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2 DESENVOLVIMENTO RURAL

2.2 CONCEITO E FINALIDADE

As teorias sobre o desenvolvimento agrícola têm sido dominadas, nas últimas décadas, pelo paradigma da modernização2, que, fomentado por políticas que almejam o contínuo aumento da escala, bem como a homogeneização da agricultura com a assolação da produção tradicional/familiar, julgada como atrasada e de baixo potencial produtivo, creditava suas estratégias produtivas como viáveis, eclodindo no único tipo de desenvolvimento agrícola.

Ocorre, todavia, que a homogeneização prevista não logrou o sucesso esperado porque, quanto mais a modernização era disseminada, mais abundantes eram também as variações de estilos de agricultura arquitetadas como meios de resistência dos produtores não contemplados por esse movimento consoante as suas escolhas de serem mais endógenos e autônomos (fazer internamente) quanto ao uso de recursos internos e externos, ou mais exógenos e dependentes (comprar de fora), mediante os imperativos pouco amistosos dos mercados, das políticas e das tecnologias em uso (PLOEG, 2001).

É neste cenário que é edificado o modelo de desenvolvimento rural alternativo que aprecia outras ferramentas que não somente a absorção de tecnologia (seja ela mecânica, seja química, seja genética) como motor econômico e produtivo, isto é, um modelo que suscita a coesão entre as atividades no nível da propriedade, bem assim entre esta e outras atividades, e entre ecossistemas locais e regionais. Trata-se, portanto, de um processo que supera a dimensão econômica,

2Introduzido pela Revolução Verde, o paradigma da modernização é um ideário dominante de

desenvolvimento produtivo proposto e implementado nos países desenvolvidos após a Segunda Guerra Mundial. A meta era o aumento da produção e da produtividade agrícolas baseado no uso de tecnologias intensivas em insumos químicos, das variedades geneticamente melhoradas de alto rendimento, da irrigação e da motomecanização. Porém, nos países latino-americanos, a adoção de tal ideário ocorreu somente a partir da segunda metade do século XX.

haja vista que o desenvolvimento rural passa a ser multinível, multiator e multifacetado.

O modelo de desenvolvimento proposto por Ploeg et al. (2000) é multinível porque abrange as escalas global (a relação entre a agricultura e a sociedade, fazendo com que esta última entenda que o rural vai mais à frente que o papel de fornecedor de alimentos e matérias-primas), intermediária (reputa as sinergias entre os ecossistemas locais e regionais) e da firma individual (engloba as alocações do trabalho familiar, valorizando a pluriatividade).

O desenvolvimento é, também, multiator porque, posto que o rural está deixando de ser um espaço meramente agrícola, outras articulações estão sendo fortalecidas em um contexto em que novos atores passam a disputar o acesso às oportunidades e aos recursos a fim de atender às atividades que estão emergindo. Destarte, para coordenar e administrar os conflitos, ele atua por meio de redes (relações locais, entre as localidades e a economia global) para dirimir os conflitos em um ambiente institucional complexo.

O fator multifacetado do desenvolvimento rural se dá em função das práticas que outrora eram secundárias ou supérfluas (agricultura orgânica, agroturismo, conservação do meio ambiente, etc.) e passaram a ser aceitas como relações socioeconômicas que endossam o setor agrícola.

Dessas considerações, intui-se que o desenvolvimento rural se centra no aprofundamento, na ampliação e na re-fundação. Aprofundamento devido à expansão e à transformação das atividades agrícolas que, ao se relacionarem com outros agentes, propiciam aumento no valor agregado da produção rural; ampliação em função do desenvolvimento de múltiplas funções na propriedade; e re-fundação em virtude das formas que passam a existir, como a pluriatividade, de mobilização e uso dos recursos como forma de obtenção de renda (SIMAN et at., 2006).

O desenvolvimento rural é, nesse sentido, a diversificação dos produtos, o cuidado com a paisagem e a procura pela eficiência oriunda das novas formas e rotinas de produção. É, ainda, um processo endógeno que ambiciona o crescimento da região, apoiado pela busca em prol da autonomia e do controle dos processos produtivos dos seus agentes (SIMAN et at., 2006).

Na avaliação de Schneider (2004), esse modelo de desenvolvimento rural diz respeito às ações articuladas que visam, por intermédio de mudanças

socioeconômicas e ambientais no espaço rural, a melhores condições de renda, qualidade de vida e bem-estar das populações rurais.

Rivera (2005) defende que o desenvolvimento rural deve ser integrado, não limitado à perspectiva agrícola, e com proposições feitas de baixo para cima que reconheçam a importância do compartilhamento da responsabilidade de promover o desenvolvimento de todos os atores sociais envolvidos. Deve considerar, ainda, o potencial regional, incluindo-se as riquezas naturais e culturais, de modo que se construa um capital social forte, de forma que se propicie um processo de desenvolvimento autossustentável.

Schejtman & Berdegué (2003) ressaltam que o desenvolvimento rural é um processo de transformação produtiva, que visa à condução competitiva e sustentável da economia territorial aos mercados dinâmicos. É, também, um processo institucional, pois promove a articulação entre os atores e, mormente, a inclusão da participação da população mais pobre, em um espaço rural determinado, na qual a finalidade é a de reduzir a pobreza rural.

Ellis (1998), ao associar o desenvolvimento rural às estratégias de sobrevivência familiar por mediação da diversificação das atividades econômicas e sociais que nutrem o padrão de vida dos agricultores, destaca que a finalidade do desenvolvimento rural é a retração do índice de pobreza. Contudo, para que isso se concretize, é imprescindível que os envolvidos passem por um processo de empoderamento, ou seja, que lhes sejam possibilitados a expansão do poder de decisão suscitado em virtude do acesso à informação e recursos para a elaboração de estratégias de produção, comercialização, entre outros.

Uma vez conseguido isso, em um ambiente de cooperação e empoderamento, à medida que os membros da família, e aqueles que estão fora dela, alçam patamares de bem-estar e eficiência mais amplos, consequentemente os demais atores sociais e políticos são envolvidos e o desenvolvimento dar-se-á a partir do território, de forma endógena, autônoma e menos vulnerável (ELLIS, 1998).