2 AGENTES EXTERNOS E SUAS INTERVENÇÕES NO ESPAÇO EM
2.4 COMUNIDADES QUILOMBOLAS E A CASA DA TORRE
A partir de 1913, o zelador da Casa da Torre, Alexandrino Marques Teixeira, assumiu o cuidado da capela da casa, assim como havia cuidado o seu pai. Por volta de 1980, o zelador encontrou intacta a secular biblioteca dessa casa, contendo livros e documentos raros, e, entre eles, os diários da Casa da Torre, onde estão registrados os acontecimentos do dia-a- dia da casa, em diversos livros manuscritos. Eles foram guardados por Alexandrino e são esses fatos aqui registrados, sendo retirados desses livros por Manoel Bochecha Filho, uma das últimas pessoas a ter contato com esses livros e com Alexandrino. Outras testemunhas
oculares contam que esses livros foram queimados e ainda outros exemplares dados a pessoas diversas, durante os últimos anos de vida do zelador.
Registros destes livros contam que a família D’Ávila conduzia o comércio com auto- suficiência em quase todo o nordeste brasileiro e não tolerava a existência dos quilombos que foram se formando em suas terras. De acordo com Bochecha Filho (1980, p. 16),
Os quilombos mais importantes sob o domínio dos D’Ávilas e próximos à Casa da Torre foram os de Cardoso e Açu da Capivara, entre outros, que tiveram duração menor que cem anos. O quilombo de Cardoso foi criado por volta de mil setecentos, quando um transportador de escravos da Casa da Torre, que se hospedaram em um curral de tropeiro, sete quilômetros antes do castelo, durante a noite estes mesmos escravos foram libertados por um grupo de negros salteadores, que viviam em pequenos esconderijos às margens das estradas.
A partir dos ataques feitos por negros à Casa da Torre, esses escravos não mais poderiam continuar nômades, como constata o mesmo autor, “eles subiram pela estrada e atacaram a feitoria do engenho nas margens do rio pela ponte, saqueando tudo que puderam e destruindo a ponte. Após feita a travessia do rio, seguindo pela trilha dos índios durante vários dias” (1980, p. 16).
Após esta caminhada, acharam um lugar seguro onde não seriam facilmente localizados pelos soldados e o local era protegido pela própria vegetação que “ajudava na camuflagem dos negros e ainda eram protegidos pela cachoeira do rio Pojuca e por várias armadilhas naturais, além de grande quantidade de víveres que existiam na região”. (1980, p. 16).
Outro quilombo foi o do Tabuleiro do Simeão (nas proximidades do povoado de Areal) protegido, segundo Bochecha Filho (1980, p. 19), por espias em vários pontos das trilhas. De acordo com o mesmo documento, foi organizado, no governo de Francisco Dias D’Ávila III uma tropa comandada por um lugar-tenente de nome “Felipe Ferreira Coutinho com seiscentos homens, entre jagunços e soldados, para caçar índios e quilombolas dentro das terras da Casa da Torre” (Bochecha Filho, 1980, p. 18). Os primeiros a serem atacados foram os índios, visto a sua proximidade às terras do litoral. O primeiro quilombo a ser atacado foi o de Açu da Capivara por sua proximidade a Vila de Abrantes. Durante mais de um mês esse quilombo foi atacado sem trégua. “Os quilombolas fugiram mais para o interior e se refugiaram com a ajuda de índios rebeldes, atacaram após quinze dias um posto avançado de guarda, próximo a vila, roubando armas, munições e alimentos” (Bochecha Filho, 1980, p. 18).
Como o local do antigo quilombo a partir dessas investidas fora abandonado e os quilombolas espalhados pelas matas, as tropas do castelo voltaram, comenta Bochecha Filho (1980, p. 20):
Seguindo pelo litoral, atacando os índios que encontravam pelo caminho, fazendo verdadeiros massacres. Subiram para o norte, para rebater roubo de gado no Curralinho, pois outros quilombolas estavam atacando os pastos do norte. Esse era o quilombo de Lagoa Encantada, chefiado pelo negro Catarino. Foram mortas mais de trezentas pessoas, entre índios e quilombolas. Sendo escolhidos cinqüenta para serem executados na porta do castelo, na presença de todos os escravos, para servir de exemplo aos outros, e no Curralinho foi erguida uma nova fortificação, para proteger a administração do curral, contra os negros fugitivos.
A existência do quilombo do Cardoso e de sua resistência contra a Casa da Torre relaciona-se ao ataque sofrido pelo terceiro Francisco D’Ávila. Em visita aos currais de Monte Gordo, negros quilombolas do Cardoso, apesar das fortificações, conseguiram “pilhar o local e deixar uma baixa de mais de quarenta pessoas incluindo o senhor das terras. Esses negros fugiram do local, com grande espólio do ataque, enviado pelo governador de Salvador, levando armas, gado, munição, apesar das grandes baixas sofridas”. Após quinze dias uma caravana foi atacada e roubada “a carga de óleo de baleia, que era levada para Salvador por terra” (Bochecha Filho, 1980, p. 21).
Perseguições e ataques aos grupos quilombolas e indígenas continuaram com o quarto Francisco D’Ávila que procurou reforçar as investidas contra os grupos de negros, sendo os quilombos do Cardoso, do Tabuleiro de Simeão e o de Vargem de Baixio os que resistiram por mais tempo e, sendo o quilombo do Tabuleiro de Simeão o mais deserto de todos, “só foi extinto nos anos de 1980, por motivo de instalação das empresas de reflorestamento, com os plantios de eucalipto no litoral norte baiano” (Bochecha Filho, 1980, p. 24).
A família D’Ávila foi deixando a região por volta de 1860 e a fazenda foi sendo passada para outros donos. Motivados pelas constantes fugas de escravos e pelo empobrecimento da Casa da Torre, as várias vilas foram adquirindo autonomia e sendo desligadas, também pelo não pagamento do que era chamado quinto arrendamento de posseiros.
Foi esta família a última a libertar os escravos, segundo os abolicionistas que estavam sempre denunciando os maus tratos aos negros e aos filhos destes, além das revoltas dos negros e de suas fugas. Os cofres da Casa da Torre estavam empobrecidos pela falta de mão de obra, inclusive de feitores, conforme Bochecha Filho (1980, p. 27), esses e outros fatores levaram à pobreza a Casa da Torre e ao confisco das terras por parte da Província e por
credores de casas bancárias. A Casa da Torre, já falida, começa a arrendar ou vender parte das terras. É criado o distrito de Açu da Torre e o município de Mata de São João.