Fonte: A Autora, 2019.
De acordo com o que foi discutido, segundo o professor Lisianto, a felicidade pode estar atrelada a lógica social do bem-estar, em que o indivíduo é capaz de escolher o seu modo de vida dentro de uma lógica política da diferença, onde se planeja e idealiza, no intuito
de alcançar o que planejou, saindo de uma lógica fantasmática beatífica para uma lógica política da diferença.
“Felicidade pra mim é isso é você viver bem em primeiro lugar com Deus, eu acho que a gente tem que ter essa questão de, dessa ligação espiritual e se sentir bem naquilo que você faz, que você não vai fazer aquilo por obrigação” (Trecho da entrevista da professora Jasmim).
São Tomás de Aquino, teólogo e filósofo do século XIII, reconhecido pelo concílio do Vaticano I, em 1869, mostra um Deus que ama e, em um ato de amor, cria os seres humanos à sua imagem e semelhança e lhe dá o livre arbítrio, com a possibilidade de fazer o bem. Diferente do que os profetas hebraicos costumavam exprimir sobre a imagem de um Deus invejoso, ameaçador e vingativo.
Segundo Tomás de Aquino, a verdadeira felicidade está reservada para outro mundo, onde os desejos carnais, sejam eles de intervenção divina nas catástrofes ou de realizações pessoais neste mundo, não são interesse de Deus, pois os homens, dessa forma, não gostariam de fazer o bem e se limitariam a pedir a ajuda de Deus. “A lei divina parece proibir ao homem saciar muitos desejos e, portanto, privá-lo da felicidade. Mas é apenas uma aparência, pois a lei se atém a desviá-lo de uma ilusão enganadora de felicidade” (BOSCH, 1998, p. 225).
Na Bíblia, no livro de Tiago (1:12), encontramos uma das passagens que Deus revela “como é feliz o homem que persevera na provação, porque depois de aprovado receberá a coroa da vida que Deus prometeu aos que o amam”. Dessa forma, a felicidade não está em viver neste mundo de aflições, mas na vida após este mundo que o Senhor lhe dará.
A felicidade sendo alcançada em outro mundo configura uma lógica fantasmática beatífica, no sentido em que a felicidade só será alcançada plenamente em outra vida. Por outro lado, a felicidade plena não ser alcançada neste mundo, configura uma lógica fantasmática horrífica, não importando o que se faça aqui, a felicidade por completa não será alcançada neste mundo.
Colaborando com Tomás de Aquino, Santo Agostinho defendia a felicidade como o problema da motivação do pensar filosófico. Em seu livro “A vida feliz”, afirma que o homem não tem razão para filosofar, o que procura é atingir a felicidade (AGOSTINHO, 1998). Em sua obra “Confissões”, Santo Agostinho descreve como procurou alcançar a felicidade plena, pois se tratava não apenas de pensamentos filosóficos, mas de uma história de vida.
[...] Então, como Vos hei de procurar, Senhor? Quando Vos procuro, meu Deus, busco a vida Feliz. Procurar-Vos-ei, para que a minha alma viva. O meu corpo vive da minha alma e esta vive de Vós. Como procurar então a vida feliz? Não a alcançarei enquanto não exclamar. Basta, ei-la. Mas onde
porei estas palavras? Como procurar essa felicidade? Como? Pela lembrança, como se a tivesse esquecido, e como se agora me recordasse de que me esqueci? (AGOSTINHO, 1996, p. 279).
Assim, a felicidade, para Agostinho, consiste em um encontro pessoal com Deus, guiada pela trilha da razão. Através da sua experiência particular de beatitude, atinge uma teoria universal sobre felicidade: “A vida feliz em nos alegrarmos em Vós, de Vós e por Vós. Eis a vida feliz, e não há outra. Os que julgam que existe outra apegam-se a uma alegria que não é verdadeira. Contudo, a sua vontade jamais se afastará de alguma imagem de alegria” (AGOSTINHO, 1996, p. 282).
Agostinho (1996), no entanto, vai buscar na Bíblia o embasamento para sua teoria. Como podemos verificar no livro de Salmos (1:1,2) “como é feliz aquele que não segue o conselho dos ímpios, não imita a conduta dos pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores! Ao contrário, sua satisfação está na lei do Senhor, e nessa lei medita dia e noite”.
Essa atitude tomada diante dos homens, de buscar a Deus, primeiramente, e não ser como os demais, nos conduz a refletir sobre uma lógica política da diferença, em que a felicidade não está no homem, é preciso buscar a Deus para que, através dessa busca, a felicidade seja alcançada. A felicidade, assim, está em uma vida voltada para a experiência com Deus. Nessa lógica de viver na sociedade há uma ligação da felicidade com o ato de se relacionar com Deus, que se configura como um ato político de fazer a diferença na sociedade, não buscando a felicidade em coisas terrenas, mas no espiritual.
Segundo o depoimento da professora Jasmim, sentir-se bem no que você faz não é fazer por obrigação. Há uma lógica social nessa afirmação, onde uma pessoa que executa uma ação por obrigação não consegue ter satisfação. O sentir-se bem naquilo que faz pressupõe uma alegria que sobrepõe a obrigação, estar fazendo ou não por obrigação. Para se sentir feliz, o sentir bem precisa estar por cima da obrigação.
Segundo Maio (2016), em um estudo sobre felicidade no trabalho, há diversos conceitos sobre satisfação no trabalho e, apesar de não haver um consenso nas teorias, o tema é considerado interessante, tendo em vista que uma pessoa satisfeita se mantém estável na organização e na sua performance, superando os que estão insatisfeitos. Quanto maior a motivação e a satisfação com o trabalho, melhores o resultado da ação.
Estamos cientes que a pesquisa de Maio (2016) atrela a satisfação (felicidade pessoal) e a motivação (felicidade na função) ao trabalho, entretanto o trecho analisado da professora Jasmim não menciona um aspecto específico de se sentir bem. Tomamos como base, então, as respostas apresentadas anteriormente, que vinculam os fatores que influenciam na felicidade
ao trabalho, dentro da lógica de que se sentir bem, não por obrigação, pode ser aplicada a qualquer área do sujeito analisado. A fim de organizar as discussões sobre o trecho analisado da professora Jasmim, elaboramos o Organograma 11: