3. A QUALIDADE NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO DE PROJETO DE EDIFICAÇÕES
3.1. Gestão do Processo de Projeto
3.1.1. Conceito de Projeto
Projeto, segundo Ferreira (1999), é uma idéia que se forma de executar ou realizar algo no futuro, é um plano, uma intenção. Pode ser definido ainda, conforme o mesmo autor, como um empreendimento a ser realizado conforme um determinado esquema, um plano geral de uma edificação.
De acordo com Galle (2008), o projeto é a produção de representações segundo a idéia de um projetista, que permite produzir um objeto. Segundo Visser (2009), o projeto é a construção de representações, que recebe a influência de variáveis relacionadas à forma e às atividades empregadas na resolução de problemas de projeto.
Melhado et al. (2006) definem projeto como “um conjunto de atividades intelectuais que levam à concepção das exigências para a construção, das formas e dimensões do produto e de seus métodos construtivos”. Com base nesta definição e em uma visão geral e prática, os autores estabelecem as seguintes fases: concepção das exigências para a construção; concepção do produto e concepção da execução das obras.
Percebe-se que estas fases correspondem, respectivamente, ao projeto da produção, ao projeto do produto e ao projeto para produção. O primeiro consiste no estabelecimento, para cada tipo de processo construtivo utilizado pela empresa construtora, das estratégias gerais de produção, das normas de procedimentos de execução, das metas de produtividade em cada atividade padrão e de controles a serem observados (MELHADO e FABRICIO, 1998). O segundo é o
projeto-produto como resultado do processo de projeto, que são os documentos (memoriais, plantas e cortes) que formalizam a edificação. O terceiro é voltado para a definição das sequências e dos métodos de execução de fases críticas da obra, como forma de se ampliar o desempenho na produção destas fases (MELHADO e FABRICIO, 1998).
Em inglês, há dois termos que se traduzidos para o português resultam no vocábulo projeto:
project e design. Porém, pode-se diferenciar seus significados, o projeto enquanto project
refere-se ao plano geral do empreendimento (nível estratégico) e enquanto design, refere-se aos projetos que viabilizam fisicamente o empreendimento (NOVAES, 2007b).
Em outras palavras, o project contempla a estratégia competitiva adotada pela empresa que realiza o empreendimento, a gestão de marketing, a gestão de vendas, a gestão de recursos financeiros, a gestão dos processos construtivos, entre outros aspectos. O design compreende a gestão dos projetos de engenharia e arquitetura, que geram a edificação propriamente dita e que devem estar incluídos na gestão dos processos construtivos.
Confrontando o conceito de Melhado et al. (2006) e as idéias de design e project, é possível inferir e concordar que trata-se de um conceito amplo. Isto porque compreende as decisões tomadas no âmbito do empreendimento (elaboração do projeto da produção) e da execução propriamente dita da edificação, quando os projetos são materializados.
Deste modo, este conceito não pode ser considerado como project em sua totalidade e também não pode ser empregado como design, já que extrapola a elaboração dos projetos de engenharia e arquitetura. É importante destacar que isto não significa que os projetos de engenharia e arquitetura devem desconsiderar as etapas anteriores e as subsequentes do processo de produção da edificação. Ao contrário, defende-se aqui que estes projetos devem estar em consonância com os objetivos do empreendimento como um todo, abrangendo os aspectos estratégicos e produtivos. Assim, o interesse neste trabalho é discutir os conceitos e justificar os limites do que se entende como projeto no contexto da avaliação da PSP, e para isso são apresentados outros entendimentos.
Para Silva e Souza (2003), o projeto é um dos elementos fundamentais do processo de produção de uma edificação. É na etapa de projeto que o produto é concebido e que os materiais, componentes e processos construtivos são especificados. O projeto é, para esses
autores, o grande elemento indutor da racionalização da construção e da qualidade do produto final.
Em linhas gerais, o projeto deve informar as características físicas do produto, permitir a introdução de inovações tecnológicas, reduzir o surgimento de problemas patológicos durante o uso, garantir características de qualidade, racionalidade e construtibilidade das soluções adotadas. Além de gerar reflexos positivos na adequação ao uso da edificação, redução do
lead time8 total de execução da obra e redução dos seus custos finais9. O projeto deve ainda
contemplar a segurança do trabalhador na etapa de execução da obra e também a preservação do meio ambiente, tanto nesta etapa como durante o uso do produto final (OLIVEIRA e MELHADO, 2006).
Novaes (2001) ressalta dois conceitos para projeto. Um estático, que se refere ao projeto como produto, composto por elementos gráficos e descritivos, ordenados e elaborados de acordo com linguagem apropriada, com o objetivo de atender às necessidades da etapa de produção. E outro, dinâmico, em um sentido de processo, através do qual as soluções são elaboradas e compatibilizadas.
Assim, o projeto pode ser considerado como a representação gráfica de soluções para a edificação, objetivando a sua materialização. E, também, como um processo composto por fases, no qual atuam diversos participantes responsáveis por gerar estas soluções em consonância com os aspectos produtivos e estratégicos do empreendimento.
No contexto do projeto enquanto processo, reside o caráter de prestação de serviço. De acordo com Melhado (1994), existem similaridades entre as características de um projeto de edificação e as características de um serviço. O autor afirma que as similaridades são: falta de especificações pelo cliente; variabilidade de resultados; produção e consumo bastante encadeados; contato pessoal e direto com o cliente; e soluções com prazo de validade
8 Lead time significa tempo de condução ou tempo de fluxo. A redução do lead time total de execução da obra é
um preceito da Mentalidade Enxuta, que tem como base a eliminação de desperdícios. OHNO (1988) apud PICCHI (2006) define sete tipos de desperdício: superprodução, espera, transporte, processamento desnecessário, estoque, movimento e defeitos.
9 A tomada de decisão de projeto deve considerar as alternativas que têm consequências sobre estes custos. Isto
requer o conhecimento da repercussão da decisão sobre todos os custos envolvidos, ou seja, é preciso conhecer o custo global da edificação que se constitui do somatório:
Custos finais = Custo global = custos de construção + custos de operação + custos de manutenção. (SILVA
definido, em função de imposições do mercado.
Conforme Grönroos (1993), o serviço é uma atividade de natureza mais ou menos intangível, que é fornecida como solução ao problema do cliente. Normalmente, mas não necessariamente, o serviço acontece durante as interações entre cliente e funcionários da empresa prestadora de serviço, recursos físicos ou bens e/ou sistemas do fornecedor de serviços. Segundo Hoffman (2001), em geral, os bens podem ser definidos como objetos, aparelhos ou coisas, enquanto os serviços podem ser definidos como atos, esforços ou desempenhos.
Quatro características básicas podem ser identificadas na maioria dos serviços: são mais ou menos intangíveis; são atividades ou uma série de atividades em vez de coisas; são, até certo ponto, produzidos e consumidos simultaneamente; e o cliente participa do processo de produção, pelo menos até certo ponto (GRÖNROOS, 1993).
Segundo Hoffman (2001), as características de um serviço são: • intangibilidade – o serviço não pode ser visto ou tocado;
• inseparabilidade – refere-se à ligação física do prestador com o serviço sendo prestado, ao envolvimento do cliente no processo de produção do mesmo e ao envolvimento de outros clientes nesse processo;
• heterogeneidade – refere-se à incapacidade de se ter controle total sobre a qualidade do serviço antes que ele chegue ao consumidor, ou seja, o nível do serviço que um cliente recebe pode variar de um encontro para outro;
• perecibilidade – os serviços não podem ser estocados.
Assim, Melhado (1994) define projeto como a “atividade ou serviço integrante do processo de construção, responsável pelo desenvolvimento, organização, registro e transmissão das características físicas e tecnológicas especificadas para uma obra, a serem consideradas na fase de execução”.
que resulta no projeto-produto (design10). Para elucidar esta direção, é denominado o termo
prestação do serviço de projeto (PSP) que aqui é entendido como a realização dasatividades que tornam possível e/ou facilitam a geração do projeto-produto, as quais interessam ao cliente contratante. As atividades relacionadas à PSP são entendidas aqui como o conjunto de ações que colaboram para a geração do projeto-produto, sendo realizadas por meio do projeto-serviço. No entanto, há atividades internas à empresa de projeto que não são
percebidas pelo cliente contratante, mas que colaboram para a qualidade do projeto-produto – como, por exemplo, a distribuição das tarefas aos profissionais da empresa.
O projeto como produto ou como serviço deve estar sujeito a mecanismos de garantia da qualidade, os quais se distinguem conforme o foco para um ou para outro (MELHADO, 1994). O primeiro tem sua qualidade verificada por meio de padrões formais estabelecidos, de análise crítica e de listas de verificação. Quanto ao segundo, a qualidade é verificada em função da eficiência e eficácia da atividade de projeto.
Neste trabalho, o ponto-chave de discussão é referente aos atributos de uma boa prestação de serviço de projeto na visão do cliente contratante. Mais especificamente, em que este cliente pode se apoiar para se certificar de que está recebendo o serviço esperado/necessário, traduzido pelas características da atividade de projeto. Neste contexto, o detalhamento do contrato de PSP tem grande importância, no sentido de esclarecer o que é esperado pelo cliente contratante.
Assim, o item 3.1.2 compreende a discussão referente à qualidade do projeto-produto e do projeto-serviço.