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Fonte: A autora, 2019.

Segundo as discussões evidenciadas, no trecho discursivo do professor Lírio, a ação com prazer, que pode estar associado ao trabalho, segundo Russell (2004), cumpre uma função social, configurando-se como uma lógica social, que vem de uma tomada de decisão a partir de escolhas que são feitas em atribuir sentido a determinadas ações, em uma lógica social de diferença, se afastando do comum, sendo um sentido próprio que, no entanto, se inicia em uma lógica fantasmática beatífica em desejar o que o leva a sentir-se inteiro, uma completude no próprio sujeito da falta.

A gente ser feliz, é a gente ter satisfação, é a gente ter prazer, é a gente achar que teve êxito (Trecho da entrevista da professora Tulipa).

A definição de felicidade relatada pela professora Tulipa, nos remete a três concepções filosóficas que atrelam a felicidade ao desejo. Os Sofistas se destacavam por ensinar aos jovens o que era necessário para tornar-se feliz. Mediante remuneração, os sofistas adotavam que o objetivo da existência humana é ser feliz, e para alcançá-lo deve-se satisfazer todos os desejos.

Consequentemente, para alcançar essa satisfação é preciso um máximo de riqueza, pois com o dinheiro pode-se obter muitas coisas. Porém sempre haverá aquele que possui mais do que a pessoa, então, na verdade, deseja-se o poder absoluto sobre os outros homens. “Já que todo homem deseja a felicidade mediante a satisfação de todos os seus desejos, também deseja secretamente o meio para isso, que é a onipotência” (BOSCH, 1998, p. 37). Não se trata de um desejo expresso, mas profundo e guardado.

Dessa forma, enxergamos que a felicidade, para os sofistas, não é alcançável a todos. Apenas uma parte da sociedade pode conquistar o poder supremo e experimentar a felicidade. A solução para isso estaria na educação, incutindo o sentimento de culpa, onde exercer todo

esse poder sobre o outro fere a moral do ser humano, ou seja, estaria passando por cima do que o outro tem, quer ou deseja.

[...] Tendo chegado a essa fase, poderíamos pensar que, do ponto de vista dos sofistas, não há mal nem bem absoluto, mas somente conflitos de interesses entre forte e fracos, entre a grande massa e indivíduos ambiciosos. (BOSCH, 1998, p. 47)

A felicidade dos sofistas não é democrática, é o objetivo da existência humana, mas deve-se ser um tirano, reinando sobre a comunidade de homens e então ser feliz.

Para Epicuro (2002), praticar ações que afastem as pessoas do medo e da dor, buscando o prazer que falta, constrói a felicidade do ser humano. Ressalta-se que, para o autor, prazer é “a ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma” (EPICURO, 2002, p. 43). Isso não desmerece que uma pessoa escolha a dor, tendo em vista as consequências que o prazer pode resultar futuramente. Ou seja, é possível que um indivíduo opte por sofrer em uma determinada situação agora, mas consciente que o prazer provocado pela dor, mais à frente, seria maior. “Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos” (EPICURO, 2002, p.39).

O questionamento que surge diante do Epicuro se baseia na incerteza se a razão humana é capaz de suprimir os desejos não necessários? Epicuro defende uma felicidade terrena, impedindo de ser maldosos com outros, já que a felicidade consiste na satisfação de prazeres necessários à vida.

Para os estoicos, a sabedoria está em limitar os meus desejos ao que depende de mim, no que posso possuir e conservar. Assim, não ficaria frustrado nem infeliz; não ter, aparentemente, tudo o que se quer deixa uma pessoa infeliz, mas se quero apenas o que tenho, tenho tudo o que eu quero e consequentemente me sinto feliz. “Eis, portanto, o segredo da felicidade e da liberdade. Ele reside em pouca coisa: saber usar bem a minha vontade, querer apenas o que eu tenho e o que me acontece” (BOSCH, 1998, p. 102).

Dessa forma, a pessoa tem o livre arbítrio para decidir sobre a sua felicidade, dependendo unicamente da direção que é dada à vontade, pensamentos, desejos e as ideias. Os estoicos afirmam que tudo o que acontece é necessário, não adianta desejar que outra coisa acontecesse, ela contribui para anular meus desejos. “Não se deve pedir que os acontecimentos ocorram como tu o queres, mas deve-se querê-los como ocorrem: assim tua vida será feliz” (HADOT, 2000, p. 8).

As três concepções filosóficas dos sofistas, epicuiristas e estoicos se entrelaçam na definição de felicidade trazida pela professora Tulipa, cada uma em uma lógica discursiva. Os sofistas falam da satisfação de todos os desejos, o que envolve uma lógica do capital. Na

sociedade em que vivemos hoje é preciso ter, o dinheiro, nesse sentido, move uma dinâmica social dentro de uma lógica no dia a dia.

Bauman (2009) faz uma série de questionamento a respeito de como a felicidade está disponível por meio de atalhos que precisam passar por lojas. O estímulo ao consumo conduz as pessoas a cobiçarem mais produtos, para que um dia se torne real. Entretanto, esses clientes, essas pessoas, nunca terão o bastante, o volume suficiente, pois o gasto não leva à certeza da saciedade, onde o bastante nunca bastará. O caminho para a felicidade passa pelas lojas e, quanto mais exclusivas, maior a felicidade alcançada. Atingir a felicidade significa a aquisição de coisas que outras pessoas não têm chance nem perspectivas de adquirir. Com suas palavras, Bauman (2009) afirma:

[...] Numa sociedade de compradores e numa vida de compras, estamos felizes enquanto não perdemos a esperança de sermos felizes. Estamos seguros em relação à infelicidade enquanto uma parte dessa esperança ainda palpita (p. 24).

Para o autor, vivemos em uma era em que o esperar se torna cada vez mais difícil de viver. Compramos presentes caros para compensar o tempo que não foi gasto com uma pessoa querida, vamos comer fora para não perder tempo fazendo a comida. Fazemos isso movidos pelo desejo de compensar e redimir a culpa que impulsiona essas atitudes. Assim, podemos observar como é forte e generalizada a crença de que há um vínculo íntimo entre a felicidade, o volume e a qualidade do consumo: um pressuposto subjacente a todas as estratégias medidas pelas lojas, em que o dinheiro é o veículo que realizará os sonhos pessoais.

Os epicuiristas veem a felicidade ligada ao prazer alcançável, desprovida de sofrimentos ou angústias. Essa concepção nos remete a uma lógica fantasmática beatífica, em que cada pessoa só deve desejar aquilo que pode alcançar. Criar desejos que não podem ser alcançados não os leva a felicidade, portanto a lógica fantasmática horrífica deve ser evitada, a fim de que não se frustre com desejos que não serão alcançados. Essa definição parte do princípio que temos controle sobre o que desejamos, portanto devemos desejar o que alcançamos. A lógica fantasmática beatífica, então, é fruto de uma ação consciente em que o sujeito é capaz de selecionar dentro de estímulos, como por exemplo a influência midiática, o que é possível, no seu contexto, de ser alcançado. A felicidade está em desejar e alcançar a partir de uma lógica fantasmática beatífica.

Os estoicos trazem uma concepção da lógica política do desejo. Desejar é um ato político de que todas as pessoas são capazes e essa capacidade de desejar pode levar o homem a felicidade. Esse poder de selecionar os desejos que dependem de mim é uma ação política, uma tomada de decisão. Essa capacidade é comum, para os estoicos, a todo ser humano,

configurando uma lógica política de equivalência, pois todos somos capazes de desejar e limitar os desejos àqueles que depende de mim. Para organizar as discussões elaboramos o