mas a referência é à ira, como em Isaías 25:4 (“ dos tiranos o bufo” — que numa versão em inglês diz: “a ira dos impiedosos”, N. do T.) e Pv 29:11.
184 Cf. comentário a respeito de 7:7 e o artigo de Gordis sobre kafa asseverativo, mencionado à pág. 116 nota 124.
a mudança de palavra é meramente variação de estilo; (ii) o uso em Daniel não é significativo; se a palavra melek (“ rei” ) pode ser usada tanto para o rei terreno (Is 6:1) quanto para o rei celestial (Is 6:5), sallit também pode ter emprego variado, de modo semelhante; (iii) o artigo refere-se a um determinado governador, no trono, em certa época; (iv) o fator determinante é o contexto, que não apóia a interpretação de Leupold. Diz respeito à estultícia na política nacional. Também seria improvável que o Pregador mencionasse um “ erro” procedente de Deus.
6. “ Do tempo e do acaso” (9:11), eis dois elementos que podem produzir reversões curiosas e, desta forma, limitar a eficiência da sa bedoria. Os homens de recursos (os ricos) podem não ter oportunida des; os homens que têm oportunidades (em grandes alturas) podem não ter pelo menos os recursos espirituais.
7. Como ilustração, o Pregador apresenta uma anomalia que teria sido mais vivida no mundo antigo, quando o cavalo estava associado às coisas do rei, e à riqueza (cf. Dt 17:16).
vi. Loucura em ação (10:8-11). Este grupo de provérbios expõe as con seqüências da loucura. É difícil determinar a conexão com os versícu los 4-7. Provavelmente ainda está em mira a loucura “ que procede do governador” , embora a aplicação pareça mais generalizada.
8. A vingança carrega em si suas penalidades embutidas. Trata-se de imagem parecida com a de Jeremias 18:18-22. Os esforços malicio sos dos homens, que freqüentemente são voluntariosos, envolvendo muitos problemas (abre uma cova... rompe um muro) sofrem uma conseqüên cia que pode ser bem oposta (nela cairá), de forma inesperada (8b), mortal (picado por uma serpente). Assim, Hamã foi enforcado na for ca que ele mesmo preparou (Et 7:9s.).
9. Poder-se-ia pensar que algumas atividades mais construtivas tais como cortar pedras, ou troncos de árvores, são mais seguras do que as atividades maliciosas do versículo 8. Dois outros provérbios adver tem'contra uma falsa presunção: a vida toda tem seus perigos inerentes. 10. Em outra passagem, o Pregador (e a tradição sapiencial em geral) caracteriza a estultícia pela sua superficialidade e pressa. Aqui, apresenta-se o aspecto cuidadoso da sabedoria: o sábio prepara suas ferramentas. O estudo aprofundado traz o sucesso, mais do que a for ça bruta.
11. Aqui, o perigo oposto é colocado em foco: alguém que é capaz de manejar um assunto difícil (o encantador) falha devido à falta de rapidez (se a cobra morder antes de estar encantada). A negligência pode anular a perícia inerente.
vii. A conversa do tolo (10:12-14). 12. Todos os escritos sapienciais tratam da língua, mais cedo ou mais tarde, porque o caráter da fala da pessoa é o teste seguro da sabedoria; a língua é o “ pequeníssimo leme” que dirige o navio (Tg 3:4s.). Nas palavras do sábio há favor; o hebraico diz que as palavras são “ graça” , incorporando tudo quan to é gracioso, ou bondoso (cf. SI 45:2; Pv 22:11, onde se emprega a mesma palavra); são apropriadas (Pv 15:23; 25:11); são úteis (Ef 4:29; Cl 3:8); amáveis (Pv 25:12, 15). As palavras... devoram (literalmente “ engolem” , cf. SI 52:4). Consomem a reputação do tolo (vers. 3), seu caráter (Tg 3:6), seu impacto na direção do bem (Ef 4:29), e finalmen te, a própria pessoa (Mt 12:36s.).
13. A fonte da conversa do tolo é encontrada em seu caráter ínti mo (cf. Mt 12:34), a estultícia já exposta anteriormente (cf. 10:2s. e toda a seção de 9:17-10:20). O fim da conversa do tolo (resultado; cf. 7:8) é a loucura perversa (RSV, NIV), uma irracionalidade moralmen te perversa.
14. O Pregador, em seguida, enfatiza a arrogância da fala do tolo. A verbosidade dele não se alicerça em nenhuma sabedoria esotérica, ou em conhecimento. Não tem consciência nem do presente, quanto menos ainda do futuro. Ninguém seria capaz de conceder-lhe algum conhecimento do futuro. Entretanto, ele fala com convicção a respei to de tais coisas.
viii. A incompetência do tolo (10:15). O assunto muda: das palavras passa às ações. Há elos com os versículos 16-20, contudo, ainda não está considerando o assunto em nível nacional. O tolo acha cansativo qualquer tipo de trabalho. O resultado é a incompetência. A segunda metade do versículo especifica “ sua total ignorância das coisas corri queiras, que todo o mundo conhece” (Ginsburg). Já se afirmou que a preguiça (4:5) é a principal característica do tolo. Aqui está ela outra vez, a preguiça moral e intelectual que conduz à queda (2:14), ao es- touvamento (10:2), ao desabamento (10:18) da vida.
ix. A loucura na vida nacional (10:16-20). A seção atinge um clímax retórico. O Pregador já viu a influência enorme que a sabedoria e a loucura exercem sobre a nação como um todo (10:4-7). Agora, ele pro clama a suma importância do assunto, ao considerar ambos os cami nhos, ao longo da vida, um dos quais redundará em desastre nacional
(ai de ti... vers. 16), e o outro, em segurança nacional (ditosa, tu...
vers. 17).
16. A maior necessidade de qualquer nação é um líder amadureci do. RSV e ARA é uma criança diz respeito à imaturidade generaliza da. Este termo freqüentemente significa “ servo” (cf. NIV; o verbo pode
ser é ou era; cf. também Jz 7:10s.; 19:3, etc.). Em 1 Reis 3:7 Salomão se considera “uma criança” e reconhece sua imaturidade como uma des vantagem que só poderia ser remediada pela sabedoria concedida por Deus.
17.0 filho de nobres é alguém cuja posição na sociedade o capacita
a agir com espírito independente. O contraste, portanto, não é tanto en tre jovens e velhos, mas principalmente entre uma abordagem madura e corajosa da vida, e uma atitude imatura, servil. Outro critério de sabe doria nacional é o autocontrole. Uma abordagem da vida de maneira dissoluta e indolente, com ênfase na luxúria e na indulgência pessoal, é marcada pelo hábito de beber logo às primeiras horas do dia. Como temos visto bem freqüentemente (e.g. 9:7-10), a recreação pessoal tinha seu lugar, na mente do Pregador; a antítese da indulgência, aqui, não é o ascetismo, mas o autocontrole. A característica deste prazer legítimo é que deve ser desfrutado “em estado de força”, não “em estado de em briaguez”.185 Uma das marcas da bem-aventurança nacional é a capaci dade de desfrutar os prazeres da vida, como resultado de uma posição de sabedoria e força. Por outro lado, a pseudo alegria oriunda da indul gência egoísta é a marca do perigo nacional. •
18. Não é necessário que sigamos Hertzberg e considerarmos casa como representação da nação, mantendo, assim, a continuidade do as sunto. A continuidade é menos intrincada, pois, prossegue no tema da estultícia na pessoa, individualmente. A preguiça do tolo não resulta em julgamento imediato, rapidíssimo, da parte de Deus, mas num julgamento mais sutil: contínua decadência. Se não se prestar a devida atenção aos detalhes cotidianos da vida, como resultado se colherão perigos devasta dores. RSV, NIV trazem goteja, que pode significar “entra em colapso”, vida estulta, e o vers. 19 dos resultados da vida sábia. Noutra passagem, aqui e no Salmo 119:28.186 Todavia, visto que a idéia da água gotejante é incontestável em Provérbios 19:13; 27:15 e Jó 16:20, goteja não é uma tradução impossível.
19. É difícil captar o sentido deste versículo. Se houver um paralelo nos versículos 16-19, a antítese entre os versículos 16s. está repetida nos versículos 18s., produzindo uma seqüência: ai de ti... ditosa... ai de ti... ditosa; o vers. 18 estaria, então, tratando dos resultados lamentáveis da vida estulta, e o vers. 19 dos resultados da vida sábia. Noutra passagem,
pão (RSV; muitas traduções, inclusive nossas ARA e ARC trazem festim
e convites, respectivamente, para uma palavra hebraica que significa pão) 185 A preposição pode indicar “ condições concomitantes” (BDB, pág. 89), e o texto poderia ser, assim, traduzido como acima.
186 Sugestão de G. Driver em Archiv Orientalni, 17, 1949, págs. 155s., aceita por H. L. Ginsberg, JAOS, 70,1950, págs. 158s.; M. Dahood (CPIQ, 1952, pág. 212) e outros.
representa os prazeres legítimos da vida (9:7). Não precisamos nos sur preender com a declaração que o dinheiro atende a tudo; a despeito das advertências da Bíblia (Dt 8:13s.; Mc 10:23ss.; 1 Tm 6:10), o dinheiro ja mais é desprezado. As quatro referências ao dinheiro em Eclesiastes re