ESTATUTO TEÓRICO DAS SENTENÇAS DE NEGAÇÃO NO PORTUGUÊS
2.1. TIPOS DE SENTENÇAS (Farkas e Bruce, 2010)
2.1.3. CONCEITO DE INTERROGATIVAS POLARES
Além de asserções comuns e das asserções responsivas, na mesa discursiva também são lançadas interrogativas – ou questões – polares, que têm como intenção comunicativa obter uma, de duas, resposta possível: sim ou não. Desse modo, são asserções que, desencadeando também sentenças-resposta, permitem que a pressuposição, retomada na sentença-resposta, faça elipse dos seus constituintes, realizando-se apenas os constituintes novos sim ou não, o que não é permitido, se as sentenças-resposta forem estabelecidas para sentenças declarativas.
Toda mesa discursiva, como já dissemos, é movimentada por asseverações de participantes que se comprometem com os próprios discursos proferidos. Assim, a mesa se organiza como apontam Farkas e Bruce (2010), quando asseguram que
[...] a discourse structure K contains a (possibility empty) set of propositions DCx for each participant X in the conversation, made up of those
propositions that X has publicity committed to during the conversation up to the relevant time, and which are not shared by all the other participants. […] K contains the set of propositions, the cg, whose elements are those propositions that have been confirmed by all participants in the conversation as well as a set of backgrounds propositions. The total discourse commitment of a discourse participant X is DCx U cg
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(FARKAS e BRUCE, 2010, p. 86).
Desse modo, o comprometimento dos falantes se fundamenta em pressuposições do cg, geradas a partir de um conjunto individual e próprio, o DCx, que contém as elocuções de
cada participante. Suscitadas as sentenças individuais desse conjunto DCx, elas são lançadas
num conjunto maior e coletivo, o conjunto K, que contém todas as sentenças compartilhadas.
22 “[...] uma estrutura discursiva K contém um (possivelmente vazio) conjunto de proposições DC
x para cada
participante X na conversa, formado por aquelas proposições que X tem publicamente comprometidas, durante a conversa, até o momento relevante, e que não são compartilhados por todos os outros participantes. K contém um conjunto de proposições, o cg, cujos elementos são aquelas proposições que têm sido confirmadas por todos os participantes na conversa, bem como um conjunto de proposições de “pano de fundo”. O total de comprometimento discursivo do participante de um discurso X é DCx U cg”. (TRADUÇÃO MINHA).
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Como as interrogativas polares também são lançadas sobre a mesa, acastelamos que, nessa situação, o conjunto K aparece previamente vazio. Ou seja, a sentença-resposta para uma interrogativa polar não vem antecipada de nenhum conjunto K. Desse modo, são essas interrogativas polares que ativam o cg e preenchem o conjunto K, para, a partir de então, através das sentenças-resposta, irem marcando o comprometimento discursivo de cada falante, para cada proposição que ele coloca sobre a mesa.
Sabendo da realização do conjunto de proposições comuns, o K, e do conjunto de proposições individuais, DCx, Farkas e Bruce (2010), sobre as interrogativas polares, afirmam
que
The context state after a default polar question is inquisitive whit respect to the denotation of the sentence radical the move has placed on the table, because the ps23 contains both future common grounds to which p was added and future common grounds to which -p was added24 (FARKAS e BRUCE, 2010, p. 95).
Como as interrogativas polares são sentenças imperativas, as sentenças-resposta, de certo modo, são Já esperadas pelos participantes da mesa. Desse modo, o comprometimento do falante com sua enunciação é antecipadamente comum, ainda que seja uma resposta do tipo sim ou não. Esse compartilhamento não é verificado em sentenças-resposta como asserções-responsivas, cuja elocução, apesar de expressar reação ao que está posto, não tem o caráter impositivo da interrogativa polar. Portanto, não antecipa uma resposta.
Como fez com as asserções, Farkas e Bruce (2010) dividiram as interrogativas polares em padrões e não-padrões, assegurando que ambas, embora inseridas num contexto de imposição, se distinguem pelo comprometimento do falante com a pressuposição no cg.
Em suas palavras, Farkas e Bruce (2010), dizem que
Default polar questions are non-biasing in the sense that they do not commit their author to either proposition in their denotation and project an inquisitive context with respect to their sentence radical. There are, however,
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Do inglês Projected Set (Configuração Projetada). Para Farkas e Bruce (2010), o comprometimento de dois participantes, A e B, num discurso é inicialmente vazio, como também vazia é a mesa discursiva (Table). Assim a pressuposição incluirá, apenas, a configuração sentencial que for projetada. Nas palavras dos autores “[...] the
discourse commitment lists of the two participants, A and B, are empty, and so is the Table. The ps of K1,
includes only s1, the initial common ground at the start of the conversation” (p. 91).
24 “O estado do contexto que segue uma pergunta polar é inquisitivo, com respeito à significação da sentença
básica, cujo movimento é colocado na mesa porque o “ps” contém ambos os futuros comuns aos quais “p” foi adicionado e o futuro comum em que “-p” foi adicionado”. (TRADUÇÃO MINHA).
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non-default polar questions that are not impartial25 (FARKAS e BRUCE, 2010, p. 96).
Em outras palavras, enquanto as interrogativas polares padrões constituem menor comprometimento do autor da resposta com a interrogativa polar, as interrogativas polares não-padrão exigem maior comprometimento do promotor da resposta para a interrogativa polar no cg. Logo, uma pergunta polar padrão não pode ficar sem resposta, o que não acontece com uma pergunta polar não-padrão.
Martins (2018) afirma que
As interrogativas polares não ‘default’ são as que são ‘biased’ em relação à resposta. Ou seja, quem as produz mostra que tem expectativa de resposta positiva ou, pelo contrário, negativa; pode, ainda, ter implícito um comentário em relação à resposta antecipada por quem pergunta. Assim, as interrogativas tag e certas interrogativas negativas (Ele não vem jantar outra
vez?) são não ‘default’. Uma interrogativa polar ‘default’ é um pedido de
informação neutro, mas a exigir resposta. [...] ‘Será que vai estar a chover
todo o mês?’, [...] interrogativa [...] essencialmente uma exclamação [...] não
um pedido de informação. [...] não estranha se ficar sem resposta (em orientação via e-mail).
De acordo com Martins (2018), as interrogativas polares não-padrão têm respostas previamente esperadas pelos participantes do discurso, uma vez que deve ser uma resposta do tipo sim ou não. Por outro lado, interrogativas polares padrões sugerem uma resposta, mas não a preveem ou esperam.
Observemos a mesa discursiva abaixo, em (22) e (23): (22) Será que o show do Skank vai ser bom?
a. Talvez seja.
b. Eu acho que será muito bom. c. Com certeza!
d. Vai ser ruim.
(23) Amanhã vai ter show do Skank? a. Sim.
b. Não.
Em ambas as situações, o contexto que antecipa a interrogativa polar é o mesmo: o show do Skank. No entanto, em (22), há uma interrogativa polar padrão, pois é uma pergunta
25 “Questões polares padrões não são pré-dispostas, no sentido de que elas não comprometem seu autor com
nenhuma outra proposição, em seu significado literal, e projetam um contexto inquisitivo em relação à sentença principal. Há, no entanto, questões polares não-padrão que não são imparciais”. (TRADUÇÃO MINHA).
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que não aumenta o comprometimento do autor da resposta com a mesa, já que, a questão em si, afasta o falante da obrigatoriedade de resposta. Por sua vez, em (23), há uma interrogativa polar não-padrão, que exige uma sentença-resposta do interlocutor, de modo que ele venha a se comprometer com a resposta afirmativa sim, ou com a resposta negativa não.
Assim, a diferença entre as questões polares padrões e não-padrão é marcada pelo tipo de comprometimento de resposta que a pergunta sugere ao “respondedor”: se aumenta o comprometimento da resposta com a pergunta, há uma interrogativa polar não-padrão; se não aumenta, temos uma interrogativa polar padrão.
Sobre esse comprometimento do “respondedor”, Farkas e Bruce (2010, p. 96) afirmam que “[...] Default polar questions do not add to author commitment and project in inquisitive ps. Non-default assertion and non-default polar question can depart from their default counterparts in either property26”. Logo, diferente das asserções, que não estão inseridas num contexto inquisitivo, as sentenças-resposta às interrogativas polares não- padrão são impostas pela pressuposição, estabelecida num conjunto K impositivo. As interrogativas polares padrões compartilham do mesmo traço das asserções comuns, uma vez que são lançadas numa mesa discursiva de propriedades comuns das sentenças do cg.
Farkas e Bruce (2010), comparando a relação entre asserções padrões e interrogativas polares padrões lançadas na mesa discursiva, afirmam que
[...] the major differences between default assertions and default (polar) question […] are (i) default assertions upgrade their author’s commitment list while default (polar) questions do not; (ii) default assertions enter a declarative sentence on the Table, while polar questions enter an interrogative sentence; (iii) […] default assertions result in a non-inquisitive context, whereas default questions result in an inquisitive one27 (FARKAS e BRUCE, 2010, p. 97).
Diante do que expusemos, interrogativas polares são sentenças que desencadeiam uma resposta original, ainda que esperada, ampliando o comprometimento do falante com o que está no conjunto K. Assim, se as sentenças-resposta são para interrogativas polares não- padrão, elas não podem deixar de ser realizadas. Por seu turno, se as sentenças-resposta são
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“[...] questões polares padrões não aumentam o comprometimento do autor e projetam uma configuração inquisitiva ps. Asserções não-padrões e questões polares não-padrões podem partir de suas contrapartes padrões em qualquer propriedade”. (TRADUÇÃO MINHA).
27 “As maiores diferenças entre asserções padrões e questões polares padrões são (i) asserções padrões atualizam
o comprometimento dos autores, enquanto as questões polares padrões não; (ii) asserções padrões introduz uma sentença na “mesa”, por sua vez, as questões polares introduzem uma interrogativa; (iii) [...] asserções padrões resultam num contexto não impositivo, ao passo que as questões polares padrões resultam num inquisitivo”. (TRADUÇÃO MINHA).
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para asserções comuns ou para interrogativas polares padrões, elas são concretizadas mediante um contexto prévio, mas não têm obrigatoriedade de realização.