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EDIFICAÇÃO DA PONTE

2.1 ELEMENTOS CONSTRUTIVOS: METODOLOGIA

2.1.4 Os desafios e dificuldades da edificação

Fez-se necessário que fossem observados os jovens bolsistas, por conta de várias atitudes e conflitos gerados durante o projeto de extensão. O que me faz discordar de Silveira e Córdova (2009), que declaram que “pesquisadores qualitativos negam o padrão positivista aplicado ao estudo da vida social, visto que o pesquisador não pode lançar julgamentos ou permitir que seus preconceitos e crenças contaminem a pesquisa”, uma vez que isso não foi possível nesta pesquisa.

Confesso que encarar um espaço singular como a Sutil, de um histórico diferenciado, com uma vasta diversidade em todos os aspectos identitários e âmbitos que de lá faziam parte, foi um grande desafio. E, ainda vivenciar tudo ao lado de mais cinco universitários de perfis muito distintos, querendo a todo o momento provar suas identidades, admito que inúmeras vezes me vi em meio a tamanha complexidade. E me tomando do que diz Bauman (2005 p. 5), “é como se eu estivesse tentando esvaziar um oceano com um balde (grifos meus)”.

No sentido do que esclarecem Souza e Vóvio (2010), na busca de querer abarcar toda essa realidade, constituída por uma rica diversidade de cenários e relações sociais, foram gerados muitos dados, algo que se tornou muito complexo na seleção para análise. Em determinados momentos, eu tive muita dificuldade de encontrar o meu lugar e minha função na pesquisa.

As investigações envolviam total interação entre pesquisadora (eu) e pesquisados(as) (jovens bolsistas e jovens da comunidade) e todos esses se inteiravam entre si e com outros de dentro da própria comunidade. Assim, como as identidades dos analisados se formavam e transformavam a todo instante, a minha também entrava em crise, através de toda essa interação que fazia parte de todo processo e desenvolvimento do projeto.

[...] a identidade é formada na “interação” entre o eu e a sociedade. O sujeito ainda tem um núcleo ou essência interior que é o “eu real”, mas este é formado e modificado num diálogo contínuo com os mundos culturais “exteriores” e as identidades que esses mundos oferecem (HALL, 2011, p.11 e 12).

André (1995, p.29) ressalta que “o pesquisador faz uso de uma grande quantidade de dados descritivos: situações, pessoas, ambientes, depoimentos, diálogos, que são por ele reconstruídos em forma de palavras ou transcrições literais”. E, seguindo essa situação, busquei olhar para o que fosse de mais singular entre todos os envolvidos. E, novamente, acordando com Souza e Vóvio (2010, p. 7):

A preocupação fundamental no processo de geração de dados parece-nos ser a de reunir um variado conjunto de informações, que aproxime pesquisador aos sujeitos, às suas histórias e práticas declaradas, à apreensão e compreensão de suas realidades e do contexto sócio-histórico em que estão imersos.

E conforme foi verificado, a pesquisa etnográfica pretende formular hipóteses, conceitos, abstrações e teorias. Para tanto, fez-se necessário um plano de trabalho aberto e flexível. Justifico tal afirmação, porque no decorrer do projeto a abordagem inicial era direcionada aos jovens da comunidade como, no entanto, posteriormente, as crianças começaram a ocupar espaços no projeto, nos deixando de certa forma, sem reações, pois não estávamos preparados para tal abordagem. Assim como também eu não contava com atitudes inesperadas e muito significantes dos bolsistas em relação ao reflexo do projeto de extensão em suas identidades. Porém, o mais significativo em relação à pesquisa, foi que toda a equipe assumiu a postura de pesquisadores(as).

Eles(as) tinham de desenvolver estudos investigativos da prática em que atuavam e observavam para posterior avaliação do projeto e produção de artigo para publicação. Contaminados também por minha pesquisa, eles contribuíram com diversas anotações para meu diário de campo, possibilitando, de fato, que meu plano de trabalho se tornasse aberto e flexível. Tal intervenção deu abertura para a inserção de alguns aportes da metodologia crítico colaborativa, visto que, ao tratá-los posteriormente como participantes da pesquisa, visando analisar significações do projeto em suas construções identitárias, eu não poderia mais fazê-lo de forma hierárquica, como se o meu saber e minhas ações estivessem em plano superior às deles.

Conforme enfatiza Martins (2004, p.284), citado por Souza e Vóvio (2010), “a análise qualitativa privilegia a análise de microprocessos, através do estudo das ações sociais individuais e grupais, realizando um exame intensivo dos dados, e caracterizada pela heterodoxia no momento da análise”. No entanto, em meio às ações admito ter tido grande dificuldade em focar meu olhar ora para o projeto, ora para a pesquisa que dele derivava dentro da comunidade, e confesso que da minha parte foi impossível me equilibrar entre prestar um serviço e realizar a pesquisa.

Em muitos momentos, devido à empolgação e envolvimento dentro da comunidade, não soube dividir as tarefas entre ser bolsista do Projeto Voz Ativa e pesquisadora da pós-graduação. Tanto foi difícil e complexo que os(as) outros bolsistas(as) sentiram a necessidade de me apoiar e me ajudar na

coleta de dados e direcionamentos das observações, muitas vezes, trazendo anotações somente sob seus olhares, uma vez que eu geralmente ministrava e dirigia as oficinas. Luna (2011, p.23) atenta para o fato de que a “imersão na realidade e o compromisso com ela são sempre produtivos em termos de ação relevantes”, porém, só isso “não é suficiente para caracterizar a pesquisa”.

Portanto, destaca André (1995), que os núcleos de investigações vão sendo constantemente reavaliados e as técnicas de coleta revisadas; os instrumentos reformulados e os fundamentos teóricos também devem ser repensados. Sendo assim, a pesquisa etnográfica busca a descoberta de novos conceitos, novas relações e novas maneiras de compreensão da realidade.

2.1.5 Reunindo os construtores da obra: METODOLOGIA COMUNICATIVO-