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Fonte: A autora, 2019.

Segundo o Organograma 8, temos a evidência das três lógicas discursivas no conceito de felicidade da professora Margarida. A lógica social do bem-estar, a tomada de decisões para manutenção do bem-estar com as pessoas que estão ao seu redor, como uma lógica política, e a lógica fantasmática de desejar estar bem consigo mesmo. O entrelaçamento das lógicas constrói, dessa forma, o conceito de felicidade ao redor do bem-estar.

A felicidade ela está na totalidade da vida, ela não só está no meu trabalho, a felicidade está em mim e no entorno, eu entendo a felicidade como um

esboço energético, uma energia que está aonde eu passo. Porque pra mim essa felicidade se materializa na minha prática pedagógica em decorrência do amor que eu recebi, durante ao longo da minha vida (Trecho da

entrevista do professor Cravo, grifo nosso).

A materialização da felicidade na prática pedagógica, como afirma o professor Cravo, nos remete a Aristóteles, nascido em 383 a.C. na Macedônia, que constrói a sua filosofia baseada na importância das virtudes para felicidade. Em sua obra Ética a Nicômaco (2005), defende a felicidade como um bem, existente em todas as ações, de onde advém o seu interesse no assunto. O bem voltado para o ser humano é a finalidade das ações, assim, “existe uma finalidade visada em tudo que fazemos, tal finalidade será o bem atingível pela ação, e se há mais de uma, serão os bens atingíveis por meio dela” (ARISTÓTELES, 2005, p. 25).

Aristóteles compreende como virtude um hábito voluntário em uso, ou seja, se trata de algo resultante de uma atividade e de um exercício perseverante que se adquire com a prática. Dessa forma, os meios e a vontade dos cidadãos são elementos que vão resultar na felicidade. Constrói-se um cidadão virtuoso através do hábito, modificando os seus costumes. O veículo utilizado para essa transformação é a educação, “que faz dos cidadãos homens de bem e põe as crianças no caminho certo” (HOURDAKIS, 2001, p. 69). Dessa forma, a educação é a metodologia de ação de substituição da realidade, fornecendo ao homem a capacidade de moldar o seu mundo.

O filósofo também se coloca afirmando que o termo grego que provém da palavra educação está estreitamente ligado ao movimento de transportar, conduzir. Portanto, a educação, enquanto movimento, estabelece os regimes por meio da razão e dos hábitos. Essa função é utilizada para que os sujeitos possam ser educados e apresentem comportamentos distintos.

Os atos realizados pelos homens são cruciais para a felicidade, pois através deles direcionamos a vida. Quanto mais virtuosa for a ação, mais nos aproximamos da felicidade. Nesse sentido, a fala do professor Cravo, em que “a felicidade se materializa na minha

prática pedagógica”, destaca este elemento que Aristóteles (2005) discute: a ação virtuosa

que leva a felicidade. Essa relação entre a ação pedagógica e a felicidade ressoa uma lógica social, que não é a ação da prática, mas o que move a prática pedagógica no convívio social. Consiste em uma lógica que conduz a pessoa a agir de maneira virtuosa com outra(s), onde a finalidade de fazer o bem resulta na felicidade.

Para o professor Cravo, essa prática pedagógica tem uma ação que a antecede, sua base está no amor. Do ponto de vista analítico-filosófico é preciso atentar, inicialmente, que há diversos tipos de amor no depoimento do professor Cravo. Esse amor se refere ao amor ao próximo, inicialmente recebido no âmbito familiar. Se discute, por vezes, se há um entrelaçamento em todas as formas de amor, entretanto o objetivo é trazer à discussão a importância desse amor com o outro como influência na felicidade.

O amor, enquanto cuidado, assumindo uma atitude para com o outro, implica em uma ação que leve ao bem de outro em razão dele mesmo, nos aproximando da compreensão kantiana do amor. Immanuel Kant, filósofo alemão fundador da filosofia crítica, procurou determinar os limites da razão humana. O amor prático precisa ser pensado como máxima da benevolência, é fazer o bem como consequência de um amor próprio, “o amor e o respeito são os sentimentos que acompanham o exercício desses deveres” (KANT, 2001, 448:14).

O amor, como cuidado, parte da premissa que o outro precisa da minha ajuda e então eu tenho uma razão para ajudá-lo, se não o faço não me amo realmente. É uma lógica política de equivalência, a minha atitude para com o outro se desdobra com o meu sentimento inicial. Se eu me amo é imprescindível não amar ao outro na prática, a promoção dos fins do outro está em razão dele mesmo. A benevolência e a beneficência são recomendações como um dever de se relacionar, segundo Kant (2001), a fim de promover a felicidade alheia. Em contradição com o egoísmo racional, o dever da beneficência confronta a si mesmo, tendo em vista o amor para com o outro. Esta formulação pode ser encontrada na Doutrina das Virtudes, onde a promoção da felicidade alheia mostra uma dependência do dever de beneficência e do meu desejo de ser ajudado.

A razão para que haja um dever de beneficência é a seguinte: visto que nosso amor próprio não pode ser separado do nosso desejo de ser amado (ajudado em caso de necessidade) por outros, nós fazemos de nós próprios um fim para os outros, mas a única forma que esta máxima pode ser obrigatória é através de sua qualificação como uma lei universal, logo através da nossa vontade de fazer os outros igualmente nosso fim. A felicidade alheia é, portanto, uma finalidade que é também um dever (KANT, 2001, 6:393). Na filosofia Kantiana, a felicidade está ligada ao bem-estar, mais precisamente ao sentimento de prazer do sujeito, subjetivamente considerado. Essa reflexão de procurar satisfazer as sensações dependentes dos desejos subjetivos envolve as pessoas que estão no entorno e que exercem influência na minha vida. Dessa forma, a ação de amar ao outro, estabelece uma política de equivalência de beneficência do amor, em função da razão de ser feliz.

O trecho em discussão do professor Cravo, nos leva e refletir sobre a felicidade como “um esboço energético”, nos remetendo a um plano espiritual. Para René Descartes, filósofo e matemático francês, que tem como principal obra o Discurso do Método (1937), onde afirma que o bem e o mal de cada pessoa são exercitados apenas pela própria alma, dependendo das emoções interiores. Descartes separa a alma e o corpo, sendo a essência da alma o pensar e o corpo ser objeto no espaço, mas a alma influencia o corpo, e o corpo a alma. Tudo o que o corpo determina na alma é uma paixão, e ela deve ser dominada. Por outro lado, o homem enquanto espírito unido a um corpo, deve ter a moral como uma técnica de felicidade.

Assim, a felicidade está nas alegrias espirituais que se tem ao superar as próprias paixões, sentindo-se dono da minha vontade. “Essa satisfação de minha própria virtude, dá- me uma alegria pura, uma emoção toda espiritual, que é precisamente o que me proporciona a felicidade” (BOSCH, 1998, p.135). Com esse sentimento, as agressões do mundo e as paixões subsequentes não perturbam mais a disposição da própria vontade, pelo contrário, aumentam

a alegria. Alegria que não provém de acontecimentos exteriores favoráveis, não é externa, é interna, não provém do corpo e nem da alma, é espiritual.

O esboço energético citado pelo professor Cravo, pode ser compreendido nesse plano espiritual, além do corpo e da alma, compreendendo o homem enquanto espírito, na complexidade da condição humana. A espiritualidade pode ser, dessa forma, interpretada como uma lógica fantasmática horrífica, que não pode ser alcançada em sua totalidade na materialidade, onde só em seu plano espiritual, na sua abstração, é possível alcançá-la. Podemos organizar as análises desse trecho no Organograma 9: