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SABEDORIA E LOUCURA (9:11-10:20)

No documento Eclesiastes e Cantares (páginas 139-149)

COMENTÁRIO

E. SABEDORIA E LOUCURA (9:11-10:20)

Na opinião de muitos comentaristas, não há uma argumentação sus­ tentável, nestes versículos. Gordis fala da “ variedade de assuntos, e da falta de organização lógica da seção” . Assim se queixava Delitzsch: “ Quanto tempo, estudo e papel se tem gasto na tentativa de encontrar uma conexão entre este grupo de versículos com o precedente! ” Entre­ tanto, alguns eruditos (Leupold, Hertzberg e outros) têm tentado es­ boçar uma argumentação. Leupold julgava “ que o autor está escre­ vendo um discurso coerente, com seqüência e pensamento lógicos” (veja-se comentário a respeito de 10:1). Não se determina com facilida­ de a verdade do texto. É certo que as tentativas de coordenar-se uma argumentação detalhada não convenceram; por outro lado, coerência na argumentação é algo diferente de coerência de assunto. Se não há evidência de coerência argumentativa nestes versículos, há coerência de assunto em grande escala, visto que cada unidade trata diretamen­ te, de alguma forma, com a loucura ou com a sabedoria.

i. Tempo e oportunidade (9:11-12). Em primeiro lugar, os versículos

apresentam os temas da sabedoria e seus limites, e além disso contra­ balançam os versículos 7-10. O homem sábio não deve empolgar-se tan­ to com as alegrias da vida a ponto de esquecer-se das frustrações, visto que estas não desaparecem, mesmo quando o homem sábio se certifica da aprovação de Deus.

172 Cf. N. J. Tromp, Primitive Conceptions o f Death and the Nether World (1969),

cap. 2; P. Watson, M ot, the God o f Death, at Ugarit and in the Old Testament (Univer- sity Microfilms, 1971); J. Zandee, Death as an Enem y According to A ncient Egyptian

Conceptions (1960); E. F. Sutcliffe, The Old Testament and the Future L ife (1947), caps.

11. Relacionam-se cinco desempenhos, nenhum dos quais garante o sucesso ou a prosperidade: (i) o campeão de corridas pode perder uma competição (cf 2 Sm 2:18); (ii) força militar não é garantia de su­ cesso na batalha (cf. Is 36-37); (iii) a sabedoria, de modo semelhante, não é garantia de vida (cf. 9:13-16; 10:1); (iv) o entendimento pode fazer-se acompanhar da pobreza (cf. 9:15); (v) graça e justiça poderão demorar para o inocente José (Gn 37-41); e jamais vir para outros (9:13-16). Dois fatores poderão perturbar todos os cálculos humanos. Em primeiro lugar, o tempo nos limita, como um eco do ensino que percorre todo o Eclesiastes, segundo o qual as épocas de nossa vida estão nas mãos de Deus; esta é uma garantia para a fé, e também um golpe mortal na autoconfiança. Em segundo lugar, o acaso é aquele fator inesperado que pode transtornar esquemas seguros, não impor­ tando o quanto tenham sido exaustivamente estudados.173

12. As épocas da vida são imprevisíveis (o homem não sabe como serão, antecipadamente), são inescapáveis (a rede traiçoeira... o laço), são repentinas (de repente sobre eles), contudo, são típicas da vida co­ mo a vida realmente é; os filhos dos homens é expressão genérica rela­ cionada às coisas corriqueiras da vida. Tempo da calamidade de al­ guém poderá ser a época da morte, como sugere Lauha (cf. 7:17). Con­ tudo, visto que em outros lugares (cf. 8:5-7) o Pregador focaliza o flu­ xo de acontecimentos como trabalhando contra os objetivos e espe­ ranças do homem, o tempo da calamidade pode perfeitamente referir- se a outras calamidades além daquela que é terminal.

ii. A sabedoria não reconhecida (9:13-16). Como em outra parte, o Pre­ gador relata, primeiro, uma observação, e em seguida, baseado nela, erige uma série de comentários e reflexões.

13. O Pregador apresenta outro exemplo de sabedoria que ele ha- viâ observado. Vi. é a expressão costumeira dele para descrever inci­ dentes reais que aguçaram suas reflexões. Por esta razão, o assunto não deverià ser tratado como sendo puramente ficção parabólica (Hengstenberg e outros).

14. Foi atingido por uma luta entre o prestígio (um grande rei) e a insignificância (uma pequena cidade); força (grandes baluartes)™ combatia a fraqueza (poucos homens). Têm-se tentado algumas iden­ tificações, que incluem o livramento de Siracusa, por Arquimedes, con­

173 Veja-se comentário, às págs. 75-76.

1/4 O hebraico n fsô d ím (“ redes” ) talvez seja um lapso dos copistas, ao copiar a palavra nfsôrtm (“ baluartes” ). Outros (e.g., Gordis) argumentam que n fsô d im real­ mente significa “ baluartes” .

tra os romanos, ao afundar-lhes os navios (212 a.C.), o cerco de Dor, por Antíoco, o Grande (218 a.C.), e mais tarde, por Antíoco VII (138 a.C.), o cerco de Bete-Sura por Antíoco V,175 o livramento de Atenas por Tfemístocles, o cerco de Abel de Bete-Maaca (2 Sm 20:15-22) e o livramento de Tebes (Jz 9:50-55).

15. Além das teorias acima, Cox adicionou a idéia de que o ho­

mem pobre poderia ser o próprio Pregador. Nada disto é convincente;

o caso é que ninguém se lembrou mais daquele pobre. Significaria isto que ele fora esquecido após haver libertado a cidade? Se assim for, “ de­ veria ele aprender a não contar com uma coisa tão transitória como a gratidão do público” (Kidner). Ou teria ele sido esquecido quando poderia ter livrado a cidade? Esta é a hipótese mais provável, se se­ guirmos GNB, NEB e NASV mg.; e que a livrou pela sua sabedoria (ARA); Poderia ter livrado a cidade (assim traduzem Aalders, McNei­ le, Hertzberg);176 eis como os versículos subseqüentes aplicam as lições do incidente.

16. Ele aplica a lição da parábola; a sabedoria nem sempre é pres­ tigiada. Embora a sabedoria possa livrar alguém das situações mais ad­ versas, as circunstâncias pobres dos menos privilegiados177 depõem contra estes, e desprezam a sabedoria. Força refere-se a poderio físico, individual ou militar, que era freqüentemente notada como conquista de rei, à luz de uma série de alusões aos arquivos de Israel.178 iii. A sabedoria distorcida (9:17-10:1). 17. O Pregador continua a enfa­ tizar a facilidade com que a sabedoria é violentada. A inversão contida no versículo 16 é verdadeira, no sentido em que os governantes são ca­ pazes de se fazer ouvir, enquanto a sabedoria corre o risco de perder-se em meio ao clamor. O contraste tríplice (palavras... gritos, sábios... quem

governa... em silêncio... entre tolos) enfatiza a tese. Quem governa não

se refere exclusivamente ao rei, mas a qualquer que pertença às classes governantes (cf. 2 Cr 23:20; Pv 22:7). Equilibrando-se sábios com quem

governa, o autor indica que a autoridade não está, necessariamente, do

mesmo lado da sabedoria. Gritos parece referir-se, aqui, aos berros de autoconfiança de um “governador distrital” local. Ao seu lado há um bando de bajuladores vociferantes que exercem péssima influência. Há

175 Os incidentes mencionados encontram-se em Políbio V; Josefo, Antigüidades xiii; 1 Mc 6 e 2 Mc 13.

176 Cf. GK106 (p) quanto ao uso do tempo pretérito perfeito “ para exprimir ações e fatos... não como sendo reais, mas como sendo possíveis” .

177 Cf. 4:13 e nota de rodapé 97, à pág. 101.

178 Cf. 1 Rs 15:23; 16:5, 27; 22:45; 2 Rs 10:34; 13:8, 12; 14:15, 28; 20:20; 1 Cr 29:30; Et 10:2.

mais esperança de sabedoria nas palavras ouvidas em silêncio (ligado à confiança em Is 30:15, e à alegria, em 4:6). Desta forma, a sabedoria nem sempre prevalecerá; a gritaria, a verbosidade e o poder poderão triunfar contra ela. A sabedoria não dispõe de garantias embutidas.179

18. Outro perigo é que a sabedoria é facilmente destituída. Alguns eruditos têm afirmado (e.g. Ginsburg) que a “ destruição” aqui é de ordem intelectual, e que pecador não tem, neste ponto, conotações mo­ rais. Entretanto, “ sabedoria” e “loucura” são categorias que apresen­ tam conotações morais na literatura sapiencial de Israel, especialmen­ te em Eclesiastes. A sabedoria envolve a largueza de mente, que é ca­ racterística salomônica, mais o amplo conhecimento do reino natural (1 Rs 4:29-34); contudo, esta capacidade é concedida por Deus (1 Rs 4:29), e tem condicionamento moral, visto que é dada a fim de “ dis­ cernir entre o bem e o mal” (1 Rs 3:9). No Deuteronômio há “ estatu­ tos e ordenanças” a serem guardados: “ isto será a vossa sabedoria” (Dt 4:5s.). O padrão de Eclesiastes é o mesmo, essencialmente: largue­ za de vistas (1:13), perícia na seleção e disposição de provérbios (12:9s.), grande interesse a respeito da natureza (1:5-7; 2:4-7), a sabedoria co­ mo algo concedido por Deus e moralmente condicionada (“ ao homem que lhe agrada” , 2:26). Em 2:26 “ sabedoria” fica explicitamente co­ locada em oposição a “ pecador” , em termos que são claramente mo­ rais. É duvidoso, portanto, que o elemento moral possa ser excluído da palavra pecador, aqui.

10:1. A despeito da divisão do capítulo, este versículo prossegue no tema dos versículos anteriores, num nível mais individual. As duas metades formam uma comparação, e a tradução poderia ser a seguin­ te: “ Assim como as moscas mortas... assim também um pouco de es­ tultícia...” O provérbio sublinha a fragrância do caráter do sábio (un-

güento do perfumador... a sabedoria e a honra). Entretanto, um pe­

queno erro faz com que o mau cheiro de sua loucura sobrepuje a fra­ grância de sua sabedoria. Mais uma vez o provérbio adverte os leitores a não colocarem absoluta confiança nem mesmo na sabedoria. A vida deve ser recebida dia a dia das mãos de Deus. Em nenhum outro lugar há segurança, nem mesmo na sabedoria. lS0Estultícia (sekel) ou o es­

179 A RV entende o versículo de maneira diferente: / l i palavras do sábio... são ou­

vidas mais do que o grito daquele que governa. Depende de como o particípio ouvidas

se une às palavras ao redor. Seria: “ ouvidas em silêncio?” Ou no silêncio são ouvi­ das?” Visto que o contexto trata dos limites da sabedoria e, portanto, de seu fracasso em potencial (cf. vers. 11,16,18) a RV é menos plausível. Em 9:16 nega-se que a silen­ ciosa sabedoria seja sempre ouvida.

180 O hebraico pode ser traduzido “ moscas mortas” ou “ moscas da morte” . A ana­ logia do uso (cf. o hebraico de 1 Sm 5:11; SI 7:13; 18:5; Pv 14:27) indica a última alter­

tulto (sãkãl) associa-se a impiedade (7:17), sendo o oposto de sabedo­ ria (2:19). Resulta de uma deficiência interna da personalidade (vers. 2), que se torna óbvia aos observadores (vers. 3), especialmente quan­ to às palavras do estulto (vers. 14). Em outra passagem se diz do estul­ to que é sábio “ para o mal” (Jr 4:22), devendo ser caracterizado pela insensibilidade moral (cf. Jr 5:21). A queixa é antes moral, do que intelectual).

iv. loucura (10:2-3). O resto da seção (10:2-20) considera a natureza da loucura, descrevendo-a, primeiro, em termos genéricos.

2. A loucura é relacionada a uma falta no coração, a parte inter­ na, invisível, da vida do homem, em contraste com sua face (7:3), suas mãos (7:26) e seu corpo (11:10), que são as partes externas de nosso ser (cf. 1 Sm 16:7). Inclui a mente, visto que “ dar o coração” a algo significa estudar o assunto (1:13, 17; 8:9, 16). A natureza do coração produz os problemas com que o Pregador luta. Por um lado, no cora­ ção está colocada a “ eternidade” ; não podemos estar contentes com as limitações do mundo (3:11); entretanto, o coração é mau (8:11; 9:3) e defeituoso (10:2). Entretanto, Deus pode agir em nós de tal forma que nosso coração fica cheio de alegria (5:20); o coração pode tornar- se “ melhor” (7:3); pode tornar-se “ sábio” (8:5). A “ anatomia dúbia” (Kidner) é algo deliberado e humorístico, como freqüentemente acon­ tece na literatura sapiencial. A AV, RV e ARA traduzem corretamen­ te: O coração do sábio se inclina para o lado direito... A mão direita sempre esteve associada à idéia de força salvadora que apóia e protege (SI 16:8; Is 41:13). A destreza dos Israelitas levou-os, sem dúvida, a associar a esquerda com desgraça (cf. Mt 25:33, 41), e com desajeitada incompetência (cf. Jz 3:15; 20:16).181 Ter o coração à mão direita é ser destro e cheio de recursos na vida diária. Ter o coração à mão esquer­

da é ter “ as fontes da vida” (Pv 4:23) na área da incompetência práti­

ca e espiritual.

3. O tema é explorado de forma mais explícita. O estulto ama can­ ções turbulentas (7:5), o riso barulhento e oco (7:6); é preguiçoso (4:5), palrador (5:3; 1Q:12), irascível (7:9), avesso ao aconselhamento (9:17), moralmente cego (2:14), tem uma doença mortal no coração (10:2), e está sob a desaprovação de Deus (5:4). Pode ser encontrado em qual­ quer camada da sociedade, até mesmo no templo (5:1), ou no trono nativa como a mais plausível, tendo sido adotada por Leupold. Entretanto, o provérbio está mais ligado à pequenez da influência putrefaciente do que à sua letalidade. A ana­ logia do uso não é suficiente para minimizar aquilo que é exigido pelo impacto do argumento.

181 Cf. também Z. W. Falk, “ Gestures Expressing A ffirm ations” , JSS, 4, 1959,

(4:13). S. A. Mandry explora o talento do insensato para mentir, en­ ganar, enfurecer os outros, e para a loquacidade; é hábil, enganador, e dotado de autoconfiança; evita a punição e quaisquer tentativas para discipliná-lo; rebela-se contra a religião.182

A primeira parte pode ser traduzida assim: falta-lhe coração (RSV e ARA: falta-lhe o entendimento; cf. Pv 10:21) ou, dando-lhe redação diferente: “ seu coração tem falta” . Em vista da deficiência interna (vers. 2), esta última hipótese é plausível. A segunda parte tem sido tomada como significando que o estulto “ chama de estulto todos quantos dis­ cordam dele, quando tentam corrigi-lo... O estulto confia em seu pró­ prio julgamento e mofa do aconselhamento” (Jones). Isto é plausível, visto que nem a persuasão suave (Pv 23:9), nem forte repreensão (Pv 17:10) afetam-no. Entretanto, nada há, no texto, concernente a acon­ selhamento; é melhor entendê-lo assim: que o insensato não pode se esconder. Assim, a deficiência interna do estulto sai e mostra-se, para que todos a vejam.

v. Loucura em altas esferas (10:4-7). 4. Em toda esta seção a respeito da sabedoria e loucura, apenas este versículo contém (com 10:20) al­ guma forma de comando. Aqui, o comando se faz acompanhar das razões que o tornam necessário. A indignação do governador183 deve ser aplacada com paciência calma que jamais entra em pânico e pavor, nem foge em amargura. O mesmo vocabulário ocorre (“ indignação... acalma” ) em Juizes 8:3, como ilustração do tema.

5. A passagem volta-se para os males observáveis (v/) por detrás da advertência do versículo 4. Algumas versões suavizam a declaração (NIV como se; RSV como se fosse), contudo, o hebraico é bem mais asseverativo (“verdadeiramente”, “realmente”) do que comparativo (“ como” , “ semelhante a” ).184 Leupold sustenta que o governador é Deus, argumentando que (i) o contexto torna a idéia plausível; (ii) a palavra hebraica (sallit) é diferente da que aparece no versículo 4 (imôsêl), indicando dois tipos de governador; (iii) o artigo definido no hebraico aponta para a mesma direção; (iv) sallit é empregado para designar Deus em Dn 4:17, 25, 32; 5:21. A isto pode-se replicar: (i)

182 S. A. Mandry, There is no Cod: A Study o f the Fool in the Old Testament (1972), esp. pág. 55; T. Donald, “ The Semantic Field of ‘Folly’ in Proverbs, Job, Psalms, and Ecclesiastes” , VT, 13, 1963, págs. 285-292.

183 O hebraico é rüah (espírito), mas a referência é à ira, como em Isaías 25:4 (“ dos tiranos o bufo” — que numa versão em inglês diz: “a ira dos impiedosos”, N. do T.) e Pv 29:11.

184 Cf. comentário a respeito de 7:7 e o artigo de Gordis sobre kafa asseverativo, mencionado à pág. 116 nota 124.

a mudança de palavra é meramente variação de estilo; (ii) o uso em Daniel não é significativo; se a palavra melek (“ rei” ) pode ser usada tanto para o rei terreno (Is 6:1) quanto para o rei celestial (Is 6:5), sallit também pode ter emprego variado, de modo semelhante; (iii) o artigo refere-se a um determinado governador, no trono, em certa época; (iv) o fator determinante é o contexto, que não apóia a interpretação de Leupold. Diz respeito à estultícia na política nacional. Também seria improvável que o Pregador mencionasse um “ erro” procedente de Deus.

6. “ Do tempo e do acaso” (9:11), eis dois elementos que podem produzir reversões curiosas e, desta forma, limitar a eficiência da sa­ bedoria. Os homens de recursos (os ricos) podem não ter oportunida­ des; os homens que têm oportunidades (em grandes alturas) podem não ter pelo menos os recursos espirituais.

7. Como ilustração, o Pregador apresenta uma anomalia que teria sido mais vivida no mundo antigo, quando o cavalo estava associado às coisas do rei, e à riqueza (cf. Dt 17:16).

vi. Loucura em ação (10:8-11). Este grupo de provérbios expõe as con­ seqüências da loucura. É difícil determinar a conexão com os versícu­ los 4-7. Provavelmente ainda está em mira a loucura “ que procede do governador” , embora a aplicação pareça mais generalizada.

8. A vingança carrega em si suas penalidades embutidas. Trata-se de imagem parecida com a de Jeremias 18:18-22. Os esforços malicio­ sos dos homens, que freqüentemente são voluntariosos, envolvendo muitos problemas (abre uma cova... rompe um muro) sofrem uma conseqüên­ cia que pode ser bem oposta (nela cairá), de forma inesperada (8b), mortal (picado por uma serpente). Assim, Hamã foi enforcado na for­ ca que ele mesmo preparou (Et 7:9s.).

9. Poder-se-ia pensar que algumas atividades mais construtivas tais como cortar pedras, ou troncos de árvores, são mais seguras do que as atividades maliciosas do versículo 8. Dois outros provérbios adver­ tem'contra uma falsa presunção: a vida toda tem seus perigos inerentes. 10. Em outra passagem, o Pregador (e a tradição sapiencial em geral) caracteriza a estultícia pela sua superficialidade e pressa. Aqui, apresenta-se o aspecto cuidadoso da sabedoria: o sábio prepara suas ferramentas. O estudo aprofundado traz o sucesso, mais do que a for­ ça bruta.

11. Aqui, o perigo oposto é colocado em foco: alguém que é capaz de manejar um assunto difícil (o encantador) falha devido à falta de rapidez (se a cobra morder antes de estar encantada). A negligência pode anular a perícia inerente.

vii. A conversa do tolo (10:12-14). 12. Todos os escritos sapienciais tratam da língua, mais cedo ou mais tarde, porque o caráter da fala da pessoa é o teste seguro da sabedoria; a língua é o “ pequeníssimo leme” que dirige o navio (Tg 3:4s.). Nas palavras do sábio há favor; o hebraico diz que as palavras são “ graça” , incorporando tudo quan­ to é gracioso, ou bondoso (cf. SI 45:2; Pv 22:11, onde se emprega a mesma palavra); são apropriadas (Pv 15:23; 25:11); são úteis (Ef 4:29; Cl 3:8); amáveis (Pv 25:12, 15). As palavras... devoram (literalmente “ engolem” , cf. SI 52:4). Consomem a reputação do tolo (vers. 3), seu caráter (Tg 3:6), seu impacto na direção do bem (Ef 4:29), e finalmen­ te, a própria pessoa (Mt 12:36s.).

13. A fonte da conversa do tolo é encontrada em seu caráter ínti­ mo (cf. Mt 12:34), a estultícia já exposta anteriormente (cf. 10:2s. e toda a seção de 9:17-10:20). O fim da conversa do tolo (resultado; cf. 7:8) é a loucura perversa (RSV, NIV), uma irracionalidade moralmen­ te perversa.

14. O Pregador, em seguida, enfatiza a arrogância da fala do tolo. A verbosidade dele não se alicerça em nenhuma sabedoria esotérica, ou em conhecimento. Não tem consciência nem do presente, quanto menos ainda do futuro. Ninguém seria capaz de conceder-lhe algum conhecimento do futuro. Entretanto, ele fala com convicção a respei­ to de tais coisas.

viii. A incompetência do tolo (10:15). O assunto muda: das palavras passa às ações. Há elos com os versículos 16-20, contudo, ainda não está considerando o assunto em nível nacional. O tolo acha cansativo qualquer tipo de trabalho. O resultado é a incompetência. A segunda metade do versículo especifica “ sua total ignorância das coisas corri­ queiras, que todo o mundo conhece” (Ginsburg). Já se afirmou que a preguiça (4:5) é a principal característica do tolo. Aqui está ela outra vez, a preguiça moral e intelectual que conduz à queda (2:14), ao es- touvamento (10:2), ao desabamento (10:18) da vida.

ix. A loucura na vida nacional (10:16-20). A seção atinge um clímax retórico. O Pregador já viu a influência enorme que a sabedoria e a loucura exercem sobre a nação como um todo (10:4-7). Agora, ele pro­ clama a suma importância do assunto, ao considerar ambos os cami­ nhos, ao longo da vida, um dos quais redundará em desastre nacional

(ai de ti... vers. 16), e o outro, em segurança nacional (ditosa, tu...

vers. 17).

16. A maior necessidade de qualquer nação é um líder amadureci­ do. RSV e ARA é uma criança diz respeito à imaturidade generaliza­ da. Este termo freqüentemente significa “ servo” (cf. NIV; o verbo pode

ser é ou era; cf. também Jz 7:10s.; 19:3, etc.). Em 1 Reis 3:7 Salomão se considera “uma criança” e reconhece sua imaturidade como uma des­ vantagem que só poderia ser remediada pela sabedoria concedida por Deus.

17.0 filho de nobres é alguém cuja posição na sociedade o capacita

a agir com espírito independente. O contraste, portanto, não é tanto en­ tre jovens e velhos, mas principalmente entre uma abordagem madura e corajosa da vida, e uma atitude imatura, servil. Outro critério de sabe­ doria nacional é o autocontrole. Uma abordagem da vida de maneira dissoluta e indolente, com ênfase na luxúria e na indulgência pessoal, é marcada pelo hábito de beber logo às primeiras horas do dia. Como temos visto bem freqüentemente (e.g. 9:7-10), a recreação pessoal tinha seu lugar, na mente do Pregador; a antítese da indulgência, aqui, não é o ascetismo, mas o autocontrole. A característica deste prazer legítimo é que deve ser desfrutado “em estado de força”, não “em estado de em­ briaguez”.185 Uma das marcas da bem-aventurança nacional é a capaci­ dade de desfrutar os prazeres da vida, como resultado de uma posição de sabedoria e força. Por outro lado, a pseudo alegria oriunda da indul­ gência egoísta é a marca do perigo nacional. •

18. Não é necessário que sigamos Hertzberg e considerarmos casa como representação da nação, mantendo, assim, a continuidade do as­ sunto. A continuidade é menos intrincada, pois, prossegue no tema da estultícia na pessoa, individualmente. A preguiça do tolo não resulta em julgamento imediato, rapidíssimo, da parte de Deus, mas num julgamento mais sutil: contínua decadência. Se não se prestar a devida atenção aos detalhes cotidianos da vida, como resultado se colherão perigos devasta­ dores. RSV, NIV trazem goteja, que pode significar “entra em colapso”, vida estulta, e o vers. 19 dos resultados da vida sábia. Noutra passagem, aqui e no Salmo 119:28.186 Todavia, visto que a idéia da água gotejante é incontestável em Provérbios 19:13; 27:15 e Jó 16:20, goteja não é uma tradução impossível.

19. É difícil captar o sentido deste versículo. Se houver um paralelo nos versículos 16-19, a antítese entre os versículos 16s. está repetida nos versículos 18s., produzindo uma seqüência: ai de ti... ditosa... ai de ti... ditosa; o vers. 18 estaria, então, tratando dos resultados lamentáveis da vida estulta, e o vers. 19 dos resultados da vida sábia. Noutra passagem,

pão (RSV; muitas traduções, inclusive nossas ARA e ARC trazem festim

e convites, respectivamente, para uma palavra hebraica que significa pão) 185 A preposição pode indicar “ condições concomitantes” (BDB, pág. 89), e o texto poderia ser, assim, traduzido como acima.

186 Sugestão de G. Driver em Archiv Orientalni, 17, 1949, págs. 155s., aceita por H. L. Ginsberg, JAOS, 70,1950, págs. 158s.; M. Dahood (CPIQ, 1952, pág. 212) e outros.

representa os prazeres legítimos da vida (9:7). Não precisamos nos sur­ preender com a declaração que o dinheiro atende a tudo; a despeito das advertências da Bíblia (Dt 8:13s.; Mc 10:23ss.; 1 Tm 6:10), o dinheiro ja­ mais é desprezado. As quatro referências ao dinheiro em Eclesiastes re­

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