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A LIBERDADE DOS ANTIGOS COMPARADA À LIBERDADE DOS MODERNOS: CONSTANT

Benjamin Constant (1767-1830) foi um intelectual liberal francês de origem suíça, que vivenciou o movimento da Revolução Francesa (1789-1799), considerada como a encruzilhada para o mundo moderno.

A revolução, é bem verdade, promoveu a ruptura do absolutismo monárquico, que dominava, por séculos, as classes economicamente menos favorecidas à época.7 Engajada pelos grupos políticos radicais, pelas massas nas ruas e por camponeses, o movimento derrubou privilégios feudais, aristocráticos e religiosos da sociedade francesa. Deu vida à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 e à Constituição Francesa de 1791 (GARCIA, 2015).

Foi também um movimento marcado por diversos atos de extrema violência, em que revolucionários condenavam à guilhotina outros revolucionários. Resumindo, instituíram-se tempos de terror (GARCIA, 2015).

Constant, assim, vivenciou a revolução e suas mazelas, bem como o fim desse período marcado pelo Golpe de Estado de Napoleão Bonaparte, em 1799, e posteriormente, a retomada da monarquia, desta vez constitucional, por Luís XVIII, herdeiro do Rei Luís XVI, deposto na Revolução.

7 O Estado Francês era organizado em três ordens, a nobreza, o clero e o povo, sendo comandado pelas duas primeiras. Ao povo não eram reconhecidos direitos, a não ser o de trabalhar. A liberdade era algo almejado, mas longe de ser concretizado, e a propriedade não era acessível à maior parte da população. Além disso, ainda no auge do Estado Absoluto, punições corporais eram comuns e o devido processo legal ainda carecia de concretização.

Com pouco mais de cinquenta anos de idade, Constant proclamou, em 1819, no Ateneu Real de Paris, o célebre discurso A liberdade dos antigos comparada à dos modernos.

Neste ensaio, Constant discutiu o valor liberdade em dois momentos históricos importantes e, assim, propôs a distinção entre os dois gêneros de liberdade: “Uma é a liberdade cujo exercício seria caro aos povos antigos; a outra, aquela cujo gozo é particularmente precioso às nações modernas.” (CONSTANT, 2015, p. 75).

Os antigos a que Constant se referiu eram, notadamente, os gregos da Antiguidade Clássica, para os quais a liberdade era uma liberdade essencialmente política, ou seja, relacionada à possibilidade de participação da vida social na cidade, na praça pública.

A liberdade para os antigos consistia em exercer coletivamente a soberania, em deliberar sobre a guerra e a paz em praça pública, em celebrar tratados de aliança com os estrangeiros, em votar as leis, em realizar julgamentos, em examinar as contas, os atos, a gestão dos magistrados, em fazer pessoas a comparecer perante todo o povo, em acusá-las, em condená-las ou em absolvê-las (CONSTANT, 2015).

Mas toda essa participação popular tinha um preço. Ao mesmo tempo em que tinham a liberdade de participar das questões públicas, os antigos viviam sob sujeição completa à autoridade do conjunto (CONSTANT, 2015).

O cidadão antigo, quase sempre soberano nos negócios públicos, apresentava-se como escravo em todas as suas relações privadas. Como cidadão, tinha a liberdade para deliberar sobre assuntos como paz e a guerra, mas, como particular, era monitorado, observado, reprimido em todos os seus movimentos. Como parte do corpo coletivo, o antigo poderia interrogar, destituir, condenar, despojar, exilar, marcar de morte seus magistrados ou seus superiores, mas como submisso ao mesmo corpo, de forma até mesmo discricionária, poderia ser privado de seu estado, despojado de suas dignidades, banido e condenado à morte (CONSTANT, 2015).

É assim que Benjamin Constant (2015) apontou para uma contradição na liberdade dos antigos: ao mesmo tempo em que o

homem era livre nas questões públicas, ele era tolhido de sua liberdade individual em quase todos os seus aspectos. Até mesmo a faculdade de escolher seu próprio culto ou sua crença era considerada um ultraje para os antigos.

De um modo geral, a maioria dos cidadãos era pobre, viviam com simplicidade e não exerciam nenhuma profissão que desviasse sua atenção dos assuntos do Estado.

Entre os antigos também havia certas diferenças entre os povos. A autoridade espartana intervinha até mesmo nos assuntos mais domésticos, a ponto de os jovens espartanos não poderem visitar livremente suas esposas. Não era diferente em Roma, onde as famílias eram diretamente fiscalizadas pelos censores (CONSTANT, 2015).

Atenas, por sua vez, era a cidade mais comerciante de todas, a que

“concedia a seus cidadãos infinitamente mais liberdade individual que Roma e Esparta.” (CONSTANT, 2015, p. 84).

O Estado da Antiguidade, como soberano absoluto, desejava a alma e o corpo do indivíduo e por isso regulamentava os pormenores das suas vidas privadas (BONAVIDES, 2001).

Mas os sacrifícios dos antigos eram justificados para a manutenção dos seus direitos políticos e de sua participação na administração do Estado, pois “seu objetivo era a partilha do poder social entre todos os cidadãos de uma mesma pátria.” (CONSTANT, 2015, p. 86).

Esse conceito de liberdade poderia ser compreendido, basicamente, por aspectos geográficos e culturais.

Explicou Constant (2015) que a extensão territorial das antigas repúblicas era extremamente estreita se comparada ao menor dos Estados modernos, de modo que, consequentemente, cada povo combatia continuamente seus vizinhos ou era por eles combatido ou se ameaçavam sem cessar.

Desse modo de ser e agir, outra necessidade surgiu para os antigos, a de ter escravos, a quem eram atribuídas as profissões mecânicas e, em alguns casos, as profissões industriais. Era por essa necessidade também que se guerreava, pois “uma guerra feliz

acrescentava em escravos, em tributos, em terras partilhadas, à riqueza pública e à particular.” (CONSTANT, 2015, p. 82).

Era inegável que existência da escravidão, que era institucionalizada na Antiguidade, gerou tempo disponível para que os mais privilegiados pudessem atuar diretamente nas questões políticas, das quais eram relegadas as mulheres, os escravos e os estrangeiros.

Apenas filhos de mãe e pai atenienses é que poderiam participar da vida política.

A liberdade dos antigos, portanto, era caracterizada por meio da participação pessoal e direta nos negócios públicos. E mesmo para aqueles poucos a quem era permitido exercer tal tipo de liberdade, a liberdade individual era algo inconcebível.

Esse conceito de liberdade antiga, que nada mais era que um aprisionamento ao poder do Estado, foi também apontado por Coulanges (1975), que entendeu ser um erro grosseiro acreditar que nas cidades antigas o homem usufruiu de liberdade, algo que ele sequer tinha ideia do que fosse, pois jamais imaginava que pudesse existir com direitos em face do Estado e dos deuses.

Bem observou Coulanges (1975) que, muito embora o sistema de governo tenha sido nominado de diversas formas, seja de monarquia, aristocracia ou democracia, nenhuma dessas revoluções apresentou ao homem a liberdade individual. Aos antigos, chamou-se de liberdade o fato de ter direitos políticos, poder votar ou nomear magistrados, mas, em verdade, o cidadão, obrigado a ver tão somente a importância e os direitos da sociedade, era escravo do Estado, e isso se deu ao caráter sagrado e religioso que a sociedade, inicialmente, revestiu-se.

No século XVIII, o caldo de cultura produzido pelo Iluminismo conferiu aos modernos daquela época o desejo pelo sabor de um novo conceito de liberdade.

Os movimentos revolucionários vivenciados na Inglaterra do século XVII, e posteriormente, nos Estados Unidos da América e na França, no século XVIII, fizeram o homem moderno aspirar por um valor primordial, a sua liberdade individual.

Constant (2015) afirmou que o conceito de liberdade buscado pelos revolucionários ingleses, americanos e franceses era muito diferente daquele sustentado pelos gregos e romanos. Era um conceito de não intervenção, de inovação da autonomia privada e independência individual, movido pelo desejo de pertencer ao comércio e à economia e não mais tão somente à política.

Esse novo conceito de liberdade representava o direito de não ser julgado à revelia, de não ser preso, maltratado e condenado à morte de forma discricionária ou pela simples vontade de quem estivesse representando a figura da autoridade (CONSTANT, 2015).

Constant (2015) enfatizou, assim, a necessidade de uma liberdade primária, individual, que englobasse, acima de tudo, o direto do indivíduo de manifestar sua opinião, de escolher e exercer sua profissão, de professar seu próprio culto, de reunir-se, de ir e vir sem precisar de permissão e sem prestar contas dos seus motivos ou dos seus passos, de dispor ou abusar de sua propriedade. Definiu como sendo o desejo por uma liberdade que permitisse, simplesmente, preencher as horas do dia conforme sua vontade, suas fantasias.

Ter liberdade para os modernos, assim, era poder buscar a expansão da personalidade individual e livrar-se da escravidão da política, que já não se sustentava mais no final do século XVIII e século XIX.

No novo mundo a extensão territorial dos Estados passou a ser incomparavelmente maior que nas cidades gregas e romanas.

Deixaram de existir famílias isoladas, que, com a existência de escravos e a completa submissão das mulheres, permitia aos homens exercer a política em praça pública. A abolição da escravidão tirou da população livre todo tempo ocioso que resultava do fato de os escravos estarem encarregados da maior parte dos trabalhos. Além do mais, a extensão das cidades modernas deixou o homem perdido na multidão, de modo que sua influência na sociedade se tornou quase que imperceptível (CONSTANT, 2015).

No mundo moderno, a massa passou a ser organizada de forma diferente. Sem as guerras, o homem passou a buscar segurança nos prazeres privados e no exercício do comércio, que era diferente

daquele das épocas antigas, quando o comércio era contaminado pela atmosfera de guerra e de hostilidades (CONSTANT, 2015).

Na medida em que passou a satisfazer suas necessidades e desejos, o comércio aspirou nos homens um sentimento pelo desejo da independência individual, pela vontade de primar pela não intervenção da autoridade.

Os modernos desejaram gozar dos seus direitos, desenvolver suas faculdades como entender conveniente.

Mas, mesmo a liberdade individual sendo considerada a liberdade moderna, Constant (2015) entendeu que não se deveria esquecer da política, a qual seria a garantia para a manutenção da liberdade individual. O homem moderno também queria o direito

“influir sobre a administração do governo, seja pela nomeação de todos ou de certos funcionários, seja pelas representações, petições e requerimentos que a autoridade é mais ou menos obrigada a levar em consideração.” (CONSTANT, 2015, p. 78).

Verifica-se que o discurso de Constant, na prática, buscou atingir as reações jacobinas à Revolução Francesa, que, inspirados na ideologia política de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), tentavam, de certa forma, reviver a liberdade própria do mundo antigo, mas que levou a sociedade francesa a vivenciar, na sua visão, um novo tipo de tirania.

Constant (2015) conclui que o erro de Rousseau e do abade de Mably foi querer transferir o modelo dos antigos para a modernidade, pois, para que a nação fosse soberana e o povo finalmente “livre”, pretendiam ver os cidadãos dominados e “escravizados”. Eles voltaram-se para a Antiguidade clássica “no afã de criar um conceito de liberdade que significasse essencialmente, como nos tempos clássicos, a presença ativa e militante do Homem na formação da vontade política, com correlata sujeição do mesmo a essa vontade onipotente” (BONAVIDES, 2001, p. 142), olvidando-se de que, na antiguidade, era negado ao indivíduo qualquer noção de autonomia e de direitos fundamentais perante a sociedade.

O que Constant pretendia com um novo conceito de liberdade era resgatar uma proteção contra possíveis governos

autoritários, advertindo, com seu discurso, que não havia nada que impedisse uma maioria tirânica, pois não é a vontade da maioria, que, por si só, garantiria as liberdades mais básicas, como de expressão, de crença, de religião e de convicção, algumas das quais foram afirmadas nos tempos de revolução.

A reflexão autoritária sobre a liberdade da Antiguidade colidia com o pensamento moderno da liberdade perante o Estado.

Isso porque, como visto, a essência da liberdade do homem antigo era pertencer ao Estado e à política, mas a essência da liberdade do homem moderno, interessado no comércio, já não era mais pertencer ao Estado, e sim ao mercado, à economia.

A liberdade moderna tinha caráter individualista, nasceu após as revoluções inglesas no século XII, para a constituição política dos povos europeus a exemplo da independência americana e com o estampido dos embates da revolução francesa (BONAVIDES, 2001).

Nesse contexto é que Constant entendeu que a democracia participativa já não era mais possível e propôs, inspirado em Montesquieu, um sistema representativo, para que os indivíduos pudessem participar das decisões políticas, sem se olvidar das questões comerciais e de seus direitos individuais.

Explicou que o sistema representativo é aquele em que uma organização de indivíduos auxilia a nação a fazer aquilo que não pode ou não quer fazer por si própria. É um sistema que representa

“uma procuração dada a um certo número de homens pela massa do povo, que quer que seus interesses sejam defendidos, mas que, todavia, não tem tempo de defendê-los.” (CONSTANT, 2015, p. 99).

Constant sustentou que a representatividade e o estado moderno, juntos, poderiam garantir algum tipo de liberdade ao homem moderno. Refletindo sobre as diferenças entre o povo e a elite aristocrática, entendeu que esta, pelos seus valores nobres e maior capacidade, deveria conduzir a sociedade. O povo, desse modo, não teria tempo e nem capacidade para lidar com os trâmites políticos, mas teria o poder de supervisionar seus representantes. O

sistema representativo seria, portanto, uma descoberta dos modernos e estaria em consonância com a liberdade primada nessa época.

As críticas tecidas e a proposta de um sistema representativo por Constant evidenciaram que ele defendia a liberdade moderna, a que primava por um dever de não intervenção do Estado na esfera da personalidade individual e da autonomia privada. Desejava que fossem asseguradas as liberdades mais básicas, como a de ir e vir, de reunião, de expressão e de culto religioso, de escolha da própria profissão, e, inclusive, de influenciar sobre a administração do governo, ou seja, de participação política por meio da representatividade. Essa era, pois, a verdadeira liberdade para Benjamin Constant.

OS CONCEITOS DE LIBERDADE POSITIVA E