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1.1.3 Comunidade Negra Rural de Sutil

A Comunidade Negra Rural de Sutil, assim denominada agora, com certidão expedida como Comunidade Remanescente de Quilombo (CRQ), em 19 de agosto de 2005 na Fundação Cultural Palmares9 (FCP), localiza-se do lado direito da Rodovia PR–151, sentido Ponta Grossa a Palmeira.

9 Disponível em: http://www.palmares.gov.br/?page_id=88&estado=PR e também pode

ser encontrada no GT Clóvis Moura. Disponível em: http://www.gtclovismoura.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=33. Acesso em 30 de janeiro de 2015.

No entanto, apesar de ter sido reconhecida juridicamente como uma comunidade quilombola, por conta da denominação dada e justificada pelos adolescentes e jovens que fizeram parte do Projeto Voz Ativa, durante uma das Oficinas (exporei mais à frente neste trabalho) e, consequentemente, também desta pesquisa, não me referirei à comunidade como “quilombola” neste trabalho.

As cidades mais próximas da Comunidade Sutil são o Município de Ponta Grossa e o Município de Palmeira, a comunidade fica exatamente no meio do caminho entre as duas cidades, a 20km aproximadamente tanto de uma como de outra (HARTUNG, 2000).

No mesmo sentido da rodovia, 4km antes da Sutil, localiza-se a Comunidade Santa Cruz10, também registrada na Fundação Cultural Palmares efetivada na mesma data que a Sutil. E, ainda no mesmo sentido (Ponta Grossa-Palmeira), estão localizadas três colônias russas, sendo duas do lado esquerdo com entradas simetricamente com a da Sutil e uma do lado direito da rodovia antes da Santa Cruz (HARTUNG, 2000).

A Fazenda Santa Cruz, assim chamada anteriormente, possuía uma área de aproximadamente 13.000 hectares e era assim subdividida: Campo da Rocha; Campo da Porta; Campo do Subtil; Capoeiras; Potreiro, Frazão e “Fachinal” (HARTUNG, 2000, p. 152). De acordo com Hartung (2000), a origem da fazenda Santa Cruz é incerta e a autora presume-se através de suas pesquisas que se trata de uma sesmaria de três gerações dos Gonçalves Guimarães, comprovada em documentos investigados por ela, que foi reivindicada por Manoel Gonçalves Guimarães em 1787, tornando-o proprietário da Santa Cruz. Em 1836, entre outros bens, no inventário, Manoel deixa a Santa Cruz para os seus filhos Joaquim Gonçalves Guimarães e Maria Clara do Nascimento.

Em 1854 Maria Clara nomeia seus escravos e libertos, juntamente com os de seu irmão Joaquim, herdeiros de parte da fazenda, conforme se lê no trecho do testamento (HARTUNG, 2000):

10Ver mais em: ALVES, Tanize Tomasi: Espacialidades, interações e redes sociais:

uma análise a partir da Comunidade Quilombola Santa Cruz – Ponta Grossa/PR – Dissertação de Mestrado em Geografia, 2013 – Universidade Estadual de Ponta Grossa.

Declaro que possuo uma Fazenda na paragem denominada Santa Cruz, Districto da Freguesia da Palmeira (...). Deixo a minha escrava Fermina a quinta parte da metade dos Campos da Fazenda de Santa Cruz (...) Deixo as outras quatro partes da metade dos ditos Campos de Santa Cruz e todas as terras de planta a todos os escravos libertos por mim e por meu falecido irmão Capitão Joaquim Gonçalves Guimarães (...) (HARTUNG, 2005, p. 153, grifo da autora).

Sutil é o nome de um dos cinco campos da antiga fazenda de criação e invernagem de gado vacum e de muares, chamada Santa Cruz, conforme Hartung (2000). Sobre o surgimento da separação das terras e nome dado ao Sutil, trago a voz do Senhor Benedito:

[...] Aqui era Santa Cruz, não Sutil, no mapa que é do terreno do antigo aqui, que isso já foi tudo prô brejo, era Santa Cruz. (...) E era uma bisavó minha que era vez disso aí e as outras famílias. (...) Tudo a mesma coisa, essas família aqui de baixo e as de cima era tudo Santa Cruz, não tinha nada de Sutil, não sei como é que fizeram esse batismo aí. (...) Terrenaço (Benedito Gonçalves Guimarães, 70 anos) (HARTUNG, 2000, p. 107).

Ele ainda explica num vídeo feito sobre a Comunidade Sutil, realizado por Adriano Justino, através DOC TV (2004)11, conveniado ao Ministério da Cultura, que seu sobrenome como o de todos que lá habitam, provém do nome do “[...] patrão dos escravo...dono das escravatura...ele era o Senhor...então é por isso que nóis temo essa assinatura Gonçalves Guimarães...intão, nóis somo afiliação dele...porque era a assinatura da minha vó, da minha bisavó”.

Em 2000, de acordo com Hartung (2000), residiam 122 indivíduos na Sutil e, segundo Alves (2013), a comunidade é composta por 144 habitantes divididos em 41 famílias distribuídas em 22 lotes. E, em 2014, pode-se contar com 40 famílias, através de um levantamento realizado por mim e uma das Pérolas Negras de 14 anos12participante do Projeto Voz Ativa.

11 O DOCTV é um Programa da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura,

Fundação Padre Anchieta/TV Cultura e Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais – ABEPEC, com apoio da Associação Brasileira de Documentaristas – ABD, que tem como objetivos gerais a regionalização da produção de documentários, a articulação de um circuito nacional da teledifusão e a viabilização de mercados para o documentário brasileiro. Ver mais em: www.tvcultura.com.br.

12 No dia 27 de novembro de 2014, a Pérola Negra de 14 anos faleceu em detrimento

a um problema de saúde inesperado, não tendo chances nenhuma de um diagnóstico prévio e de tratamento.

O município de Ponta Grossa é quem oferece a infraestrutura de serviços necessários para os moradores da comunidade, como escolas, supermercados, farmácias, hospitais, etc., e é em Ponta Grossa que também mora boa parte de seus parentes que já deixaram a comunidade (HARTUNG, 2000; ALVES, 2013).

Além da relação com Ponta Grossa e Palmeira – as cidades vizinhas – a população da Sutil ainda vivencia diferentes situações sociais, como as de educação e trabalho com as escolas do bairro Cará-Cará, com a Comunidade Santa Cruz, com as três colônias dos russos-brancos e com os fazendeiros das propriedades vizinhas, com o Ponta Grossa Golf e o porto de areia, sendo esses quatro últimos para quem a maioria dos membros da Sutil trabalham (HARTUNG, 2000; ALVES, 2013).

Os russos que menciono formam o grupo de colonização mais recente nos Campos Gerais, são chamados de russos-brancos ou russos barbudos, russos da região siberiana asiática que se instalaram em 1958, em partes das terras que formavam a Fazenda Santa Cruz, em Ponta Grossa (ALVES, 2013). São guiados pela religiosidade russo-ortodoxa, que dita as regras e normas de como as pessoas das colônias russas devem viver e podem se portar (Ibid).

O grupo de russos-brancos, constituído por 23 famílias, num primeiro momento passou a morar na área da casa grande da Fazenda Santa Cruz e, posteriormente, com a construção das moradias, organizaram e dividiram as terras em três colônias, I, II e III. Esses povos migraram da Rússia para a China quando “foram expulsos da Bielo-Rússia durante a fase da coletivização de Stalin nos anos 20”, estabelecendo-se na Manchúria, uma vasta região do leste da Ásia. Porem, começaram a sofrer novas perseguições políticas naquele país e novamente migraram, alguns foram para o Canadá, Estados Unidos e Filipinas, e outros, que estavam em Hong Kong protegidos pela ONU, receberam o convite para se estabelecer no Brasil, aonde vieram a residir na região dos Campos Gerais (ALVES, 2013, p. 100).

Conforme, Hartung (2000), e também as entrevistas realizadas pelo DOC TV (2004) com os moradores da Sutil, tanto os homens quanto as mulheres da Sutil prestam serviços para russos e também para os outros vizinhos, estes descendentes de japoneses. A famílias destes descendentes,

possuem uma fazenda a 6km da Sutil, nesta que muitos(as) do Sutil colhem batatas.

A Sutil não possui escola dentro da comunidade, inicialmente, um de seus ancestrais passou a alfabetizar a população local, em sua própria casa. Mas, somente em 1958 é que foi construída uma escola de madeira na comunidade Santa Cruz, pelo prefeito José Hoffmann, a qual recebia um professor de Ponta Grossa para ministrar aulas no sistema multiserial de 1ª a 4ª série (ALVES, 2013). Hoje, as crianças, jovens e adultos, deslocam-se na maioria até Ponta Grossa, através de um ônibus escolar, disponibilizado pela prefeitura (Ibid).