• Nenhum resultado encontrado

Laqueur (2001) afirma que a ordem transcendental preexistente, ou os costumes constituídos em tempos imemoriais, tornou-se cada vez menos uma justificativa plausível para as relações sociais que foram modificadas, no século XVII, pelo interesse de homens que se sentiam ameaçados com o progresso que abria possibilidades às tentativas de avanço das mulheres nas esferas públicas.

Na busca de reforços para mantê-las nos seus espaços consagrados (casa, lar), impedindo possíveis avanços intelectuais e até profissionais, os homens apelaram para o argumento naturalista, e o sexo, dessa forma, tornou-se biológico, passando a ser o fundamento epistêmico das afirmações consagradas sobre a ordem social.

Segundo Laqueur (2001), desde a Antiguidade acreditava-se que as mulheres tinham a mesma genitália que o homem, embora os órgãos estivessem colocados em lugares diferentes no corpo (dentro e fora). Nessa época distante, as relações desiguais entre os dois sexos, com o predomínio do poder masculino,

característico de uma sociedade androcêntrica, não eram geradas pelas diferenças sexuais. O discurso sobre a anatomia masculina e feminina, expresso pelos cientistas (anatomistas, médicos, e outros investigadores) não se diferenciava, dado a crença na semelhança sexual, o que tornava homens e mulheres iguais quanto aos desejos, anseios e atuação sexual.

Porém, no final do século XVII, a sociedade modificou-se e, com isso, mudou o discurso sobre as diferenças anatômicas de homens e mulheres, com consequências que foram além da mera biologia. Assistia-se à marcha para o progresso que envolveria a autonomia racional, com desdobramentos no desenvolvimento da ciência e no início da Revolução Industrial. O desenvolvimento científico, revestindo-se de uma aura de importância, foi quem forneceu a base teórica que passou a ser usada para explicar as diferenças de sexos, o que serviu para reforçar a construção das diferenças.

Como afirmou Virgínia Woolf (apud LAQUEUR, 2001, p.17), “a natureza sexual mudou”, mas também a situação social das mulheres, que a partir de então passaram a ser tratadas de maneira distinta em relação ao homem, devido às diferenças sexuais, situação construída pelos discursos dos anatomistas, dos escritores, dos médicos, ou a quem interessasse divulgar e reforçar as diferenças.

O ventre, anteriormente, uma espécie de falo negativo, passou a ser o útero, órgão cujas fibras, nervos e vascularização serviram para explicar e dar uma justificativa naturalista para a condição social da mulher. Com isso, foram usadas as diferenças sexuais para ‘acomodá-las’, em face de suas reivindicações de igualdade, uma vez que as mudanças, em relação à situação das mulheres, não interessavam aos homens.

Este discurso sobre as diferenças sexuais, e as consequentes mudanças de tratamento em relação às mulheres, foi reforçado e tornou-se cada vez mais abrangente no século XIX, nas diferentes classes sociais. Laqueur (2001, p.17) manifestou-se a respeito disso afirmando que

todos os escritores determinaram-se a basear o que insistiam ser as diferenças fundamentais entre os sexos masculino e feminino, entre homem e mulher, em distinções biológicas constatáveis e expressá-las em uma retórica radicalmente diferente.

Nessa retórica, não só os sexos passaram a ser considerados biologicamente diferentes, mas todos os aspectos concebíveis do corpo e da alma,

do físico e da moral, passaram a ser avaliados de acordo com os aspectos sexuais. Tal concepção expressava interesses que se manifestavam cada vez com mais força, na tentativa de controlar os ‘ímpetos’ femininos.

O fundamento de corpo estável, não-histórico e sexuado serviu para apoiar ou negar todas as formas de reivindicações feministas em contextos sociais, econômicos, políticos, culturais. Essas mudanças sociais ocorreram nas estruturas (realidades objetivas) ou campos sociais (BOURDIEU, 2005b), como produto de formas de pensamento androcêntricas, que tem sido reproduzidas no transcorrer da história através de diferentes performances.

O movimento Iluminista e as revoluções, cujos pressupostos vamos encontrar nesta corrente filosófica, representaram um grande avanço para a sociedade moderna, o que levou as mulheres a sentirem-se com direitos de reivindicar liberdade e igualdade. As estruturas externas, o contexto social, modificavam-se (são históricas), a ponto das mulheres também sentirem que o mundo estava diferente e que teria chegado o momento delas terem seu espaço. Porém, as relações de gênero, nas quais as relações de poder primeiramente se manifestaram (SCOTT, 1995), foram politicamente ativadas.

Apesar de terem suas reivindicações negadas e havendo mulheres que não desistiam da luta pela igualdade, as mudanças que as prejudicaram, criando novos problemas para sua emancipação, também contaram com a aceitação implícita das mulheres, devido aos esquemas de percepção e de apreciação ou, como diz Bourdieu, disposições incorporadas (habitus),

ou seja, impulsos para fazer as coisas de determinada forma, para perceber determinados comportamentos como aceitáveis ou adequados, para conduzir nossa vida de determinadas maneiras. São disposições, porque se referem a um nível pré-consciente, por assim dizer; são incorporadas porque nos estruturam socialmente como pessoas. Essas disposições são herdadas de nossa família, de nosso grupo de origem e, com muita frequência em nossa sociedade, apreendidas por meio de processos de socialização, em determinados grupos (LUGLI, 2007, p.28).

Bourdieu (2005a) contribuiu com sua teoria para avaliar o processo de constituição e aceitação da dominação masculina nas estruturas ou campos sociais. Para entendê-la, deve-se pensar a organização social dividida em hierarquias de poder, estando mais sujeitos à submissão aqueles que são mais dominados porque, devido às disposições incorporadas arbitrariamente, há uma aceitação da “ordem

social como natural, legítima e adequada” (SOUZA, 2007, p.19), sem que haja contestação, porque não são nem percebidas. O processo de naturalização da estrutura social arbitrária é visto como resultado de constantes processos de imposição de visões de mundo, processando-se a violência simbólica, cujo conceito foi criado como forma de explicar como se dá o processo pelo qual uma classe ou grupo, com domínio social ou econômico, impõe sua cultura àqueles que são dominados. Segundo Souza (2007, p.20), Bourdieu considera a cultura e o sistema simbólico arbitrários, porque não se baseiam numa realidade tida como natural, em razão de que “o sistema simbólico de uma determinada cultura é uma construção social e sua manutenção é fundamental para perpetuação de uma determinada sociedade, através da interiorização da cultura por todos os seus membros”

Para que as mudanças tenham ocorrido desenvolveu-se um discurso performativo, com alto poder simbólico, fundado na posse de um capital simbólico, que atua como um crédito, como um poder atribuído àqueles que obtiveram reconhecimento suficiente para ter condição de impor o reconhecimento. No caso, os homens, na hierarquia constituída em tempos muito antigos, consagraram-se como superiores em relação às mulheres, estando essa hierarquia inscrita nas disposições ‘simbólicas’ de homens e mulheres. Disposições incorporadas, a partir de representações sociais sobre o que é ser homem e ser mulher, prontas a se manifestarem quando necessário. Bourdieu (1990, p.166) considera que

o poder de constituição, através da mobilização, ou de fazer existir por procuração, falando por ele enquanto porta-voz autorizado, só pode ser obtido ao término de um longo processo de institucionalização, ao término do qual é instituído um mandatário, que recebe do grupo o poder de fazer o grupo.

A eficácia simbólica vai depender do grau em que a proposição está alicerçada na realidade, ou que haja afinidades objetivas entre as pessoas das quais se quer respaldo. Quanto mais adequada for como teoria, mais poderoso será o efeito de teoria.

Em relação às rupturas do século XVII, XVIII, pode-se dizer que elas ocorreram porque nas representações de gênero o homem está em posição hierarquicamente superior às mulheres e, por isso, tem o poder de lidar com este fato com total liberdade. É como se o homem fosse credor, através do poder simbólico, de um mandato que o autorizasse a tomar as decisões que quisesse.

Nesse sentido, o poder simbólico é um poder de consagração ou de revelação, um poder que serve para consagrar ou revelar coisas que já existem: a supremacia hierárquica do homem na sociedade. A aceitação dessa supremacia não se dá como algo pensado, livremente decidido, mas ela ocorre a partir da inculcação das representações, tornadas disposições incorporadas. Ela se dá como decorrência da violência simbólica, que se manifesta sem que tenhamos liberdade para interferir em nossas escolhas.

O sistema simbólico de uma determinada cultura resulta de construções sociais. Para que essa sociedade mantenha e perpetue concepções hierarquicamente diferenciadas é preciso que haja a interiorização desse sistema por todos os seus membros. Dessa forma, ocorre a imposição legítima de uma cultura, num processo dissimulado, que faz com que se reproduza as relações de dominação.

Como explicar que os dominados, no caso as mulheres, não reagem, opondo-se ao seu opressor? Isso ocorre porque elas, ou os dominados, não se percebem vítimas, considerando a situação natural e inevitável e reforçando com suas posturas a atitude de dominação.

O tema da violência simbólica, aplicado às relações de gênero, mostra que as próprias mulheres estão sujeitas a atuarem como colaboradoras no processo de reprodução do sistema de dominação. Isso porque esse processo é altamente engenhoso, por fazer com que as causas reais da supremacia masculina se apresentem sempre de forma difusa e ofuscada.

As mulheres, apesar dos avanços sociais, que lhes permitiram reivindicar igualdade de direitos, foram submetidas a esquemas simbólicos, geradas num passado muito antigo, presentes nas estruturas históricas, e que, inculcados através da cultura, estão constantemente se manifestando. As disposições incorporadas, que estão sempre a postos para reproduzir a hierarquia de dominação masculina, atuam como um espectro nos campos sociais.

Em sua teoria, Bourdieu (2005a) afirma que para além da comunicação, que se processa no nível das consciências, os inúmeros grupos compartilham das mais variadas ‘competências’ (ou disposições incorporadas) que compõem seu capital cultural, que agem como uma espécie de princípio que direciona as possíveis trajetórias das práticas. Isso serve para explicar o grau de acordo efetivo (objetivo e

unitário), presente nas manifestações de um mesmo grupo, que está além das intenções subjetivas e dos projetos conscientes, tanto individuais quanto coletivos.

Avaliando estes fatos, temos a convicção de que tem sido sempre necessário, no transcurso da história, a ocorrência de fatos sociais relevantes, que tenham força de se sobrepor às representações simbólicas sobre a dominação masculina, para proporcionaram um avanço em busca de igualdade de direitos.

Considera Bourdieu (2005a), que para que o mundo seja mudado é preciso mudar as maneiras de fazer o mundo, ou seja, a visão de mundo, bem como as operações práticas pelas quais os grupos são produzidos e reproduzidos. Para isso, é necessário ocorrer uma ruptura da relação de cumplicidade que as vítimas da dominação simbólica têm com os dominantes, o que somente seria possível com a ocorrência de uma transformação radical das condições sociais de produção das tendências que levam os dominados a adotar sobre os dominantes e sobre si mesmos o próprio ponto de vista dos dominantes.

Hoje, ao avaliarmos a situação da mulher no mundo, temos bem claro que, comparada ao final de século XIX e meados do século XX, quando começaram efetivamente os movimentos feministas, houve mudanças bastante radicais.

Vejo que, embora Bourdieu (2005a) seja enfático quanto à reprodução da ordem masculina, a partir de representações de gênero, ele próprio deixa brechas por onde seria possível avançar na tentativa de romper socialmente com a estrutura ou campos sociais reprodutores. São essas brechas, bem aproveitadas por algumas feministas, que tem ajudado no avanço das conquistas das mulheres. Isso porque, as disposições incorporadas sugerem, mas é possível que deliberações racionais dos sujeitos possam atuar na definição de suas atuações nos campos sociais.

É no processo dialético entre essas disposições e os acontecimentos nos campos sociais que, racionalmente, as mulheres vão avançando. Porém, para este autor, apesar de todas as conquistas das mulheres, ainda hoje, as representações simbólicas de uma estrutura androcêntrica continuam com seu papel determinante. A partir dessas posições, é importante que sejam revistos os momentos históricos marcantes na luta das mulheres, principalmente após 1960, para verificarmos como as ações reais atuam na luta com o poder simbólico.