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O DIREITO AO LIVRE DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE

As primeiras menções jurídico-positivas ao direito ao livre desenvolvimento da personalidade aparecem na Constituição Italiana de 1947 e na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Em 1949, o direito ao livre desenvolvimento da personalidade é reconhecido como direito fundamental pela Lei Fundamental de Bonn – Constituição promulgada para a Alemanha Ocidental, país que desenvolveu sólida construção jurisprudencial e doutrinária sobre esse conceito. Antes disso, a noção de livre desenvolvimento da personalidade pode ser notada, em germe, na Constituição dos Estados Unidos de 1787, quando protege o direito individual à busca da felicidade, concedendo ao indivíduo a liberdade para determinar, por si próprio, aquilo que lhe trará felicidade, mediante sua cosmovisão particular, legitimando-o a mover-se para obtê-la: a busca da felicidade surge como proteção à autonomia do indivíduo.

A Constituição Brasileira, a despeito de não mencionar explicitamente o direito ao livre desenvolvimento da personalidade, indiretamente o protege ao tutelar a dignidade humana, da

qual o livre dsenvolvimento da personalidade faz parte. Nossa legislação infraconstitucional faz menções diretas e indiretas ao livre desenvolvimento da personalidade: a Lei nº 12.764/2012 assegura às pessoas com transtorno do espectro autista “a vida digna, a integridade física e moral, o livre desenvolvimento da personalidade, a segurança e o lazer” (artigo 3º, I); a Lei nº 12.852/2013 (Estatuto do Jovem) estipula como princípio o “desenvolvimento integral do jovem”; a Lei nº 12.965, que estabelece normas para o uso da internet no Brasil, tem como fundamento “os direitos humanos, o desenvolvimento da personalidade e o exercício da cidadania em meios digitais” (artigo 2º, II).

O conceito de livre desenvolvimento da personalidade enfrentou, em seu amadurecimento, algumas confusões terminológicas, que precisam ser elucidadas de antemão. Esse passo inicial, aliás, será útil inclusive na tarefa de delimitação aqui lançada.

Primeiro ponto a esclarecer, a distinção entre desenvolvimento da pessoa humana e da personalidade. A noção de pessoa é mais ampla que a noção de personalidade. Segundo Sarlet (2010), o pleno desenvolvimento da pessoa humana está ligado à própria noção ampla de dignidade, em que confluem os direitos fundamentais de todas as gerações. O desenvolvimento da personalidade, por sua vez, relaciona-se mais aos atributos da autonomia, autodeterminação e liberdade presentes na pessoa (MOREIRA, 2015). A proteção da personalidade, portanto, tem um âmbito mais restrito que a proteção à pessoa.

Outra reflexão válida à análise do conceito em estudo reside na distinção entre pleno e livre desenvolvimento da personalidade – o primeiro relaciona-se ao desenvolvimento completo das potencialidades humanas (um conceito ideal, que existe independentemente da vontade do sujeito), ao passo que o segundo diz respeito à escolha do indivíduo pela sua específica forma de construir a vida. Denota-se, nessa exercício de delimitação, que o direito ao livre desenvolvimento da personalidade aproxima-se de uma específica noção de liberdade individual e de desenvolvimento autônomo, no sentido de que se protege mais o direito à própria

escolha do indivíduo do que um modelo pré-determinado de existência no mundo.

Essas definições terminológicas confundem-se em muitas legislações. Isso não representa necessariamente um equívoco, uma vez que o correto desenvolvimento conceitual é possível mediante um acordo semântico sobre o uso de cada expressão. A intenção das distinções até aqui lançadas é a de melhor elucidar o conteúdo da noção de livre desenvolvimento da personalidade por intermédio do contraste com conceitos similares que podem turvar a compreensão do tema.

Como dito acima, doutrina e jurisdição constitucionais alemãs trouxeram significativas contribuições ao estudo do direito ao livre desenvolvimento da personalidade. Em seus julgados, o Tribunal Constitucional Federal da Alemanha (TCF) estabeleceu limites à tutela, tornando-a assim mais concreta e palpável (SCHWABE; MARTINS, 2005).

Para o TCF, o direito ao livre desenvolvimento da personalidade encerra duas dimensões: o direito geral da personalidade (proteção da personalidade do sujeito – nome, honra, privacidade, intimidade etc) e a liberdade geral de ação (liberdade de agir como regra, limitada pelo direito de terceiros e pela lei moral e vinculada à ordem constitucional – portanto, a aplicação do direito ao livre desenvolvimento da personalidade é subsidiária). Paralelo a isso, o TCF fixa também uma esfera inatingível de vida privada em que a liberdade do cidadão não pode ser tolhida nem pela lei positiva;

um núcleo de ação inatingível pelo poder público, mantendo assim válida a teoria dos círculos concêntricos (esfera privada, esfera da intimidade e esfera do segredo).

As seguintes premissas, obtidas a partir de importantes julgados do TCF, expõem alguns contornos relevantes do direito ao livre desenvolvimento da personalidade:

1) O direito geral da personalidade protege o sujeito contra declarações prejudiciais à pessoa perante a opinião pública. Isso não significa que o indivíduo tem o direito de ser apresentado como gostaria de ser visto, mas sim que ele tem proteção contra representações falsas ou distorcidas que causem prejuízo significativo à sua pessoa.

No caso concreto, o requerente, pessoa pública, buscava desvencilhar-se de falsas notícias que afirmavam ser ele filiado à Scientology Church, pois a falsa associação de sua pessoa à seita trouxe-lhe prejuízos à sua imagem. O TCF deferiu o pedido do requerente com base no direito geral da personalidade, pautado nas premissas do parágrafo anterior.

2) O direito geral da personalidade abrange o direito da pessoa de conhecer sua ascendência biológica, mas não implica necessariamente no direito de obter tais informações por qualquer meio, indiscriminadamente.

O pedido julgado pelo TCF continha o requerimento de filha para que a mãe revelasse a identidade do pai biológico. A mãe, no entanto, afirmou ter mantido relações com várias pessoas no período da concepção, pessoas casadas e com famílias estáveis, optando assim por não revelar nenhum nome. As instâncias primárias deferiram o pedido da filha; no entanto, a decisão foi reformada pelo TCF, que compreendeu a necessidade de preservar a esfera privada da mãe ao não a obrigar a revelar os nomes das pessoas com quem manteve relações sexuais.

3) É possível limitar justificadamente a liberdade geral de ação.

No caso, a legislação havia delegado à regulamentação administrativa a limitação ao exercício da cavalgada em parques florestais, o que foi questionado judicialmente e submetido à análise do TCF. Segundo o reclamante, a limitação da cavalgada em parques deveria ser declarada inconstitucional por violar sua liberdade geral de ação.

A reclamação foi admitida, mas julgada improcedente. O julgamento desse caso contém um dos mais célebres votos dissidentes da história do TCF. O juiz Grimm, ao proferir seu voto, divergiu dos demais julgadores no sentido de que a reclamação nem sequer deveria ter sido recebida, pois a proteção constitucional volta-se apenas aos comportamentos que adquirem relevância particular em relação ao desenvolvimento da personalidade. O livre exercício da cavalgada não se enquadraria nesse signo.

Os julgados aqui destacados revelam algumas dimensões importantes do direito ao livre desenvolvimento da personalidade.

Em todos os casos, o tribunal salienta que a proteção não se volta a qualquer violação, mas deve ser aplicada subsidiariamente, apenas nos casos de transgressões mais significativas ao direito ao livre desenvolvimento da personalidade. Verifica-se, também, que o momento da realização da tutela não pode representar a violação do direito ao livre desenvolvimento da personalidade de outra pessoa (caso da genitora que não foi obrigada a revelar à filha o nome das pessoas com quem manteve relações sexuais, para a identificação da paternidade). Ainda, podemos observar que não se trata, naturalmente, de um direito absoluto – ou seja, é possível, de forma razoável e justificada, traçar limitações ao direito ao livre desenvolvimento da personalidade.

A despeito da dificuldade inerente à delimitação de qualquer direito fundamental, os elementos lançados assima possibilitam distinguir alguns contornos essenciais do direito ao livre desenvolvimento da personalidade: 1) volta-se basicamente à proteção à liberdade de a pessoa escolher seu próprio modelo de vida privada e assim exercê-lo; 2) não se confunde com a proteção à pessoa, mas sim com a proteção à personalidade: significa que a tutela volta-se à realização do sujeito enquanto ser livre para se auto-realizar conforme suas próprias escolhas; 3) protege a liberdade de a pessoa escolher, e não uma escolha pré-determinada construída seja cultural, social ou juridicamente (não pleno, mas sim livre desenvolvimento da personalidade); 4) encerra duas grandes dimensões: a liberdade geral de ação e os direitos da personalidade; 5) sua aplicação deve ser subsidiária, aplicada apenas a violações mais graves e significativas, de forma a não banalizar o conteúdo desse direito; 6) as limitações razoáveis e justificáveis não representam violação ao direito ao livre desenvolvimento da personalidade (como os limites impostos constitucionalmente ou pelo direito de outra pessoa).

Por fim, embora a tutela ao direito ao livre desenvolvimento da personalidade seja predominantemente negativa – no sentido de

o Estado agir para afastar as violações -, é possível visualizar formas de tutela positiva a esse direito, quando o Estado é acionado para garanti-lo mediante pretações ativas (como, por exemplo, ao garantir educação básica de qualidade a todos, para que as pessoas estejam capacitadas para exercer sua autodeterminação).

RELAÇÕES ENTRE O ENFOQUE DAS CAPACIDADES