As luzes do Iluminismo do século XVIII mantiveram-se acessas nos séculos seguintes, quando diversos pensadores liberais expuseram suas ideias para o mundo.
Sem se olvidar dos clássicos como John Locke e Montesquieu, Adam Smith e Benjamin Constant tiveram fundamental importância na estruturação do pensamento liberal, o qual remete à ideia de limitação do poder estatal e de não intervenção do Estado na personalidade individual e na autonomia privada. Daí a expressão laisses fair, laisser passer.
A liberdade dos antigos e a liberdade dos modernos podem ser relacionadas às noções de liberdade negativa e positiva, propostas por Isaiah Berlin.
Isaiah Berlin (1909-1997), filósofo britânico de origem judaico russa, é considerado um dos principais pensadores liberais do século XX, tendo sido influenciado por Constant.
Um de seus ensaios mais conhecidos é Dois Conceitos de Liberdade. Introduziu seu ensaio falando sobre a importância de se
fazer indagações acerca dos propósitos da vida e de não se desprezar o poder das ideias, uma vez que a própria história já teria mostrado o poder que conceitos filosóficos têm até mesmo para destruir uma civilização (BERLIN, [195-?]).
Apesar de alguns esforços, na visão do autor, não há como separar a política da investigação filosófica. Para entender os movimentos históricos deve-se atentar às ideias e atitudes atinentes à vida que neles estão implícitas. Elas fazem parte da história humana e não são tão somente eventos naturais. Para Berlin, apenas um
“materialismo muito vulgar nega o poder das ideias, e diz que as ideias são apenas interesses materiais disfarçados.” (BERLIN, [195-?]).
Assim, a questão da obediência e da coerção representa dois sistemas de ideias que expressam diferentes e conflitantes respostas (o liberalismo e o socialismo) para uma questão central da política. Essa questão deve ser assim indagada: “Por que eu (ou qualquer pessoa) deveria obedecer outros? Por que eu não deveria viver como desejo?
Devo obedecer? Se desobedecer, serei coagido? Por quem e em qual grau, e no nome de que, e pro bem de que?” (BERLIN, [195-?]).
O autor, assim, propõe-se a distinguir duas interpretações do sentido político de freedom ou liberty: a liberdade positiva e a liberdade negativa.
Para compreender o sentido negativo da liberdade, Berlin ([195-?]) começa com o seguinte questionamento: “Qual é a área em que o sujeito – uma pessoa ou um grupo e pessoas – é ou deve ser deixado para fazer ou ser o que ele é capaz de fazer ou ser sem interferência de outras pessoas?”
Comumente se fala que ser livre é não ter nenhum outro homem, ou grupo, interferindo em suas atividades. É, pois, uma liberdade política. Mas, se há interferências ilimitadas, pode-se falar em coerção ou escravidão. Coerção deliberada, então, pode ser entendida como a interferência de outros seres humanos na área em que eu poderia atuar, ainda que de outra forma.
O simples fato de o homem pobre não poder comprar seu pão ou fazer uma viagem ao redor do mundo implica nele falta de
liberdade? Para Berlin ([195-?]) a resposta é negativa, pois a “mera incapacidade de se atingir um objetivo não é falta de liberdade política.” É o que modernamente se chama de “liberdade econômica”
e sua contrapartida “escravidão econômica.”
O uso do termo “depende numa teoria particular social e econômica sobre as causas de minha pobreza ou fraqueza” (BERLIN, [195-?]). Apenas se a falta de bens materiais reflete a falta de capacidade mental ou física é que se começa a falar em privação da liberdade. Ser livre nesse sentido é não sofrer interferências dos outros.
Quão maior for a área de não interferência, maior será a liberdade.
É bem verdade que Berlin ([195-?]) afirma que a liberdade não pode ser ilimitada, pois geraria uma situação em que todas as pessoas poderiam interferir ilimitadamente na vida das outras. E a consequência seria o caos social e nem sequer as mínimas necessidades dos homens seriam satisfeitas.
A vida em sociedade demonstra que os seres humanos são diferentes uns dos outros. Os objetivos e propósitos de alguns nem sempre são idênticos ou semelhantes aos de outros. Pelo contrário, muitas vezes são diametralmente opostos. É algo inerente à condição do ser humano.
E por nem sempre ser possível criar um tipo de associação ideal é que os filósofos políticos clássicos entendiam que a área de ação livre dos homens deve ser limitada pela lei, ao mesmo tempo em que libertários da estirpe de Locke e Mill, na Inglaterra, e Constant e Tocquevilee, na França, entendiam que “deve existir certa área mínima de liberdade pessoal que não deve, de forma alguma, ser violada, pois se ultrapassada, o indivíduo se encontrará em uma área, deveras estreita mesmo que para o mínimo das faculdades naturais.”
(BERLIN, [195-?]).
Em razão disso deve ser estabelecida uma fronteira entre a área da vida privada e a da autoridade pública, pois não se pode olvidar que os homens são interdependentes e “nenhuma atividade dos homens é completamente privada quanto a nunca obstruir as vidas dos outros de alguma forma” (BERLIN, [195-?]) e, não raras
vezes, a liberdade de alguns será a repressão de outros. Veja-se que a liberdade de um professor é diferente da liberdade de um camponês, por exemplo.
Dessarte, a liberdade negativa consiste na ação do homem sem obstruções dos outros, representando uma resistência à opressão ou à coação da autoridade ou do poder.
Desse modo, a concepção negativa de liberdade para Berlin tem relação com a liberdade dos modernos de Benjamin Constant.
Por outro lado, a liberdade positiva está relacionada com a liberdade de participação das decisões políticas da sociedade e com a noção de cidadania, e remete à ideia de liberdade dos antigos, mencionada por Constant no tópico anterior.
A ideia de liberdade positiva se acende quando respondemos à pergunta “Quem deve dizer o que devo ou não devo ser ou fazer?”
(BERLIN, [195-?]). Entende Berlin que “o desejo de governar a própria vida ou de participar do processo que controle minha vida, implica um sentido de liberdade para alguma coisa, ao contrário da liberdade de alguma coisa ou alguém.” (BERLIN, [195-?]).
Assim, a liberdade positiva relaciona-se com a presença da ação, da participação na tomada de decisões, da autodeterminação, uma vez que o sentido positivo da palavra liberdade “provém do desejo que o indivíduo nutre de ser o seu próprio senhor.” (BERLIN, [195-?]).
A liberdade positiva se expressa na possibilidade de participação do indivíduo da formação da vontade do grupamento, estando o indivíduo liberado de obstáculos internos, como a fraqueza, o instinto e a ignorância de outrem, ou mesmo da necessidade de alcançar uma certa perfeição moral.
Em resumo, a liberdade negativa propõe a ausência de impedimentos à ação do indivíduo, ao passo que a liberdade positiva estabelece a presença de condições para que os indivíduos consigam atingir seus objetivos.