Sabe-se que o princípio da autonomia da vontade é conceituado de forma muito ampla e o seu núcleo principal está na capacidade inerente a todo ser humano de gerir, organizar e modificar a sua existência de acordo com os seus interesses.
Trata-se de uma capacidade mais ou menos qualificada de acordo com as condições presentes na vida do sujeito. A capacidade de autodeterminar a própria vontade reflete diretamente na realidade sistêmica e organizacional de uma sociedade, isso se deve ao fato de todo ser humano possuir o direito fundamental da liberdade, conferindo-lhe dessa forma o poder de efetivar as próprias escolhas de acordo com as suas reais necessidades.
Desse modo, o indivíduo governa a sua realidade jurídica e política conforme as relações sociais que possui, trazendo com isso, obviamente, diversas circunstancias relevantes ao interesse de uma sociedade. Entende-se que assegurar a liberdade significa assegurar a autonomia e respectivamente as capacidades tão mencionadas pela doutrinadora em comento.
Abraçando então, a compreensão de Nussbaum, nota-se que o seu entendimento de autonomia humana está exatamente nas capacidades inerentes a todo ser humano e adapta seus estudos teóricos diretamente aos casos concretos. Menciona que são várias as capacidades e considera que tais habilidades já se encontram inseridas no rol das garantias constitucionais e compara a ideia aos direitos constitucionalmente garantidos na Carta “Indiana”
(NUSSBAUM, 2013, p. 192).
Nussbaum dimensiona a capacidade numa visão contratualista e socialista com a perspectiva da reciprocidade, no qual, entende-se que os indivíduos entende-se deslocam do entende-seu “estado de natureza” para conquistar vantagens recíprocas (NUSSBAUM, 2013, p. 192).
Uma relação constituída com liberdade, bem como através das capacidades relativas a cada um. Percebe-se que a autora descreve as capacidades humanas voltadas para as relações sociais e políticas que estejam cumprindo suas funções para o bem comum (NUSSBAUM, 2013, p. 192).
Destacando nesse sentido, a importância das capacidades,
“a explicação dos benefícios e objetivos da cooperação social possui desde o princípio uma dimensão moral e social.” Sintetiza-se a benevolência para com aqueles considerados os menos favorecidos, cuja dignidade humana possa faltar ou até mesmo ser ferida (NUSSBAUM, 2013, p. 193).
Para tanto, seria uma possível solução, favorecer os indivíduos dando acesso à educação com intuito de agirem com mais compaixão e imparcialidade com o seu próximo? Para seres humanos com limitações físicas, por exemplo, a capacidade para viver com autonomia é extremamente reduzida ou até nula em muitos casos (NUSSBAUM, 2013, p. 193).
As preocupações da autora se direcionam especialmente para esses fatos, para os menos favorecidos e com impedimentos que são direcionados na maioria das vezes para a exclusão do convívio social. A observação da autora está nas mudanças ocorridas na sociedade nos tempos atuais, perceberam-se grandes melhoras em termos do que se entende ser justo para si e para o próximo (NUSSBAUM, 2013, p. 193).
O cuidado com a autonomia promovida pelas capacidades humanas destaca sobre os progressos humanísticos efetivados em sociedades capitalistas que visam alto desempenho físico, intelectual e financeiro, obtendo resultados positivos e satisfatórios em termos de cuidado e inclusão social, quanto mais isso pode ser aperfeiçoado em sociedades com ideologias diversas ao capitalismo, preservando-se todas as capacidades humanas sem distinção (NUSSBAUM, 2013, p. 193).
Até aqui, nota-se que a autonomia da vontade é entendida por Nussbaum pela identificação das capacidades assimiladas por cada indivíduo, sendo esta analisada exclusivamente a partir das
situações de fato, nas reais necessidades humanas percebidas nas suas diversas formas (NUSSBAUM, 2013, p. 195).
Nesse contexto, o “enfoque das capacidades se sente livre para empregar uma explicação da cooperação que trate a justiça e a inclusão desde o começo como fins de valor intrínseco e para qual os seres humanos estão unidos por muitos laços altruísticos, e não só de vantagem mútua.” (NUSSBAUM, 2013, p. 195).
Analisando-se a pesquisa feita até o momento, observa-se o quanto o observa-ser humano é vulnerável e suscetível de situações não imagináveis, ou seja, a sua fragilidade em termos existenciais resplandece e muito nas questões de dor e sofrimento.
É um ser que requer estímulos e cuidados desde o seu nascimento até a sua morte, no qual, a sua funcionalidade racional e física depende de cuidados especiais e temporais, principalmente na dimensão da dignidade da pessoa humana (NUSSBAUM, 2013).
Nussbaum entende que o desempenho da produtividade não deve ser requisito para que o sujeito seja aceito e respeitado e sim, que o respeito é fruto da dignidade e para tanto deve ser estendido para aquele menos capacitado, tendo em vista que o desempenho é substancialmente imprescindível, mas não como último das exigências para uma vida em sociedade (NUSSBAUM, 2013).
Sugeriu-se certa semelhança entre a teoria contratualista e a teoria do bem, descrita pela autora, pois, entende que ambas trazem no bojo o cumprimento da dignidade humana e estabeleceu com isso, que as capacidades humanas servem, por sua vez, como instrumento para o alcance da dignidade (NUSSBAUM, 2013).
São concepções compreendidas a partir de uma interpretação racional e moral, dando-se enfoque de similaridade sobre as capacidades e o contratualismo, já que ambos são usados para concretizar escolhas existenciais (NUSSBAUM, 2013).
Os fundamentos iniciais da autonomia têm sua base justamente no campo político contratual, entretanto, essa compreensão na atualidade, se estendeu definitivamente para as situações existenciais, na medida em que se vislumbraram as conexões existentes entre a
prática contratualista e das capacidades, bem como nas demais áreas humanísticas (NUSSBAUM, 2013).
Seguindo nessa mesma interpretação, a história nos mostra que os seres humanos empenhados no desenvolvimento ético e moral, ampliaram o conjunto de conceitos e princípios, no qual, entendeu-se que a evolução da própria personalidade moral entendeu-se adquire por meio de uma interpretação que compreende o real significado de honestidade, razoabilidade e bem assim consegue distinguir a medida da crueldade (DWORKIN, 2014).
Na defesa da vida, por exemplo, estabeleceu-se um critério absoluto de preservação máxima, excetuando-se apenas a legítima defesa e o estado de guerra, no entanto, a filosofia argumenta que determinadas circunstâncias, torna-se oportuno ou até mesmo indispensável um entendimento ou uma análise crítica que seja inédita aos olhos do formalismo criterial, tendo em vista não se adequar ao contexto particular, devendo, para tanto, recorrer a uma interpretação mais ampla (DWORKIN, 2014).
Nessa toada, abre-se constantemente a discussão acerca da concepção de verdade, uma concorrência que se abre perante os diversos entendimentos que nunca terminam. A ordem moral exige honestidade e veracidade na compreensão e na prática dos princípios, entretanto, para o ideal desenvolvimento da personalidade e da própria vida do indivíduo para aquilo que ele mesmo de fato deseja, torna-se fundamental alcançar uma interpretação que se estende muito além dos argumentos determinados pela esfera moral (DWORKIN, 2014).
Dito isso, notou-se que a filosofia tem se esforçado no estudo que objetivou encontrar uma solução razoável para a concepção real do bem viver e de uma vida considerada boa, afinal, qual seria o sentido exato da nossa existência terrena se não for possível adequá-la a um modo satisfatório (DWORKIN, 2014).
Uma ideia arriscada para se compreender os caminhos de uma vida bem vivida é despertar no indivíduo a sua autenticidade e bravura, propondo-se aos desafios árduos ou até mesmo impossíveis,
o que pode ser perfeitamente vital no desenvolvimento da própria personalidade (DWORKIN, 2014).
Os planos éticos e morais na área do bem viver devem continuamente ser construídos e interpretados com base nos progressos e avanços tecnológicos que alteram constantemente a evolução da vida humana de um modo geral, bem como sobre o desenvolvimento da personalidade.
Todavia, a promoção do bem viver também deve ser analogicamente adequada ao individuo em particular, principalmente quando a sua perspectiva de vida estiver visivelmente comprometida aos olhos da ciência medicinal, na medida em que somado a uma perspectiva altamente negativa com elevado sofrimento e confirmado pela da própria pessoa, havendo manifestação de vontade contrária aos princípios éticos e morais, estes por sua vez, devem ser medidos a partir da interpretação restrita no princípio da autonomia privada.
Nesse caso específico, entra em questão a reflexão particular do indivíduo sobre os próprios valores, bem como o desejo que se enaltece nessa circunstancia.
Uma das principais características que representam a essência da dignidade humana é demonstrada pela exigência ao cuidado físico e psíquico da pessoa, bem como a necessidade de socialização externada desde o princípio pelo ser humano, sendo que, a partir do nascimento até o final da nossa existência dependemos do outro para o nosso adequado desenvolvimento (NUSSBAUM, 2013).
Diversos aspectos de vulnerabilidade nos conduzem ao reconhecimento da importância do outro e da respectiva dependência que se origina em torno disso. Assim, pelo simples fato de se tratar da espécie humana, o respeito e a compaixão devem ser garantidos independentemente do seu desempenho social ou da sua condição, tendo em vista a qualidade inerente a todos, a dignidade (NUSSBAUM, 2013).
Quando se propôs sobre as capacidades relativas aos seres humanos, pensou-se uma “pluralidade de valores” a partir da desigualdade econômica e social, com uma indispensável
observação acerca das “pessoas portadoras de deficiências: uma pessoa cadeirante pode ter a mesma renda e riqueza que uma pessoa com mobilidade normal e, no entanto, possuir capacidade desigual”
para se movimentar de um espaço a outro? Outra consideração está na limitação criada no âmbito da sociedade simplesmente por questões estruturais das culturas ideológicas, impedindo o perfeito desenvolvimento na sua igualdade. Limita-se também o exercício da autonomia de um cadeirante quando existe a falta de estrutura do espaço público não devidamente adaptado para o seu deslocamento (NUSSBAUM, 2013, p. 202).
A limitação do exercício da autonomia enfrentado por um cadeirante, por exemplo, está diretamente relacionado a capacidade de se construir um projeto que equaliza tais condições. Lembra também, que entre todas as capacidades, existem aquelas que devem ser reprovadas e evitadas, pois, restringem o desenvolvimento e a autonomia do indivíduo, cujas características físicas apresentam padrões não aceitados por muitos (NUSSBAUM, 2013, p. 204).
Para tanto, torna-se imprescindível realizar uma “avaliação prévia que estabelece quais são boas e, entre as boas, quais são as mais centrais, isto é, as mais claramente envolvidas na definição das condições mínimas para uma vida humana digna.” (NUSSBAUM, 2013, p. 204).
É oportuno salientar acerca dos questionamentos realizados pela autora sobre a ação correta a ser seguida, se mais viável
“promover apenas a capacidade” nas áreas pertinentes, ou se promove também “a efetiva funcionalidade?” Atividades como a diversão, o momento religioso, bem como as funções políticas por certo deveria ser objetivo de todos, no entanto, a autonomia estabelece a liberdade ao indivíduo que obviamente fará as suas escolhas (NUSSBAUM, 2013, p. 210-211).
Desse modo, segue-se com o entendimento de que todo ser humano deve ter a “oportunidade de planejar a vida por conta própria”, da forma que um paciente com todos os direitos a seu favor deve receber todas as informações pertinentes ao seu caso e assim,
poder, de acordo com a sua vontade, decidir os cuidados de seu interesse (NUSSBAUM, 2013, p. 210-211).