Fonte: A Autora, 2019
Analisando o Organograma 9, verificamos que, segundo o Professor Cravo, a felicidade se materializa em uma prática pedagógica, que configura uma lógica social na relação entre as pessoas na sociedade. Essa prática é movida pelo amor, em que, na medida em que eu amo, eu sou capaz de tomar a decisão de amar ao outro, sendo, assim, uma lógica política de equivalência. O amor materializado na prática pedagógica é possível devido ao esboço energético, que através da lógica fantasmática pode ser palpável na abstração do plano espiritual.
Felicidade é alinhar, o prazer daquilo, diante do que eu faço, é... com aquilo que eu planejo. Felicidade pra mim é você está bem com aquilo que você planeja, aquilo que você idealiza, com aquilo que você faz (Trecho da entrevista do professor Lisianto).
Analisando o trecho acima do professor Lisianto, nos remetemos à capacidade do homem de tomar decisões que podem influenciar na sua felicidade. Estar bem com aquilo que planeja e idealiza é o desenvolvimento de uma lógica política da diferença, em que o ser humano pode escolher diante de todos o que quer planejar e idealizar para sua vida. Nesse sentido, Aristóteles afirma que a felicidade deve-se encontrar em uma atividade, que seja a finalidade do homem, seu objetivo, que define o essencial de seu ser, “ser feliz seria, portanto,
viver em conformidade com a natureza pessoal, ou no desenvolvimento progressivo do ser” (BOSCH, 1998, p. 187). O essencial do homem não consiste em desejar, nem agir, pois os animais assim também o fazem, mas naquilo que é peculiar do homem, no pensar. A concordância entre a ação, a existência e a essência, é a felicidade.
Dessa forma, a felicidade só pode caber a uma minoria dos seres humanos, os que sentem alegria em exercitar a sua razão e tiveram uma boa educação para desenvolver o gosto por isso. Só os verdadeiramente livres, que podem escolher sem coerção o seu modo de vida. Segundo Aristóteles:
[...] minha felicidade depende essencialmente de uma virtude toda interior, a que ele chama a magnanimidade. Entende com isso uma certa estima de si mesmo, uma consciência do valor pessoal que permite desprezar a fortuna, as honrarias, quando se é privado delas. O magnânimo sabe o que ele vale, e que merece poder e honrarias. (BOSCH, 1998, p. 196)
[...] o homem, para ser feliz, necessita de certa folga financeira e de lazer para poder dedicar-se à contemplação. Mas, quando há problemas, pode encontrar em sua magnanimidade o que o faz suportar de coração leve as vicissitudes da existência, obtendo um contentamento com sua própria virtude e com sua força de caráter. (BOSCH, 1998, p. 197)
A aproximação com a definição de felicidade de Aristóteles só é possível através da condição financeira dos professores. A decisão política de estar bem com o que se planeja e idealiza, alinhada ao prazer, segundo o filósofo, só é acessível se o homem não atrela a sua felicidade ao ato de conseguir uma renda maior para sobreviver ou suprir as necessidades básicas do corpo humano. O que nos remete ao perfil dos docentes do Colégio de Aplicação da UFPE, apresentados nos capítulos anteriores desta tese, enquadrando a definição de Aristóteles a esta reflexão sobre a felicidade.
No século III a. C., os Epicuristas defendem que o meio para alcançar a felicidade “é o prazer nascido da satisfação dos desejos” (BOSCH, 1998, p. 81), apegando-se a hedonismo (do grego hedoné, o prazer). Para isso, é preciso eliminar as preocupações, angústias, crenças e colher a cada dia os maiores prazeres. Entretanto, Epicuro não defende o gozo por todos os prazeres, os prazeres que não são naturais e não necessários para nossa sobrevivência, esses devem ser rejeitados, pois é um absurdo desejar os prazeres inacessíveis.
É preciso saber contentar-se com o pouco, segundo Epicuro, assim, a pessoa não ficaria frustrada ou decepcionada por desejar algo inalcançável, que pode levar ao sofrimento. “Então ficaremos sábios e atingiremos a artaxia, o estado de ausência total de conturbação na alma, ou seja, a felicidade” (BOSCH, 1998, p. 86). A felicidade ligada ao prazer alcançável, desprovida de sofrimentos ou angústias.
A definição de felicidade trazida por Epicuro se aproxima do trecho em análise do Professor Lisianto, onde “felicidade é alinhar, o prazer daquilo, diante do que eu faço”. Essa ação evidencia uma lógica fantasmática beatífica, em que o ser humano é capaz de ter prazer em decorrência com o que foi planejado, é o alcance do desejo que antes estava na abstração. Para isso, a organização do prazer com o que eu desejo é essencial, ou seja, o ser humano é capaz de desejar alcançar determinados prazeres que podem por ele ser alcançados, levando-o à felicidade, caracterizando a lógica fantasmática.
Estar bem com o que faz é outro elemento destacado no trecho que caracteriza o conceito de felicidade. A ação de fazer caracteriza uma ação social, diante de um público ou de pessoas. O sentir-se bem nos remete ao estudo sobre o pentáculo do bem-estar (NAHAS; BARROS; FRANCALACCI, 2000), que traz uma base conceitual para avaliação do estilo de vida de indivíduos ou grupos, baseado em cinco características, sendo elas: a nutrição, o stress, o comportamento preventivo, o relacionamento e a atividade física. Toda a intervenção que vise facilitar mudanças no comportamento do indivíduo parte do reconhecimento de si, de suas atuais características. O que queremos destacar com esse estudo é a ação do indivíduo que o leva a sensação de bem-estar. Estar bem com o que faz, como afirma o professor Lisianto, configura uma lógica social, pois se desdobra em atitudes perante o próprio indivíduo e a sociedade que o conduz à felicidade. Dessa forma, organizamos o Organograma 10 sobre as análises realizadas.