CAPÍTULO IV SOBRE A PONTE
4.2 Estudos Críticos do Discurso/ECD – Análise de Discurso Crítica/ADC
A Análise de Discurso Crítica/ADC(RAMALHO E RESENDE, 2011) e/ou os Estudos Críticos do Discurso/ECD (DIJK, 2010), apresentam um modo ou perspectiva diferente que se debruçam sobre os estudos discursivos para investigar os problemas sociais. A sua diferença está em analisar e estudar o abuso de poder, isto é, o modo como a dominação e a desigualdade são representados e reproduzidos através de textos escritos e orais no contexto social e político. Outra diferença relevante nessa perspectiva é de que os analistas críticos do discurso adotam um posicionamento explicitamente consciente de seu papel na sociedade, ou seja, tal análise, descrição ou explanação de teorias sob a ADC/ECD são sociopoliticamente situadas.
Isso quer dizer que, faz parte da proposta da ADC/ECD tornar os acadêmicos capazes de refletirem sobre seu papel na sociedade e cooperarem com os grupos dominados, através de direcionarem suas pesquisas (DIJK, 2010).
Nas palavras de Dijk (2010), a reprodução discursiva necessita de uma analise teórica detalhada. Para o autor, a “reprodução discursiva de abuso de
poder e desigualdade social” merece uma investigação, a fim de desvelar a dominação exercida pelas elites simbólicas.
Conclui-se que tais elites simbólicas têm acesso privilegiado aos discursos públicos controlando a reprodução discursiva da dominação na sociedade (DIJK, 2010). Existe uma relação entre discurso e sociedade, e essa relação se estabelece através do que Dijk (2010) chama de interface cognitiva de modelos mentais e cognições sociais, como conhecimentos e ideologias. O exemplo a que Dijk se utiliza e, que vem de encontro a essa pesquisa é o racismo que se reproduz na sociedade e que, entretanto, não é inato, e sim, aprendido a partir dos discursos públicos propagados na sociedade que temos contato desde que nascemos e que são controlados pelas elites. O autor enfatiza esta relação entre cognição, discurso e sociedade, pois é através deste vinculo que as opiniões públicas nos discursos são manipuladas.
A mídia, por exemplo, segundo Dijk (2010), é vista como maior poder social e padrões de acessos discursivos que legitima e reproduz em um domínio maior de dominância por grupos brancos (europeus) sobre minorias étnicas e raciais. Ele afirma que, a mídia previsivelmente limita o acesso como também diferencia os conteúdos às elites brancas dominantes, ou seja, são selecionadas questões e tópicos de notícias estereotipadas e negativas em relação à minoria étnica, preferidas pela elite branca, e as questões ou tópicos que são diretamente relevantes para a minoria recebem inclusive, menos cobertura e menos proeminência.
padrões da fala e da escrita, sendo a elite branca é que possui tal poder e domínio, o que permite acesso preferencial a comunicação de massa e a todos os discursos considerados decisivos e importantes (Ibid.).
É preciso considerar que o modo de entonação especifica, um pronome, uma metáfora, uma cor, uma manchete jornalística, um tópico, ou qualquer outra parte de dentro de um discurso se relacionam ao mesmo tempo de forma abstrata e geral e que estão ligadas às relações de poder na sociedade (DIJK, 2010).
Os Estudos Críticos do Discurso (ECD) para Dijk (2010), não se concentram especificamente em qualquer tipo de poder, e sim no abuso de poder, nas formas de dominação, que resultam em desigualdade e em injustiças sociais.
O autor afirma que não existe “uma” análise do discurso como um método, como também não há “uma” análise social, nem “uma” análise cognitiva, tudo depende do objetivo da investigação da origem dos dados estudados como também do contexto da pesquisa e interesses do pesquisador.
Assim, a partir desses propósitos é que podemos encontrar maneiras de estudar as estratégias da escrita e da fala, para pensar na construção discursiva, como também na sua reprodução (DIJK, 2010). Ao se utilizar dos termos “maneiras de fazer” (grifo do autor) a análise ou a descrição do discurso nas diferentes abordagens e não se utilizar do termo “método” (grifo do autor), conforme os campos de pesquisa em que for aplicado os estudos do discurso pode recorrer aos métodos tradicionais de certas ciências, como: observação participante; métodos etnográficos; experimentos (DIJK, 2010, p.11 e 12).
Partindo da afirmação de Dijk (2010), o discurso deve ser analisado como uma prática social considerando uma situação social, cultural, histórica ou política, isto é, não pode ser examinado apenas como um objeto “verbal” (grifo do autor) autônomo.
Assim, em vez de simplesmente analisar uma conversação entre vizinhos, talvez seja necessário fazer o trabalho de campo em uma vizinhança, observar como as pessoas falam em bares ou outros lugares públicos e descrever muitos outros aspectos relevantes desses eventos comunicativos, tais como a situação temporal ou espacial, circunstâncias especiais, os participantes e seus papéis comunicativos e sociais, as outras várias atividades que se realizam ao mesmo tempo, e assim por diante (DIJK, 2010, p. 12).
O autor explica que essas maneiras de fazer podem ser descritas como métodos ou abordagens e, na maioria das vezes, serão descrições qualitativas dos detalhes da estrutura discursiva e que se, porventura, tivermos muitas análises de dados, estas descrições também podem ser quantificadas. Ele ainda destaca, que dentro de cada tipo de análise sempre há, de novo, muitas formas de explorar, como por exemplo, a análise formal e a análise funcional, que são duas teorias ou escolas diferentes.
Para Ramalho e Resende (2011), a Análise de Discurso Crítica (ADC) é uma abordagem teórico-metodológica, utilizada para o estudo da linguagem nas sociedades contemporâneas, desenvolvida por Norman Fairclough, a ADC é capaz de detectar as relações entre os recursos linguísticos utilizados por atores e grupo de atores sociais na interação discursiva, cujos enfoques, voltam-se para o que o autor chama de díade discurso e sociedade.
As autoras destacam, que tal investigação linguística visa contribuir tanto para a “conscientização de efeitos sociais de textos como para mudanças sociais que superassem relações assimétricas de poder, sustentadas pelo discurso. Esta análise divide-se entre as abordagens formalista e funcionalista, as quais visualizam a linguagem de forma distinta: a formalista vê a linguagem como um objeto autônomo, ou seja, a sua organização interna, não é influenciada por outras intercessões; a funcionalista, por sua vez, considera as funções externas à linguagem, ou seja, essas funções fazem parte dos estudos
linguístico-discursivos e são responsáveis pela organização interna do sistema linguístico, não tratando a linguagem apenas como gramática formalista, a qual considera apenas a estrutura sistemática das formas de uma língua (Ibid).
Deste modo, Ramalho e Resende (2011), consideram que a abordagem funcionalista de discurso torna-se mais aplicável para os analistas de discurso, porque o interesse de investigação não é apenas na interioridade dos sistemas linguísticos, mas, sobretudo, a investigação de como esses sistemas funcionam na representação e na construção de relações sociais. As autoras salientam que é indispensável que se compreenda como as estruturas linguísticas são usadas como modo de ação sobre o mundo e sobre as pessoas.
Conforme Dijk (2010), “apesar desse pluralismo metodológico, há preferências e tendências em função do enfoque especial dos ECD sobre os aspectos de abusos de poder sobre as condições e consequências sociais da fala e da escrita.” O que o autor quer dizer é que o objetivo da análise e/ou investigação é contribuir para a apoderação social de grupos dominados através do discurso e da comunicação sem infringir os direitos das pessoas estudadas. As análises concentram-se de forma específica nas complexas relações entre a estrutura social e a estrutura discursiva, bem como na forma como as estruturas discursivas podem ser influenciadas pela estrutura social.
Os ECD consideram que certas estruturas sintáticas oracionais obrigatórias, isto é, a gramática da língua é a mesma para todos, independente da situação social do discurso, e não vão variar em função do poder do falante, entretanto, o abuso de poder pode-se manifestar através da variação de escolhas lexicais.
Podemos concluir que o ECD se concentrarão, em geral, naqueles sistemas e estruturas da fala ou da escrita que podem variar em função de condições sociais relevantes do uso linguístico, ou que podem contribuir para consequências sociais específicas do discurso, tais como influenciar as crenças e ações sociais dos ouvintes e leitores (DIJK, 2010, p. 14).
Em específico os ECD tem como foco as propriedades do discurso, como por exemplo, as expressões, a confirmação, a reprodução ou o confronto do poder social do(s) falante(s) ou escritores enquanto membros de grupos dominantes.
Essas propriedades podem incluir, de um lado uma entonação especial, as propriedades visuais e sonoras (cor, tipografia, configurações de imagens, músicas), as estruturas sintáticas (tais como ativas e passivas), a seleção lexical, e semântica de pressuposições ou das descrições de pessoas, as figuras retóricas, ou as estruturas argumentativas e, do outro lado, a seleção de atos de fala específicos, os movimentos de polidez ou as estratégias conversacionais (DIJK, 2010, p. 14).
Apesar de algumas distinções entre as visões teóricas apresentadas (DIJK, 2010; RAMALHO E RESENDE, 2011), me utilizei de ambas para a abordagem nesta pesquisa, por conta de suas contribuições serem muito válidas e também terem semelhanças. Sob a afirmação dos autores(as), os estudos a respeito do discurso não se limitam em apenas uma teoria, tão pouco sobre um só trabalho e/ou pesquisa, não se encerram sob apenas uma perspectiva. Sobrepus a diversidade de olhares de diferentes analistas de discurso para diferentes ou os mesmos discursos, com objetivos distintos ou parecidos, isto é, sempre haverá novas perspectivas, novos ângulos.
4.3 As Análises
“Cada um no seu castelo, cada um na sua função, Tudo junto, cada qual na sua solidão”
(Racionais MC’s – Mano Brown)
Conforme foi se encaminhando a pesquisa, foi dada maior atenção aos assuntos que necessitavam de um olhar mais preciso e uma sensibilidade às complexidades intrínsecas que se destacaram nos discursos observados. Desses assuntos, enfatizaram-se as questões identitárias dos(as) jovens bolsistas e dos(as) jovens e membros da comunidade. Mesmo tendo consciência de que cada sujeito porta inúmeras identidades, dentre essas, trouxe as que mais se destacaram, a identidade racial negra, identidade de gênero e também sexual. Embora sejam eixos bastante singulares, não foi possível nivelá-los, uma vez que apareceram várias vezes, não só durante o desenvolvimento do Voz Ativa, mas principalmente nos discursos coletados nas entrevistas e outros.
De acordo com as informações dos ECD de Dijk (2010) me utilizarei dos métodos tradicionais da pesquisa qualitativa do tipo etnográfico para investigação dos discursos selecionados. Isto é, me deterei na prática social como um todo das vozes como: na situação social, cultural, histórica ou política, e não apenas como um objeto verbal autônomo, como sugeriu o autor. Como também na ADC nas palavras de Flairclough (2001), em que afirma que no discurso deve-se considerar o uso de linguagem como forma de prática social e não como atividade puramente individual ou reflexo de variáveis situacionais. E, também na investigação de como esses sistemas funcionam na representação e na construção de relações sociais como sugerem Ramalho e Resende (2011), no modo funcionalista.
As palavras que destaco em negrito nas vozes dos discursos são para expor de que forma me norteei para detectar as posições de sujeitos nos discursos analisados, para verificar de que lugares estão falando e o que há implícito nesses discursos.
As vozes dos membros e dos jovens da comunidade foram colhidas no período em que se realizou o projeto Voz Ativa na comunidade, sendo algumas durante as oficinas e outras nos momentos em que participávamos de festividades e conversas informais dentro da comunidade. E as vozes do jovens bolsistas foram extraídas das entrevistas realizadas individualmente com cada um.
E mais uma vez enfatizo que, o recorte dado às vozes foram “decompostas na busca de extrair temáticas que delas surgissem” (JOVINO, 2005, p. 77). E, que também serão utilizados nomes fictícios para todos os falantes analisados, sendo os dos participantes escolhidos por eles mesmos(as), conforme já disse anteriormente, com exceção de um só que foi retirado de um trabalho já publicado.